REFORMA AGRÁRIA

Governo federal reconhece assentamento com 70 famílias no Paraná

Área improdutiva que pertencia à Embrapa e era alvo de ameaças de grilagem foi ocupada por camponeses há mais de 20 anos. Cerimônia que oficializa o assentamento será realizada no próximo sábado

Larissa da Silva Santos / MST
Larissa da Silva Santos / MST
Vanessa e a filha Mariana na comunidade Emiliano Zapata: produção de alimentos saudáveis

São Paulo – Mais de 70 famílias da comunidade Emiliano Zapata, em Ponta Grossa, no oeste do Paraná, comemoram no próximo sábado (16) a conquista definitiva como assentamento da reforma agrária. O anúncio oficial do reconhecimento será marcado com festa e ato público com a presença de autoridades, na sede da comunidade. O acampamento foi formado há mais de 20 anos.

A programação começa às 9h, com visita a unidades produtivas e espaços coletivos da comunidade. Às 10h, haverá ato político, e às 13h almoço comunitário oferecido pelas famílias assentadas.

Estão confirmadas as presenças do ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome; do superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do Paraná, Nilton Bezerra Guedes; Dom Sergio Arthur Braschi, bispo da Diocese de Ponta Grossa; e o desembargador Fernando Prazeres, coordenador da Comissão de Conflitos Fundiários do Tribunal de Justiça do Paraná e atuante no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc Fundiário).

Ao longo do dia, haverá Feira da Reforma Agrária com alimentos agroecológicos do assentamento e de outras comunidades do MST. E da Economia Solidária, com participação da Feira Permanente da Economia Popular Solidária e da Associação das Feirantes da Economia Solidária dos Campos Gerais, a Rede Mandala, Black Quadros. A animação do encontro ficará com os grupos Solidum e Gaita Fandangueira, com vanerão tradicional da região.

Adriana Prestes, integrante da coordenação da comunidade Emiliano Zapata e da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná, conta sobre a mobilização do assentamento para receber a festa da conquista definitiva da área: “As famílias estão com muita expectativa e animadas para este dia. Estamos vendo a reforma agrária popular sendo reconhecida no Paraná. É a prova de que vale a pena fazer a luta coletiva”.

Este será o segundo acampamento do MST a ser efetivado como assentamento no Paraná, durante este terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais de 80 comunidades camponesas do estado ainda aguardam a conquista definitiva da reforma agrária.

Mais de 20 anos de construção da reforma agrária

A comunidade Emiliano Zapata está localizada a 20 quilômetros do perímetro urbano de Ponta Grossa, rodovia do Talco, próximo ao Parque do Botuquara. Quem visita o local encontra grande diversidade de produção, casas estruturadas, espaço comunitário e cooperativa. Cenário bastante diferente do que havia ali há quase 21 anos, lembra o MST.

Os 630 hectares de terra pertenciam à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que havia recebido a área por meio de doação pela União para a realização de pesquisas. No entanto, a área estava sendo utilizada para o monocultivo de pinus, voltado a interesses da iniciativa privada, além do plantio de soja e experimentos com sementes transgênicas. Parte da área também passava por ameaça de grilagem por fazendeiros da região.

A área foi ocupada no dia 26 de agosto de 2003. Desde então, se iniciou uma transformação, quando as famílias passaram a se dedicar à produção de alimentos, principalmente sem o uso de agrotóxicos. O desenvolvimento da produção ganhou impulso quando a comunidade conseguiu criar a Cooperativa Camponesa de Produção Agroecológica da Economia Solidária (Cooperas) em 2011, para comercialização de alimentos. Muito trabalho coletivo e cooperado possibilitou a entrada em programas nacionais como o de Aquisição de Alimentos (PAA) e o de Alimentação Escolar (PNAE), com impacto direto na produção e na distribuição, afirma o movimento.

Somado a isso, a comunidade ampliou laços com o mundo urbano por meio de parcerias com diversos programas de extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), como o Projeto Lama (Laboratório de Mecanização Agrícola), Iesol (Incubadora de Empreendimentos Solidários) e do Curso de Jornalismo, entre diversos apoios de entidades sindicais, religiosas e movimentos sociais de Ponta Grossa e região.

Os camponeses que vivem no Emiliano Zapata já participaram das ações de solidariedade que estão sendo promovidas pelo MST desde o início da pandemia. São toneladas de alimentos produzidos pela comunidade e doados para famílias vivendo em vulnerabilidade na região urbana.

Realização de um sonho coletivo

Marcia Rocio de Paula está entre as moradoras mais antigas da comunidade. Ela morava na cidade e tinha trabalhos informais em restaurantes, como diarista, cuidando de pessoas idosas. Com filhos pequenos, se preocupava com a violência e as dificuldades em garantir qualidade de vida. Hoje, Marcia e a família vivem da produção na terra, com mais saúde e renda.

“É uma questão de saúde física, mental, do trabalho, comunidade, depois que a gente veio pra cá melhorou 100% a nossa vida. Mesmo na questão financeira. Na cidade a gente trabalha hoje para pagar o comeu ontem, e aqui conseguimos fazer a nossa casa, temos nosso carrinho, temos trator, a gente não passa dificuldade, mexe com horta, lavoura, tem os bichinhos também, coisa que na cidade todo mundo sabe que não é assim”, compara a camponesa. “Quando eu vou para cidade passear, não vejo a hora de voltar embora”, brinca.

A poucos dias de ser assentada formalmente na terra em que trabalha há mais de 20 anos, Marcia conta que está realizando um sonho. “Eu sempre sonhei em ter uma terra para mim, pra plantar. Quando surgiu a oportunidade, eu vim. Estou muito feliz, porque deu bem como a gente queria, trabalhar na terra, produção totalmente orgânica para ter boa qualidade de vida pra mim, minha família e todos os companheiros.”

Para Marcia, outra diferença da comunidade para a vida que levava na cidade é o trabalho coletivo e o companheirismo entre as famílias. “Aqui nós somos muito unidos, um apoio aos outros e estamos conectados para fazer o que for preciso”. Exemplo disso é o mutirão organizado pelo pré-assentamento para receber a festa do próximo sábado.