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Gratidão, Augusto Campos

A morte do Augustão é mais uma cruz na lista deste infernal ano de tantas perdas para os trabalhadores
por Paulo Salvador, da RBA publicado 18/07/2017 15h37, última modificação 19/07/2017 18h35
Jesus Carlos/Cedoc Seeb-sp
augusto campos.jpg

Augusto não viveu para si, senão para os outros

Depois de muitos dias de expectativa, nesta manhã muito fria chegou a notícia da morte de Augusto Campos. Ele estava internado no Hospital Nove de Julho, em São Paulo, lutava contra o câncer no fígado e não conseguiu esquivar-se de outros vírus. A morte do Augustão é mais uma cruz na lista deste infernal ano.

O Brasil, os trabalhadores e o movimento sindical tiveram nele um grande líder, daqueles que aparecem pouco e ajudam muito. Ele foi presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região na chapa de oposição considerada como de retomada democrática da entidade, em 1979. Reelege-se em 1981. Em 1983, a entidade sofre uma intervenção da ditadura a pedido do Bradesco, por causa de um protesto no feriado de Osasco. Enquanto dura a intervenção, a diretoria "paralela" liderada mantém a luta dos bancários em movimento, inclusive com a circulação da Folha Bancária diária, impressa por meios alternativos com recursos da militância. Quando a intervenção é levantada, Luiz Gushiken assume a presidência, já em 1985.

Nesse período, no entorno do sindicato gravita uma centena de jovens militantes sindicais oriundos do movimento estudantil e das correntes de esquerda,  apelidados pela ditadura militar de os barbudinhos

Ali estavam também Gilmar Carneiro, Luiz Azevedo, Tita Dias, Aci Rangel, João Vaccari, Lucas Buzato, Edson Campos e muitos outros. É eleito diretor representante no Banespa, que se torna um formigueiro na luta pelo fim da ditadura e na formação de novos dirigentes. Nessa segunda onda, a família militante de Augusto chega a mais de 500 representantes espalhados pelo Brasil, formando novas chapas de oposição, criando novas federações estaduais e a confederação nacional.

É possível dizer que a geração Augusto Campos deixou irmãos, filhos, netos, bisnetos e tataranetos. O sindicato foi determinante na construção da CUT e dali saíram os fundadores do Partido dos Trabalhadores, presidentes de sindicatos, ministros, dirigentes de fundos de pensão e de empresas públicas, deputados, vereadores (ele também um deles, quando se elegeu na Câmara Municipal de São Paulo para o mandato de 2001 a 2004).

Augusto Campos começou sua militância no movimento estudantil da USP, da Rua Maria Antônia. Controlado pelo Partido Comunista Brasileiro, o sindicato não atraia a juventude revolucionária que se levantou em 1968. Como ele, centenas de outros jovens trabalhavam à noite, estudavam e militavam de dia. Em depoimento para o livro de memórias do Sindicato, ele atribui a essa juventude, sua busca pela utopia, o papel transformador nos anos 1970. Era o movimento Participação Ativa que junta esses jovens e constrói a oposição que vence em 1979, pondo fim ao conservadorismo sindical do PCB.

A retomada do sindicato e a gestão na diretoria de representação do Banespa, mais a campanha pelo fim da ditadura e Diretas Já promove uma explosão da militância em novas gerações. A greve geral nacional de 1985 é o retrato dessa explosão. E o legado de Augusto Campos começa por aí, que é a massificação das assembleias e manifestações. No plano pessoal, Augusto se notabiliza pela simplicidade nas roupas, em oposição ao terno e gravata, que lhe valeu o carinhoso apelido de Véio do Rio, em referência ao personagem da novela Pantanal, exibida na TV Manchete.

Augusto leva para o movimento sindical a ideia de construção de acordos coletivos de trabalho que até hoje prevalece no Santander, que comprou o Banespa. Resgata a tradição dos extintos institutos de aposentadoria, estimula a participação dos trabalhadores na gestão dos planos de saúde das empresas e nos fundos de previdência.

Na greve de 1987, introduz a criação do Banesprev, o fundo de complementação de aposentadorias do Banespa. Em muitas assembleias, fazia com que os grevistas enxergassem e acreditassem em sua própria força. Foi determinado na ampliação da comunicação do sindicato, com a Folha Bancária diária e jornais por empresas. Foi o idealizador da Quadra dos Bancários para que os movimentos não ficassem na dependência do aluguel de outros espaços, cuja obra foi concebida pelo arquiteto Vilanova Artigas – e hoje é espaço frequente das lutas democráticas.

Augusto não viveu para si, senão para os outros. E agora não morre para si, senão para nós outros. O momento é de agradecer sua presença em nossas vidas.

 Assista também a reportagem da TVT

Marcio Pochmann

Da Belíndia ao Bahaiti. Pobreza, violência e barbárie no Brasil do golpe

No Brasil de Temer e suas reformas regressivas, ricos querem viver como os xeques do Bahrein, enquanto o restante da população depara com cenário aos moldes do Haiti
por Marcio Pochmann publicado 17/07/2017 13h35, última modificação 17/07/2017 13h57
Arquivo/EBC
Haiti

Sem crescimento e direitos, população brasileira se transforma em precariado sem perspectivas, como no Haiti

As forças do golpe que liquidaram o governo eleito democraticamente em 2014 atacam os pobres sem cessar, na expectativa de trazer de voltar à Belíndia, modelo de sociedade da década de 1970 constituído pelos governos autoritários. Mas na realidade, o atual conjunto de reformas conduzidas em meio a mais grave recessão já vivida pelo país aponta para outro modelo de sociedade, o Bahaiti.

O regime militar que predominou por 21 anos no Brasil (1964-1985) não se sustentou apenas no autoritarismo. A garantia do rápido crescimento econômico foi a senha necessária para o apoio político em troca da expansão dos negócios aos capitalistas e da ocupação aos trabalhadores.

Entretanto, sem democracia, os ganhos econômicos geraram uma das sociedades mais desiguais do mundo, cuja mobilidade social ascendente terminou por esconder anomalias que foram identificadas à época como uma síntese de dois tipos muito diferentes de países: a Belíndia. De uma parte minoritária da sociedade, conformou-se o conjunto de ricos e privilegiados do regime militar com padrão de vida compatível ao da Bélgica.

De outra parte, o conjunto majoritário dos brasileiros esquecidos tanto pela distribuição menos desigual do crescimento econômico como das políticas públicas, cuja dimensão populacional apontou para uma espécie de Índia assentada no baixo padrão de vida. Ademais do atraso, conforme visto pelos moradores da parte “belga”, a parcela considerada “indiana” não fazia parte do orçamento público, salvo pela condição de pagadores dos tributos.

A transição do autoritarismo para o regime democrático a partir dos anos de 1980 trouxe a perspectiva de superação do modelo de Belíndia para o Brasil. De fato, a Constituição Federal de 1988 introduziu importantes possibilidades de prover a inclusão social, sobretudo para os pobres serem incorporados no orçamento público para além da condição de pagadores dos tributos.  

Nesse sentido, o desfazimento da majoritária parcela social identificada como “indiana” se fez por meio de novas políticas públicas capazes de favorecer o ingresso na parte considerada “belga” da sociedade. Nos anos 2000, por exemplo, o Brasil conseguiu combinar de forma inédita o crescimento econômico com regime democrático e inclusão social, o que significou transformação considerável da sociedade.

Isso porque nos anos de 1990, a ausência do crescimento econômico terminou por manter a desigualdade social praticamente congelada, mesmo com o inegável avanço democrático. Na década de 1970, lembrando, o crescimento econômico havia sido inegável, porém com a democracia interrompida pela ditadura, o resultado foi a expressiva desigualdade social. 

Desde as eleições presidenciais de 2014, com mais uma derrota de parcela da oposição com dificuldades de conviver com a democracia houve a tentativa do retorno às teses da Belíndia, com o discurso de que o povo (pobre) não cabe no orçamento público. A defesa das políticas de austeridade, com corte certeiro nos gastos públicos, especialmente aos que atendem aos pobres, ganhou entusiasmo também dos representantes da antiga parte considerada “belga” da população.

A opção do golpe de 2016, com o imediato desmonte das políticas públicas para retirar os pobres do orçamento público em meio a mais grave recessão da economia brasileira, constrói outro modelo de sociedade, distante da Belíndia. O governo Temer e apoiadores de suas políticas neoliberais perseguem o modelo Bahaiti de sociedade, com os ricos satisfeitos pelo novo sistema de castas gerado através da artificialidade do rentismo ou da exportação de riquezas naturais e primárias, como no Bahrein onde o petróleo responde por cerca de 2/3 das exportações e 1/3 do PIB.

Nesse modelo, a maior parcela restante da sociedade é excluída não apenas do orçamento público, mas das oportunidades de ascensão social, tendo que se sujeitar às migalhas da economia dilapidada pela ausência de crescimento e da falsa modernidade das reformas regressivas. O resultado tende a ser a conformação de imenso precariado sem perspectivas, cuja violência e barbárie, como observadas infelizmente no Haiti, passam a ser cada vez mais a essência da reprodução no território brasileiro.

* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

ferrenha ignorância

A batalha na rede: momento da virada da ira justa contra o fascismo é agora

Debater com competência, números e fatos com um adversário na internet pode até não mudar a opinião dele. Mas abala suas certezas. Não se pode abandonar a internet ao ódio, como nos últimos anos
por Mauro Santayana publicado 17/07/2017 11h44
cena de minority report
cena de minority report

Se ameaça protofascista não for contida a tempo, poderá significar a capitulação da liberdade e do direito de defesa

A condenação de Lula sem provas, por um crime que não cometeu – não recebeu, não usufruiu, nunca teve o tal tríplex em seu nome – com a argumentação, como nos filmes de ficção científica (vide A Nova Lei - Minority Report, de Steven Spielberg, 2002), de que tinha a intenção de eventualmente praticá-lo – a quase dez anos de prisão, e a mais de sete de ostracismo político, precisa servir de alerta final, talvez o mais significativo até agora, antes que se proceda à inexorável entrega do país ao fascismo nas eleições do ano que vem.

O passo dado pelo Juiz Sérgio Moro foi de sutileza paquidérmica, do ponto de vista de desrespeito, desconsideração e desprezo pelo Estado de direito. E como já dissemos tantas vezes aqui já estava sobejamente anunciado. Tanto quanto o está a condenação de Lula em segunda instância, em prazo eventualmente recorde – como já dá, espertamente, como favas contadas, certa mídia – se não se estabelecer prontamente uma estratégia de defesa da democracia, com relação às eleições diretas, ocorram elas em 2018 ou nos próximos meses.

O problema não é partidário.

A grande questão não é o que está ocorrendo com Lula, Dilma e o PT, que, por omissão, excessivas concessões ou falta de planejamento e resposta tática, contribuíram também para que as coisas chegassem aonde estão hoje. O drama do PT e de seus dirigentes é apenas a extremidade exposta do iceberg que pode engolir cada um de nós – do que pode acontecer, "casualmente", com a eventualidade de um fenômeno meteorológico, com qualquer cidadão brasileiro, a partir de agora.

O Brasil já vive, de fato, uma ditadura, na qual se prende e se condena sem provas, com base no dedurismo generalizado de presos "provisórios-permanentes" que são obrigados a negociar e a delatar enquanto se encontram sob custódia do Estado – e de empresas que, se não fizerem o mesmo, vão à bancarrota – com pesos, medidas e resultados diferentes para cada tipo de delatado.

Desse esquema faz parte a libertação – para prisão domiciliar – de corruptos comprovados.

E, naturalmente, a condenação de lideranças políticas de certas agremiações – que não receberam dinheiro sujo nem têm conta no exterior – enquanto outras não são detidas, ou servem de distração e de pretexto, na mídia e junto à opinião pública internacional, para justificar o quadro de descalabro jurídico, econômico, estratégico e institucional em que estamos mergulhados.

A defesa da democracia – antes que seja tarde e não se possa mais escapar do arbítrio, das grades e dos porões de um estado jurídico-policial (principalmente policial) que será institucionalizado com sua sagração nas urnas em 2018 – não será alcançada apenas colocando gente na rua ou limitando-se a luta política a uma dimensão partidária e eleitoral.

Até mesmo porque militantes não são coelhos – não se multiplica seu número simplesmente reunindo-os durante certo tempo em algum lugar – e o eleitorado antifascista, principalmente depois do massacre midiático dos últimos anos, vai continuar quantitativamente onde sempre esteve, historicamente, com aproximadamente um terço dos votos nacionais.

A esse terço, matemático, se contrapõe outro, equivalente, em termos numéricos, que se encontra, agora, nas mãos da extrema-direita.

E uma terceira parte, ignorante, fisiológica, oportunista do ponto de vista partidário, que – e é preciso fazer tudo para que isso não ocorra – também tende a pender para direita no segundo turno das próximas eleições.

Na verdade – e há muita gente boa que ainda não entendeu isso – mesmo que Lula seja eleito, caso lhe permitam ser candidato, sem o convencimento real da maioria da população e uma grande diferença de votos, ele será derrubado, em poucos meses, como aconteceu com Dilma, por uma aliança entre os golpistas de sempre e certa mídia – que está fazendo tudo e tudo fará para impedir a sua volta ou permanência no Palácio do Planalto. 

Como já nos cansamos de alertar aqui e em outros espaços desde 2013, a batalha de quem se preocupa em defender a Constituição, o Estado de direito e a democracia, assim como a da própria eleição futura, tem de ser travada não apenas no asfalto, já ocupado e dividido, quase salomonicamente, com a coxinhada, mas nos corações e mentes da população brasileira, com ênfase na parcela que, apesar de sua falta de informação ou conservadorismo, ainda não cerrou fileiras com o fascismo.

Além do processo político "comum" que transcorrerá na superfície, os neofascistas precisam ser combatidos onde têm tido maior sucesso, comentário a comentário, site a site, página a página e, principalmente nos grupos do WhatsApp, com argumentos sólidos, contrapondo-se dados concretos ao seu ódio e à sua ferrenha ignorância, a cada vez que se manifestarem nas redes sociais e nos grandes portais nacionais.

Afinal, já há campanhas presidenciais que estão se desenvolvendo na internet, a rédea solta, de forma cerrada e contínua, há vários meses, enquanto o campo democrático se debate na divisão e na pauta imposta pela Lava Jato e a constante doutrinação e sabotagem da mídia conservadora.

É preciso dizer aos fascistas – fakes ou reais, não interessa de que tipo – que para cada um deles existe pelo menos um brasileiro que pensa diferente – motivado, convincente, racional, mais bem informado, coerente, consciente, com paciência – se necessário for – para ser tão repetitivo e insistente quanto eles.

E não adiantam desculpas como perda de tempo ou o fato de que não se tem assinatura deste ou daquele "veículo".

Quem quer defender a democracia, que assine os grandes jornais e portais, pois não estará investindo mais do que na proteção do que resta das instituições e na sobrevivência futura – dentro da paz possível – em um país minimamente livre, de sua família.

O que não se pode é abandonar a internet – o maior instrumento de comunicação e de doutrinação já criado pelo homem – ao fascismo, como se fez, tola e irresponsavelmente – e não apenas no Brasil – nos últimos anos.

A grande missão de qualquer cidadão digno desse termo, nesta hora, deve ser a defesa e a restauração da verdade, torcida e vilipendiada pela "história oficial" vigente, montada, contada e recontada por uma plutoburocracia parcial e seletiva, totalmente descompromissada, geopolítica e estrategicamente, com o país, movida pela busca de mais poder e por seus interesses – que no mínimo coincidem com os de nossos concorrentes externos – e vaidade.

Debater com competência, números e fatos, com um adversário na internet pode até não mudar a opinião dele.

Mas arrisca a abalar suas certezas.

E impede que o público "neutro" que está acompanhando a discussão, lendo os comentários, venha a se deixar convencer, sem o benefício e a alternativa de uma segunda opinião, pela argumentação costumeiramente mendaz e odiosa dele.

Moro só pôde condenar Lula tranquilamente, da forma como o fez, porque o antilulismo, o antipetismo e o antibolivarianismo – filhos diletos e diretos do anticomunismo tosco, anacrônico e distorcido renascido nos neurônios da nação como um fungo alucinógeno, contaminante e tumoral, nos últimos tempos – tomaram conta, por meio da rede, de uma massa amorfa e mal informada, confundindo-a e manipulando-a sem nenhum tipo de reação – nem de comunicação, nem jurídica – por parte de quem estava sendo atacado – durante quatro longos anos, implantando na cabeça da população um punhado de incontestados paradigmas.

Os mais simplistas – e logo, mais fáceis de serem desmontados – são aqueles que dizem que o PT quebrou o país, que foi implantado no Brasil um governo comunista nos últimos 15 anos, e que o PT odeia as Forças Armadas, por exemplo.

Isso, apesar de o PIB e a renda per capita terem recuado, segundo o Banco Mundial, em termos nominais, nos oito anos de FHC e de que as dividas líquida e bruta serem menores hoje, com relação ao PIB, do que eram em 2002. De o Produto Interno Bruto ter aumentado, nominalmente, pelo menos três vezes em dólares, nos últimos 15 anos, com relação ao do último ano de FHC.

E também de que pagou-se a dívida com o FMI em 2005 e desde então, nos governos do PT, multiplicaram-se por onze as reservas internacionais.

De que, longe de ser comunista, nunca o capitalismo no Brasil cresceu tanto, como na última década e meia, com a explosão dos ganhos do sistema financeiro, daqueles derivados da duplicação da produção agrícola, do aumento das exportações e da expansão do crédito e do consumo.

E de que, quanto à Marinha, ao Exército e à Aeronáutica, em vez de ser contra as Forças Armadas, o PT foi responsável pelo lançamento do maior programa de rearmamento da defesa nacional nos últimos 500 anos, com medidas como a ordem para a construção – em parceria com a França – do primeiro submarino nuclear brasileiro, da nova família de rifles IA2, dos novos caças Gripen NG BR, sem falar de aviões cargueiros como o KC-390, de blindados ligeiros como o Guarani, do novo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, de novos radares e sistemas de artilharia, como o Astros 2020 etc. etc. etc.

Esses são alguns dos argumentos que deveriam ser passados, democraticamente, à opinião pública que faz uso da internet pelo computador e o celular.

Os links e as informações que os sustentam – se o PT quebrou o país como ainda somos o quarto maior credor externo dos EUA? – e os comprovam encontram-se ao alcance de qualquer um, bastando copiá-los e publicá-los, sempre que possível, no final dos comentários. 

Informações de caráter social são importantes, mas opcionais, no caso do público protofascista, já egoísta e excludente por natureza – que é bombardeado, todos os dias, contra as "bolsas" e o "populismo esquerdopata".

O tempo não para – como diria o poeta – e o relógio da História também não se detêm, nem por um átimo.

Segundo a segundo, a cada passo silente, quase imperceptível, do mais fino dos ponteiros, estamos mais perto – e o Brasil mais próximo, historicamente – da batalha decisiva das novas eleições presidenciais.

A saída de Temer e a eventual ascensão de Rodrigo Maia são pouco mais que irrelevantes em termos eleitorais e nada mudará – a não ser para pior – da pauta entreguista e neoliberal em andamento.

O que importa – agora ou no ano que vem – é o próximo pleito.

Basta ler as reações à condenação de Lula na internet para ver onde estão aqueles que podem se levantar contra o autoritarismo.

Trancados, majoritariamente, em seus guetos, expondo, pela enésima vez, uns para os outros, como em um espelho estéril e infinito, sua indignação e perplexidade. Ontem (16), em comentário em artigo do Estadão no UOL, um sujeito afirmou, sem meias palavras, que, diante dos recursos que existem para que Lula escape à sentença de Moro, o melhor seria “mandar logo este cabra pra debaixo da terra" – e ninguém apareceu para contestá-lo até agora

Se essa ira, justa se transformar em força e se derramar para a internet como um todo, a partir desta semana, este poderá ser o momento da virada.

Se, no entanto, continuar contida, restrita e ineficaz, em termos de mudança de jogo, o momento que estamos vivendo se transformará no marco simbólico da capitulação da liberdade e do direito de defesa, da antecipada rendição da resistência democrática, da prévia e definitiva entrega do país a um tipo de fascismo que, uma vez alçado ao poder, dificilmente irá apear-se dele novamente.

pós-tempestade

No rastro do ódio semeado, surge uma trilha rumo a um Brasil na contramão da felicidade

Quem já viveu um Brasil de perseguições, denúncias, delações e caça às bruxas não deseja ver a tragédia se repetir
por Hildegard Angel publicado 17/07/2017 09h52
Reprodução
samuel wainer

Dono da Última Hora, Samuel Wainer sofreu um dos raros os casos de trairagem no meio jornalístico

Hildegard Angel – As pessoas se assustam com a crescente onda de obscurantismo no Brasil. A truculência que arrebata nosso cotidiano, em todos os campos de relações, nos estádios de futebol, discussões de trânsito, desavenças de vizinhos, pequenas discórdias do cotidiano, que antes seriam resolvidas com um aperto de mão ou um desaforado palavrão, daqueles ‘caseiros’, hoje resultam em violentas agressões morais e físicas, até em morte.

Esquadrões de trogloditas musculosos, cheios de endorfina para brigar (e não para amar), são arregimentados, bastando uma compartilhada de Facebook, e vão às dezenas, centenas, aos milhares, barbarizar nas finais de campeonato, em manifestações políticas, discotecas ou bares da madrugada. São hordas e hordas de acéfalos tatuados, deformados pelos anabolizantes proibidos, tanta musculatura que são obrigados a andar meio curvos, fazendo lembrar os antepassados pré-históricos, pré-Civilização, da Idade da Pedra.

Some-se a isso o fenômeno de uma religiosidade exacerbada, que se expande por todo o nosso território, se sobrepondo a qualquer razoabilidade, como se retornássemos aos tempos dos catequistas de índios e negros, inquisidores e reformistas, tentando impor como única a sua fé, nesta Nação historicamente diversa de credos e, por esse motivo – explicavam no passado os antropólogos – amena e cordial.

Imposição também de um jornalismo político corporativo, que serve não à verdade, à notícia e ao público, mas aos interesses do mercado financeiro, às empresas transnacionais, aos seus próprios investimentos e ambições.

Jornalismo pautado pela ausência de controvérsias, gerando um Brasil de animosidades, avesso às diferenças, preconceituoso, elitista. Trilhamos um perigoso caminho rumo ao pior radicalismo de direita, à face do atraso, na contramão de todas as conquistas e possibilidades de progresso, harmonia, felicidade e futuro.

Tal jornalismo não há de querer assumir a autoria do estrago, que com inconsequente competência urde agora. Porém, a onda bolsonarista cresce com perigosa intensidade, e ela não é filha apenas da irresponsabilidade dos tucanos, também tem mãe bem conhecida…

O poder da grande mídia é muito grande, se comparado ao dos Sem Mídia ‘fracos e oprimidos’. O poderoso não admite comentário nem contestação. E o que temos visto hoje, nesses tempos de vacas magras nas comunicações, em que o mercado de emprego é reduzidíssimo? Jornalistas da grande imprensa processando companheiros da pequena imprensa e da mídia virtual e, por força de suas possibilidades bem superiores, invariavelmente vencendo as causas, levando seus colegas a venderem os poucos bens e a promoverem crowfundings nas redes sociais para arcar com as altas somas das sentenças proferidas pelo Judiciário.

Na época opressiva da ditadura isso seria inimaginável. Havia tal senso de classe, fervor corporativo de tal forma solidário, que seria impensável abandonar um companheiro em posição desfavorável. Que dirá pensar em processá-lo. Eram raros os casos de trairagem no meio jornalístico. Um deles foi-me relatado por Samuel Wainer.

Protagonista dos fatos dos anos 60, dono da Última Hora, que apoiava o governo Jango, Samuel era acusado pela concorrência de ir contra a lei, pois estrangeiro não podia ter jornal.  Com o golpe, para não ser preso Samuel refugiou-se na embaixada do Chile, no Rio de Janeiro. O que foi divulgado por Ibrahim Sued em sua coluna social, denunciando a ilegalidade de Samuel, "um judeu da Bessarábia", e que por isso deveria "ir para o paredón" – alusão irônica ao comunismo de Fidel Castro – transmito conforme ouvi de Samuel.

Passada aquela tempestade de 64, finda a ditadura, Sued e Samuel se reencontraram e este – já envelhecido e sem poder – perguntou a Ibrahim, ainda no auge de sua glória: "Por que você fez isso comigo? Você se dizia meu amigo, frequentava a minha casa…". E ouviu: "Samuel, fui menino de Nova Iguaçu, e aprendi que balão, quando está caindo, a gente tasca". Fiquei chocada.

Poucos anos depois, com a morte de Samuel, a família publicou sua biografia. Corri para ler as referências a Ibrahim. Só elogios. Samuel, que deixou filhos e netos, conhecia bem a ira rancorosa dos poderosos da mídia…

Moral dessa postagem: quem já viveu um Brasil de perseguições, denúncias, delações e caça às bruxas não deseja ver a tragédia se repetir.

dez anos depois

Por que a TAM saiu ilesa do acidente que vitimou mais de cem

A não identificação de culpados para o acidente manchou a reputação do procurador Rodrigo de Grandis. Leitor mostrou que peso da aeronave lotada era superior ao que a Airbus admitia
por Luis Nassif, do Portal GGN publicado 15/07/2017 18h17
Milton Mansilha/Agência Lusa
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Acidente com avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, completa 10 anos

GGN A não identificação de nenhum culpado no acidente da TAM de dez anos atrás, que vitimou mais de uma centena de pessoas, é mancha na reputação do Ministério Público Federal, particularmente do procurador Rodrigo de Grandis.

O Procurador buscou culpados individuais, operador de voo, pilotos (que morreram no acidente), ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Levou algum tempo para entender que um acidente de tal porte não depende de um fator específico, mas de uma soma de fatores.

Aqui no Blog um leitor trouxe o fio da meada para entender o acidente, logo após sua ocorrência. Mas há uma incapacidade crônica de alguns procuradores de trabalhar fora dos autos. Ora, um acidente de tal relevância exigiria uma investigação que transcenderia a mera elaboração de laudos técnicos, seja do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da ANAC ou de quem quer que seja. Mesmo porque, esses órgãos se limitam a identificar aspectos parciais da questão, como o fato do piloto ter se enrolado no manejo dos instrumentos. Além disso, a imprensa estava empenhada em atribuir a Lula todos os males do país, e concentrou-se especificamente na questão do recapeamento da pista.

Havia um conjunto de fatores negativos:

1.       Tempestade.

2.       Pista recapeada.

3.       Pilotos cansados.

4.       Um reverso (que serve para frear) desativado.

Mas o ponto central foi outro.

De um lado, um enorme descuido da manutenção da TAM, após a morte do comandante Rolim, com a empresa entrando em um programa irresponsável de corte de custos sem pesar as consequências.

Na época, por questão de ICMS, o combustível era mais barato quando adquirido em Porto Alegre. O avião saiu de Porto Alegre com o tanque cheio.

O que nosso leitor fez:

1.       Foi até o site da Airbus e levantou todas as especificações do modelo de avião, o peso, a capacidade interna, o tamanho do tanque de combustíveis.

2.       O avião encheu o tanque em Porto Alegre e veio para São Paulo. Gastou um percentual do combustível, devidamente calculado.

3.       Veio lotado, mas tão lotado que tripulantes da TAM fora de serviço precisaram ser transportados na cabine dos pilotos.

O que o leitor fez foi somar tudo, estimando um peso médio por passageiros e por carga, somando o peso do combustível. A soma final era muito superior ao que a Airbus definia como peso máximo para o voo.

É evidente que, enveredando por aí, daria muito mais trabalho e obrigaria o emérito procurador a invadir searas mais influentes. Teria que entrar nos sistemas de decisão interna da empresa, analisar a linha de comando, escarafunchar quem tinha conhecimento das condições extremamente adversas daquele voo, levantar históricos de outras decisões temerárias.

Nada foi feito.

popularidade

Veja faz enquete sobre futuro de Lula e é eleito 'presidente' por internautas

No início da manhã de hoje (14), "Lula presidente" liderava com 75%, enquanto "Lula preso" ficava na casa dos 25%
por Redação RBA publicado 14/07/2017 10h19
Ricardo Stuckert
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Com vitória de Lula na enquete, Veja comprova a popularidade do ex-presidente e a fragilidade da Lava Jato

GGN – Nesta quinta-feira (13) a Veja soltou uma enquete para sondar o público: Lula será preso ou voltará à presidência em 2018? As redes sociais se alvoroçaram, blogs e sites de esquerda deitaram e rolaram, e o motivo é hilário: a Veja comprovou a popularidade de Lula e a fragilidade da Lava Jato.

No início da manhã de hoje (14), Lula presidente liderava com 75%, enquanto Lula preso ficava na casa dos 25%. Durante a noite de ontem, a opção do petista de volta à Presidência chegou à 87%, enquanto sua previsão sobre sua prisão ficou em 13%.

Após a grita em redes sociais, a tropa de choque da direita correu para votar na enquete, tentando arrefecer um pouco a comemoração das esquerdas. De 48.021 votações ontem, a enquete pulou para 142 mil na manhã de hoje. Expressivo. E Lula continua firme como candidato em 2018.

A revista tentou fazer graça ou está sondando o que pensa seu público? A apresentação deixa clara a intenção de sacrificar ainda mais a informação. E a reação foi a perfeita imagem do que deve ocorrer nos próximos meses, de retomada dos caminhos.

reprodução lula enquente veja.jpg
Votação atualizada às 9h50 desta sexta-feira

Sentença de Moro

Azenha: as 51 pessoas que Lula deve agradecer se for eleito em 2018

Para jornalista do Viomundo, condenação no caso do apartamento do Guarujá e reforma trabalhista são dois poderosos cabos eleitorais do ex-presidente
por Luiz Carlos Azenha publicado 14/07/2017 09h25
Ricardo Stuckert
Lula nas pesquisa para 2018

Lula traduziu em palavras simples o que qualquer eleitor do Brasil entende: ‘colocar o pobre no orçamento’

Viomundo – A perseguição política é um dos mais poderosos cabos eleitorais no Brasil. Para quem é vítima dela.

A perseguição política desperta solidariedade de classe. "Ele não é perfeito, mas é um dos meus!"

Ao condenar Lula sem provas contundentes de que ele é dono do triplex no Guarujá, o juiz Sergio Moro tornou-se um dos cabos eleitorais do ex-presidente para as eleições de 2018.

Mas o "efeito Moro" nas pesquisas eleitorais, que em breve vão registrar ascensão de Lula – contradizendo o "sendo comum" dos analistas da GloboNews – não pode ser entendido fora de um contexto mais amplo.

A condenação de Lula se deu num quadro de profunda crise econômica, de número recorde de moradores de rua nas metrópoles, de desemprego avassalador e… de reformas que roubam direitos dos mais pobres.

Dotado de um sofisticadíssimo radar com que mapeia o sentimento popular, Lula traduziu em palavras simples o que qualquer eleitor do Brasil entende, independentemente de classe ou educação: "colocar o pobre no orçamento", disse no discurso em que se lançou candidato.

Colocar o pobre no orçamento, promete o ex-presidente, um dia depois de 50 senadores terem atacado algo que a população mais pobre identifica com muita clareza: o direito de recorrer à Justiça trabalhista, de barrar o impulso escravocrata do patrão.

50 senadores e Moro, em conjunto, deram grande impulso à candidatura de Lula.

E, ocupando desde já as ruas, o ex-presidente não só nega o espaço onde poderiam florescer candidatos à esquerda. Parece entender que, incapaz de controlar o resultado das eleições de 2018, a direita vai partir para adiá-las, sob qualquer subterfúgio, da mesma forma que as pedaladas fiscais foram usadas para derrubar Dilma Rousseff.

Registre-se que a conjuntura eleitoral é muito dinâmica. Mas, olhando com os olhos de hoje, se houver eleição e Lula colocar a Globo do outro "lado", como Trump fez com a CNN e a "mídia liberal" nos Estados Unidos, Lula será eleito no primeiro turno.

Moro, a Globo e 50 senadores. Lula tem uma dívida com eles.

Lava Jato

Sobre comportamentos técnicos de heróis e políticos de 'inimigos do Brasil'

Vaidade e gula de poder, por parte de membros do MPF, desqualificam a Justiça para lograr apoio de uma sociedade doente pelo ódio disseminado por instituições e mídia deformadas
por Eugênio Aragão publicado 10/07/2017 10h29, última modificação 10/07/2017 12h21
EBC
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Janot agasalha velho bordão da atuação técnica que distinguiria os membros 'patrióticos' do MPF dos 'inimigos' do outro lado

GGN – Até há pouco era assim: criticar a Lava Jato era atitude política, participar do golpe fingindo que as instituições estavam a funcionar era técnico. Agora, é difícil definir se ter náuseas e ânsia de vômito é técnico ou político. O momento é oportuno para produzir clareza sobre a obtusidade dessa ideológica distinção entre o técnico e o político. É evidente que o primeiro se subordina ao segundo e acaba tudo por ser político.

O Ministério Público Federal gosta muito desse jogo de palavras. Recentemente, em entrevista ao Estado de S. Paulo, seu chefe foi incisivo: "os que querem frear a Lava Jato são inimigos do Brasil". E concluiu com a pérola: "... não concordo que existam abusos por parte do Ministério Público. Temos como ponto basilar da atuação a observância à Constituição Federal e nos pautamos por ela. Nossa atuação é técnica, apolítica e responsável". Tive que ouvir bobagem similar quando, há mais de ano, despedi-me da amizade de Janot. Mas o tempo não era de risadas. Mais recentemente ouvi essa mesma troça de seu assistente, o importador xinguelingue da teoria do domínio do fato que foi desmentido por Claus Roxin, o criador da teoria.

Agora dá vontade de apor um "smiley" de gargalhada. Argumentar nunca foi o forte de Rodrigo e nem de seu entourage. O chefe prefere se gabar, deblaterar, xingar ou fazer piada. E o entorno aplaude. Ao agasalhar esse velho bordão da atuação técnica que distinguiria os membros "patrióticos" do MPF dos "inimigos" do outro lado, o PGR ou é tolinho ou acha que nós o somos.

O direito é um instrumento de legitimação de decisões. Nem o instrumento e nem a legitimação em si seguem regras objetivas que correspondam a esforço de precisão lógica. Decisões não são redutíveis a cálculos sentenciais sem graves problemas de consistência.

Toda tomada de decisão jurídica comporta dois ou mais caminhos de legitimação, que, de regra, são contraditórios. Simplificando, pode-se dizer que um juiz tem que optar entre a tese do autor e a do réu. Tem a sua disposição um espectro relativamente largo de alternativas, sempre dentro desse intervalo. Todas são juridicamente igualmente sustentáveis (e, portanto, ao ver dos juristas "legítimas"), mesmo que fundamentem pretensões opostas. Dizer que o réu ou o autor tem razão não é um resultado inexorável, com precisão da conclusão de um silogismo em Bar-ba-ra! É resultado de uma escolha que corresponde melhor às convicções subjetivas do julgador. No fundo, para tudo ficar como está. A única coisa que o juiz é obrigado a fazer é motivar essa escolha, de modo que possa ao menos ser criticada e contestada e, com isso, ganhar um brilhozinho de falsa falseabilidade.

A "técnica" não está na opção, que, quase sempre, é a priori e política, mas na motivação. Esta trata de travestir de "exato" um conteúdo que nada tem de exato. Oferece à opção a aparência de um resultado científico. É só casca, não é essência. É um acessório apenas e, como tal, tem a mesma natureza do principal. É um instrumento da política.

E quando operadores perdem a paciência, seja por náuseas, seja porque o bambu para fabricar flechas está acabando, não coram ao mandarem a técnica para aquele lugar. Fazem hashtags nos seus perfis de Facebook, lembrando que #2018tachegando e tornam públicas gravação de Geddel Vieira Lima a chorar para humilhá-lo. Fazem seus troféus humanos desfilarem algemados, de baraço e pregão pelas ruas da vila. Anunciam à "IstoÉ" a sentença condenatória contra Lula e dizem que delações contra o PSDB não vêm ao caso. Fazem estardalhaço com diálogo ilicitamente captado entre Dona Marisa e Fábio, recheado de linguagem coloquial, só para refratar a imagem da primeira dama que foi. E depois dizem que sentem náuseas.

Não é sua "técnica" que faz esses energúmenos melhores. Ledo engano. A técnica somente lhes penteia a vaidade. E olha que às vezes penso (só penso) que alguns deles estudaram no exterior não foi direito, mas culinária, tamanha a gula pelo poder.

Não quero afirmar aqui que a técnica só é engodo. É, na verdade, como uma chave de fenda. Serve para apertar parafusos ou para estocar alguém num acesso de raiva. Depende como a manuseamos, com que índole, com que objetivo político. Se a usarmos para abraçar e acolher os filhos pródigos que à casa do Pai retornam, está valendo! Se for para castigar, maltratar, expor e arruinar a esmo e, com isso, se exaltar com inexistentes virtudes a si mesmo atribuídas, passa a ser uma arapuca "satânica" (ou será diabólica, que nem a prova impossível, Senhor PGR?).

Uma boa técnica usada por um operador politicamente consciente enaltece a Justiça. Legitima a decisão, porque lhe oferecerá a roupagem em que todos se espelham. Mas isso não funciona com quem a usa orgulhosamente apenas para se distinguir daqueles que, sem moral, desqualifica, para lograr apoio de uma sociedade doente pelo ódio disseminado por instituições e mídia deformadas. Esse é apenas o caminho mais seguro para desacreditar o direito e seus profissionais, procuradores lavajateiros ou não. E aí não adiantam as mais pontudas flechas de bambu. Não serão elas que redimirão os vaidosos arqueiros.

crise

Da recessão econômica à depressão psicológica

Estamos numa situação generalizada de crises sobrepostas umas às outras e num ambiente de caos
por Leonardo Boff publicado 06/07/2017 11h54
Lula Marques/AGPT
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Temer, sob vários processos, cuida de si mesmo ao invés de cuidar do povo brasileiro

Os conceitos de crise e de caos podem nos ajudar a entender nossa realidade contraditória. Para esclarecer a crise se usa o diagrama chinês, composto por dois traços: um expressando o risco e o outro, a oportunidade. Efetivamente a crise contem o risco de desmonte de uma ordem até degenerar na barbárie. Mas também pode representar a oportunidade de refundação de uma nova ordem. Eu pessoalmente prefiro a origem filológica sânscrita de crise. Ela se deriva da palavra kir ou kri que em sânscrito significa limpar e purificar. Daí vem a expressão acrisolar: limpar de tudo o que é acidental até vir à tona o cerne. E crisol, o cadinho que purifica o ouro das gangas. Tanto em chinês quanto em sânscrito, as palavras são diferentes mas o significado é o mesmo.

Algo parecido ocorre com o caos consoante a cosmologia contemporânea. Por um lado, ele é destrutivo de uma ordem dada e por outro, é construtor de uma nova ordem diferente. Do caos, nos diz Ilya Prigogine, Nobel de química (1977), nos veio a vida.

Aplicando estes sentidos à nossa situação, podemos dizer que a crise generalizada e o caos dominante podem, se não soubermos manejar sua energia destrutiva, degenerar em barbárie e se aproveitarmos a positiva, numa nova configuração social do Brasil.

Atualmente vigora a oportunidade de fechar o ciclo de um tipo de política que nos vem desde a colônia, fundado na conciliação entre si das classes abastadas e sempre de costas para o povo, hoje atualizada pelo presidencialismo de coalizão. Parece que este modelo de fazer política e de organizar o Estado, controlado por estas classes e que implica grandes negociatas e muita corrupção, não pode ser mais levado avante. É demasiadamente destrutivo A Lava-Jato teve o mérito de desmascarar este mecanismo perverso e anti-social. Oxalá surja a chance de uma nova construção social

No entanto, o golpe parlamentar foi dado por estas classes no interesse de prolongar esta ordem que garantiria seus privilégios, no propósito de desmantelar os avanços sociais das classes populares emergentes e alinhar-se à lógica do Grande Capital em escala mundial, hegemonizado pelos USA.

Como observou Márcio Pochmann, um dos melhores analistas das desigualdades sociais e da riqueza e pobreza do pais, "a elite brasileira escolheu o lado errado". Ao invés de aliar-se ao novo, ao arranjo político, econômico e social, à maior iniciativa de desenvolvimento multilateral desde o final da Segunda Guerra Mundial, iniciada na Eurásia que propõe uma globalização inclusiva e que nós pelo BRICS estávamos incluídos, escolheu o alinhamento tardio às forças que detém a hegemonia mundial sob a regência dos USA.

O orçamento desta nova iniciativa da Eurásia está estimado em US$ 26 trilhões até o ano de 2030 envolvendo 65 outras nações que responde por quase 2/3 de população mundial. Criam-se oportunidades de desenvolvimento, a começar pelos países mais necessitados. Aqui poderíamos estar e não estamos por causa de nossa inépcia e de nossa subserviência.

Esse projeto aponta para uma nova ordem mundial, uma espécie de keynesianismo global, inovador, com uma possível maior igualdade e justiça social, respeitada a soberania das nações.

O grupo ao redor de Temer optou pelo velho sistema militarista e imperial cuja segurança reside em bases militares distribuídas por todo o mundo. Entre nós estão na Argentina, no Paraguai, no Chile, no Peru, na Colômbia e também no Brasil através da cessão da base de Alcântara no Maranhão.

A venda de terras a estrangeiros, especialmente, lá onde existe grande abundância de água – por aqui passa o futuro da humanidade junto com a biodiversidade – fere profundamente nossa soberania e ofende o povo brasileiro, cioso de seu território.

Uma vez mais estamos perdendo a oportunidade do lado positivo da crise e do caos atuais. Desperdiçamos esta chance única, por falta de um projeto de nação livre e soberana. Deve-se, usando uma expressão de Jessé Souza à “tolice da inteligência brasileira” que está aconselhando Temer.

O efeito se nota por todas as partes: os 14 milhões de desempregados, os 61 milhões de inadimplentes, a desindustrialização, os 33 navios em construção entregues à ferrugem e a neocolonização imposta que nos faz apenas exportadores de commodities.

Assistimos, anestesiados, a este crime contra o futuro do povo brasileiro. Temer, sob vários processos, cuida de si mesmo ao invés de cuidar do povo brasileiro. Uma onda de indignação, de tristeza e de desamparo está se abatendo sobre quase todos nós. Da recessão econômica estamos passando à depressão psicológica. Se não reagirmos e não nos munirmos de coragem e de esperança, a barbárie poderá estar apenas a um passo. Recusamos aceitar este inglório destino.

Irresponsabilidade

Agora é tarde. Eventual correção da Lava Jato não evita derrocada do país

Se existe uma situação que caracteriza a época que estamos vivendo, é a contradição entre o Brasil real e o país dos juízes, ou melhor, de certo tipo de juízes e procuradores que se encontram no poder
por Mauro Santayana publicado 03/07/2017 15h56, última modificação 03/07/2017 19h42
Agência Senado
P-36

Pior que nos anos 1990, em que se começou a sucatear nossa maior empresa, agora milhares de empregos são eliminados nessa cruzada destrutiva

Sem estar na Riviera Francesa, nem nas Ilhas Canárias, mas assim mesmo, como se dizia antigamente, suficientemente chique – depois que o rei dom Luís I ali fixou sua residência de verão na segunda metade do século 19 –, a praia do Estoril, ao sul de Lisboa, é razoavelmente badalada para sediar encontros de gente que por um ou outro motivo é suficientemente "badalável", ou está interessada, por um motivo ou outro, a passar a se badalar também.

Foi lá, nessa faixa de litoral atlântico a uns 30 minutos da capital portuguesa, que transcorreu, na última semana de maio, no Centro de Congressos – uma caixa de vidro que não destoaria em Brasília – entre debates e passeios ao cassino, o ciclo de conferências Estoril 2017, um evento que teve como tema geral a migração global e seus desafios.

Dele participou, na condição de um dos 103 conferencistas contratados, o juiz mais badalado do Brasil (Sergio Moro), tomando parte de um painel significativamente chamado de "Lutar contra o Crime numa Democracia: Qual o papel e limites do Sistema Criminal e Judicial?"

Ora, os limites do sistema criminal e judicial, deveriam ser, em uma democracia, os da clara e inequívoca obediência, sem subterfúgios ou dúbias interpretações, à Lei Maior, expressa na constituição de cada país. E punto e basta! – diriam os italianos.

Mas não é, infelizmente, o que está ocorrendo nos últimos anos.

Virou moda, usando como desculpa a necessidade de adaptar as leis aos tempos, se abandonar os princípios básicos essenciais que norteiam, há séculos, o Direito, para se conduzir a Justiça com base na criação, em profusão, de perigosas leis de ocasião.

Nesse caminho, se estabeleceram "crimes" de elástica interpretação e subjetiva apreciação e julgamento, como "associação" e "apologia" ao tráfico, "criação de organização criminosa", inúmeras e variáveis modalidades de "obstrução de justiça", de "lavagem de dinheiro", de "terrorismo".

E justificativas como "manutenção da ordem pública" e "repercussão social do crime", após a "repercussão" ter sido garantida por vazamentos propositais feitos pelos mesmos personagens que acusam e condenam, em espúria e permanente aliança com a mídia.

Como se certos tipos de delito não pudessem ser julgados e punidos, até mesmo em suas últimas consequências, sem necessidade de se alterar a legislação pré-existente.

É preciso tomar cuidado com essas regras sob medida, como certos uniformes negros desenhados por conhecido estilista alemão, que estavam muito em voga no Terceiro Reich nas décadas de 1930 e 1940.

Em uma época em que, com a mesma desculpa – adaptar a legislação aos "novos tempos" – foram criadas regras raciais, discriminatórias e repressivas, dirigidas a certas "raças", e a "inimigos do Estado", como ocorreu com os judeus e outros tipos "indesejáveis" de "sub-humanos", como os eslavos, os ciganos e os comunistas, assim classificados em uma escala criada a priori pelo regime nazista.

Foram as leis de Nuremberg que abriram o caminho para os campos de concentração, a adubação de repolhos com cinzas de fornos crematórios, a fabricação de abajures e sofás com pele humana, a coleta e coleção de tatuagens recortadas de corpos de prisioneiros, o sepultamento, como sardinhas, de crianças, velhos e mulheres em valas comuns cavadas por eles mesmos, nas florestas do centro e do norte da Europa, em bosques em que hoje ainda se encontram cabelos humanos, agarrados ao tronco de bétulas e pinheiros, que as raízes arrancam dos cadáveres e trazem à superfície à medida em que crescem os troncos de árvores plantadas ali depois da guerra.

Não se pode ceder à tentação de sempre intransigir e desconsiderar o direito alheio.

É perigoso transformar praticamente em regra o princípio de in dubio pro societate, no lugar do in dubio pro reo, quando existem, por exemplo, dúvidas quanto a provas, como está ocorrendo a torto e a direito e fez mais uma vez certo ministro do Supremo Tribunal Federal, outro dia, ao analisar um pedido de habeas corpus.

Porque é difícil definir as fronteiras entre sociedade, Estado, grupos de interesse.

Quem ou o que define o que é sociedade ou o que ela deseja?

O desfile de patos nas ruas? A opinião dos telejornais diários?

O ódio anacrônico e ignorante grosseiramente vomitado e amplificado dos comentários nos grandes portais e redes sociais?

Será que o uso da prisão como limitação – preventiva – dos movimentos de investigados é mais importante, para o povo brasileiro, que o Estado de Direito?

Ou as centenas de milhares de empregos que estão sendo eliminados em uma cruzada vã e destrutiva e que se utiliza, com objetivos e consequências claramente políticas, de discursos, adjetivos e justificativas do mesmo teor aparentemente "anticorruptivo" e "antipolítico" usado para chegar ao poder por aqueles que construíram, para queimar suas vítimas, os fornos dos campos de extermínio?

Ora, como se diz há séculos, à boca pequena, nos corredores do Vaticano, o inferno está cheio de "boas" intenções.

É também para isso, para conter esses "bons propósitos", muitos de cunho emocional, ideológico e pessoal, e evitar que eles contaminem as atitudes e o juízo – que deveria ser isento, equilibrado, voltado para o bem do país, e não para a exibição ególatra de certos personagens da magistratura e do Ministério Público – que existem certos princípios – antigos e perenes.

Até mesmo porque o que há de essencial na Justiça é atemporal e permanente e não circunstancial e passageiro, como nós, pobres diabos, que, envoltos em trapos ou em togas, apenas percorremos, em um sopro, o curto caminho que nos cabe, do berço ao túmulo, amém!

O grande desafio da Justiça é fazer justiça sem modificar as leis, senão, vamos passar a mudá-las a toda hora, ao sabor das circunstâncias, abandonando conceitos consagrados pelo tempo e a experiência, baseados na busca do equilíbrio e do bom senso, substituindo-os pelos julgamentos de momento, ou pelo senso comum, mutável e caprichoso, de uma opinião pública cada vez mais ignorante, hipócrita e manipulada.

A adaptação das leis às circunstâncias facilita o protagonismo político do Ministério Público e do Judiciário e abre espaço para sua interferência, nos acontecimentos, para além daquele que lhes é reservado tanto por suas funções, quanto pelos preceitos constitucionais.

Nesse afã, criam-se "movimentos", intimamente entrelaçados com outros "movimentos", até mesmo de cunho fascista, e "coleções" de leis destinadas a autofortalecer e proteger corporações, com a desculpa de se estar "defendendo" a sociedade, como é o caso das famosas Dez Medidas contra a Corrupção, quando, na verdade, se está enfraquecendo ainda mais o indivíduo com relação a um sistema judicial que está longe de ser exemplar e a um Estado idem.

Se há juízes e procuradores que buscam os holofotes, e que aderem a essa "escola" entusiasticamente, há também magistrados e procuradores – infelizmente, nos dias de hoje, uma minoria – que a repelem filosófica e moralmente.

Enquanto estilos, relativamente recentes em termos históricos desfilam, para facilitar a acusação, em passarelas da moda como o Estoril, questões de primeira necessidade, que são discutidas há centenas de anos – quis custodiet ipsos custodes? (quem vigia os vigilantes?, em tradução livre), já perguntava Decimus Junius Juvelanis, no primeiro século depois de Cristo –, como a questão do abuso de autoridade são consideradas toscas e anacrônicas, quando não um estorvo pela mídia, juízes e procuradores, e retalhadas, mutiladas e deturpadas quando chegam ao Legislativo.

Ou relegadas a encontros muito menos badalados que o do Estoril, como o ocorrido no mesmo dia 30 de maio na UnB, na capital da República, que deu origem à Carta de Brasília, organizado pela Associação de Juristas pela Democracia, com o tema "Estado de Direito ou Estado de Exceção? A Democracia em Xeque".

No documento, os signatários afirmam que é preocupante "o uso excessivo da excepcionalidade jurídica por membros do Ministério Público e do Judiciário, fraturando a essência constitucional e convencional das garantias do Justo Processo e dos princípios elementares que o acompanham em qualquer sociedade democrática".

A adoção do prêt-à-porter, tanto na criação de novas leis, como na aplicação distorcida das que já existem, como ocorreu com a Teoria do Domínio do Fato, no julgamento do "mensalão" – precursor e balão de ensaio da Lava Jato – com a implementação de novos métodos de "investigação" que desvalorizam, quando não simplesmente ignoram a necessidade de provas, sabota e prejudica a presunção de inocência, o respeito à privacidade de suspeitos e investigados e o segredo de justiça.

Como ocorre também com a delação premiada, uma excrescência aprovada pelo próprio PT, por livre e espontânea "pressão da sociedade", defendida pelo magistrado de quem falávamos no início do texto, no encontro do Estoril, com a esdrúxula desculpa de que é melhor prender "alguns" do que não prender "ninguém".

A quem estaria se referindo o meritíssimo ao falar de "alguns"?

Àqueles delatados por bandidos, ou por reféns do Estado, indefinidamente presos "preventivamente", para livrá-los, com o seu envolvimento, da cadeia?

E quem seria "ninguém"?

Os delatores "premiados" ou os acusados por eles, que, em um país normal, com uma Justiça normal, não poderiam ser presos na ausência de provas ou de flagrante delito, por exemplo?

Indagado, em Portugal, a respeito da situação brasileira, o magistrado em questão concentrou-se mais nos "resultados" e menos nos limites desse tipo de delação, que no Brasil foi rapidamente transformado em regra.

Em uma verdadeira epidemia jurídica, substituindo em centenas de casos a investigação, quando em outros países foi usado quase sempre excepcionalmente, principalmente no caso de testemunhas que teriam suas vidas ameaçadas caso viessem a depor.

E afirmou, para português ver, ao que parece – já que não sabemos se havia ingleses na plateia –, que o Brasil que sobrevirá à Operação Lava Jato será melhor e mais justo: "Eu acredito que, apesar de todas essas turbulências, ao final do processo nós teremos um país melhor, com uma economia mais forte e com uma democracia de melhor qualidade, no qual a corrupção sistêmica passe a ser apenas uma triste memória do passado".

Ora, se eventualmente houvesse também italianos entre o público presente, e esse fosse suficientemente democrático, o magistrado poderia ter aproveitado a presença, no mesmo evento, do ilustre procurador Antonio di Pietro e ter perguntado a alguns deles se foi isso que ocorreu em seu país, após a Operação Mãos Limpas – constantemente citada por ele próprio como exemplo – e provavelmente ouviria que, para muitos cidadãos da Velha Bota, a Itália transformou-se, ao contrário, em um país mais pobre, menos soberano, com uma democracia – vide o reinado de Belusconi – e uma economia muitíssimo piores do que antes, no qual a corrupção continua grassando como mostram escândalos posteriores como o da prefeitura de San Remo e o da "Máfia Capitale".

Quanto a nós, que democracia teremos no Brasil do futuro, citado pelo meritíssimo?

A democracia de juízes e procuradores concursados, ganhando, em muitos casos, quatro vezes mais que o Presidente da República?

Que podem fazer conferências "por fora", por milhares de reais, e gozam de benefícios que incluem aposentadoria com salário integral quando cometem crimes, cuja autoridade parece pretender se colocar acima da autoridade do povo, expressa por meio do voto, na escolha de seus representantes diretos?

Com a crescente tutela – para não dizer sequestro branco – da República e das instituições?

E a economia brasileira, sairia fortalecida como, desse processo?

Se as maiores empresas do Brasil foram arrebentadas pela Justiça?

Se nossos maiores grupos com atuação no exterior – com a interrupção de seu crédito e de seus negócios, e a imposição de multas punitivas determinadas por critérios subjetivos e "morais" de dezenas de bilhões de reais – foram, também, arrebentados pela Justiça?

Se todo mundo está cansado de saber que não existem grandes nações sem grandes empresas nacionais, privadas e estatais?

Se o grande banco brasileiro de fomento, responsável pelo financiamento dos maiores projetos e empresas do país, está sendo também cercado e tolhido – por acusações fantasiosas, absurdas e sem provas – pela Justiça?

Se dezenas de grandes projetos nacionais, incluídos vários de caráter estratégico, estão sendo também arrebentados, interrompidos, inviabilizados, sucateados, transformados em um imenso cemitério de dezenas de bilhões de dólares em navios, refinarias, plataformas e sondas de petróleo, ferrovias, armamentos etc. etc. etc. pela Justiça?

Se nossa maior empresa estatal teve de demitir quase 200 mil pessoas depois do início de certa "operação" e também foi arrebentada – com a cumplicidade de uma "auditoria" de uma empresa estrangeira envolvida com escândalos em todo o mundo – pela Justiça?

Uma "nova" Justiça que não consegue investigar sem paralisar projetos e programas e que não se sabe se propositadamente cega – para além do véu que cobre os olhos da estátua sentada na Praça dos Três Poderes – a uma evidente questão de bom senso, se recusa a nomear simples interventores para continuar as obras?

Quando deveria obrigar as empresas não a pagar multas estratosféricas, totalmente estéreis, que irão quebrá-las e matar as galinhas dos ovos de ouro – que geravam bilhões de reais em impostos para o erário –, mas a investir esse dinheiro nos projetos sob sua responsabilidade até sua definitiva entrega ao seu verdadeiro dono, a população brasileira, que nelas já investiu também dezenas de bilhões de reais?

Se centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras, que estavam empregados nessas obras foram também arrebentados, sendo sumariamente demitidos, com essas interrupções e paralisações, quando a obrigação do Ministério Público e do próprio Judiciário era assegurar, em primeiríssimo lugar, a continuidade do que já estava sendo executado, para evitar ainda mais prejuízos e garantir o emprego e a renda de milhões de cidadãos brasileiros?

Se, mesmo apoiando a narrativa oficial, as empresas acusadas não conseguem voltar a trabalhar, porque não alcançam negociar – mesmo depois de ter seus empresários presos e pagar essas gigantescas multas – acordos de leniência, porque a Justiça e o Estado brasileiros se transformaram em um palco em que ninguém se entende e todo mundo quer aparecer e dizer que manda mais do que o outro?

Que raios de lógica é essa segundo a qual, para assegurar uma suposta recuperação de 1% ou 2% do valor de uma obra, supostamente desviados em propina, se pegam os outros 99% ou 98%, obviamente muitíssimo mais importantes, sem falar de seus imprescindíveis, inerentes, benefícios futuros, e se transforma tudo em lixo, interrompendo e sucateando projetos que, se retomados um dia, terão que ser recomeçados do zero, ou, muitas vezes, literalmente explodidos, para retirada de entulho, com um prejuízo, para os contribuintes, muitas vezes maior do que aquele supostamente derivado da corrupção?

Em um discurso único, cansativo, repetitivo, constantemente exibido, a todo momento, por certas parcelas da mídia e por alguns procuradores e juízes que – salvo imperdoável ingenuidade ou deslumbramento – são tão hipócritas quanto manipuladores?

Ou será que tudo isso é feito apenas para que, depois de tudo destruído, se possa jogar a culpa na "incompetência" e "desonestidade" de governos que, corajosamente, resolveram adotar dezenas de iniciativas fundamentais, na defesa, na economia, na infraestrutura, em um país em que antes não se fazia quase nada e que ficou virtualmente paralisado por décadas no campo da engenharia?

Isso sem falar que a população, nesse processo jurídico-midiático, foi levada a acreditar que a corrupção é o maior problema brasileiro.

Quando os juros pagos a bancos particulares pelo setor público, uma sonegação gigantesca e uma estrutura tributária que cobra maiores impostos dos mais pobres do que dos mais ricos, são muito mais prejudiciais?

Sem serem denunciadas com a mesma ênfase, talvez porque nesses casos não caibam paladinos, cavaleiros e salvadores da pátria, nem essa maciça espetacularização que se viu nos últimos anos, a partir do início, em 2013, de uma campanha evidentemente golpista que desembocaria no circo da derrubada, pos supostas "pedaladas fiscais", da Presidente da República?

Será que os servidores envolvidos com a Operação Lava-Jato já ouviram falar em conceitos como "coalizão" e "presidencialismo"?

Ou na Democracia como negociação permanente e possível dos interesses dos diferentes segmentos e grupos que conformam uma determinada nação ou sociedade?

Será que eles não sabem que em nenhum país democrático do mundo – desde a criação da democracia grega, há 2.500 anos – se conseguiu quebrar, a não ser por golpe, esse contrato?

E que, todas as vezes que isso foi feito, descambou-se para o fascismo, a violência e o autoritarismo?

Qual é a intenção do Ministério Público e do Judiciário, ao pressionar empresários a transformar, retroativamente, automaticamente, doações legais, rigorosamente registradas no Tribunal Superior Eleitoral em propina?

Será que isso não foi feito porque não se conseguiu provar, na maioria dos casos "investigados", a existência de corrupção inequívoca – contas no exterior, superfaturamento, direcionamento de concorrências e compra de membros de comissões de licitação – no volume das dezenas de bilhões de reais fantasticamente anunciados desde que se iniciou essa balbúrdia?

Qual é o valor moral da transformação de alhos em bugalhos com base apenas na afirmação "voluntária" de delatores interessados em sair de trás das grades – onde muitos já fizeram aniversário em estado de prisão inicialmente "temporária" – ou em evitar desesperadamente entrar lá para dentro?

E a da preparação de "pegadinhas", montadas pelas próprias autoridades, em conjunto com delatores de ocasião que dizem considerar como pouco mais que bandidos?

Porque não se explica para a população a diferença entre doação legal para campanha, caixa dois, e dinheiro de propina, para gasto a tripa forra por meia dúzia de ladrões?

A quem interessa misturar tudo no mesmo balaio de gatos – que querem apresentar como se todos sem exceção fossem ratos – em um permanente, ininterrupto e interminável processo de criminalização da República e de inviabilização institucional, política e econômica do país, que não parece mais ter fim – ou outro fim do que a paralisação e a sabotagem da Nação, impedindo que ela volte à normalidade, à produção e ao trabalho e ao enfrentamento dos tremendos desafios que envolvem o seu desenvolvimento, já tolhido e praticamente inviabilizado pela absurda contenção de despesas – em um mundo em que quase todos os países gastam mais do que arrecadam – aprovada por meio de uma PEC tão estúpida quanto suicida?

Até quando seguiremos com essa irresponsável pantomima?

Quando começarão a ser retomadas as obras interrompidas direta ou indiretamente pela justiça, ou pelo menos aquelas que ainda estiverem em condições de serem concluídas um dia?

Ou será que vamos continuar nessa novela, ao ritmo de uma operação ou um novo pseudo escândalo por semana – ao que parece a única coisa que está mudando é o layout dos estúdios dos telejornais – até que não sobre mais nada do país e nossas matérias primas, obras e projetos sejam destruídos ou integralmente entregues, a preço de banana, para empresas estrangeiras que em seus países de origem, fazem exatamente o mesmo que faziam suas concorrentes brasileiras – que já terão saído de seu caminho, aqui e no exterior – financiando partidos e candidatos, por meio de iniciativas que em lugares como os EUA, por exemplo, são consideradas lícitas e classificadas apenas, na maioria das vezes, como lobby?

A absolvição – em um dos vários processos que responde – do ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto – que continua sendo mantido preso, apesar disso, pelo magistrado de que falamos – com o óbvio e tardio reconhecimento, pelo Tribunal Regional Federal da Quarta Região, de que delação premiada isoladamente não prova absolutamente nada.

E a libertação, pelo STF, de personagens que estão presos "preventivamente" há meses, anos, sem ter sido condenados em segunda instância, como José Carlos Bumlai e João Claúdio Genu, ex-tesoureiro do PP, por justificativas kafkianas, como a "repercussão social do crime" e a "garantia da ordem pública", são lampejos de razão que não vão mudar as profundas, nefastas, consequências da verdadeira tragédia econômica, institucional e política – incluído o Golpe de 2016 – que se abateu sobre o país com a politização da Justiça a partir de 2014.

A esquerda que diz apoiar a Operação Lava Jato comete um grave erro histórico, corroborando uma narrativa hipócrita e mendaz que entregará o país ao fascismo no final do ano que vem.

Como disse outro dia certo ministro do Supremo, pelo qual, como sabe quem nos acompanha, nunca tivemos maiores simpatias, que Deus nos livre de uma ditadura de juízes e procuradores.

Embora muitos – distraídos pelo fast-food servido pela mídia na velocidade e padronização dos drive-thru das cadeias de hambúrguer – não tenham percebido que já estamos, na prática, sob esse jugo, que deve ser firme e prioritariamente combatido por aqueles que tenham alguma preocupação com o futuro da democracia e desta pobre nação brasileira.