Arquitetura higienista

Padre Júlio derruba a marretadas pedras ‘anti-moradores de rua’ em viaduto

“Indignação diante da opressão. Marretada nas pedras da injustiça”, declarou Júlio Lancellotti em suas redes sociais nesta terça (2), ao derrubar obra da gestão de Bruno Covas na zona leste

Reprodução
Pedras desniveladas e pontiagudas foram presas ao chão dos dois lados da pista de viaduto na zona leste pela prefeitura de São Paulo

São Paulo – Um dia após a denúncia de que pedras foram instaladas na calçada embaixo do viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, na avenida Salim Farah Maluf, Tatuapé, zona leste de São Paulo, o padre Júlio Lancellotti foi até o local, nesta terça-feira (2), para derrubar a marretadas a estrutura de concreto instalada. A obra foi feita pela prefeitura de São Paulo para impedir que a população em situação de rua se abrigasse ali. 

Reportagem da Folha de S. Paulo, publicada ontem, mostrou que pedras desniveladas e pontiagudas foram presas ao chão dos dois lados da pista  por uma espessa camada de cimento, impedindo qualquer pessoa de se deitar ali. A colocação, diz o veículo, foi realizada por funcionários de uma empresa contratada pela gestão Bruno Covas (PSDB), que concluiu o serviço na última quinta-feira (28).

O jornal também reportou que, a menos de um quilômetro do local, a parte inferior do viaduto Antônio de Paiva Monteiro também havia sido coberta pelas pedras “anti-moradores de rua” no final de 2020. Quem já não tinha um teto na região, também teve que deixar o local. 

Marretada nas ‘pedras da injustiça’

Logo que soube da intervenção da prefeitura, o coordenador da Pastoral do Povo de Rua foi até o viaduto ver a obra, que chamou de “arquitetura higienista”. Ao voltar, hoje, o pároco divulgou em suas redes sociais que estava retirando as pedras com uma marreta e foi saudado pelos internautas. Na postagem, ele comentou que sua ação expressava a “indignação diante da opressão. Marretada nas pedras da injustiça”, escreveu em seu perfil no Twitter. 

Na cidade, que contabiliza 24.344 pessoas em situação de rua, segundo o Censo municipal, mas que na verdade pode ter mais de 30 mil pessoas sem-teto como estimam os movimentos sociais, a obra da prefeitura também chamou atenção de outras autoridades e urbanistas. 

A vereadora Juliana Cardoso (PT-SP) acusou a administração municipal de “faltar com humanidade”. “A solução achada por Bruno Covas para que não haja pessoas em situação de rua embaixo dos viadutos é essa, instalar pedras para que não possam se abrigar”, criticou, em sua conta no Instagram.

À Folha, a arquiteta urbanista Paula Freire Santoro, professora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do LabCidade, avaliou que obra da prefeitura cria ainda uma “nova arquitetura do genocídio da população de rua”. “Como pode um gestor construir algo feito para machucar, para não deitar, para fazer as pessoas sumirem dali? Isso não diminui o desafio que é acolher essa população nem reduz o número de pessoas nas ruas, mas é bem mais simples do que encarar os problemas sociais”, lamentou. 

Histórico anti-moradores de rua

Em nota à reportagem do jornal, a gestão Covas alegou que “desconhecia a obra” e que uma sindicância havia sido aberta para apurar o ocorrido. 

No entanto, a instalação de obras “anti-moradores de rua” são repetidas vezes realizadas pelas gestões do PSDB em São Paulo. Quando prefeito, por exemplo, o tucano José Serra instalou rampas de concreto na passagem subterrânea da avenida Paulista que dá acesso à avenida Doutor Arnaldo, em 2005. O piso foi chapiscado para se tornar incômodo àqueles que tentassem dormir no local. Dois anos depois foi a vez do prefeito Gilberto Kassab, vice de Serra e eleito pelo então PFL, reformar a praça da República, no centro de São Paulo, instalando bancos “anti-moradores de rua”, com divisórias de ferro que também impediam que uma pessoa se deitasse. 

Como resultado, os sem-teto passaram a dormir no chão da praça, que recebeu mais de R$ 3,1 milhões de investimento para realizar toda a reforma. O atual prefeito Bruno Covas já havia sido criticado por obra semelhante realizada em Guaianazes, no extremo leste da capital. 

Em janeiro, o prefeito também foi alvo de protestos de movimentos da população em situação de rua que chamaram sua política de “genocida”. Nos últimos dois anos de gestão, apenas 7,4% do orçamento previsto para o acolhimento e redução da população de rua na capital foi aplicado. 

Redação: Clara Assunção


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