Blog do Velho Mundo

Para entender o Brasil e sua política. Mais tradução de novas palavras salgadas

Segue novo glossário compreensivo de expressões usadas por alguns dos principais personagens da atual política brasileira, acrescido de alguns gestos e campanhas

PR/PSDB/reprodução/Abr
Charadas de Bozo e seus colaboradores próximos e também distantes requerem árduo trabalho de tradução para um português compreensível

Há um ensaio maravilhoso, do crítico norte-americano Peter Brook, “Construções psicanalíticas e literatura”, publicado na revista francesa Poétique, edição de número 61, muitos anos atrás, em que ele começa comparando a situação do paciente de uma terapia com a do narrador de um conto. Diz ele que a técnica do conto consiste em narrar algo que ao mesmo tempo revela e oculta o que de fato está sendo narrado, coisa que o leitor só descobre ao final, de preferência nas últimas palavras. Do mesmo modo, o paciente terapêutico conta uma história que recobre aquela que ele de fato está contando, e que, no entanto, conta o tempo todo. O trabalho do terapeuta é o de abrir caminho para que o narrador descubra por si mesmo o que ele de fato está contando, até mesmo independentemente de se aquilo é o que aconteceu ou é sua interpretação.

Com a política brasileira, hoje, está acontecendo mais ou menos algo parecido. Se fôssemos submeter os membros – todos – do governo Bolsonaro e adjacências a uma terapia, teríamos, primeiro, de convocar uma verdadeira legião de terapeutas, psicanalistas, psiquiatras, psicólogos, xamãs, pais e mães de santo, pajés, monges do Tibete, antropólogos, neuro-cientistas e cirurgiões, astrônomos etc.

E de todas as escolas: freudianos, pós-freudianos, junguianos, lacanianos, wilhelmreicheanos, melaniekleinianos, pós e prés-tudo, candomblistas, umbandistas, teólogos da libertação e conservadores etc. etc. e, sobretudo, etc., para tentar entender o que está acontecendo, e o que esta tribo estapafúrdia de fato quer dizer. De minha parte, como escritor, faço o que posso.

Para entender o Brasil. Uma tradução de palavras e expressões políticas ‘salgadas’

Continuamos este trabalho de tradução para um português compreensível das charadas que o Bozo, seus colaboradores próximos e também distantes dizem sem parar. Passamos também a interpretar certos gestos e campanhas. É muita trabalheira. Aí vai:

Como de costume, estou estudando o assunto (Ciro Gomes, sobre a privatização da água) = Não entendo nada disto, e ainda não sei como aproveitar o assunto pra dar uma porrada no Lula, outra no cravo, outra na ferradura, ainda outra no cavalo inteiro e sair bacana.

Campanha pela democracia (Folha de S. Paulo) = Por favor, esqueçam as camionetas que a gente emprestava pra repressão da “ditabranda” e as fake manchetes que nossa filial Folha da Manhã fazia sobre as fake mortes de esquerdistas naquela época. Também esqueçam as campanhas contra o Lula, a Dilma e o Haddad. Não temos nada a ver com isto. Era um fake nós. Ou será que o fake somos nós hoje?

…Os outros são os empreendedores. É o chofer de táxi, a faxineira” (Guedes) = Virem-se, p… Nós estamos aqui pra cuidar de bancos, grandes multinacionais, “bigue bizines”, p…, não de miudezas como vocês.

Tudo o que falaram do Flávio Bolsonaro não é crime (Wassef, o advogado que não sabia que sabia tudo, mas que sabia que os outros sabiam que ele sabia o que não sabia) = Crime? O que é isso? Deve ser o habitante da Crimeia.

Doutor pela Universidade de Rosário, na Argentina, Pós-doutor na Alemanha (currículo do ministro Carlos Alberto Decotelli da Silva) = O ministro é um fingidor/Finge tão completamente/Chegou a fingir que é doutor/E ficou nu de repente… (Obrigado pela colaboração, Fernando). Outra tradução, graças à nova colaboração do Fernando: Decotelli é o tudo que é nada/Entrou com banda e saiu de mansinho/Quis ser ministro e perdeu a parada/Pediu a conta pra cantar noutro ninho.

O objetivo não deve ser derrubar quem for eleito. Temos que ter paciência histórica (FHC, sobre impeachment de Bolsonaro) = Se for do PT, pode derrubar. Por ora, deixa o Bolsonaro e o Guedes fazerem o trabalho sujo por nós. Assim o povo não vai pôr na nossa conta.

O comércio vai abrir, morra quem morrer (Fernando Gomes, prefeito de Itabuna) = Vocês. Eu, não.

O senador José Serra reforça a licitude de seus atos e a integridade que sempre permeou sua vida púbica (assessoria do senador sobre ação da Lava Jato/SP contra ele e a filha) = Que é isso? Logo eu? Eu já prescrevi por inteiro! Vão lascar a vida do Lula e da família dele!

Por isso é tão importante: se não souber falar, se tiver dúvidas, que o presidente se cale (FHC, sobre Bolsonaro) = Por favor, Bolsonaro, não atrapalhe o servicinho que o Guedes está fazendo pra nós. Fecha a tramela!

Eu não vejo uma mudança no nosso trabalho nos últimos seis anos (Deltan “Daranhol” abordando investigações sobre irregularidades no comportamento da Lava Jato) = Continuamos e continuaremos fazendo as mesmas sacanagens ilegais de antes.

Eu gostaria de privatizar todas as estatais (Paulo Guedes, o piromaníaco pinochetista) = Não tenho mais nada pra dizer, na verdade não tenho a menor ideia sobre o que fazer, então vou ficar repetindo esta p… de uma nota só.

Quando as informações são sigilosas, há regras para o acesso (Deltan “Daranhol”, sobre a PGR ter acesso aos dados da Lava Jato) = Se for para prejudicar o Lula e sua família, chama toda a mídia e bota a boca no trombone. Se não for assim, não.

Bolsonaro veta uso obrigatório de máscaras em lojas, igrejas, e demais recintos fechados = Estamos fazendo um esforço concentrado para diminuir o déficit da Previdência. Vamos tentar diminuir o número de pensionistas dependentes dela.

E também nos presídios = É uma questão social e humanitária. Pela primeira vez na história o governo federal faz um sincero esforço para diminuir a população carcerária, taoquei?

[O Impeachment] pegou um pouco de moda e é preciso tomar cuidado com essas coisas (Michel Temer) = Com acusação fajuta, contra a Dilma, pode. Contra Bolsonaro, com dezenas de crimes de responsabilidade comprovados, é moda perigosa.

Fracassamos como sociedade (Vera Magalhães, jornalista da TV Cultura, logo depois de entrevistar Fernando Haddad no Roda Viva) = Olha, Haddad, a culpa é sua, que é tão igual ao Bolsonaro, só que com o sinal contrário. Eu não tenho nada a ver com isto que está acontecendo. Aliás, preferia estar trabalhando nos Estados Unidos ou na Europa e fazendo compras em Miami.

Edição: Fábio M. Michel