Análise

Valter Hugo Mãe: ‘Covid-19 é uma ameaça a tudo quanto se conquistou’

“Precisamos prestar atenção à necropolítica, essa deturpação absoluta, golpista, de foro criminoso, que vampiriza a miséria para justificar as atrocidades”

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"Poderemos acordar num Mundo que não será somente empobrecido, mas também embrutecido, por imponderada fúria ou frustração, entregue às mãos de novos ditadores"

Há anos que Vladimir Safatle vem estudando como o “medo se tornou elemento da gestão social”. A comunicação política, que inflige o medo e acena com a esperança, passou a ser o modo de desenhar o espaço social e ratificar a precarização em todas as dimensões da vida humana, gerando a fácil submissão e controlo. A população é sujeita a uma intimidação, nem sempre subtil, que pode explicar a precipitação de contornos imorais em favor de regimes de aspiração autoritária e reafirmação de um capitalismo ou socialismo prepotentes.

Quando hoje explanamos sobre o medo estamos imediatamente a implicar a mentira, essa outra realidade que se demite de fazer prova, vive de criar o que não é verdadeiro e de desmentir o verdadeiro de modo impune. A mentira não é, por isso, simples. Ela é uma artimanha complexa, amadurecida, que tanto terá seu valor na utilização mais sofisticada (como podemos verificar na conspiração de Steve Bannon ou do algoritmo do Facebook, que prefere a discussão promotora das discórdias) ou na sua utilização linear, simplória e grotesca, como quando Maduro diz o que quer que seja, Trump diz o que quer que seja ou Bolsonaro diz o que quer que seja.

Neste estado do Mundo, já todos nos apercebemos como lidamos essencialmente com hipóteses, o que transforma a aceleração que já se vivia numa obsolescência que muda o paradigma humano sob o qual vivíamos. Os cidadãos de hoje acreditam em algo em que aceitam deixar de acreditar no instante seguinte. Já não há demasiada ansiedade nisso. Somos abertos a todos os paradoxos e assumimos o descompromisso.

Confrontados com a mentira e desmentidos constantes, não haver verdade é a nova normalidade. Somos sobretudo uma sociedade de emoções e todas as emoções prestam serviço à verdade do instante. As emoções não se comprometem senão com o instante. Exatamente como ninguém poder ser culpado por se ter desapaixonado ou perdido a convicção de que algo ou alguém é belo.

Agora, diante da emergência médica imposta, não é útil escrutinar as teorias da conspiração que propõem as mais assustadoras causas para a covid-19. Além do fortalecimento do serviço de saúde público, universal, democrático, gratuito, importa começar a prestar atenção à necropolítica, essa deturpação absoluta, golpista, de foro criminoso, que vampiriza a miséria para justificar todas as atrocidades antidemocráticas, preterindo as leis fundamentais sem outro propósito que não o de usurpar o poder e instrumentalizar a finança. A covid-19 é uma ameaça a tudo quanto se conquistou.

Mal gerido o tempo de a vencermos poderemos acordar num Mundo que não será somente empobrecido, mas também embrutecido, por imponderada fúria ou frustração (coisa que já vinha acontecendo no Mundo inteiro) entregue às mãos de novos ditadores.

Estou trancado em casa cuidando da minha mãe, com oitenta anos feitos em janeiro passado.

Assustada com os noticiários, bem antes de qualquer apelo ou medida do governo, veio dizer-me que sabia não superar este perigo. Eu quis argumentar com o autêntico muro que já erguia em seu redor, mas não permitiu que concluísse. Pediu: ‘deixa-me morrer sem saber mais nada’.

Diante do medo, o que quer que tenhamos para dizer às pessoas é um compromisso, uma responsabilidade. E é bom que a esperança de que sejamos capazes se muna de inteligência bastante para não ser imediatamente imbecil ou até culpada. Celebro muito que o nosso Governo e o nosso presidente mantenham um discurso calmo, ainda que os vejamos por vezes atarantados, lentos nas decisões, desassombrados diante de tão grande medo.

Mas sei que podemos estar a falar dos últimos democratas. Figuras meninas chegaram à política portuguesa que escalam como outros vírus nas simpatias dos torpes e dos muito ignorantes, acenando já a um futuro que uma pandemia e consequente crise financeira poderão antecipar quase entusiasticamente.

Estarei aqui nem que como um sonhador a defender a minha mãe, é a minha prioridade prática, mas tão rápido quanto devíamos ter dotado os hospitais de melhores condições, devemos também elucidar as consciências. Porque confundir a hecatombe desta crise com a derrocada da democracia poderá ser, esse sim, o equívoco que nos reduzirá a todos a pouco mais do que escravizados no mundo moderno.

É imperioso que a liderança inequívoca necessária nestes tempos não se confunda com uma imprestabilidade da Democracia. É imperioso que comecemos a discutir o medo para que ele se desmistifique. Os discursos do medo, do ódio, do preconceito, da exclusão, têm de ser atacados e nenhum cidadão pode ser convencido de que perdeu o direito ao seu país e muito menos o direito à vida. As tolerâncias democráticas não podem redundar na impunidade perante ataques constantes às leis fundamentais segundo as quais nos constituímos.

Quando já se elegem presidentes cujos ídolos são comprovados torturadores ao serviço de ditaduras, quando o mundo democrático ratifica tal gesto, a doença da tolerância está diagnosticada. Liberdade não é legitimação do grotesco, ou elogio do crime. Liberdade não é branqueamento do crime e da opressão. Isso é cumplicidade e opressão. É opressão.

À espreita deste vírus está outra coisa maior, mais grave. Saibamos, a todo o momento e mesmo em possível estado de emergência, defender o elementar ouro da sociedade: a democracia, império contrário da discriminação e da mentira.

Sobre o autor: Válter Hugo Mãe é escritor, editor, artista plástico e apresentador de TV