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Emir Sader

Equador caminha para segundo turno tenso, com favoritismo da esquerda

Candidato do presidente Rafael Correa está a 0,82 ponto de vencer no primeiro turno. Esquerda garante maioria no Congresso e referendo aprova proibição a agente público ter dinheiro em paraíso fiscal
por Emir Sader, para a RBA publicado 21/02/2017 10h20, última modificação 21/02/2017 11h48
Eduardo Santillán/Presidencia de la República
Correa e Moreno

Eleição no Equador é decisiva para continuidade dos governos progressistas na América Latina

Embora ainda não tenha sido concluída a apuração dos votos (neste momento faltam 6,6%), se pode prever pelas projeções que haverá segundo turno na eleição presidencial do Equador, no dia 2 de abril. Ao candidato de esquerda, Lenín Moreno, ex-vice de Rafael Correa, falta 0,82 ponto percentual para chegar aos 40% . Embora uma parte dos votos que faltam apurar seja do exterior, onde ele tem uma vitória clara, ele não deve conseguir impedir o segundo turno com Guillermo Lasso, o banqueiro mais rico do Equador, sobre quem Lenín tem uma vantagem de quase 11 pontos percentuais. A diferença está em 39,18% a 28,40%. Para definir a eleição no primeiro turno, o vencedor precisa alcançar no mínimo 40% e ter diferença superior a 10 pontos para o segundo colocado.

O pleito deixa incertezas até o final, com a direita denunciando possíveis fraudes e até mobilizações militares. O resultado oficial pode ter de esperar até a próxima quinta-feira, segundo o Conselho Nacional Eleitoral. A se confirmar a decisão se prevê mais um mês e meio de tensão. O candidato opositor já chamou a uma frente de “governabilidade democrática”, para a qual obteve o apoio de Cyntia Viteri, colocada em terceiro lugar com 16%, e de outros candidatos menores da direita. Tentará, de forma similar ao que fez Mauricio Macri na Argentina, dizer que a maioria quer a mudança, somando os votos dos opositores.

Mas a disputa será muito acirrada. Em primeiro lugar, pela distância de mais de 10% que Lenín tem sobre Lasso. A Aliança Pais se reafirmou como o maior partido político, renovando sua maioria absoluta no Parlamento. E conseguiu a aprovação no referendo paralelo às eleições, que proíbe que quem ocupe cargos públicos, tenha contas em paraísos fiscais.

O quarto colocado, candidato que se considera social democrata, de esquerda moderada, já afirmou que não apoiara’ ninguém no segundo turno, declarando-se equidistante, embora o partido que o lançou, embora seus eleitores possam não segui-lo. Foi o candidato apoiado pela ultra esquerda, que depois da fragorosa derrota do seu candidato – Alberto Acosta – nas eleições presidenciais anteriores, desta vez nem sequer lançou candidato, se concentrando nos ataques ao governo de Rafael Correa e seu candidato.

É uma eleição de importância decisiva não apenas para a continuidade do processo de transformações que vive o Equador há 10 anos, mas para toda a América Latina. Depois de sucessivos avanços da direita, desde a conquista da maioria no Congresso venezuelano, passando pela vitória eleitoral na Argentina, pela derrota do referendo convocado por Evo Morales na Bolívia sobre a possibilidade de que ele se candidate uma vez mais, pelo golpe no Brasil, se passou a falar de “fim de ciclo”, para o que faltaria uma derrota da esquerda no Equador.

A direita tinha se assanhado como nunca, depois de ter perdido sucessivamente todas as eleições nacionais no Equador por uma década, com Rafael Correa se elegendo e reelegendo no primeiro turno. A direita, sucessivamente derrotada, desta vez se vale da recessão econômica que vive o país e da ausência de Rafael Correa como candidato. O desgaste que isso representa levou a que Lenín tivesse uma votação abaixo os mais de 50% de aprovação popular ao governo Correa.

Lenín desenvolveu um estilo menos conflitivo que o de Correa, projetando uma imagem de político aberto para o dialogo com setores opositores e menos radical nas medias que possa tomar. Seu vice, Jorge Glass, representa mais diretamente as posições e o estilo de governo de Correa.

Caso triunfe, vai ter de enfrentar a difícil tarefa de superação da recessão econômica e dos índices sociais, que haviam melhorado tanto no Equador nos últimos 10 anos. Terá que recuperar um clima mais ameno para o governo, polarizado nestes últimos anos, especialmente na campanha eleitoral. Já Guillermo Lasso, caso chegue a triunfar, teria de se enfrentar, antes de tudo, a suas promessas de manutenção dos avanços sociais, incompatíveis com seu programa econômico. Teria de conviver com uma maioria da esquerda no Congresso. E teria de encerrar seus negócios financeiros no Panamá, como determinou o referendo.

Fica-se na espera agora das primeiras pesquisas, para saber se haverá transferência de votos de direita ou se prevalecerá o favoritismo de Lenín.

Além desses temas, o destino de Julian Assange, o criador do WikiLeaks, também se joga nessas eleições. Lasso afirmou que terminará de imediato com o asilo que o Equador propicia há mais de quatro anos, o que levaria a que fosse expulso da Grã-Bretanha para responder pelas acusações de violação que tem na Suécia, além das de que é vitima nos Estados Unidos.

retrocesso

Miruna, filha de Genoino: 'A grande mídia parecia sentir prazer em nos sufocar'

Filha vai lançar, em março, o livro "Felicidade Fechada", em que transmite a visão dos familiares do petista sobre uma das maiores injustiças da história recente do país
por Socialista Morena publicado 20/02/2017 11h25, última modificação 20/02/2017 16h07
Arquivo pessoal
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José Genoino, a mulher, Rioco Kayano, e os filhos Ronan e Miruna

Socialista Morena – Entre 1981, o ano em que Miruna nasceu, e 2005, ano em que estourou o escândalo do mensalão, o cearense José Genoino Guimarães Neto foi um político de esquerda respeitado por todo mundo, até mesmo pelos adversários. A partir de 1982, quando foi eleito deputado federal pelo PT pela primeira vez, Genoino se tornaria um dos mais brilhantes e habilidosos parlamentares que o Congresso já conheceu. Para Miruna, era ainda o herói a quem escutava, embevecida, contar que, quando menino, percorria a pé 14 quilômetros por dia, sob o sol inclemente do sertão de Quixeramobim, para poder estudar.

Depois do mensalão, tudo mudou. Genoino, um político reconhecidamente honesto que jamais acumulara bens além da casa simples em que vive até hoje, em São Paulo, seria tratado como um pária, um ladrão, um corrupto. E sua família, assediada e perseguida por uma imprensa feroz e sádica em sua sanha antipetista. Antigos bajuladores de Genoino na imprensa viraram-lhe as costas e se calaram, cúmplices do linchamento. Nenhum dos repórteres que cobriam a Câmara no auge do petista como parlamentar foi capaz de se solidarizar, de defendê-lo da injustiça de uma condenação a seis anos e 11 meses de prisão apenas por ter assinado, como presidente do PT, um empréstimo quitado e declarado à Justiça eleitoral.

"Antes de magoar minha família como um todo, esta atitude da imprensa magoou demais meu pai, porque ele não esperava este tratamento unilateral, sem espaço para a verdade, com tanta manipulação", diz Miruna. "Ele rememorava toda a luta na ditadura por uma imprensa livre, dedicou-se totalmente a atender esta imprensa, mas, quando precisou, foi achincalhado. Para nós, da família, a grande mídia foi responsável por grandes traumas em nosso dia a dia. Não respeitaram meus filhos, na época com 5 e 6 anos de idade, não respeitaram nossa privacidade, riam de nós, pareciam sentir prazer em nos sufocar. Muito triste ter vivido isso."

A educadora, primogênita de Genoino, vai lançar, em março, o livro Felicidade Fechada, onde transmite a visão dos familiares do petista sobre uma das maiores injustiças da história recente do país. Além do depoimento dela, são reproduzidas as cartas que enviou ao pai durante os nove meses em que ele ficou encarcerado na prisão da Papuda, em Brasília. Rejeitado por várias editoras, o livro se tornou possível graças a uma "vaquinha" virtual que Miruna fez no ano passado, arrecadando quase 100 mil reais para a edição.

É uma obra delicada, onde o olhar carinhoso da filha aparece em primeiro plano, sem lugar para rancor, mágoa ou vingança. Os capítulos são ilustrados com pássaros bordados em um pano por dezenas de mãos amigas, uma ideia da mãe de Miruna, Rioco, para homenagear o amado, como uma Penélope da era moderna que espera a volta de seu Ulisses. Foi este tecido que Genoino amarrou no pescoço ao se entregar à Polícia Federal para ser preso, em novembro de 2013. A "capa" do herói de Miruna virou a capa do livro.

"Nessa história, não vou falar de dados e informações. Não vou ficar explicando que meu pai é inocente, porque os empréstimos que ele assinou foram registrados na Justiça Eleitoral e já foram pagos pelo PT e aceitos pelo Tribunal de Justiça Eleitoral. Isso foi relatado e é verdade. Não vou dizer que não existiam provas que o condenassem. E vou tentar não ficar aqui soando como uma magoada, repetindo que o acontecido foi um tribunal de exceção. Não pretendo falar de tudo, porque quero contar a verdade desde dentro, desde quem viveu cada momento, desde quem cresceu sendo criada por um pai exemplar, que se tornou um avô iluminado e que jamais roubou nada de ninguém, nem deixou de seguir os princípios de justiça e igualdade que sempre o guiaram", adverte, na introdução.

No livro aparecem poucos nomes. Relator do mensalão no Supremo e principal algoz de Genoino, o ex-ministro Joaquim Barbosa, por exemplo, surge como "o relator". Miruna explica que preferiu assim porque seu pai sempre aconselhou os familiares a não "fulanizar" o processo. "Alguns nomes específicos ficaram fortes neste percurso? Sim. Mas não foram estes nomes que decidiram, foi um movimento grande. Foi a grande imprensa, foi a opinião pública, que acreditou, foi o STF como um todo, não um juiz. Por isso colocar nomes só fica alimentando a fulanização e nosso foco é no processo, como um todo, que foi injusto."

Miruna também evitou escrever sobre as decepções que a família deve ter sofrido ao longo do processo. "Meu livro não trata de vingança, não trata de ‘toma lá dá cá’, algo que meu pai sempre nos ensinou a abominar. Meu livro trata de vida. Da vida de pessoas reais, com suas vidas, e que tiveram de se unir para enfrentar a injustiça. Meu livro quer deixar um registro para meus filhos, e a geração deles, e as posteriores, de que José Genoino é inocente. E isso é o mais importante, não as decepções."

Um dos momentos mais tocantes é quando a família, reunida após um almoço descontraído com amigos, recebe, de repente, a notícia de que Genoino será preso.

"Foi quando o telefone do meu pai tocou. Ele mudou sua expressão, foi falando e se levantando, e nós não conseguíamos falar. Ele desligou e disse: ‘Saiu o papel. Chegou a hora pessoal’. Voltar àquele momento é algo muito difícil, porque não existem palavras que possam mostrar para quem está aqui comigo agora, acompanhando essa espécie de memória, o que sentimos naquele momento. No começo, todos nos abraçamos ao meu pai, mas ele não nos abraçava por muito tempo, apenas segurava nos nossos braços e dizia, ‘Vamos, vamos’. Depois, cada um foi para um lado… Eu não sei bem dos meus irmãos, mas minha mãe foi a única que não deu espaço para si mesma e começou a organizar tudo o que meu pai precisava levar, suas roupas e seus pertences. Meu irmão, tão parecido que é com a minha mãe, prático quando é preciso, subiu correndo para o quarto e começou a colocar em um papel os horários dos remédios do meu pai, que recentemente tinha tido uma confusão na forma de tomar e estava sendo medicado com a ajuda do filho. Eu chorei e gritei. Muito. E forte. (…) Com a mala pronta, esperando o advogado, meu pai foi para a cozinha e disse: ‘Vamos lá pessoal, é uma injustiça, mas eu estou forte, vamos lá, vamos começar logo com isso’. Meu pai não aguentava mais a tortura de esperar e mostrava que já que era para viver a injustiça, que começasse logo de uma vez."

Para visitar Genoino na Papuda, sua mulher e os três filhos (há ainda Mariana, de outra relação do petista) tinham que se submeter a uma humilhação extra: vestir-se completamente de branco, dos sapatos às roupas íntimas.

"Minha primeira visita ao presídio da Papuda, localizado em Brasília, começou bem cedo, quando saí de São Paulo para vir para cá, e continuou ontem cedo quando nos levantamos e vestimos todos, eu, minha mãe, meu irmão e meu cunhado, roupas brancas dos pés à cabeça. Cueca branca, calcinha branca, sutiã branco, sem bojo, calça branca, camiseta branca, chinelo branco. Tudo branco. Exatamente igual à roupa que os presos precisam usar: branco. Desde que soube que isso era assim, pensei e busquei todo tipo de explicação para essa obrigatoriedade imposta aos familiares e apesar de já ter ouvido todo tipo de ideias, só penso em uma coisa: marcar as famílias. Marcar e humilhar as famílias com a mesma vestimenta que qualquer preso do CIR-Papuda precisa usar para cumprir sua pena, mostrar, a quem quer que seja e saiba, que quem veste branco tem um familiar preso, com toda a carga emocional que isso significa. Mulheres, homens, velhos, crianças, bebês, todos de branco", escreve.

Causa indignação ler o relato de Miruna sobre a extrema agressividade de repórteres e fotógrafos no contato com a família do então deputado federal, e a forma como a imprensa se portou diante do problema de coração que ele teve durante o processo.

"Todo este processo foi duro, mas a maior ferida de todas, a ferida que nunca cicatrizará, é aquela causada pela revolta e indignação por terem conseguido, mídia e pessoas covardes, colocar em dúvida a real condição de saúde do meu pai. Quem dera ele nunca tivesse tido a dissecção da aorta. Estaria sem a domiciliar, sem nós, mas estaria com o coração forte. Quem dera ele não necessitasse cuidados médicos por conta da coagulação de seu sangue; ele estaria comendo mal, mas não teria a ameaça de um AVC. Quem dera não tivéssemos que passar por juntas médicas, que olhavam meu pai como um enganador de sua própria condição de saúde."

Pergunto a Miruna como é o estado de espírito de José Genoino hoje, fora da prisão, seu cotidiano…

Ele também pretende escrever um livro?

Meu pai é um homem com imensa capacidade de se reinventar e como filha me orgulho profundamente disso. Hoje ele se dedica a conversas sobre sua paixão, que é a política, e a sociedade democrática e justa, com grupos de amigos e pessoas que queiram ouvi-lo, refletir com ele. Está estudando, pois isso é algo que ele jamais deixou de lado e está se dedicando muito à família, em especial aos netos, fazendo com eles o que não pôde fazer por mim e por meus irmãos por conta da política. E sim, quando chegar o momento meu pai vai falar, vai contar a sua verdade e sua história."

Como vocês estão acompanhando a nova prisão de Zé Dirceu e a Lava-Jato?

Nós sentimos muito esta prisão do Zé Dirceu e somos totalmente solidários a ele e sua família por toda a arbitrariedade a qual ele já foi e continua sendo submetido. A Lava-Jato nos preocupa pela quantidade de novas formas e processos jurídicos que mostram que precisamos repensar esta relação mídia e justiça, pois certamente quem é citado não consegue nunca mais se livrar desta marca, já tem seu nome jogado nas manchetes, sua casa invadida, e isso é uma injustiça por si só, ser condenado antes de ser julgado com 

Você diz no livro que aguarda Justiça. Que tipo de Justiça ainda poderia ser feita?

Um novo julgamento deste processo todo. Que sejam analisadas as provas, e não os "achismos", as situações de "ele deveria saber". Que um dia se prove que meu pai nunca cometeu crime algum. Sua história não é de dinheiro, mas sim de luta por seus ideais, de forma democrática e humana.

Livro: Felicidade Fechadacapagenoino.jpg

Autora: Miruna Genoino

Editora: Cosmos

Quanto: 65 reais, 266 págs.

Lançamento: 16 de março, 20 h, no Espaço ViaTV – rua José Piragibe, 366, Butantã, São Paulo-SP.

 

Defesa exposta

Mauro Santayana: o escândalo A-Darter

Ou de como a tentativa de assassinato da Odebrecht pode ferir de morte a construção do mais avançado míssil da Força Aérea Brasileira
por Mauro Santayana publicado 20/02/2017 10h32, última modificação 20/02/2017 10h37
© poder aéreo
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Com o cerco à Odebrecht pelos nossos juízes e procuradores coloca-se sob risco a soberania brasileira no setor militar

Está dando certo o implacável, mesquinho, totalmente desvinculado da estratégia e dos interesses nacionais, cerco, montado pela Procuradoria-Geral da República, para arrebentar com a Odebrecht, não apenas dentro do Brasil, mas, em conluio com os Estados Unidos, também na América do Norte e, com base em "forças tarefas" conjuntas, nos mais diferentes países da América Latina.

Pressionada pela perseguição além fronteiras da Jurisprudência da Destruição da Lava Jato e pela estúpida, desproporcional, multa, de R$ 7 bilhões estabelecida a título de punição, pelo Ministério Público brasileiro, em parceria com o Departamento de Justiça norte-americano, a Odebrecht não está conseguindo vender boa parte dos ativos estratégicos que tenta colocar no mercado, para evitar sua bancarrota e total desaparecimento, com a paralisação de dezenas de bilhões em projetos, muitos deles estratégicos, dentro e fora do país, e a demissão de milhares de colaboradores que trabalham no grupo, que já foi obrigado a se desfazer de mais de 150 mil pessoas nos últimos dois anos.

Com o cerco à empresa, que bem poderíamos classificar de mera tentativa de assassinato, considerando-se o ódio com que vem sendo tratada a Odebrecht pelos nossos jovens juízes e procuradores – já que poderiam ter sido presos eventuais culpados sem praticamente destruir a maior multinacional brasileira de engenharia –, coloca-se sob risco direto, não apenas a construção do futuro submarino nuclear nacional (e de outros, convencionais), mas também a produção dos mísseis A-Darter, destinados aos caças Gripen NG BR, que se encontram em desenvolvimento pela Mectron, empresa controlada pela Odebrecht, em cooperação com a Denel sul-africana.

Não tendo conseguido negociar a Mectron, incluída em sua lista oferecida ao mercado, a Odebrecht pretende, agora, esquartejar a companhia e vender seus projetos um a um – entre eles o desse avançado míssil ar-ar – para quem estiver interessado em ficar, entre outras coisas, com parte do know-how desenvolvido pelo Brasil nessa área, desde a época do míssil "Piranha".

Enquanto isso, a Presidência e o Congresso fazem cara de paisagem.

Quando, diante desse absurdo, o mínimo que a Comissão de Defesa Nacional – por meio de CPI para investigar o caso –, o Ministério da Defesa e o Ministério da Aeronáutica deveriam fazer seria pressionar e negociar no governo o financiamento da compra da Mectron por uma empresa da área, como a Avibras, por exemplo, com recursos do BNDES, ou injetar dinheiro do Banco – agora emagrecido em R$ 100 bilhões "pagos" antecipadamente ao Tesouro – para que comprasse provisoriamente a Mectron, assegurando que seu controle ficasse com o Estado, ao menos até o fim do programa A-Darter, ou que se estabelecesse uma estratégia voltada para impedir sua desnacionalização.

O problema é que o BNDES, como faz questão de afirmar a nova diretoria, pretende mudar de foco para dar atenção – o que quer que isso signifique – a projetos que beneficiem "a toda a sociedade".

Será que seria possível que a finalização do desenvolvimento de um míssil avançado para os novos caças de nossa Força Aérea, destinado a derrubar aviões inimigos em situação de combate, em que já foram investidos milhões de dólares, viesse a ser enquadrado nessa categoria e na nova doutrina de funcionamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – que já bloqueou R$ 1,5 bilhão que a Odebrecht teria a receber por obras no exterior – ou estaríamos pedindo demais e exagerando na importância do caso?

Marcio Pochmann

Na era da pós-verdade, a economia também oscila entre o fato e a versão

Estaria em curso um novo espaço de retomada, segundo o ministro Meirelles. Mas isso não significa superação da recessão. Apesar dos discursos alinhados a ele, a realidade caminha para a estagnação
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 19/02/2017 12h56
EBC
Henrique Meirelles

Meirelles: fatos não ratificam suas previsões

A discussão a respeito da situação econômica atual no Brasil tem sido no mínimo excêntrica, pois parece resultar de certa confusão que se generaliza, muitas vezes, da inadequada interpelação do fato (a realidade econômica) por versões (narrativas) produzidas nas distintas análises sobre a realidade. Sobre a recessão econômica (o fato), por exemplo, não tem havido, em geral, maiores discordâncias entre analistas.

Entretanto, quando se trata de narrativas sobre a recessão, bem como sua possível superação, tende a predominar intensa controvérsia. De certa forma, a manifestação ideológica de um discurso que tende a expressar diferenças significativas entre análises de personagens distintos, como no caso do político e do técnico, conforme ensinou Max Weber. Enquanto o primeiro estaria mais comprometido com o convencimento de outros (independente de sua versão ser a verdadeira), o segundo preocupar-se-ia mais com a verdade (independente do convencimento de outros).

Isso tem sido bem presente desde 2015, quando a recessão econômica se tornou inegável. Nas palavras do ministro Joaquim Levy, na Fazenda – condutor da inflexão econômica mais acentuada desde a última recessão do governo Collor (1990-1992) –, a recuperação econômica, por exemplo, não deixaria de se tornar rapidamente realidade a partir do final do primeiro semestre de 2015.

Após 11 meses no cargo de ministro da Fazenda, a queda no nível da produção no país havia se aproximado de 4%. Com a ascensão de Nelson Barbosa na condição de sucessor de Levy no ministério da Fazenda do segundo mandato da presidente Dilma, idêntica retórica da recuperação do nível de atividade foi estabelecida enquanto promessa para o final do primeiro semestre de 2016.

Na arbitrariedade e virulência golpista que impediu o mandato da presidente Dilma, o ministro Barbosa deixou o cargo quase cinco meses após assumir sem constatar no horizonte próximo do ano de 2016, todavia, sinais da almejada recuperação econômica. Com a instalação de Temer no governo federal, Henrique Meirelles assumiu a condição de ministro da Fazenda repisando idêntico compromisso de rapidamente fazer com que a economia brasileira voltasse a crescer ainda em 2016.

Desde o final do segundo ano de extensão recessiva, que possivelmente cravou em 2016 uma queda ainda mais acentuada do que em 2015 no nível de produção, o debate sobre a recuperação econômica voltou novamente à tona. Os economistas alinhados com a política econômica do governo Temer têm sido incisivos na difusão de análises que negariam um terceiro ano de recessão na economia brasileira.

Isso porque neste primeiro trimestre de 2017, a recessão não apenas estaria estancada, como estaria em curso um novo espaço de expansão para a economia nacional, segundo ministro Meirelles. Não se pode dispensar, evidentemente, a possibilidade de este ano haver alguma variação ligeiramente positiva do PIB.

Mas isso não significa necessariamente a simples superação da recessão atual. Conforme experimentado nas duas grandes recessões ocorridas no início dos anos de 1980 e de 1990, o registro de variação positiva no PIB em um determinado ano não afasta a possibilidade de se concretizar uma nova queda no nível de atividade, como se verificou em 1982 e 1991.

Ademais, sem registrar sinais consistentes de sustentação de uma recuperação pelo setor externo, gasto público e investimento interno e estrangeiro, o mais provável seria a condição de estagnação da economia brasileira. Isso seria a evolução da realidade, embora o discurso dos alinhados com o neoliberalismo busque firmar o contrário, formulando retoricamente um cenário positivo.

Márcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.



Mala

Revista 'Istoé' perde todos os limites e põe alucinado para atacar Lula

Não precisa força-tarefa para se ter ideia de quem é Davincci Lourenço de Almeida, basta o YouTube
por Fernando Brito publicado 18/02/2017 14h08, última modificação 20/02/2017 11h48
Reprodução
Isto é

Faltou 'munição' para responder a novas pesquisas apontando favoritismo de Lula. O negócio é apelar

Tijolaço – O grande furo de reportagem da revista Istoé é um sujeito com toda a pinta de desequilibrado que diz ter levado “uma mala de dinheiro” a Lula na “Morro Vermelho”, uma empresa do grupo Camargo Correa.

Trata-se do cidadão Davincci Lourenço de Almeida, que diz ser “sócio de um ex-acionista da Camargo Correa”, morto há cinco anos.

Veja a apresentação da matéria:

O personagem que estampa a capa desta edição de Istoé chama-se Davincci Lourenço de Almeida. Entre 2011 e 2012, ele privou da intimidade da cúpula de uma das maiores empreiteiras do País, a Camargo Corrêa. Participou de reuniões com a presença do então presidente da construtora, Dalton Avancini, acompanhou de perto o cotidiano da família no resort da empresa em Itirapina (SP) e chegou até fixar residência na fazenda da empreiteira situada no interior paulista. A estreitíssima relação fez com que Davincci, um químico sem formação superior(???), fosse destacado por diretores da Camargo para missões especiais. Em entrevista à Istoé, concedida na última semana, Davincci Lourenço de Almeida narrou a mais delicada das tarefas as quais ficou encarregado de assumir em nome de acionistas da Camargo Corrêa: o transporte de uma mala de dinheiro destinada ao ex-presidente Lula. “Levei uma mala de dólares para Lula”, afirmou à Istoé.

Não precisa força-tarefa para se ter ideia de quem é Davincci Lourenço de Almeida, basta o YouTube.

Aqui você vê o sujeito em cima de um caminhão pedindo intervenção militar, dizendo-se “químico-físico das Forças Armadas” e contando ter sido procurado para “fazer a nanotecnologia das aeronaves do Exército”. Parei aí, mas quem quiser pode ver o resto.

Já aqui, o “delator” da Istoé faz outra grave denúncia: que a dengue e o zika virus são “manipulações” de Dilma Rousseff e apresentando o “seu” mosquito,  “que não é do PT”.

  

Em outra, o cidadão diz que Celso Russomano é cúmplice da manipulação de urnas eletrônicas.

E, pra terminar, o simpático delator demonstrando seu produto de alta tecnologia, um polidor de automóveis que “inverte o campo elétrico” e deixa seu carro brilhando.

Pô, Lula, quando você ganhar uma indenização da seríssima Istoé, manda alguém fazer uma doação pro Tijolaço, nem que seja um adicional por insalubridade de eu ter assistido essas drogas.

Eu não sei o que acabou primeiro: a inteligência, a decência ou o jornalismo.

 

neoliberalismo

Plano econômico de Trump busca revigorar indústria e ampliar investimento militar

Algo diferente do que foi realizado desde a ascensão do neoliberalismo pelo governo de Ronald Reagan (1981–1989) parece estar em movimento com a orientação conservadora de Donald Trump
por Marcio Pochmann publicado 17/02/2017 12h32, última modificação 17/02/2017 13h12
Gage Skidmore/Flickr CC
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Plano econômico de Trump tem desafios consideráveis pela frente, que podem dificultar ou inviabilizá-lo

Pela administração do Partido Democrata nos Estados Unidos, conduzida pelo presidente Barack Obama entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017, a globalização neoliberal seguiu sem entraves, ancorada na submissão nacional aos acordos de livre comércio entre distintos países. A estratégia era a de fazer frente ao avanço econômico chinês no mundo.

Naquele contexto em que no Brasil as viúvas do neoliberalismo bateram panelas contra a política externa altiva e ativa dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores (2003 – 2016), de reorientação da inserção nacional e do comércio internacional para as regiões mais dinâmicas, não as decadentes como Estados Unidos e Europa. Os representantes do pensamento tupiniquim prisioneiro aos interesses das velhas potências mundiais defendiam internamente a adoção generalizada dos acordos de livre comércio, buscando prolongar o natimorto projeto Alca – Área de Livre Comércio das Américas, desde o governo Bill Clinton (1993-2001) até o de Bush filho (2001-2009).

A troca de comando dos Estados Unidos, do partido Democrata pelo Republicano, sob a direção do presidente Donald Trump, passou a apontar para outra estratégia econômica. A vitória eleitoral do diagnóstico do então candidato Trump de que a estratégia econômica adotada pelos governos anteriores de defesa da globalização neoliberal se mostrava negativa aos interesses majoritários dos Estados Unidos era, de certa forma, comparável aos argumentos expressos pelo candidato derrotado nas prévias realizadas no interior do Partido Democrata, senador Bernie Sanders. 

Neste início tumultuado do mandato Trump, o seu plano econômico começa a ganhar corpo. Dois são os seus componentes fundamentais dentro do objetivo maior de soerguer a economia estadunidense em novas bases.

Inicialmente, a inflexão na exposição competitiva do sistema produtivo ao exterior. Os indicativos da nova política comercial protecionista prevalecem pela orientação do abandono dos grandes acordos de livre comércio estabelecidos pela administração Obama.

Na sequência, a imposição de novos direitos sobre a aduana, com a taxação de produtos chineses (em até 45%) e mexicanos (em até 35%). Também a limitação à imigração se expressa por diferentes formas, inclusive com a construção de muro na fronteira com o México e na legislação de perseguição aos imigrantes ilegais.

Nesse sentido, a busca pelo revigoramento da produção nacional, ancorada na reindustrialização dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a geração de mais e melhores empregos aos trabalhadores do país.

O segundo componente do plano econômico de Trump assenta-se na nova política orçamentária. De um lado, o desencadeamento do programa de investimento em infraestrutura objetivando modernizar a base do sistema produtivo em conjunto com o fortalecimento das empresas e empregos nas construtoras do país. 

Para tanto, a recuperação na participação do setor público no total dos investimentos. Em 2015, por exemplo, o Estado respondia no investimento por somente 1,7% do PIB, enquanto no início dos anos de 1990 alcançava quase 2,8% do Produto Interno Bruto estadunidense.

De outro lado, a administração Trump aponta para a recomposição do conjunto da despesa pública, com aumento do gasto militar, dos atuais 3% para 6,5% do PIB e a diminuição dos serviços públicos civis, como na saúde, por meio de restrições ao programa Obamacare.

O ativismo fiscal de Trump parece ser ainda mais ampliado também pelo corte do lado da receita pública, com a redução em torno de 6% da arrecadação tributária federal anual. A contenção de impostos visa a substituir a despesa com educação pública pela maior disponibilidade de renda dos indivíduos para o autofinanciamento da educação privada. 

Obviamente que o programa econômico de Trump tem desafios consideráveis pela frente, que podem dificultar ou até mesmo inviabilizá-lo. De todo modo, algo diferente do que foi realizado desde a ascensão do neoliberalismo pelo governo de Ronald Reagan (1981- 1989) parece estar em movimento neste início de 2017.

* Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Brasileiro

Protesto por saúde pública homenageia 'doutor' Sócrates em UPA

Além de ex-jogadores e dirigentes, evento no domingo (19) em Itaquera, zona leste de São Paulo, deve contar com a participação do ex-ministro Alexandre Padilha e ativistas em defesa do SUS
por Antonio Carlos Fon publicado 17/02/2017 11h18, última modificação 17/02/2017 11h52
Arquivo/EBC
Sócrates

Doutor Sócrates mergulhou na luta da torcida corintiana pela democracia no Brasil em tempos de ditadura

GGN – A torcida do Corinthians vai realizar no próximo domingo (19) às 10h uma homenagem ao médico e ex-jogador Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ou simplesmente Doutor Sócrates, como ele será sempre lembrado pelos corintianos. Sócrates, falecido em dezembro de 2011, completaria 63 anos no domingo. A homenagem será na UPA 26 de Agosto, que tem esse nome em comemoração à data em que ele marcou seu primeiro gol pelo Corinthians e fica ao lado da Arena Itaquera e bem próximo ao terminal Itaquera do Metrô. Tão próximo que dá para ir andando de um para o outro. 

Sócrates Brasileiro – nós, corintianos, costumamos abolir o resto do sobrenome. Afinal, Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é casa grande demais para o Doutor, homem que viveu e amou a senzala. O que ele era mesmo é Brasileiro. Daqueles brasileiros que chegavam a São Paulo, fugindo da fome e dos coronéis, torcendo pelos times de seus estados – Bahia, Vitória, CRB, CSA, Santa Cruz, Botafogo e Auto Esporte e por aí vai... – e acabavam virando corintianos. Até porque, um negro palmeirense que se aventurasse a ir torcer no meio da torcida do Palmeiras para ver o que lhe acontecia... Ou um nordestino ir torcer pelo São Paulo no meio da torcida são-paulina... 

Com o Sócrates aconteceu algo parecido. Ele também chegou a São Paulo torcendo por outro time. Na infância era santista, como todos os meninos que cresceram nos anos 60, vendo as maravilhosas apresentações de Pelé. Depois virou Botafogo – de Ribeirão Preto, fique claro – onde ele, meia-direita, camisa 8, conheceu Geraldão, centroavante, camisa 9, e que também se tornou ídolo no Corinthians. E aí aconteceu o Corinthians. E nós e o Doutor nos apaixonamos. 

Dizem que não queria vir, não queria largar a faculdade de medicina, o chope do Pinguim e os amigos Cachaça e Datena. Adiou o noivado por dois anos, mas bastou se conhecerem, ele e a Fiel, para se apaixonarem. E aí, que me desculpe a Katia, foi um amor arrebatador. 

O Doutor mergulhou na luta da torcida corintiana pela democracia no Brasil em tempos de ditadura. E junto com seus companheiros e alguns dirigentes, criou a Democracia Corinthiana, cujo posicionamento combinava a luta pela democracia no país com a luta pela democracia no futebol. Acabou “exilado” na Itália. Ao voltar, já aposentado para o futebol, dedicou sua vida à democratização da saúde. 

E é, de certa forma, também sobre democratização da Saúde que deve falar o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao abrir a homenagem. Padilha – corintiano - foi, também, o construtor da UPA 26 de Agosto, que passou a atender os milhões de moradores do extremo da periferia leste de São Paulo. Lá onde fica o estádio do Corinthians. 

A geriatra, professora e corintiana Celia Medina vai falar sobre a necessidade de defesa do SUS contra projetos de privatização da saúde. Walter Falceta, presidente do Coletivo da Democracia Corinthiana, editor, jornalista e especialista na história do Corinthians fará uma exposição sobre Sócrates como jogador, médico e cidadão na defesa da democracia e de um governo voltado para a população mais humilde. 

Ex-jogadores companheiros de Sócrates na Democracia Corinthiana e do time campeão de 1977, ex-dirigentes e personalidades representantes de entidades como o MST, farão uma visita à UPA e a seus pacientes; O encerramento será com uma homenagem à Gaviões da Fiel, Camisa 12 e da Pavilhão Nove, as três torcidas que estão proibidas de assistir os jogos do Corinthians desde a emboscada que levou seus torcedores à prisão, no Rio de Janeiro. ​O ato será animado pela bateria de estádio da Gaviões da Fiel.

Homenagem

manifesto

Engenharia unida reage à destruição em curso da economia brasileira

Clube de Engenharia pede urgência em proposta de desenvolvimento para superar depressão econômica e que gere emprego. Petrobras está sendo "submetida a um processo sistemático de destruição"
por Clube de Engenharia publicado 16/02/2017 10h56, última modificação 16/02/2017 14h15
reprodução/EBC
engenharia

Amesquinhamento e a desvalorização da engenharia pública acarreta perda de competências

O Clube de Engenharia, ao longo dos seus 136 anos, contribuiu permanentemente para o desenvolvimento do município do Rio de Janeiro, do Estado e do País. No Império, no Distrito Federal, como capital da Guanabara e capital do Estado do Rio, a ação do Clube de Engenharia foi, é, e será a de formulador de propostas de desenvolvimento econômico, político e social.

Com Pereira Passos tivemos importante contribuição na modernização do Centro do Rio. Participamos das discussões do Plano Agache, em 1928; discutimos o código de água nos anos 30 e a proposta de eletrificação, de aproveitamentos hidroelétricos do Vale do Paraíba que deram origem ao Complexo de Ribeirão das Lajes. Participamos da defesa do minério de ferro brasileiro; da constituição da Companhia Vale do Rio Doce e, no momento seguinte, da constituição da Petrobras. Atuamos ativamente na discussão do Plano Doxiadis, no governo Carlos Lacerda, e da discussão do Metrô, tanto na década de 60 como na década de 70.

Esse é o papel do Clube: contribuir, criticar, formular. E não seria diferente agora, frente ao desmonte da engenharia brasileira, quando acontecem reuniões Brasil afora com profissionais, empresários, trabalhadores e representantes da academia, indústrias e poder público, mobilizados com lideranças das principais entidades de engenharia do Rio de Janeiro e do país para fazer ecoar a voz de protesto das engenharias e da sociedade contra a destruição em curso da nossa economia.

Urge uma proposta de desenvolvimento que gere emprego e que nos retire dessa situação calamitosa de depressão econômica, com um número crescente de empreendimentos comerciais e fabris fechados em todo o território nacional. Inacreditavelmente o Rio de Janeiro, que até os anos 50 era a principal base industrial do Brasil, e que só perdeu essa posição para São Paulo na segunda metade dos anos 50, caminha para ser uma cidade fantasma! A cidade que sedia a Petrobras, empresa que ao longo de seis décadas de existência se responsabilizou pela formação de uma cadeia de mais de 5.000 fornecedores nacionais e estrangeiros, e que recentemente acolheu aqui centros de pesquisa da Halliburton e da GE, está submetida a um processo sistemático de destruição. É neste cenário que se perde o emprego, a ciência, a tecnologia e a engenharia.

Com o amesquinhamento e a desvalorização da engenharia pública, responsável pela formulação do nosso planejamento ao longo de décadas, também deixamos que se perca a nossa reconhecida competência.

Cresce o movimento que tem entre seus principais objetivos preservar as empresas e garantir o emprego, sensibilizando os poderes públicos, a prefeitura do Rio de Janeiro, os governos do estado do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de São Paulo, estados lindeiros da maior província de petróleo já descoberta nos últimos 30 anos, exatamente os mais prejudicados com a destruição de empresas e empregos. O movimento em defesa da Petrobras não é um movimento xenófobo, que se contrapõe à participação das empresas estrangeiras, desde que se comprometam com a geração de emprego e tecnologia e que paguem impostos aqui. O Brasil caminhará para uma convulsão social se não houver a compreensão de que é importante entender o Petróleo como garantia do desenvolvimento e da soberania.

Muitos outros problemas se agravam ao longo do tempo, como saúde, educação, habitação e mobilidade urbana. É inadmissível, por exemplo, que o Rio, cidade âncora do desenvolvimento cultural e educacional, dotada da mais formidável rede de escolas públicas do país, veja o ensino público desvalorizado e enfrente hoje uma luta feroz para que a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) se mantenha como universidade pública.

São compromissos dos quais o Clube de Engenharia não pode abrir mão, em defesa do Estado Democrático de Direito, por um desenvolvimento soberano, sustentável e socialmente inclusivo. 

América Latina

Movimentos sociais vivem dilemas na luta contra o neoliberalismo

Ações das camadas populares têm de se combinar com a ação dos Estados se queremos de fato transformar o mundo
por Emir Sader publicado 13/02/2017 12h47, última modificação 13/02/2017 14h14
Evo Morales/arquivo pessoal / Twitter
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Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, Bolívia: presidentes formados nos movimentos sociais para transformar seus países

Na Bolívia e no Equador, os movimentos sociais se cansaram de derrubar governos neoliberais e decidiram, finalmente, fundar seus próprios partidos e lançar candidatos à Presidência da nação. Mais recentemente, no marco do Fórum Social Mundial – ou ao lado dele –, ONGs e alguns movimentos sociais se opuseram a esse caminho e pregaram a "autonomia dos movimentos sociais", ou seja, não se deveria meter em políticas, nem com o Estado, menos ainda com partidos.

Na Argentina do fim dos anos 1980, diante da maior crise econômica, política e social da sua história, movimentos renunciaram a lançar candidaturas à Presidência, com o lema: "Que se vayan todos". Resultado: Menem ganhou no primeiro turno, prometendo que daquela vez iria dolarizar definitivamente a economia argentina, o que acabou levaria à ruína sem retorno não só a Argentina, como os processos da integração latino-americana.

A ilusão despolitizada e corporativa do "Que se vayan todos" deixaria o campo livre para essa monstruosa operação menemista, com efeitos negativos para toda a região. A ilusão é a que eles se irão, sem que se os faça ir embora, sem que os derrote com um projeto superador do neoliberalismo.

Voltando à Argentina, anos mais tarde apareceu a candidatura vitoriosa de Néstor Kirchner, para iniciar o resgate mais espetacular que o país vizinho havia conhecido da sua economia, dos direitos sociais, de valorização das pessoas, do prestígio do Estado, do marco da recuperação da soberania externa.

Enquanto isso, movimentos que se ativeram à esdrúxula tese da autonomia dos movimentos sociais, como os piqueteros argentinos, simplesmente desapareceram.

No México, depois do enorme prestígio que haviam tido ao assumirem posição semelhante – "Mudar o mundo sem tomar o poder", de John Holloway e Toni Negri, com este último condenando os Estados como superados instrumentos conservadores -, os zapatistas desapareceram da cena política nacional, recluídos em Chiapas, o mais pobre estado mexicano.

Mais de 20 anos depois, nem Chiapas nem o México foram transformados sem tomar o poder, até que os zapatistas resolveram lançar uma dirigente indígena à Presidência da República nas eleições do próximo ano, voltando a disputar os espaços políticos nacionais e deixando aquelas teses para trás. Mesmo sem dizer que vão transformar o país mediante vitória eleitoral, valorizando a disputa eleitoral, deixando de lado as políticas de denúncia das eleições e de abstenção.

Enquanto isso, a Bolívia e o Equador, rompendo com essa visão estreita de restringir os movimentos sociais apenas à resistência ao neoliberalismo, fundaram partidos, apresentaram candidatos à presidência da República – Evo Morales e Rafael Correa –, triunfaram e puseram em prática os processos de maior sucesso na transformação econômica, social, políticas e cultural na América Latina do século 20.

Refundaram seus Estados nacionais, retomaram o desenvolvimento econômico com distribuição de renda, se aliaram aos processos de integração regional, ao mesmo tempo que integraram as amplas camadas populares aos processos políticos nacionais.

Ao contrário do fracasso das teses da autonomia dos movimentos sociais, que renunciaram à luta pela hegemonia alternativa de alcance nacional e de luta pela construção concreta de alternativas ao neoliberalismo, sob a direção de Evo Morales e de Rafael Correa, a Bolívia e o Equador demonstraram como somente a articulação entre a luta social e a luta política, entre os movimentos sociais e os partidos políticos, é possível construir blocos de força capazes de avançar decisivamente na superação do neoliberalismo.

As teses de Toni Negri sobre o fim do imperialismo e dos Estados nacionais foi desmentida pela própria ação imperialista logo depois dos atentados de 2001, enquanto os governos sul-americanos demonstraram que somente com o resgate da ação do Estado é possível retomar o desenvolvimento com distribuição de renda.

A pobreza persistente em Chiapas pode ser comparada com os avanços espetaculares realizados em todas as províncias da Bolívia, como exemplo, para demonstrar, também pela via dos fatos, como a ação de baixo tem de se combinar com a ação dos Estados, se queremos de fato transformar o mundo.

Outras teses, como as de Boaventura de Sousa Santos e de várias ONGs, de optar por uma "sociedade civil" na luta contra o Estado, não têm nenhum exemplo concreto a apresentar resultados positivos, mesmo com as ambíguas alianças com forças neoliberais e de direita, que também se opõem ao Estado e fazem alianças com ONGs e com intelectuais para se oporem a governos como os de Evo Morales e de Rafael Correa, mas também contra os outros governo progressistas na América Latina.

Além do fracasso teórico das teses da autonomia dos movimentos sociais, se pode apresentar os extraordinários avanços econômicos, sociais e políticos, em países como a Argentina, o Brasil, o México, o Uruguai, além dos já mencionados, como provas da verdade das teses da pauta antineoliberal como a luta central do nosso tempo.

 

Análise

A deterioração da ética pública na era Temer

Em mais um episódio de degradação moral, Temer escolheu para ministro do STF figura nada discreta, truculento, sem respaldo acadêmico e sem requisitos constitucionais mínimos para a vaga
por Eugênio Aragão publicado 13/02/2017 11h13
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Temer e Alexandre de Moraes

"Com o golpe, embrutecemos de vez na banalidade da falta de vergonha ante escancarado desvio de poder"

GGN – Na disputa da vaga aberta no STF pela aposentadoria de Carlos Aires Brito, despontou como "candidato" com maiores chances à indicação presidencial o Prof. Heleno Torres. Chegou a ser recebido pela Presidenta Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada, que, segundo se fez circular, batera o martelo em seu favor, mas lhe pedira absoluta discrição enquanto não houvesse anúncio oficial do nome. Heleno, porém, com forte apadrinhamento no STF e no governo, não honrou o pedido da Presidenta. Almoçando em elegante restaurante dos Jardins em São Paulo, na companhia do então Advogado-Geral da União, Luis Inácio Adams, deu com os dentes na língua e falou pelos cotovelos, a comemorar antecipadamente a indicação. Presenciado por gente da imprensa, o fato espalhou-se como fogo de palha e gerou enorme constrangimento para a presidenta e o próprio "candidato". O resultado não tardou: Heleno Torres tornou-se, talvez, o primeiro caso de martelo "desbatido" na história das supremas indicações. Tentou desesperadamente contato com a presidenta para se justificar, sem sucesso. Dilma não atendeu. A deslealdade não merecia tratamento diverso.​

É oportuno lembrar esse episódio no atual momento político, no qual o sr. Alexandre de Moraes se encontra em maratona de lobby para fazer seu nome ser aprovado pelo Senado. Na sua extrema ambição pessoal, o atual "candidato" não difere muito de Heleno Torres. Mas os tempos são outros.

Alexandre de Moraes também é tudo menos discreto. Divulgou a escolha para amigos e conhecidos antes mesmo dela se tornar oficial. Embora noticiada, a deselegante indiscrição não produziu nenhuma consequência. Temos um "presidente" pouco preocupado com isso. Imagem pública não é seu forte mesmo. Autoridade moral para cobrar lealdade, muito menos ainda.

No mais, Temer sabe perfeitamente quem escolheu:

Escolheu quem no exercício do cargo de secretário de Segurança do estado de São Paulo foi de notória truculência com manifestantes e dirigiu uma polícia campeã em execuções sumárias.

Escolheu quem na vida acadêmica só fez nome entre concurseiros, não entre doutrinadores.

Escolheu quem enche linguiça em seu currículo Lattes, fazendo constar até mesmo que iniciou programa de pós-doutorado antes de ser mestre e no início do doutorado.

Escolheu quem foi flagrado publicamente na prática de plágio em obra publicada como sua.

Escolheu quem como ministro da Justiça foi uma nulidade, suspendendo durante toda a sua gestão as ações da pasta e revelando-se mais preocupado com a promoção pessoal.

Escolheu quem na condição de ministro de Estado fez visita a um controvertido juiz de piso, para render-lhe suas homenagens.

Escolheu quem não soube guardar segredo do cargo e antecipou a eleitores a realização de operação policial sigilosa em sua cidade.

Escolheu quem negou pedido desesperado de uma governadora nortista de envio da Força Nacional para debelar o risco de motins no sistema penitenciário, tornando-se corresponsável pela morte de mais de uma dezena de brasileiros decapitados.

Escolheu quem, na cobrança pela sua omissão, negou ter sido solicitado pela governadora, sendo depois publicamente por ela desmentido, com exibição da troca de comunicação escrita.

Escolheu quem fez papel de garoto-propaganda, capinando maconha em território de fronteira.

Escolheu quem não respeita os direitos constitucionais dos povos indígenas e determinou a revisão de portarias de reconhecimento do indigenato.

Escolheu quem não sabe debater em público e exige de quem o desafia que "cale a boca".

Em resumo, escolheu um "troublemaker", um criador de caso, não alguém com perfil de magistrado.

Salta aos olhos que o sr. Alexandre de Moraes não atende os requisitos constitucionais para o cargo de ministro do STF.

O escândalo dessa indicação não termina aqui. Noticia-se que o sr. Alexandre de Moraes pediu licença não-remunerada do ministério da Justiça em plena crise de segurança pública que assola várias cidades do país, para se autopromover nos gabinetes do Senado, mais preocupado com a sabatina. Deixou, portanto, o ministério acéfalo. E como se não bastasse, ainda foi flagrado em rega-bofe a bordo de uma embarcação-motel no Lago Paranoá, no conchavo secreto com senadores que deverão questioná-lo em poucos dias sobre sua aptidão ao cargo. Não é possível imaginar mais desavergonhada exposição de quem almeja a mais alta magistratura do país.

Mas não se pense, nem se reivindique, em tempos de baixa moral e ética pública dilacerada por um golpe de trambicagem na democracia, que o martelo seja “desbatido”. Pelo contrário, os representantes das elites do serviço público atropelam-se pressurosos nos usuais salamaleques ao escolhido, como que concordando com suas práticas. A esperteza vence a discrição e o espírito público, próprios de Teori Zavascki, ministro recém-falecido de forma trágica e prestes a ter seu lugar na Corte usurpado pelo sr. Alexandre de Moraes. No espantoso campeonato de devoção subalterna concorrem a Associação Nacional dos Procuradores da República, o Conselho Nacional dos Procuradores Gerais, a Associação Nacional do Ministério Público, a Associação Nacional dos Magistrados e por aí vai. Fazem um esforço enorme para honrar quem não merece honrarias, quando deveriam, como representantes de carreiras destinadas a garantir a legalidade, questionar a escolha feita de afogadilho, sem qualquer preocupação com o escancarado partidarismo do cidadão agraciado.

Tristes tempos! E ainda ousam comparar esse senhor com o saudoso senador e ministro Paulo Brossard, com quem tive a honra de trabalhar. Liberal conservador cultíssimo e franco oposicionista à ditadura militar, Brossard foi feito ministro do STF quando era Ministro da Justiça e filiado a partido político no governo. Mas as coincidências com o sr. Alexandre de Moraes limitam-se a esses dois últimos aspectos.

Como senador e ministro, Paulo Brossard teve compostura.

Deu-se o respeito.

Não fez declarações partidárias, não participou de campanhas eleitorais quando no ministério.

Respeitou a Polícia Federal e não anunciou operações.

Foi ministro e não militante político enquanto titular da pasta da Justiça.

Não se afastou para fazer chamego em senadores, não pediu nada a ninguém.

Obedeceu rigorosamente à liturgia do cargo.

Jamais se permitiu usar da filiação partidária para decidir desta ou daquela forma.

Foi, em suma, um indiscutível republicano.

Compará-lo com essa nova espécie de maratonista na gincana rumo ao STF não só não lhe faz justiça. Insulta a sua memória.

Este é apenas mais um episódio a comprovar nossa degradação moral e ética depois do arrastão dos trombadinhas aninhados no poder. É sofrido dizê-lo; é sofrido ver tanta vilania ser aplaudida, como se natural fosse, como se fizesse parte da rotina da governação. Longe de agir como Dilma Rousseff no episódio de Heleno Torres, Temer pouco se importa. Talvez até se divirta.

Depois disso nada mais nos surpreende. Com o golpe parlamentar, embrutecemos de vez na banalidade da falta de vergonha ante escancarado desvio de poder às nossas barbas. Que se cuidem nossas instituições, pois a cada dia o respeito da sociedade por elas mais se desvanece.

Ao final, sem autoridade, não haverá quem possa governar o Brasil.

Eugênio Aragão é ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, advogado e professora adjunto da Universidade de Brasília (UnB)