Mídia

Morre Alberto Dines, criador do ‘Observatório da Imprensa’

Jornalista, que completou 86 anos em fevereiro, era rara voz crítica ao comportamento dos meios de comunicação

Reprodução
alberto dines

Dines passou por diversas redações, em especial a do ‘JB’, foi professor e autor de livros como ‘O Papel do Jornal’

São Paulo – “Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito” era o bordão repetido no encerramento do programa Observatório da Imprensa, comandado pelo jornalista carioca Alberto Dines, que morreu nesta terça-feira (22), aos 86 anos, em consequência de problemas respiratórios. Ele havia sido internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, depois de uma gripe, que se transformou em pneumonia. Com duas décadas de presença na internet, o Observatório tinha formato televisivo até 2016, quando deixou de ser exibido pela TV Brasil. Dines estava no segundo casamento, com a também jornalista Norma Couri, e tinha quatro filhos.

Antes da experiência precursora de análise da mídia, a história profissional de Dines, nascido no Rio em fevereiro de 1932, começa em 1952, na revista A Cena Muda. Nos anos seguintes, passaria pelas revistas Visão e Manchete e pelos jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Diário da Noite, até chegar – em 9 de janeiro de 1962 – ao Jornal do Brasil, onde foi editor-chefe e permaneceu durante 12 anos.

Segundo o recém-lançado livro Até a última página – uma história do Jornal do Brasil (de Cezar Motta), Dines foi demitido do Diário da Noite por Assis Chateaubriand, magnata da comunicação, após noticiar o sequestro de um navio português por opositores do ditador Salazar. Estava na revista Fatos e Fotos, quando foi convidado para o JB, que recentemente havia passado por uma profunda reforma gráfica comandada, entre outros, por Jânio de Freitas.

Ainda no primeiro mês, houve uma greve de gráficos e jornalistas do jornal. Em uma assembleia, Sérgio Cabral (pai do ex-governador fluminense) levou os sambistas Zé Keti e Nelson Cavaquinho, que chegaram a compor uma canção para o movimento. Seis jornalistas foram demitidos, inclusive Cabral e José Ramos Tinhorão – este acabou sendo recontratado, segundo ele mesmo, por sua “condição de burro de carga”.

Reproduçãoimprensa
O ‘Jornal do Brasil’ sem manchete em 1973, depois do golpe no Chile: recurso para driblar ordem de censura

Um dos episódios mais conhecidos da passagem de Alberto Dines pelo JB é da “não manchete” com que o jornal noticiou o golpe militar de setembro de 1973 no Chile, contra o presidente socialista Salvador Allende. A imprensa foi proibida de dar manchete sobre o assunto, mas a ordem chegou à noite e o jornal já tinha sua edição pronta para rodar – com o Chile destacado.

Ar irrespirável

Já em casa, Dines teve de voltar ao jornal. Na oficina, ao lado de um superintendente, decidiu tirar o título da manchete, mas não a notícia. No dia seguinte, 12 de setembro, sairia um jornal sem manchete. Para ele, foi uma das causas de sua demissão, por “indisciplina”, três meses depois.

Também ficou famosa a “previsão do tempo” no alto da primeira página do JB um dia depois da edição do AI-5, em 14 de dezembro de 1968: “Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”.

Apesar dessas críticas, o JB, como quase todos os jornais da época, apoiou o golpe de 1964. No dia 1º de abril, celebrou a vitória da “democracia” contra a “república sindicalista” ou tentativas de impor o “comunismo” no Brasil. A cúpula da redação, incluindo Dines, também foi favorável.

Dines foi professor e o autor, entre outros, do livro O Papel do Jornal, lançado em 1974, um clássico das escolas de comunicação. No ano seguinte, ele seria responsável pela coluna “Jornal dos Jornais”, na Folha de S. Paulo, em que passou a analisar o conteúdo da mídia. “No jornalismo como na vida, tudo gira em torno de um núcleo de coerências, o resto é a devotada busca de circunstâncias”, escreveu na apresentação da edição de 1986.

Nos anos 1990, Dines foi uma dos criadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 1996, surgiria o Observatório da Imprensa, inicialmente como site e depois com um programa na TV pública. Há dois anos, com dificuldades, o Observatório promoveu uma “vaquinha virtual” para se manter. O jornalista representava uma rara voz crítica ao comportamento da imprensa.

“Era, acima de tudo, um grande sonhador, achava que o jornalismo poderia melhorar o mundo ao denunciar as suas mazelas e apontar caminhos para um convívio mais civilizado”, escreveu Ricardo Kotscho.