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Cotas de gênero na política não solucionam desigualdade histórica

Cientista política Maria do Socorro Braga de Souza, da Ufscar, acredita que cursos preparatórios e ações partidárias teriam melhor resultado para elevar a participação das mulheres na disputa eleitoral
Publicado por virginiatoledo
15:44
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São Paulo – Por mais que a adoção de cotas que preveem percentual mínimo de mulheres na disputa das eleições proporcionais pareça ser a solução de uma parte da histórica distorção na representatividade feminina na política, a cientista política Maria do Socorro Braga de Souza, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), acredita que questões mais pontuais, como a oferta de cursos profissionalizantes ou ações partidárias, poderiam resolver a defasagem existente. 

No Brasil, a Lei 9.504 de 2007 obriga cada sigla partidária a preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo.

Leia entrevista na íntegra:

O que a sra. considera fundamental para permitir maior participação das mulheres na política brasileira?

Um elemento bastante importante é a profissionalização. Quantos mais elementos as mulheres tiverem para se manter na trajetória política melhor será, inclusive para alçar novos voos, para buscar outros cargos da estrutura de oportunidades que o sistema político oferece.

Mas por que o número de mulheres no Legislativo ainda é pequeno?

O número de mulheres no Legislativo está crescendo, só que esse crescimento é pequeno em comparação com outras democracias. Os partidos têm dificuldade de preencher as listas de cota, mas há um crescente de candidaturas, ainda que essas mulheres não consigam se eleger. Mas os motivos variam. Não é necessariamente um veto do eleitorado por conta de ser mulher. Não é bem isso. Até porque o maior público é o feminino.

Mesmo assim podemos concluir que uma parcela de mulheres tem dificuldade de votar em mulheres. Mas, acima disso, os maiores problemas estão relacionados às dificuldades da mulher numa sociedade de massa e moderna, como a nossa, desempenhando funções de mãe, dona de casa,  profissional e outras tarefas. Talvez isso dificulte mais do que os problemas de preconceito ou de barreiras dentro do partido.

Eu penso que o próprio partido ainda não criou as condições necessárias para atrair a mulher. Porque geralmente aquelas que conseguem se eleger são ligadas a famílias ricas e tradicionais da política brasileira. Ou então, mulheres ligadas a partidos de esquerda, que representam determinados segmentos sociais, movimento sociais, e acabam dando o próximo passo se filiando a partidos e disputando eleições por eles.

Mas onde está o preconceito, então?

O preconceito está na sociedade, não só nos partidos. Não seria um preconceito, mas algo relacionado a uma questão mais machista de que a política estaria mais relacionada ao público masculino por conta de algumas características próprias do meio. Ainda mais quando se tem um país presidido por uma mulher. Isso, de repente, vem a ajudar mais mulheres a tomarem impulso a tentar a carreira política, que realmente não é de uma hora pra outra que acontece.

A cultura brasileira tem um grau alto de machismo ainda hoje. Mas penso que isso vem se diluindo ao longo da modernização da sociedade. Eu penso que, hoje, o homem tem maior propensão a votar numa mulher do que na década de 1940, 1950. Em parte forçaria a paridade. Você forçaria os líderes a terem de buscar outras formas de incentivar as mulheres a entrarem. Mas eu ainda acho que o problema é anterior a esse. Mesmo as cotas que preveem 30% de mulheres os partidos têm dificuldade para preencher. Então a coisa vem antes.

Então a sra. não é a favor das cotas de gênero na política?

A gente tem de se perguntar por que tem um pequeno público feminino que se interessa por política. Eu não sei se a criação de uma nova regra, necessariamente, vai levar tantas mulheres a participarem. Os partidos estão com dificuldade de preencher as próprias listas, seja com mulheres ou com homens. Então há um movimento que acaba inibindo ou dificultando o interesse das mulheres. É a própria falta de interesse pela política em geral, por participação político-partidária. Os partidos passam por fases. A questão da legitimidade tem reduzido, mas quando se tem o papel da TV, das redes sociais atrelados também à representação da opinião pública.

Os partidos perderam um pouco da importância que eles poderiam ter para mobilizar todos os segmentos. Penso que não é uma nova legislação que vai estimular a maior paricipação das mulheres. Está mais relacionado à própria dinâmica da democracia e à criação de oportunidades dentro dos partidos, com a criação de cursos, por exemplo.