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Número 37, Julho 2009

economia

A inclusão como resposta

A distribuição de renda protegeu o país dos efeitos da crise. O poder de compra dos milhares de brasileiros que fazem parte das classes C e D deu mais fôlego à economia
por Roberto Rockmann publicado 04/04/2013 12h26, última modificação 07/05/2018 11h26
A distribuição de renda protegeu o país dos efeitos da crise. O poder de compra dos milhares de brasileiros que fazem parte das classes C e D deu mais fôlego à economia
lucas mamede
Antônio

Depois do carro, Antônio está de olho na casa própria

Em janeiro, aos 40 anos de idade, Josi Silva do Carmo viajou pela primeira vez de avião. Com seus dois filhos, Rodrigo e Daiane, embarcou no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, rumo a Recife para visitar os pais, depois de parcelar em seis vezes as três passagens aéreas. A turbulência antes da chegada assustou um pouco, mas o que impressionou mesmo foi a rapidez da viagem, que durou menos de quatro horas, permitindo-lhes passar mais tempo com os parentes. De ônibus, estava acostumada a gastar três dias na ida e três na volta. Josi está entre os 2 milhões de brasileiros que viajaram pela primeira vez de avião no Brasil nos dois últimos anos. Empregada doméstica, ela complementa a renda como costureira e pretende repetir a experiência no início de 2010. “Nos últimos anos, parece que estamos tendo mais renda para gastar. Antes, viajar de avião era algo de outro mundo”, diz.

Em Ribeirão Preto, Antônio Luiz dos Santos trabalha há três anos na Dedini, fabricante de máquinas e equipamentos para o setor de açúcar e álcool. Em 2007, a partir de um empréstimo consignado, adquiriu seu primeiro carro, um Fiat Uno 1986, que o ajuda nos fins de semana a arrumar trabalho como garçom em festas em um clube da cidade. Agora, aos 39 anos, pretende dar um passo maior: deixar o aluguel e comprar sua casa própria pelo programa Minha Casa, Minha Vida, recém-lançado pelo governo federal para incentivar a habitação popular.

Em junho, Antônio esteve em um “feirão” da Caixa Econômica Federal, de olho nos imóveis e conversando com os gerentes para saber se pode ingressar no programa que concede subsídios para a aquisição de moradia popular. “Essa é uma grande chance de melhorar a vida da minha mulher e dos meus dois filhos”, afirma.

Antônio Luiz e Josi fazem parte de um grupo de 160 milhões de pessoas que tem contribuído para reduzir os impactos da crise na economia brasileira. Eles formam as classes C, D e E, que movimentaram mais de R$ 550 bilhões em compras em 2008, detêm 67% dos cartões de crédito existentes no país e foram uma das principais razões de a economia brasileira ter registrado queda bem menor que a prevista no primeiro trimestre deste ano.

A principal razão foram os gastos das famílias, que cresceram 0,7% no primeiro trimestre de 2009 em relação ao quarto trimestre de 2008 e 1,3% se comparados com o mesmo período do ano passado, influenciados pela melhoria de renda das classes com menor poder aquisitivo.A partir de 2003, com o aumento real de 43% do salário mínimo e a ampliação dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, a participação da base da pirâmide na renda nacional começou a crescer. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, somente a faixa da população que inclui a classe C, considerada a nova classe média brasileira, passou a representar 53,8% da população em dezembro de 2008. No mesmo período de 2007, esse percentual era de 48,9%. Há quinze anos, estava na casa dos 35%. 

A participação das classes populares e do consumo interno foi fortalecida a partir da ação do governo desde outubro, com o agravamento da crise econômica mundial. “Tenho medo de perder o emprego, mas as coisas estão indo direitinho e estou querendo ver se junto um pouco mais de dinheiro para dar uma entrada maior e comprar em parcelas uma máquina de lavar nova”, diz Ivone Silva, 29 anos, empregada doméstica em São Paulo.

A formação de uma grande massa consumidora popular é novidade no Brasil e tem feito com que várias empresas cresçam, mesmo com a crise. Fabricante de sucos, a General Brands, que apesar do nome não é multinacional, prevê alta de 20% no faturamento neste ano. “Quero mais crises assim”, ironiza o presidente da indústria, Isael Pinto. Um dos destaques para a empresa de Isael é a Região Nordeste, que há cinco anos respondia por 15% da receita e viu esse percentual pular para 27% neste ano.

“O Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo contribuíram com vigor para esse aumento das vendas na região, que tem crescido a taxas bastante fortes”, diz o empresário, que considera muito boa a decisão do governo de ampliar o Bolsa Família, elevando o limite de renda para ingresso no programa de R$ 120 para R$ 137. Com a ampliação, decidida no primeiro trimestre deste ano, o programa incorporou 1,3 milhão de novas famílias, chegando a 12,4 milhões de beneficiadas e injetando mais R$ 10 bilhões na economia brasileira em 2009. Para reforçar sua presença no Nordeste, a General Brands vem lançando produtos específicos para esse perfil de consumidor de menor poder aquisitivo. No início do ano, lançou um refresco em pó econômico – cada envelope, a R$ 0,49, faz dois litros de refresco, e não precisa adoçar.

A Nestlé também está atenta ao mercado popular e desenvolveu estratégias especiais para chegar a esse público. Em 2006, na cidade de São Paulo, a multinacional criou o sistema de vendas porta a porta, que hoje já abrange Rio de Janeiro, Porto Alegre, Vitória, Curitiba, Belo Horizonte, Belém e Fortaleza. “Até o fim de 2008, eram 140 microdistribuidores e 6 mil mulheres que se tornaram vendedoras visitando mais de 200 mil lares a cada quinze dias, uma forma de complementação da renda”, diz o diretor de regionalização da empresa, Alexandre Costa.

A população de baixa renda deve continuar tendo cada vez maior influência sobre a economia brasileira ao longo dos próximos anos, segundo Renato Meirelles, sócio da Avenida Brasil Comunicação, agência de publicidade voltada para essa camada de consumidores. Pela primeira vez, começa-se a ver universitários da classe C no Brasil: 68% dos jovens de 20 a 25 anos dessa faixa têm escolaridade superior à dos pais, enquanto na classe A esse percentual é de 10%. “Esse fenômeno trará novas pretensões e novos gostos. Com tantos estímulos criados recentemente pelo governo, com reduções de impostos e injeção de dinheiro, esse é o segmento mais efervescente do mercado, e isso vai ser duradouro”, diz Meirelles.

Com base em dados do IBGE, pesquisas da Avenida Brasil revelam que 75% dos internautas no Brasil ganham até R$ 1.700 mensais e 62% dos domicílios brasileiros com acesso à internet integram as classes C, D e E. “Esses números acabam com o mito de que internet é coisa de rico, portanto é preciso pensar para esse público, que tem novas ambições”, diz o publicitário.

Pensar o dia seguinte

crise

Apesar do desempenho interno, que leva muitos a dizer que o Brasil já vê a crise pelo retrovisor – ou seja, ela foi ultrapassada, mas não se perdeu de vista –, o cenário internacional ainda exige cautela. Para o sociólogo Emir Sader, a crise ainda é um teste duro para a economia brasileira. “Estamos pagando um preço alto”, disse, durante o Seminário Internacional sobre a Crise promovido no final de junho pelo Partido dos Trabalhadores e pelo Partido Comunista do Brasil, sob organização da Fundação Perseu Abramo.

De acordo com Sader, com a queda das exportações por conta da redução da demanda externa e a restrição de crédito para empresas instaladas no país, o governo precisa diversificar ainda mais o comércio internacional e aumentar o peso do mercado interno, taxando o capital externo. “O presidente Lula manteve a hegemonia do capital financeiro e a autonomia do Banco Central, ainda que tenha retomado o papel do desenvolvimento. Sem abandonar a conciliação, a aliança de classes, sem deixar de ser parênteses do modelo internacional, o governo Lula não será alternativa de um novo modelo”, criticou.

Na análise do sociólogo, a atual crise surge em um período de relativa estabilidade no cenário internacional, ainda comandado por uma potência hegemônica, os Estados Unidos. “Existe uma turbulência prolongada sem resolução previsível, mas qualquer resolução será de alternativas dentro do capitalismo, sem ruptura. Portanto, o capitalismo não acaba com a crise”, disse Sader.

Sua opinião é compartilhada por outros especialistas que participaram do seminário. “Estamos diante de uma crise do capitalismo, mas isso não quer dizer que o sistema vai acabar. Os Estados Unidos e a Inglaterra devem preservar sua hegemonia e recompor seu sistema”, afirmou Jorge Beinstein, economista, professor na Universidade de Buenos Aires e membro do Partido Comunista da Argentina.

De outro lado, a crise despertou reações protecionistas em vários países, já que muitas das nações desenvolvidas amargam alta do desemprego e fechamento de fábricas. “Precisamos enfrentar o avanço da direita, da xenofobia, do protecionismo. Um exemplo é a força demonstrada pela direita na disputa pelo Parlamento Europeu (leia análise Deslizamento à direita). A saída precisa ser pela esquerda”, observou Artur Henrique, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Artur lembrou que, no início de junho, mais de 125 milhões de europeus votaram para eleger seus representantes no Parlamento. A centro-direita teve vitórias claras na França, Alemanha, Itália e Polônia, enquanto partidos extremistas de direita tiveram bom desempenho em vários países, como Holanda, Áustria, Dinamarca, Eslováquia e Hungria.

Para Avtar Sadiq, secretário dos Indianos Comunistas na Grã-Bretanha e membro do Partido Comunista da Índia, a ausência de uma alternativa política socialista relevante no xadrez das negociações internacionais faz com que o capitalismo possa reemergir mais uma vez da crise, com novos expropriadores que destroem uma parte das forças de produção para criar outros meios de lucratividade própria, em vez de utilizar esses recursos para o bem-estar das pessoas. “Esse é o verdadeiro caráter desumano do capitalismo. É preciso avançar na emancipação social no mundo, e isso requer a intensificação das lutas de classe”, enfatizou Sadiq.

Nesse cenário, a esquerda deve se unir para apresentar propostas que possam representar alternativas concretas para a ampliação de propostas sociais. “Corremos o risco de ficar nos debatendo com a proposta que já é chamada de socialdemocracia global, que nada mais é que mais do mesmo, porque não entra na discussão realmente importante para o Brasil e para mundo, que é criar um novo paradigma, um novo modelo. E porque não enfrenta questões essenciais, como o cancelamento das dívidas externas dos países, uma nova matriz energética, a implementação de uma renda cidadã mundial e a garantia do emprego decente”, disse o presidente da CUT.