MARCIO POCHMANN

Covid-19 e o alvo errado na economia

A natureza da crise na saúde pública que contamina as economias requer ações de novo tipo. Medidas que desagradam a lógica capitalista

Rovena Rosa/Agência Brasil
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O monitoramento preciso acerca da evolução da pandemia do coronavírus aponta a rapidez com que ocorre a corrosão das condições básicas de funcionamento da saúde pública. No caso atual da economia, as informações disponíveis indicam comportamento distinto em relação às mais graves crises capitalistas do último século.

De imediato, o choque promovido pelo Covid-19 levou à parada ampliada e quase imediata das atividades econômicas. Em consequência, a queda na movimentação dos negócios sem paralelo ao verificado, por exemplo, na crise global de 2008 ou na distante Depressão de 1929.

O inédito grau de concentração do capital em poucas e grandiosas corporações transnacionais revelou a dependência e subordinação do sistema produtivo das nações à fragmentação e complementariedade imposto pelas cadeias globais de valor. Ao mesmo tempo, a conectividade generalizada dos negócios em tempo real e em qualquer parte do mundo estabeleceu convergência nas decisões empresariais em direção à retração das atividades econômicas.

Nesse sentido, o afastamento da percepção inaugural de parada econômica decorrente do choque do coronavírus assemelhar-se ao “pit stop” das competições automobilísticas. Também o enfraquecimento da hipótese da crise de curto prazo no formato em “V”, com descida e ascensão rápidas no comportamento dos negócios.

Atualmente, as informações que surgem a respeito do comportamento inicial da economia indicam a existência de estrangulamentos importantes. Se acrescidos à especificidade de situações preexistentes nas atividades produtivas e financeiras em cada país, tendem a conformar horizonte inviável de recuperação do conjunto das atividades econômicas no curto prazo.

Em sendo assim, as ações governamentais podem expressar o sentido geral errático. Apesar da magnitude em termos de volume dos recursos disponibilizados por países, o foco parece se concentrar mais no curtíssimo prazo, quando os gargalos identificados podem estar requerendo planejamento de médio e longo prazos.

Em geral, as atuais intervenções governamentais tendem a repetir o que já havia sido realizado exitosamente em 2008. Naquela oportunidade, a crise estava assentada originalmente na esfera creditício-financeira a contaminar a economia real.

Por isso, a aquisição de títulos tóxicos/podres pelos bancos centrais e a inundação de recursos públicos para os agendes privados de parte dos tesouros governamentais contribuíram para o estancamento da crise no tempo contido. Em outros países, como nos BRICS, por exemplo, a solução encontrada passou pelo avanço do crédito público a programas de financiamento produtivo.

Além dos programas de estímulo à produção e aos investimentos em infraestrutura, a difusão dos mecanismos de garantia da renda à população, sobretudo aos mais vulneráveis. Tudo isso se mostrou anda mais positivo, evitando a elevação da desigualdade, conforme observada na maior parte dos países que optaram por ajudar especificamente às grandes corporações empresariais em detrimento aos mais pobres.

Até o momento, ao que parece, a natureza da crise na saúde pública a contaminar as economias requer ações de novo tipo. Ou seja, o conjunto de medidas que desagradam a lógica capitalista.

Mais precisamente, a centralização do planejamento do médio e longo prazos, como numa situação de guerra. Assim, a reestruturação geral dos sistemas produtivos com forte ênfase na reconstrução dos sistemas industriais, na reconversão do rentismo instalado na estrutura bancária, na recentralização da conta de capitais, na reconsolidação dos complexos estatais, entre outros.

Simultaneamente, o recondicionamento à inatividade das massas excedentes às necessidades do capital sustentada por esquemas múltiplos e variados de garantia de rendimento pelo fundo público a avançar sobre o excedente econômico. Para tanto, a nova e intensa base da tributação sobre a produtividade dos setores econômicos dinâmicos e tecnologicamente mais avançados, os segmentos sociais já enriquecidos e as atividades especulativas e rentistas.

Somente a formação de uma nova maioria política permitirá caminhar em direção ao horizonte civilizatório. Do contrário, a barbárie pode se generalizar muito rapidamente. A ver.