Diário do Bolso

Tive um sonho sensacional: não veio nenhuma vacina pro Brasil

Aí, todos os esquerdovacinistas pediram asilo na Argentina. E os mariquinhamascaristas se mudaram para Portugal. Só sobramos nós, os bolsocloroquinos

Ivo Minkovicius

Diário, feliz aniversário!

Hoje faz dois anos que eu escrevo em você. Acho que isso me inspirou, sabe? Tanto que essa noite eu tive um sonho sensacional!

Começou que não veio vacina nenhuma pro Brasil. Aí, todos os esquerdovacinistas pediram asilo na Argentina. E os mariquinhamascaristas se mudaram para Portugal. Só sobramos nós, os bolsocloroquinos.

Morreu uma montanha de velhos, gordos e pobres. Mas tudo bem. Esses comorbidosos atravancavam o progresso do Brasil.

Com a morte dos pançudos, a gente teve um superávit agrícola gigante. A exportação disparou!

Sem os velhos, sobrou dinheiro na Previdência. O Guedes até tomou um porre de Black Label para comemorar.

E, com menos pobres, as ruas ficaram bem mais espaçosas.

Ah, a covid também acabou com os índios. As reservas ficaram livres pro garimpo, pra soja e pro gado. Só no carnaval é que dava pra ver gente vestindo pena. Aliás, o Ministério do Carnaval foi criado pro Carluxo. Ele trabalhava todo dia com uma fantasia de pavão.

Os índices de desmatamento despencaram e eu ganhei o prêmio Ecologista do Ano. Na verdade, os números baixaram porque o Exército tinha comprado um novo satélite por R$ 175 milhões, e ele não via diferença entre grama e árvore, então dizia que era tudo floresta. Ops, essa parte do sonho era real. Estamos mesmo comprando esse treco.

Já que o assunto é mato, o Ricardo Salles transformou o IBAMA em IBRAHMA. Assim as unidades de controle ambiental viraram bares pros madeireiros tomarem uma cerveja depois de passarem o dia todo cortando lenha. Eles merecem um refresco, pô!

No sonho, uma coisa que eu gostei foi que todos os meninos passaram a usar azul e as meninas, rosa. Nossa bandeira jamais terá um arco-íris! Colocamos todos os gays em navios e mandamos para São Francisco. Os que quiseram ficar tiveram que fazer um curso de desgayzação com o pastor R.R.Soares, que há mais de trinta anos já faz esse trabalho.

A Globo foi fechada e a Record passou a ser a maior emissora do Brasil. Lá, toda quinta-feira, passa a minha live ao vivo, no horário nobre. O Gérson, ministro do Turismo, toca sanfona e é um sucesso. O Roger, do Ultraje a Rigor, de vez em quando faz umas pontas com a guitarra.

Mas não esqueci o SBT. Aos domingos, eu substituo o Silvio Santos lá. Usando aquele microfonão e tudo! Eu grito “Quem quer dinheiro?” e jogo os aviõezinhos no Centrão da plateia.

Na Rede TV!, o Dudu tem um realitixou sobre armas. No programa, ele mostra pistolas e rifles, e depois pratica tiro ao alvo em atores pornôs (por que será que ele odeia atores pornôs?) e em traidores, tipo a Joice Hasselman, o Lobão e o Frota.

Eu passei a ser técnico da seleção brasileira de futebol e só deixava jogar quem gostava de mim. O Neymar era o camisa 10. Pra completar o meio de campo, chamei o Marcelinho Carioca e o Ronaldinho Gaúcho. O time não marcava ninguém, mas as festas na concentração eram ótimas.

Aliás, a concentração passou a ser feita em Las Vegas dos Reis, o novo nome de Angra, onde passou a ter uns cassinos flutuantes e todo mundo podia jogar e pescar ao mesmo tempo.

Outra coisa boa é que a rachadinha deixou de ser crime. Todo político passou a ter direito de empregar um monte de funcionários fantasmas e pegar o salário deles.

Falando nisso, o Queiroz virou diretor da Casa da Moeda. Mas mudou o nome dela para Casa da Nota, porque disse que encher aqueles envelopes com moedas é muito difícil. Aliás, ele criou a cédula de dez mil reais. O Chico Cueca, digo, o Chico Rodrigues agradeceu de coração.

A milícia foi legalizada. E a estátua do Adriano que a gente colocou no lugar da do Cristo Redentor ficou demais! A metralhadora era feita todinha em nióbio! E, na passagem de ano, ela soltava uns fogos de artifício lindos de morrer.

O Olavo de Carvalho assumiu o ministério da Educação. Logo de cara mandou trocar todos os livros de geografia, que passaram a mostrar que a Terra é plana. E as crianças adoraram as novas cartilhas inventadas por ele (com o método “Pau no Freire”). Mas, também, quem não ia gostar de aprender a ler usando só palavrão?

No final do sonho todo mundo formou um coral (com o Gérson acompanhando na sanfona e o Roger na guitarra) e cantou uma música em minha homenagem. O finzinho da letra era assim:

“Já morreram uns duzentos mil

filhos da nossa mãe gentil.

Mas isso não é problema,

‘E daí?’ é o seu lema

pra salvar o nosso Brasil.”

Ah, Diário, esse foi o meu sonho… Ops! Foi, não. É!

Torero

#diariodobolso

PS: A ilustração é de Ivo Minkovicius.

PPS: A música existe mesmo. Um dia desses coloco ela aqui.