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A histórica Celeste

Para entender o futebol do Uruguai

O jornalista Andrés Reyes, autor de um livro que pretender ser o ‘guia ideal para compreender o futebol mais incompreensível do mundo’, fala sobre o momento atual da Celeste
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EFE/Peter Powell
Torcida do Uruguai em jogo contra a Nigéria

“Rir de nós mesmos é uma ferramenta para ‘desdramatizar’, e tentar aprender com nossos erros para melhorar no futuro”

“Inequivocamente o [futebol] com maior densidade de futebolistas profissionais bem sucedidos e Copas ganhas por habitante”. É assim que o jornalista Andrés Reyes define o futebol de seu país no livro El Propio Fútbol Uruguayo – Una guía ideal para coprender el fútbol más incomprensible del mundo, ainda sem edição em português. “A única coisa que nos faz diferentes é que nossos pequenos recebem uma bola antes de aprender a caminhar”, sugere, tentando explicar o sucesso celeste no mundo da bola.

Mas se engana quem acha que se trata de um livro laudatório. Com um texto bem humorado, Reyes trata o futebol de seu país de forma bastante sarcástica por vezes, criticando sua organização e mesmo fazendo ressalvas a conquistas importantes como o quarto lugar na Copa de 2010, lembrando que a seleção enfrentou nas oitavas e quartas de final adversários que ele considera mais fracos, Coreia do Sul e Gana. Nada parecido com o que se vê em parte da mídia brasileira em relação à seleção…

Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, o jornalista fala sobre a história da seleção e do atual momento da equipe, comenta a respeito de jogadores conterrâneos seus que foram ídolos por aqui, como Rodolfo Rodríguez e Lugano, e também dá seus pitacos sobre a bola que rola no Brasil, ressaltando que o futebol daqui pouco chega a seu país. “São transmitidas ao vivo para o Uruguai todas as partidas na Argentina, Espanha, Inglaterra e Itália. As pessoas mais ou menos sabem que na Argentina foi campeão o Newell’s; na Espanha, o Barcelona; na Inglaterra, o Manchester; na Itália, a Juventus. Mas não se tem muito claro quem ganhou os estaduais, nem o último Brasileirão.”

Copa na Rede – Em seu livro, você diz que um mal do futebol uruguaio é o fato de dois clubes, Nacional e Peñarol, serem privilegiados em diversos aspectos, prejudicando-se os demais. Como isto afeta o futebol do país e como solucionar o problema?

Andrés Reyes – É realmente ruim que apenas duas equipes tenham grandes torcidas e poder político e econômico como também é ruim que só elas possam ir além das fronteiras. Inclusive, para as própria equipes grandes é prejudicial não contar com oponentes duros: como a concorrência interna não é muito exigente, quando saem para jogar fora do país na Libertadores ou na Sul-americana isso lhes custa muito. Não vejo solução a curto prazo, salvo que, politicamente, a AUF [Associação Uruguaia de Futebol] decida capacitar as equipes pequenas (caso do Defensor, Danubio, River, Liverpool) que fazem as coisas bem.

Copa na Rede – Em 2010, o Uruguai ficou entre os quatro primeiros na Copa e Forlán foi eleito o melhor jogador do torneio. Em 2011, a seleção foi campeã da Copa América e o Peñarol foi finalista da Libertadores. Tudo isso parecia mostrar um futebol uruguaio forte novamente. Por que hoje a seleção enfrenta tanta dificuldade nas eliminatórias da Copa de 2014?

Reyes – Acredito que existe uma questão psicológica, nós, uruguaios, historicamente nos complicamos para obter classificação aos Mundiais, já em 1958 o Paraguai nos deixou fora, e dali em diante sempre temos tido complicações. Também é certo que no Mundial de 2010 tivemos sorte com os cruzamentos (enfrentamos os rivais mais fáceis nas oitavas e quartas de final – Coreia e Gana), e na Copa América enfrentamos nas semifinais o Peru e na final o Paraguai, que hoje estão quase fora do Mundial.

Mas, voltando às eliminatórias, acredito que há uma grande pressão pela classificação que se traduz no Uruguai jogando de forma ansiosa e mal. Por outro lado, em torneios como a Copa América, onde o grupo se reúne durante três semanas e joga sem pressões de ser eliminado, acaba jogando melhor.

Copa na Rede – Você é muito crítico e sarcástico em seu livro quando fala do futebol do Uruguai de uma forma geral. No Brasil, boa parte da imprensa é ufanista quando se fala em seleção brasileira ou do nosso futebol. Como os jornalistas têm tratado a seleção uruguaia?

Reyes – A seleção do Uruguai, depois do Maracanazo, viveu um grande período de desencanto que contou apenas com algumas vitórias em edições da Copa América ou similares. Mas as pessoas querem que a equipe se classifique para os Mundiais e que dispute o título. Depois de 1970 (onde estivemos perto de ganhar do Brasil e, caso isso acontecesse, ficaríamos em definitivo com a Jules Rimet) acumulamos muitas frustrações: em 1974, a Holanda nos humilhou; em 1978 e 1982, não nos classificamos; em 1986, a Dinamarca nos humilhou; em 1990, não passamos da metade do meio de campo contra a Itália; em 1994 e 1998, não nos classificamos; em 2002, ficamos de fora na primeira fase; e, em 2006, não classificamos. Impossível não ser crítico com uma seleção que, em 9 Copas do Mundo, jogou apenas 4, nas quais ganhou só uma partida (1 a 0 contra a Coreia do Sul em 1990). Rir de nós mesmos é uma ferramenta para “desdramatizar”, e tentar aprender com nossos erros para melhorar no futuro. Por sorte, desde que [Óscar] Tabárez voltou, a situação se reverteu. Espero que seu trabalho não se perca quando ele sair.

Glauco FariaRodolfo Rodríguez no Mundialito de 1980/1981
Em poster no Museu do Centenário, Rodolfo Rodríguez levanta a taça de campeão no Mundialito de 1980/1981

Copa na Rede – Falando especificamente de dois jogadores do seu país que atuaram no Brasil e das listas que você elaborou dos cinco melhores atletas uruguaios em todos os tempos em cada posição. Por que você teve dúvidas, como diz no texto, em colocar Rodolfo Rodríguez na lista (sendo que, para os torcedores do Santos, ele é um dos maiores da história do clube)? E por que Lugano, adorado pelos torcedores do São Paulo, não ficou na sua lista?

Reyes – Sou torcedor do Nacional, e Rodolfo foi o arqueiro tricolor entre 1976 e 1983, em uma época que coincidiu com minhas primeiras vivências futebolísticas (nasci em 1976). Meu pai me levava aos clássicos (Nacional vs. Peñarol), e minhas primeiras recordações têm Fernando Morena (histórico artilheiro do Peñarol) fazendo gols em Rodolfo de todas as formas possíveis. Vê-se que não posso superar isso. Em 1984 foi jogar no Brasil e praticamente não voltei a vê-lo atuar, pois na seleção se lesionou e não pôde disputar o Mundial de 1986. Só o vi em vídeos onde se percebe ser um arqueiro que privilegiava o físico sobre o técnico. E me inclino por goleiros que são mais técnicos tanto em pé, como para sair do gol e passar a bola com os pés.

Sobre Lugano (outro jogador que também saiu do Nacional mas foi praticamente doado para o São Paulo), não é dos meus preferidos. Acredito que baseia seu jogo em fatores extra-futebolísticos (seu caráter, sua força), mas é muito lento para o meu gosto. De todo o jeito, como capitão, tem lidado muito bem com diferentes situações que se apresentaram, e também tenho que destacar seu jogo ofensivo (marcou 9 gols pela seleção, apenas 1 a menos que Juan Schiaffino e tantos como Obdulio Varela, por exemplo).

Copa na Rede – Sempre que há um jogo entre Brasil e Uruguai, o Maracanazo é lembrado pela imprensa. Como os uruguaios, de uma forma geral, veem a Copa do Mundo de 1950, e como você a vê?

Reyes – Os uruguaios a veem como algo que passou há muito tempo, como símbolo de um passado glorioso que todos sabemos que tivemos, e uma referência constante para nosso futebol. Para muitos, também foi o princípio do fim do Uruguai exitoso em todos os níveis. No fim dos anos 1950, terminou o auge econômico do Uruguai, e, quanto à seleção, não voltamos a jogar uma final de Copa do Mundo. Pessoalmente, vejo [aquela final da Copa de 1950] como uma partida cheia de misticismo em um torneio raro, no qual o Uruguai chegou às semifinais depois de ter jogado uma partida só (em 2010, para chegar às semifinais tivemos que disputar 5). Todo uruguaio gostaria de ter estado naquela tarde no Maracanã.

Copa na Rede – Em sua opinião, por que Óscar Tabárez não mantém Coates como titular da seleção [Reyes coloca o zagueiro do Liverpool como um dos cinco maiores em sua posição]?

Reyes – Acredito que Tabárez respeita a condição de líder de Lugano, e não pode sacar Godin porque está jogando bem. Deve ser muito difícil ter Lugano em um plantel e não poder colocá-lo, inclusive, creio que seria mais sensato não convocá-lo. Mas, se o convoca, e se Lugano está bem fisicamente, Tabárez vai colocá-lo sempre. E enquanto estiverem Lugano e Godin, Coates vai ter problemas para ser titular.

Copa na Rede – Como você viu o desempenho da seleção uruguaia contra a Espanha. Era de se esperar?

Reyes – Vi a seleção mal, foi uma dessas partidas que se espera que termine rápido. Esperava superioridade da Espanha, mas não tanta. Foi muito frustrante, pois por momentos os uruguaios não eram capazes de tocar a bola. Por sorte, o resultado terminou sendo bastante exíguo. Se voltarmos a nos enfrentar agora, seguramente ganharão, mas imagino uma partida um pouco mais parelha.

Copa na Rede – Sobre as eliminatórias da Copa de 2014, a vitória sobre a Venezuela revela que a equipe evoluiu ou você vê a classificação ainda em risco?

Reyes – A próxima partida contra o Peru em Lima é crucial para nós. Se ganharmos, estamos praticamente classificados para a repescagem, e até com chances de classificar diretamente. E, se perdermos, creio que voltamos a estar praticamente eliminados.

Copa na Rede – Como você vê o futebol brasileiro hoje? E a seleção?

Reyes – O futebol brasileiro não chega muito ao Uruguai. Por exemplo, são transmitidas ao vivo para o Uruguai todas as partidas na Argentina, Espanha, Inglaterra e Itália. As pessoas mais ou menos sabem que na Argentina foi campeão o Newell’s; na Espanha, o Barcelona; na Inglaterra, o Manchester; na Itália, a Juventus. Mas não se tem muito claro quem ganhou os estaduais, nem o último Brasileirão. Não sei porque isso ocorre, mas tradicionalmente é assim, inclusive agora, que existem jogadores como Lodeiro e Forlán, que são reconhecidos e vão bem nas suas equipes.

A respeito da seleção brasileira, tenho a sensação de que estão em um momento de transição. Há muitos bons jogadores jovens, mas é difícil aproveitar todo seu talento em uma Copa do Mundo. Na Copa das Confederações não tenho gostado muito do Brasil, mas há tão bons jogadores que não houve grandes problemas para a seleção ser o melhor time do Grupo A.

Copa na Rede – Para finalizar, o que você espera de Brasil e Uruguai nesta quarta-feira?

Reyes – Espero que o Uruguai complique a partida para o Brasil, que seja um jogo parelho. Contudo, acredito que, se der a lógica, o Brasil deve ganhar. Mas nunca se sabe.