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O dever e a coragem
Leis que promovam a igualdade de direitos e deveres entre todas as pessoas são a única esperança de que tenhamos alguma paz e justiça na sociedade dos homens
Por: Mauro Santayana
Publicado em 14/10/2011
Antes que a situação em nosso país se agrave, é necessário legalizar o uso das drogas, por
mais que essa decisão encontre a oposição das almas bem-intencionadas.As investigações sobre a morte da juíza Patrícia Acioli no Rio de Janeiro conduzem a angustiosas reflexões. A perversão das forças policiais, infectadas pelos atos criminosos, não se limita aos cabos e soldados. Chega à cúpula de certas corporações. Essa abjeta contaminação em parcela das tropas é explicada por especialistas como produto do tráfico de drogas e de outras formas de crime organizado.
Não é necessário registrar o emprego dos narcóticos em rituais religiosos para entender que as drogas fazem parte do modo humano de viver. O que tornou grave o consumo foi sua inclusão no circuito capitalista, e sua conversão em mercadoria.
Isso ocorreu no século 19, e trouxe como primeira e gravíssima consequência a Guerra do Ópio, quando a Inglaterra e outras potências europeias massacraram a China e a transformaram em colônia, ao impor, manu militari, o consumo da droga comercializada por empresas europeias, e produzida na Índia, da qual fazia parte o Paquistão, e no Afeganistão.
Nenhuma droga é mais consumida e mais danosa do que a cocaína. Os povos andinos mastigam as folhas da coca há milênios. O alcaloide favorece a absorção do oxigênio e combate a fadiga no altiplano. A partir dessas qualidades medicinais o químico alemão Albert Niemann conseguiu isolar o princípio ativo da planta, em 1859. Depois de ser usada como anestésico, a cocaína foi também empregada para combater o vício da heroína, tido como muito mais danoso.
Mas foi a partir de 1883 que seu consumo entrou no circuito comercial. O farmacêutico italiano Angelo Mariani misturou cocaína ao vinho, a fim de produzir um tônico fortificante, indicado para tratar tuberculose. O Vinho Mariani foi consumido e elogiado por grandes personalidades, como o Papa Leão XIII, escritores como Robert Louis Stevenson e cientistas como o próprio Freud. A Coca-Cola nasceu do Vinho Mariani. Relembre-se que a empresa mantinha, se ainda não mantém, uma plantação de coca na Bolívia, preservada da erradicação dos cultivos promovida pelos Estados Unidos há alguns anos.
A combinação entre o tráfico de drogas, o crime organizado e a corrupção assustadora dos meios policiais está transformando o México em um pesadelo cotidiano e permanente (leia reportagem à página 22). Antes que a situação em nosso país se torne tão grave, devemos enfrentar o problema com coragem. É necessário legalizar o uso das drogas, por mais que essa decisão encontre a oposição das almas bem-intencionadas.
Seria bom se o Estado dispusesse do poder de evitar as consequências infernais de comércio clandestino de drogas. Como isso não ocorre, o melhor será legalizar a produção e comercialização de todas elas, sob a administração direta dos estados interessados. O consumo deve ser tratado como problema de saúde pública, assim como são tratados casos de alcoolismo ou depressão. Desse modo não haveria mais o terror das chacinas de pequenos traficantes nem a promiscuidade entre tráfico, polícia e autoridades.
O caso da juíza Patrícia Acioli é emblemático. Ela foi rigorosa contra policiais criminosos. Não foi a primeira personalidade do mundo judiciário a morrer pela sua coragem. Há juízes criminais, bem como membros do Ministério Público, que vivem em constante sobressalto, sob ameaça, e não esmorecem no cumprimento do dever na defesa da sociedade.
O Estado tem sido incapaz de proteger seus magistrados, da mesma forma que há casos comprovados de apodrecimento do Poder Judiciário, seja pela corrupção, seja pela violência, como ocorreu em Sobral, no Ceará, em 2005, quando o juiz de Direito Pedro Percy Barbosa de Araújo matou o trabalhador José Renato Coelho Rodrigues, por motivo mais do que fútil: o vigilante se negara a abrir a porta do supermercado, já fechada, às 22h30, para o comprador qualificado.
O juiz, depois de atendido, foi a seu carro, buscou a arma e matou friamente o trabalhador com dois tiros na nuca. Condenado a 15 anos, o magistrado teve o benefício do destino – morreu três anos depois, aos 57. Viver, mais do que nunca, é hoje privilégio do acaso.
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