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Filme 'Heleno' falha ao tentar representar a magia do eterno craque do Botafogo

por guibryan1 publicado 15/03/2012 10h05, última modificação 15/03/2012 19h10

Polêmico jogador dos anos 1940, que morreu em um hospício aos 39 anos, é vivido no filme por Rodrigo Santoro (Foto: ©Divulgação)

Sempre desconfie quando um filme é muito comentado antes da estreia. É justamente o que acontece com “Heleno”, novo filme do diretor José Henrique Fonseca (o mesmo de “O Homem do Ano”), estrelado por Rodrigo Santoro e que chega aos cinemas amanhã (16). A cinebiografia não só não deixa claro ao espectador quem foi Heleno de Freitas, a ponto de ele merecer ter a história contada no cinema, como reutiliza uma linguagem usada à exaustão para transpor em imagens a vida de alguém ilustre.

O filme começa com Heleno (Rodrigo Santoro) já definhado em função da sífilis e internado numa clínica médica, olhando e, literalmente, comendo recortes de jornais pregados na parede e relatando suas proezas no campo de futebol. Pena que a caracterização do ator aqui é muito parecida com a de outro filme com ele, “Reis e Ratos”, que estreou recentemente. Marcado pelas lembranças, o já ex-jogador recorda a glória que alcançou e mantém a esperança de voltar aos gramados, como declarará mais para o final da história.

Mineiro de São João Nepomuceno, Heleno de Freitas passou por inúmeros clubes, tendo ficado conhecido como primeiro “craque problema” do futebol brasileiro, até morrer aos 39 anos, em Barbacena (MG). Ele passou por dezenas de clubes, mas conquistou apenas três títulos – a Copa Roca, de 1945, e a Copa Rio Branco, de 1947, ambos pela seleção brasileira; e o Campeonato Carioca de 1949, pelo Vasco da Gama.

Pena também que o filme não valoriza muito os lances dos jogos e os bastidores das partidas. Esse é um tema que passa totalmente de relance, demonstrando a pouca valorização do futebol pelo audiovisual brasileiro, algo estranho com relação a algo que é reconhecidamente uma paixão nacional.

O roteiro se atém mais ao lado boêmio, catimbeiro, intempestivo, irritadiço e galã do craque, que conquistava todas as mulheres. Apelidado “Gilda”, pelos amigos do Clube dos Cafajestes e pela torcida do Fluminense, em função do filme estrelado por Rita Hayworth, Heleno foi apaixonado por uma cantora de cabaré (muito bem interpretada por Angie Cepeda, que canta clássicos da música latina), mas se casou mesmo com uma garota da alta sociedade da zona sul carioca, Ilma, interpretada por Aline Moraes e que, ao vê-lo partir para a Argentina, onde jogou pelo Boca Juniors, acabou se casando com o melhor amigo dele.

Ídolo da torcida do Botafogo, Heleno nunca conseguiu ser campeão pelo time do coração, mas se tornou o maior artilheiro do clube, com 209 gols em 235 partidas. Como bem aparece numa das narrativas em off do filme, ele marcava três gols para o time levar quatro, o que era motivo de grande irritação com os companheiros.

Porém, ao retornar da Argentina, ele foi sumariamente rejeitado pelo presidente do clube, fato que nunca aceitou, tendo vestido outras camisas de times do estado, como as de América, Vasco e Fluminense. Desprezando os alertas médicos, ele sabia e queria mesmo é jogar bola.

Portanto, ao valorizar mais o drama existencial de Heleno de Freitas, o filme dirigido por José Henrique Fonseca peca justamente por não valorizar aquilo que o craque tinha de melhor, ou seja, as jogadas geniais que realizou pelos campos de futebol ao redor do país e a grande paixão que nutria pelo esporte, muitas vezes de forma doentia.

Desse modo, o jogador de futebol é visto apenas como mais um garoto humilde do interior, que só se comunica com a mãe por telefone, que ascende à classe alta da zona sul carioca, arruma várias confusões dentro e fora de campo, e só quer saber de boemia e do flerte com as mais diversas mulheres. Tanto o realizador como Rodrigo Santoro são, sem dúvida, muito mais talentosos e criativos do que o que se vê na tela.

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