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Marcha em Salvador reafirma ativismo por direitos de pessoas trans e travestis

Travestis, mulheres transexuais e homens trans marcharam no centro histórico da capital da Bahia, reafirmaram luta pela cidadania plena e lembraram que pautas da categoria devem estar nos programas de candidatos nestas eleições
por Redação RBA publicado 08/09/2018 11h09, última modificação 08/09/2018 12h22
Travestis, mulheres transexuais e homens trans marcharam no centro histórico da capital da Bahia, reafirmaram luta pela cidadania plena e lembraram que pautas da categoria devem estar nos programas de candidatos nestas eleições
© Antra / divulgação / reprodução
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Trans, travestis e transexuais nas ruas de Salvador para exigir pleno direito à cidadania e representação parlamentar

São Paulo – Com pautas e lutas específicas, além de também encampar o combate a todo tipo de discriminação e preconceito, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), juntamente com a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) e o Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat) realizaram na sexta-feira (7) a 1ª Marcha do Orgulho Trans em Salvador, no Centro Histórico da capital baiana. O evento foi considerado " um marco histórico" para os ativistas pelo reconhecimento dos direitos plenos a essa população. O tema do protesto foi “Pelas Vidas Trans, Pelos Nomes Trans, Pelo Empoderamento. Independência! Não à morte!” e antecipou a 17ª edição da Parada do Orgulho LGBT da Bahia, que ocorre neste domingo (9), também em Salvador.

Segundo organizadores, o protesto foi uma maneira "contundente" de registrar o movimento de um grupo social que luta pelo acesso aos mesmos direitos que pessoas cisgêneras. “Todas as vezes que as (pessoas) trans estão em marcha, elas estão marchando porque as suas especificidades e as suas pautas não são levadas em consideração. Elas marcham para reivindicar algo. E elas reivindicam o respeito à vida", afirmou Keila Simpson, presidenta da Antra.

A marcha lembrou ainda que, além do acesso a direitos humanos universais, como educação, saúde, trabalho digno, transporte, seguridade social e todos os demais – os quais lhes são sistematicamente negados –, o temor pela própria vida compõe o cotidiano das pessoas transexuais e travestis. Segundo o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil, realizado pela Antra, 169 travestis e mulheres transexuais, além de 10 homens trans, foram assassinados no país em 2017 – uma média de uma morte a cada dois dias. A Bahia, conforme o mesmo mapa, ficou na segunda posição: 17 casos, sendo ultrapassada apenas por Minas Gerais, com 20. São Paulo, ficou em terceiro com 16 casos, mesmo número de crimes cometidos no Ceará.

Os dados encontrados pela Antra condizem com as conclusões apontadas em 2016 pela ONG Transgender Europe (TGEU), que naquele ano já identificava o Brasil como o país com os mais altos índices de assassinatos contra pessoas T em todo o mundo.

"Ante esse cenário, é urgente se mobilizar, reivindicando o respeito à vida e lutando por concreta participação social cidadã, mesmo no interior da população LGBT, em que por vezes as demandas da população T não são devidamente reconhecidas, acolhidas e visibilizadas. Às pessoas trans e travestis tem sido historicamente negado o acesso à plena cidadania e ainda que algumas conquistas tenham sido alcançadas – na verdade muito poucas", diz Armando Januário dos Santos, sexólogo e professor, que no mês passado foi organizador do 1º Ciclo Estadual de Conferências Sobre Identidade Trans e Travesti na Universidade Estadua da Bahia (Uneb).

"Os desafios que elas enfrentam todos os dias, abrangem a imposição social da atividade sexual como principal forma de subsistência, a extrema dificuldade de acesso e permanência em instituições educativas e, sobretudo, na vida familiar. Com efeito, as histórias de vida da população T comumente seguem a trilha família-exclusão, escola-exclusão, trabalho-exclusão. O resultado não poderia ser diferente: uma comunidade com apenas 0,02% de seus membros nas universidades e com 90% atuando no mercado do sexo pago, quase sempre por falta de opção", reforça o ativista, citando dados da Antra.

"É importante estar na rua nesse dia clamando a independência dos nossos corpos e das nossas vidas. É preciso falar para a sociedade que nos assiste que não queremos destruir a família de ninguém, queremos construir as nossas e que reivindicamos empregos formais e que não tenhamos que nos ocultar dentro de uma identidade para conseguir empregos”, afirmou a Antra, em sua página na internet.

Nas urnas

Keila Simpson destaca ainda que a marcha tenha sido realizada a exatos 30 dias do primeiro turno das eleições e que a população trans exige também participar diretamente da escolha dos representantes populares junto ao poder público. "Em tempos de golpe parlamentar, midiático e judiciário, em tempos de ódio e intolerância, em tempos de candidatos que prometem perseguir minorias sociais, a população trans e travesti dá exemplo de cidadania."

Para a ativista, a grande quantidade de candidaturas de cunho religioso fundamentalista, encontra seu contraponto no movimento, que apresenta à sociedade candidatos trans – ou que defendem a cidadania trans – e que, diz Keila, "têm dado uma resposta muito positiva, indicando alternativas ao pensamento conservador."

"É preciso apoiar com intensidade as trans e travestis que, através do voto popular, buscam ocupar os espaços da política, a fim de que a sociedade pare de olhar para seus corpos como objetos voltados para o sexo ou para a imposição de dor e sofrimento", encerra.

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