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Em 1989, sequestro de Abílio Diniz foi relacionado ao PT e desmentido logo após eleições, mostra pesquisa

Investigação apontou que não houve envolvimento do Partido dos Trabalhadores no sequestro de Diniz. Envolvidos acusaram polícia de obrigá-los a vestir camisa da campanha de Lula
por Redação da RBA publicado 25/09/2010 10:25
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Investigação apontou que não houve envolvimento do Partido dos Trabalhadores no sequestro de Diniz. Envolvidos acusaram polícia de obrigá-los a vestir camisa da campanha de Lula

São Paulo - A cobertura da mídia sobre o sequestro do empresário Abílio Diniz, executivo do grupo Pão de Açúcar, em 1989, foi decisiva para o resultado do segundo turno das eleições, em que concorriam Fernando Collor de Mello (PRN) e Luís Inácio Lula da Silva (PT). A conclusão é da professora de comunicação Diana Paula de Souza que realizou a pesquisa "Jornalismo e narrativa: uma análise discursiva da construção de personagens jornalísticos no sequestro de Abíolio Diniz e suas repercussões políticas".

Jornais da época suscitavam envolvimento do PT na ação, usando fontes da polícia. Após a vitória de Collor, as acusações foram desmentidas. O estudo analisou os jornais O Globo, Jornal do Brasil (JB) e Folha de S. Paulo, de 17 a 20 de dezembro de 1989.

O sequestro de Diniz aconteceu em 11 de dezembro de 1989, por integrantes do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), mas só foi revelado após a libertação do executivo, no dia 16 de dezembro, véspera do segundo turno da primeira eleição direta no Brasil, pós-ditadura.

Segundo a pesquisadora, no dia 17 de dezembro começaram os "relatos jornalísticos sobre material de propaganda política do PT que teria sido encontrado junto com os sequestradores". E logo no início das investigações "percebe-se um esforço dos veículos para estabelecer uma conexão entre o sequestro e o então candidato à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva", como no trecho de O Globo do dia 18 de dezembro. "Tuma assegurou que os terroristas integram duas organizações de extrema esquerda no Chile - Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) e Organização de Resistência Armada (Ora) e que em poder dos que foram presos foi apreendido material de propaganda política do PT".

Diana descreve que apesar da aparente objetividade do jornal, que atribui as informações a uma fonte principal, Romeu Tuma, há uma associação entre terrorismo, movimentos de esquerda e o Partido dos Trabalhadores.  "A publicação faz uma ligação sutil do PT com o MIR e o ORA, já que se refere aos três organismo na mesma frase, sugerindo que o PT teria ligação com as organizações guerrilheiras". Os jornais citam também que camisetas e faixas do PT teriam sido encontradas com os sequestradores, mas que isso não seria indício de envolvimento do PT com o sequestro. 

Por outro lado, Diana cita que Fernando Collor de Mello, concorrente de Lula no segundo turno, "teve o apoio de Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, o que se refletiu no jornalismo praticado pelos veículos de comunicação do grupo". "O exemplo clássico foi a edição do Jornal Nacional que se seguiu ao último debate entre os dois candidatos, realizado no dia 14 de dezembro de 1989", descreve a pesquisa.

O estudo também reproduz um trecho do JB que de forma semelhante a O Globo destaca uma possível ligação do MIR com o PT. "Além da casa da Rua Ilashiro Miazaki, a polícia informou ter invadido um apartamento nas proximidades (Rua Charles Darwin), onde morariam os sequestradores que já estavam presos, e lá teria encontrado panfletos do MIR, propaganda eleitoral da campanha de Luís Inácio Lula da Silva, agendas com telefones de dois líderes petistas, o vice-prefeito paulistano Luiz Eduardo Greenhalgh e o vereador Eduardo Suplicy, presidente da Câmara Municipal, e de Airton Soares, do PDT. Foi encontrada também, segundo a polícia, uma barraca com ventilação no teto, que teria sido usada no sequestro do publicitário Luiz Sales, libertado no início de outubro após pagamento de um resgate de US$ 2,5 milhões. Ainda no final da tarde, o ministro da Justiça, Saulo Ramos, que acompanhava o caso através de telefonemas a cada 10 minutos, afirmou não ter nenhuma informação sobre a agenda".

Cobertura foi decisiva

Mario Sérgio Conti, em seu livro Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor, afirma que a eleição foi decidida na última semana, momento "em que a imprensa esteve envolvida nos fatos principais". Para Conti, o sequestro de Diniz está entre os fatores que podem ter contribuído para a eleição de Collor e derrota de Lula.

O autor, uma das fontes de Diana, narra que  "na manhã de domingo, o dia da eleição, O Estado de S. Paulo noticiou na primeira página que 'um padre da zona sul, simpatizante do PT, foi avalista da casa alugada pelos sequestradores'. Fleury deu uma entrevista ao jornal dizendo ter sido encontrado material de propaganda petista numa casa alugada pelos sequestradores. O Estadão transcreveu declarações de Saulo Ramos e Romeu Tuma negando que houvesse qualquer evidência de que os criminosos fossem ligados ao PT. Saulo Ramos levantou a hipótese de que os bandidos espalharam material de propaganda petista na casa para que, se fossem presos, se beneficiassem das penas mais brandas que a lei estabelecia para os crimes com motivação política. Uma das reportagens de O Estado relato que Alcides Diniz, irmão do sequestrado, sustentava que o PT participara do sequestro. Mas a reportagem não esclarecia que Aldes Diniz era amigo de Leopoldo Collor e se engajara na campanha do candidato do PRN. A principal manchete do jornal O Rio Branco, do Acre, foi 'PT sequestra Abílio Diniz'".

Defesa

A análise da pesquisadora aponta que Lula só se defendeu da suposta conexão que os jornais faziam entre o PT e o sequestro numa pequena "retranca ao pé da página, espremida por um bloco de anúncios publicitários. O título é: "Lula teme 'maracutaia'", explica a especialista.

O trecho de O Globo em que o então candidato petista se manifesta sobre o assunto sugere que "Lula não deu importância ao sequestro, já que estava em um jogo de futebol". "A ênfase nos termos populares utilizados por ele parece querer desqualificar o candidato para o cargo que pretendia ocupar", analisa a autora.

Desmentido

Os desmentidos sobre a ligação do sequestro de Diniz com o PT "se tornam mais enfáticos a partir do dia 19 de dezembro de 1989, quando o resultado das eleições já era sabido", cita Diana.

Conti descreve que "as investigações posteriores provaram que nenhum militante do PT estivera envolvido no sequestro de Abílio Diniz, realizado por aventureiros ligados a grupos esquerdistas da América Central. Os sequestradores disseram em juízo que policiais civis os torturaram e, antes de os apresentarem à imprensa, os forçaram a vestir camisetas do PT. A Polícia Civil estava sob o comando do secretário da Segurança, Luiz Antônio Fleury Filho. A vítima, Abílio Diniz, protestou contra a tortura de seus algozes. Quase um ano depjois, em outubro de 1990, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, superior imediato de Fleury, disse numa entrevista ao Estado de S. Paulo que durante o sequestro 'houve pressões no sentido de que se conduzissem as investigações para envolver o PT'".

O JB chamou o atrelamento do PT ao drama do executivo de "trama policial". "Segundo o jornal, os advogados dos sequestradores 'denunciaram ontem que a polícia vestiu uma camiseta do candidato à Presidência da República pela Frente Brasil Popular, Luís Inácio Lula da Silva, em um deles e o fotografou, [...] a dois dias das eleições presidenciais". A polícia negou a denúncia dos advogados de armação.

Em O Globo,do dia 19, o ministro da Justiça Saulo Ramos suscita que "os sequestradores podem ter usado a camiseta do PT como disfarce, aproveitando a eleição".

No dia 20, O Globo sai com a manchete "Tuma: sequestro de Abílio não foi político". Na matéria, Romeu Tuma, então Diretor Geral do Departamento de Polícia Federal, admite que a associação do sequestro com o PT pode ter prejudicado Lula no segundo turno das eleições. "Ele admite que a associação entre o sequestro e o PT possa ter prejudicado Lula. O próprio Delegado não viu as supostas camisetas e repudia qualquer ligação do caso com o PT. A informação partiu do secretário de Segurança de São Paulo, Antônio Fleury Filho, e acabou sendo contestado pelos próprios sequestradores [...] Eles afirmaram terem sido obrigados por policiais a vestirem as camisetas após serem presos".

Também no dia 20, a Folha de S. Paulo publicou retranca "'Sequestro pode ter prejudicado Lula', que 'São Paulo foi o único Estado onde Collor cresceu significativamente entre o sábado e o domingo', segundo pesquisa de boca de urna realizada pelo Datafolha".

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