São Paulo

Sem sinal: a batalha pra solicitar o auxílio de R$ 600 onde o celular não pega

Moradores do extremo sul de São Paulo, que têm direito ao auxílio-emergencial durante a pandemia de coronavírus, não conseguem solicitar

©Marcelo Casal Jr/ABr
Auxílio emergencial de R$ 600 é importante para as famílias de baixa renda, mas é quase inacessível em locais como o extremo sul de São Paulo

Periferia em Movimento – Como outros 20 milhões de brasileiros, Cássia Aparecida Monteiro também tentou se cadastrar no sistema do governo federal para solicitar o auxílio emergencial de R$ 600 no período de distanciamento social. “Vai me ajudar a comprar mantimentos pra casa, pagar a conta de água que tá atrasada”, diz ela, que mora com o filho João Gabriel no Colônia Paulista, bairro localizado no distrito de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo.

O governo lançou o site e o aplicativo nesta terça-feira (07), gerando uma corrida entre quem depende do dinheiro pra enfrentar a pandemia de coronavírus. Mas um fator surpreendeu Cássia e outros moradores de bairros afastados das periferias: a necessidade de ter um número de celular para receber uma mensagem de texto com um código para confirmar a realização do cadastro.

O problema é que, a mais de 40 quilômetros do centro da cidade de São Paulo, milhares de pessoas estão fora da área de cobertura das empresas de telefonia móvel. “Pra receber o código, eu teria que subir em cima da laje pra tentar pegar sinal, porque a Vivo não pega aqui na minha casa. Nenhuma operadora pega. Tem que subir na laje, ir até o ponto de ônibus, não funciona direito”, conta Cássia.

Em 2019, uma reportagem do Desenrola e Não Me Enrola apontou que o extremo da zona Sul de São Paulo é “um ponto cego” na cobertura do sinal. A matéria mostra ainda que, de acordo com dados do mapeamento da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), existem mais 6.800 antenas de celular na cidade de São Paulo – a maior parte está concentrada nos bairros da região central.

Para sorte de Cássia, uma sobrinha que mora na zona Oeste da cidade fez o cadastro do auxílio emergencial pra ela. Mas nem todo mundo tem esse recurso. “Tem gente indo até o centro de Parelheiros pra usar o celular”, diz ela, referindo-se ao ponto mais urbanizado do distrito, a seis quilômetros do Colônia Paulista.

Já o barbeiro Sidnei Silva Chagas tentou várias vezes obter o sinal, mas “nem um pauzinho” preencheu. Além da internet fixa lenta, o que faz o sistema ficar mais demorado, no bairro do Barragem ele também não consegue receber o SMS por falta de cobertura. Sidnei mora com a esposa e duas crianças e é Microempreendedor Individual (MEI). A esposa é cadastrada no Bolsa Família e vai receber o auxílio. “O auxílio e muito importante pra alimentação e outras coisas”, diz ele, que está sem trabalhar desde que o governo estadual determinou o fechamento dos comércios.

No site do governo federal, o Ministério da Cidadania explica que pessoas que não tenham celular ou acesso à internet podem fazer o cadastro presencialmente em alguma casa lotérica ou agência bancária da Caixa. Porém, não é uma medida tão simples.

Sidnei vai aguardar para ver se consegue receber o código por mensagem de texto. Caso contrário, precisará se locomover até a lotérica mais próxima, distante a 10 quilômetros de sua casa, ou na agência da Caixa, a 20 quilômetros.

Além do trajeto de meia hora de ônibus, tem o percurso a pé. Sua irmã Sidineia Chagas, que também mora no Barragem, teria que andar 15 minutos até chegar ao ônibus. Como a Periferia em Movimento já relatou, o transporte público é insuficiente e há pessoas que caminham uma hora para pegar o coletivo.

“Desde que começou o período da quarentena, eu não saí de casa. Eu acabo violando o distanciamento, mas pra pegar ônibus eu também preciso pagar a condução – e nem isso a gente consegue garantir às vezes”, explica Sidineia, que é educadora social. “Existe ciclo de dificuldades em que a gente já está inserido”.

Na porta de lotéricas e agências da Caixa, as filas se estendem pelas calçadas, contrariando a própria recomendação do Ministério da Saúde de evitar aglomeração para prevenir o contágio de coronavírus.

Sidineia, que coordena o projeto de biblioteca comunitária no Colônia, agora trabalha em casa com apoio da organização. Mas com o distanciamento ela deixou de fazer trabalhos que complementavam a renda. Por isso, recorreu à irmã que vive em Interlagos para finalizar o cadastro e receber o auxílio emergencial. “Não é dinheiro do governo. É um dinheiro nosso, dos nossos impostos”, completa.