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Liberdade de expressão

Jornalistas criticam Moro por condução coercitiva de blogueiro. Dilma se solidariza

"Atitude preocupante", diz Kennedy Alencar. "Jornalista que publica informações vazadas não comete crime", afirma Ricardo Noblat. Para Nassif, foi episódio de vingança pessoal
por Redação RBA publicado 21/03/2017 16h31, última modificação 21/03/2017 19h05
"Atitude preocupante", diz Kennedy Alencar. "Jornalista que publica informações vazadas não comete crime", afirma Ricardo Noblat. Para Nassif, foi episódio de vingança pessoal
Reprodução
Eduardo Guimarães

Para Luis Nassif, "a condução coercitiva de Eduardo Guimarães expõe de forma inédita o uso do poder pessoal arbitrário de Moro para retaliar adversários"

São Paulo – A condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, na manhã de hoje (21), é alvo de críticas de analistas e jornalistas de diferentes linhas de pensamento. Todos questionam a atitude do juiz federal Sérgio Moro, apontando ataque à liberdade de expressão e, para alguns, violação da própria lei.

"É preocupante a atitude do juiz federal de Curitiba, que já quis dar lição à 'Folha de S.Paulo' sobre o que o jornal deveria publicar", escreveu, por exemplo, o jornalista Kennedy Alencar. "A Operação Lava Jato tem sido marcada por vazamentos. Não dá para adotar dois pesos e duas medidas em relação a quais vazamentos podem ou não ser tolerados por policiais, procuradores e juízes. Aceitar isso é flertar com perigosa tentação autoritária", afirmou.

Ele cita questionamento feito pela jornalista Monica Bergamo, também da Folha, à assessoria de Moro, sobre os motivos da condução coercitiva. A resposta, lacônica ("Sem comentários"), também foi criticada por Kennedy: "Não é uma resposta razoável. São necessárias explicações mais detalhadas da parte de Moro. O sigilo da fonte é uma garantia constitucional. Quebrá-lo fere a liberdade de informação." O jornalista acrescenta que a opinião pública merece saber as justificativas para a decisão, "pelo princípio da transparência tão defendido por Moro e integrantes da Lava Jato".

A ex-presidenta Dilma Rousseff divulgou nota em solidariedade a Eduardo Guimarães. "O episódio é grave. Ameaça a liberdade de imprensa e de expressão, garantidas pela Constituição. Sou solidária a Eduardo porque sei como é duro ter de se explicar por pensar e escrever", afirmou.

O jornalista Ricardo Noblat, do jornal O Globo, também criticou a atitude do juiz federal. Segundo ele, Moro "deve melhores explicações a respeito". No Twitter, ele afirmou que jornalista que publica informações vindas de vazamento não comete crime. "Ninguém mais do que a PF vaza informações q lhe interessam", escreveu. 

A um seguidor que o questionou por Guimarães não ser jornalista profissional, Noblat respondeu: "Nada na lei proíbe um blogueiro de ser político e não jornalista". 

O jornalista e também blogueiro Luis Nassif observou que recentemente o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, considerou o sigilo de fonte como um direito da sociedade, e não de jornalistas. "Além disso, ao não reconhecer mais o diploma de jornalista como pré-condição para a prática da profissão, o STF acabou com a classificação restrita de jornalista", acrescentou.

Para Nassif, a condução coercitiva representa um episódio de vingança pessoal de Moro: Guimarães, crítico da Operação Lava Jato, é autor de uma representação contra o juiz no Conselho Nacional de Justiça. E Moro entrou com ação contra o blogueiro por causa de uma frase de 2015, no Twitter, na qual Guimarães afirma que as ações da Lava Jato irão ameaçar "seu emprego e sua vida", referindo-se ao leitor e não ao juiz, que no entanto considerou-se "ameaçado" e resolveu processar o autor.

"A condução coercitiva de Eduardo Guimarães expõe de forma inédita o uso do poder pessoal arbitrário de Moro para retaliar adversários. Não se trata mais de luta política, ideológica, de invocar as supinas virtudes da luta contra a corrupção para se blindar: da parte de Sérgio Moro, a operação atende a um desejo pessoal de vingança", diz Nassif.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o sindicato da categoria no estado de São Paulo divulgaram nota em que criticam a arbitrariedade da Polícia Federal e o desrespeito ao sigilo de fonte garantido pela Constituição. "A Polícia Federal ataca, ainda, a liberdade de imprensa e de expressão do blogueiro – a mesma PF que tem vazado informações seletivamente de acordo com os próprios interesses, sem levar em consideração os interesses da sociedade", afirmam as entidades, para as quais o episódio "também representa um terrível precedente, que coloca em risco um dos mais importantes princípios do jornalismo – garantir o direito da população à informação".