Invisibilidade

Padre Júlio cobra formulário para que população de rua receba auxílio emergencial

Padre Júlio Lancelotti lembra que povo de rua são milhões de brasileiros invisíveis ao poder público e padecem sem conseguir acesso ao auxílio emergencial

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Estima-se em 5,5 milhões o número de pessoas em situação de invisibilidade. São os que mais precisam e que mais têm dificuldade em conseguir acesso ao auxílio emergencial de R$ 600 ao mês

São Paulo – “Como é que a população de rua vai ter celular para receber SMS?” Assim o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua, questiona o mecanismo utilizada pela Caixa Federal para conceder o auxílio emergencial. O valor de R$ 600 está garantido durante o período de isolamento social pela pandemia do coronavírus.

“Segundo reportagem do (jornal) O Estado de S. Paulo, 5,5 milhões de invisíveis ficarão sem essa ajuda”, critica o pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, em São Paulo. “Há uma dificuldade estrutural de se conseguir cadastrar no site da Caixa e que pede que as pessoas de rua tenham SMS. Há muito burocracia que dificulta”, denuncia.

O padre relata que a Pastoral do Povo de Rua sugere uma linha específica para os moradores de rua, com um formulário próprio da Caixa que poderia ser preenchido pelas entidades sociais que têm credibilidade pública. Essa entidades são conveniadas à Prefeitura de São Paulo, a exemplo dos abrigos.

“Tendo a identificação do nome, filiação materna, naturalidade, data de nascimento, a a Caixa poderia identificar pela digital pra resolver o problema dos homônimos e não ter nenhuma fraude. Mas até agora o poder público é lento. E essas pessoas invisibilizadas são os que mais precisam.”

Solidariedade que conta

O povo de rua, assim como o padre, contam com a solidariedade de muita gente para conseguir ajudar os “invisíveis”. “Acabamos de receber uma professora de TI que vai trazer alguns alunos para ver se aceleramos a fila para preencher o cadastro no site da Caixa”, contou Júlio Lancellotti, nesta terça-feira (21), em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

Advogada da Pastoral do Povo de Rua, Juliana Costa Hashimoto Bertin confirma que é muito complicado para quem mais precisa ter acesso a esse dinheiro. Moradores de rua que tiveram os documentos perdidos ou roubados têm enfrentado dificuldade para fazer boletins de ocorrência.

“Tem acontecido bastante”, lamenta a advogada. “Hoje mais uma vez tive de ir ao 8º DP, aparecer lá para que alguns boletins fossem feitos. O 8º DP credita a nós da paróquia, que estamos aqui voluntariamente ajudando, o dever de fazer boletim de ocorrência eletrônico. O problema é que essa não é nossa obrigação primordial – e a gente está bem ocupado com a questão do auxílio emergencial.”

Juliana ressalta: é dever da delegacia proceder boletim de ocorrência física para as pessoas que precisam, que não têm acesso à internet. “E muitas vezes a pessoa não se recorda do número do RG, do CPF, para fazer o boletim eletrônico.”

E novamente a solidariedade faz diferença. Tem muitos voluntários emprestando o número do telefone celular para que os moradores de rua possam receber o código de verificação pelo SMS, para dar entrada no auxílio emergencial.

“É bastante complicado isso, não deveria ser a nossa solução. Mas as outras soluções que estão sendo propostas estão sob análise e até isso acontecer talvez até a pandemia já tenha acabado.”

Ouça a entrevista de Padre Júlio

XXXXX