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Na Rede

por publicado , última modificação 25/07/2014 15:29

conflito em gaza

De cegos e de anões

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv
por Mauro Santayana, ao Jornal do Brasil publicado 25/07/2014 15:29
Facundo Arrizabalaga/efe
Gaza

Manifestação em Londres nesta sexta (25) protestou contra os ataques de Israel sobre a Faixa de Gaza

Se não me engano, creio que foi em uma aldeia da Galícia que escutei, na década de 1970, de camponês de baixíssima estatura, a história do cego e do anão que foram lançados, por um rei, dentro de um labirinto escuro e pejado de monstros. Apavorado, o cego, que não podia avançar sem a ajuda do outro, prometia-lhe toda sua fortuna, caso ficasse com ele, e, desesperado, começou a cantar árias para distraí-lo.

O outro, ao ver que o barulho feito pelo cego iria atrair inevitavelmente os monstros, e que o cego, ao cantar cada vez mais alto, se negava a ouvi-lo, escalou, com ajuda das mãos pequenas e das fortes pernas, uma parede, e, caminhando por cima dos muros, chegou, com a ajuda da luz da Lua, ao limite do labirinto, de onde saltou para densa floresta, enquanto o cego, ao sentir que ele havia partido, o amaldiçoava em altos brados, sendo, por isso, rapidamente localizado e devorado pelos monstros que espreitavam do escuro.

Ao final do relato, na taberna galega, meu interlocutor virou-se para mim, tomou um gole de vinho e, depois de limpar a boca com o braço do casaco, pontificou, sorrindo, referindo-se à sua altura: como ve usted, compañero... com o perdão de Deus e dos cegos, ainda prefiro, mil vezes, ser anão...

Lembrei-me do episódio – e da história – ao ler sobre a convocação do embaixador brasileiro em Telaviv para consultas, devido ao massacre em Gaza, e da resposta do governo israelense, qualificando o Brasil como irrelevante, do ponto de vista geopolítico, e acusando o nosso país de ser um “anão diplomático".

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, e os líderes de três das maiores potências espaciais e atômicas do planeta, além do presidente do país mais avançado da África, país com o qual Israel cooperava intimamente na época do Apartheid, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv.

O governo israelense não consegue mais enxergar além do próprio umbigo, que confunde com o microcosmo geopolítico que o cerca, impelido e dirigido pelo papel executado, como obediente cão de caça dos EUA no Oriente Médio.

O que o impede de reconhecer a importância geopolítica brasileira, como fizeram milhões de pessoas, em todo o mundo, nos últimos dias, no contexto da criação do Banco do Brics e do fundo de reservas do grupo, como primeiras instituições a se colocarem como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, é a mesma cegueira que não lhe permite ver o labirinto de morte e destruição em que se meteu Israel, no Oriente Médio, nas últimas décadas.

Se quisessem sair do labirinto, os sionistas aprenderiam com o Brasil, país que tem profundos laços com os países árabes e uma das maiores colônias hebraicas do mundo, como se constrói a paz na diversidade, e o valor da busca pacífica da prosperidade na superação dos desafios, e da adversidade.

O Brasil coordena, na América do Sul e na América Latina, numerosas instituições multilaterais. E coopera com os estados vizinhos – com os quais não tem conflitos políticos ou territoriais – em áreas como a infraestrutura, a saúde, o combate à pobreza.

No máximo, em nossa condição de “anões irrelevantes”, o que poderíamos aprender com o governo israelense, no campo da diplomacia, é como nos isolarmos de todos os povos da nossa região e engordar, cegos pela raiva e pelo preconceito, o ódio visceral de nossos vizinhos – destruindo e ocupando suas casas, bombardeando e ferindo seus pais e avós, matando e mutilando as suas mães e esposas, explodindo a cabeça de seus filhos.

Antes de criticar a diplomacia brasileira, o porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmir, deveria ler os livros de história para constatar que, se o Brasil fosse um país irrelevante, do ponto de vista diplomático, sua nação não existiria, já que o Brasil não apenas apoiou e coordenou como também presidiu, nas Nações Unidas, com Osvaldo Aranha, a criação do Estado de Israel.

Talvez, assim, ele também descobrisse por quais razões o país que disse ser irrelevante foi o único da América Latina a enviar milhares de soldados à Europa para combater os genocidas nazistas; comanda órgãos como a OMC e a FAO;  abre, todos os anos, com o discurso de seu máximo representante, a Assembleia Geral da ONU; e porque – como lembrou o ministro Luiz Alberto Figueiredo, em sua réplica – somos uma das únicas 11 nações do mundo que possuem relações diplomáticas, sem exceção,  com todos os membros da Organização das Nações Unidas.

 

análise

O que está em jogo na Faixa de Gaza

Em artigo exclusivo a Opera Mundi, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, defende condenação de ofensiva israelense por parte do governo brasileiro
por Marco Aurélio Garcia, para o Opera Mundi publicado 25/07/2014 11:16
EFE/ABEDIN TAHERKENAREH
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Manifestação no Irã pede fim da violência de Israel contra civis na Faixa de Gaza

Esta nota estará seguramente desatualizada quando for publicada. Mais de setecentos palestinos – grande parte dos quais mulheres, crianças e anciãos – foram mortos nos bombardeios das Forças Armadas israelenses na Faixa de Gaza desde que, há duas semanas, iniciou-se uma nova etapa deste absurdo conflito que se arrasta há décadas. A invasão do território palestino provocou também mais de 30 mortos entre os soldados de Israel.

O governo brasileiro reagiu em dois momentos à crise. Na sua nota de 17 de julho “condena o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra Israel” e, ao mesmo tempo, deplora “o uso desproporcional da força” por parte de Israel.

Em comunicado de 23 de julho e tendo em vista a intensificação do massacre de civis, o Itamaraty considerou “inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina” e, uma vez mais, condenou o “uso desproporcional da força” na Faixa de Gaza. Na esteira dessa percepção, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (somente os Estados Unidos estiveram contra) que condena as “graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais oriundas das operações militares israelenses contra o território Palestino ocupado” e convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas.

A chancelaria de Israel afirmou que o Brasil “está escolhendo ser parte do problema em vez de integrar a solução” e, ao mesmo tempo, qualificou nosso país como “anão” ou “politicamente irrelevante”.

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Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República

É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas.

Não é muito difícil entender, igualmente, que está cada dia mais complicado ser “parte da solução” neste trágico contencioso. Foi o que rapidamente entenderam o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, depois de suas passagens por Tel Aviv, quando tentaram sem êxito pôr o fim às hostilidades.

Como temos posições claras sobre a situação do Oriente Médio – reconhecimento do direito de Israel e Palestina a viverem em paz e segurança – temos sido igualmente claros na condenação de toda ação terrorista, parta ela de grupos fundamentalistas ou de organizações estatais.

Estive, mais de uma vez, em Israel e na Palestina. Observei a implantação de colônias israelenses em Jerusalém Oriental, condenadas mundialmente, até por aliados incondicionais do governo de Tel Aviv. Vi a situação de virtual apartheid em que vivem grandes contingentes de palestinos. Constatei também que são muitos os israelenses que almejam uma paz duradoura fundada na existência de dois Estados viáveis, soberanos e seguros.

É amplamente conhecida a posição que o Brasil teve no momento da fundação do Estado de Israel. Não pode haver nenhuma dúvida sobre a perenidade desse compromisso.

Temos reiterado que a irresolução da crise palestina alimenta a instabilidade no Oriente Médio e leva água ao moinho do fundamentalismo, ameaçando a paz mundial. Não se trata, assim, de um conflito regional, mas de uma crise de alcance global.

É preocupante que os acontecimentos atuais na Palestina sirvam de estímulo para intoleráveis manifestações antissemitas, como têm ocorrido em algumas partes, felizmente não aqui no Brasil.

A criação do Estado de Israel, nos anos quarenta, após a tragédia do Holocausto, foi uma ação afirmativa da comunidade internacional para reparar minimamente o horror provocado pelo nazi-fascismo contra judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e socialdemocratas.  Mas o fantasma do ressurgimento ou da persistência do antissemitismo não pode ser um álibi que justifique o massacre atual na Faixa de Gaza.

O Brasil e o mundo têm uma dívida enorme para com as comunidades judaicas que iluminaram as artes, a ciência e a política e fazem parte da construção da Nação brasileira.  Foi esse sentimento que Lula expressou em seu discurso, anos atrás, na Knesset, quando evocou, por exemplo, o papel de um Carlos e de um Moacir Scliar ou de uma Clarice Lispector para a cultura brasileira. A lista é interminável e a ela se juntam lutadores sociais como Jacob Gorender, Salomão Malina, Chael Charles Schraier, Iara Iavelberg, Ana Rosa Kucinski e tantos outros.

Nunca os esqueceremos.

modelo

Repartir melhor para o consumo sustentável

Solução para a mais grave crise ecológica mundial exige reavaliação do padrão de consumo ostentatório, que não atende as necessidades materiais para a existência, mas apenas se diferenciar do demais
por Marcio Pochmann publicado 25/07/2014 10:00
© physics.uc.edu
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Mina de diamante na Sibéria. Sem rever padrãos de consumo, planeta caminha para o esgotamento

O atual modelo global de expansão econômica assentado no crescente consumo material estimula tanto o desaparecimento de recursos naturais abundantes como eleva as emissões de gases nocivos ao meio ambiente. A mudança climática, com o aumento da temperatura média da terra, aparece como consequência inequívoca disso.

A resistência às mudanças por parte dos condutores do sistema econômico impede a solução imediata para a mais grave crise ecológica mundial. Registra-se, por exemplo, que cerca de dois quintos das 45 mil espécies catalogadas encontram-se atualmente ameaçadas pela extinção. Somente nas últimas três décadas, o planeta Terra perdeu um terço de suas florestas naturais, enquanto a área submersa pela água retida em função das barragens já se apresenta três vezes superior à ocupada por florestas em pé no mundo.

Com o avanço da urbanização na Ásia e África, acompanhada da ocidentalização do padrão de consumo, a conversão de terras para a exploração econômica segue sem paralelo histórico. Diante do aumento de 53,3% da população mundial entre 1980 e 2010, dobrou a área ocupada pela urbanização.

Em função disso tudo que a generalização da economia de alto carbono compromete o comportamento da temperatura global, com a elevação radical da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Importante destacar que a elevação da renda per capita tem sido seguida da maior intensidade da emissão de carbono na atmosfera, cuja concentração cresce de 275 partes por milhão (ppm) antes do ciclo de industrialização para próximo de 400 ppm registrado nos dias de hoje.

Para a concentração de gás metano, que girava em torno de 720 a 780 partes por bilhão (ppb) entre os anos 1000 e 1800, passou para 1.750 ppb nos anos 2000. A consequência direta tem sido invariavelmente a situação de aquecimento global.

Ademais, não se pode esquecer que os pobres são os que mais sofrem dos efeitos da crise ecológica, uma vez que vivem em áreas de maior poluição e excluídos às condições de vida decente, sem acesso adequado à moradia, saneamento, energia elétrica. Talvez por isso que os maiores defensores das teses do limite da produção e, por consequência, a redução do consumo dos outros sejam justamente os ricos.

Em síntese, o modo de vida das classes ricas assenta-se no consumo ostentatório e degradante da ecologia, o que termina por afastar o futuro das gerações que estão por vir. Sabe-se que o padrão de consumo ostentatório das camadas ricas da população não resulta da procura por atendimento de necessidades materiais para a existência humana, mas ao interesse de se diferenciar do demais.

O consumo ostentatório tende a se expressar insaciável, gerando necessidades materiais indefinidas e resultando em referência cultural a ser imitada pela parte restante da população pelo que definiu Thorstein Veblen na passagem do século 20 (A Teoria da Classe Ociosa), a rivalidade ostentatória revela o desejo dos ricos de serem reconhecidos como melhores que os demais.

Dessa forma que a prevalência do padrão de consumo dos ricos aprofunda cada vez mais a crise ambiental no planeta. A saída da crise não pode ser a contenção do crescimento da demanda material dos pobres, mas a reversão do modelo de vida dos ricos assentado no consumo ostentatório.

A expansão da produção permite elevar o nível geral de riqueza enquanto requisito básico para melhorar a sorte dos pobres. Mas o aumento da riqueza sem a sua redistribuição justa favorece justamente os ricos, impulsionando a prevalência do padrão de consumo ostentatório.

Percebe-se que os países ricos representam um quinto da população mundial e detém quatro quintos da riqueza global. A perspectiva das nações não ricas não pode ser a mesma do enfrentamento da crise ecológica global estabelecida pelos países ricos.

O avanço tecnológico pode contribuir para que o padrão de vida urbano reduza o grau de emissão de gases nocivos à biosfera, bem como altere o conteúdo fortemente material do consumo. Cabe indagar, contido, a respeito da propriedade dos novos avanços tecnológicos, quando cerca de dois terços dos investimentos tecnológicos encontram-se em poder das grandes corporações transnacionais.

Ao se considerar apenas as 500 maiores corporações transnacionais, identifica-se que elas controlam a metade da produção mundial, em grande medida voltada ao atendimento do padrão de consumo ostentatório dos ricos e arremedado por muitos não ricos. Nesses termos, o risco de parte da teorização em torno da chamada economia verde estar a serviço da ocultação, mais uma vez, da manutenção do quadro geral de dominação imposto pelos países ricos. Isso pode estar ocorrendo justamente quando as economias do norte convivem com inegável esvaziamento de suas posições relativas no mundo.

Marcio Pochmann é professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas

Debate truncado

Não sou contra as ciclovias, muito pelo contrário, mas...

Diálogo meio cômico, meio trágico entre secretário de Transportes e comerciante é simbólico da forma como o debate sobre as políticas públicas de Haddad tem sido conduzido
por Redação RBA publicado 24/07/2014 08:43
Fábio Arantes/Prefeitura
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Tatto ao lado de Haddad durante inauguração de ciclovia no centro: projeto cumpre plano de governo

A equipe do blog Bike é Legal registrou o encontro do secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, com o comerciante Sebastião Juarez durante a inauguração de 2,6 quilômetros de ciclovias na região central de São Paulo, que pode ser visto no vídeo abaixo. Dono de uma loja de carros pela qual paga R$ 1,8 mil por ano de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Juarez considera "um desrespeito com o trabalhador" a iniciativa da prefeitura de São Paulo de transformar vagas de estacionamento em ciclovias que vão conectar a região da Sala São Paulo, próxima à Estação Júlio Prestes da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), ao terminal de ônibus da praça Princesa Isabel.

Não adiantou Tatto tentar explicar que a decisão de investir em ciclovias faz parte de um projeto de integração de transporte público para melhorar a mobilidade na cidade como um todo e nem mesmo que andar de bicicleta faz bem à saúde e ao meio ambiente.

Para Juarez, a medida prejudica quem prefere o carro e os comerciantes, que contam com vagas públicas de estacionamento em frente a suas lojas como atrativo para os clientes. O comerciante insistiu ainda em questionar a coloração das faixas, vermelhas, por supostamente tratar-se de alusão à cor do Partido dos Trabalhadores, ao qual pertencem Tatto e o prefeito Fernando Haddad.

A sinalização de ciclovias, na verdade, é definida pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran), órgão federal, e vale para todo o Brasil.

O diálogo meio cômico, meio trágico, é simbólico da forma como o debate sobre as políticas públicas da gestão Haddad tem sido conduzido desde o primeiro ano de mandato do petista: com muito ruído entre um governo que tenta centrar seu discurso na importância do planejamento de longo prazo e no benefício coletivo e parcelas da população que, por desinformação, implicância política ou puro egoísmo, se recusam a falar sobre reformas estruturais urgentes para que a cidade tenha um futuro mais dinâmico, inclusivo e acolhedor.

O assunto, desta vez, são as ciclovias, mas poderia ser a ampliação dos corredores de ônibus, o programa Braços Abertos, a liberação aos artistas de rua, a mudança do critério de cobrança do IPTU para que os pobres paguem menos e os ricos paguem mais, o Plano Diretor ou outros episódios da tensão entre público e privado que seguem rondando a administração municipal.

No gabinete do prefeito, assessores brincam que é proibido dizer que o próximo dia de trabalho vai ser tranquilo, e, de fato, parece que nenhuma iniciativa do prefeito que mexa com o status quo da cidade terá recepção pacífica.

Se for essa a origem da rejeição de 47% dos paulistanos à gestão de Haddad, segundo pesquisa Datafolha, o problema vai além de ampliar a divulgação dos atos do governo. A recuperação de popularidade do prefeito e do nível do debate público passarão, necessariamente, pela compreensão geral de que São Paulo tem pela frente desafios ainda mais graves do que os que enfrenta hoje, e, para adaptar-se ao futuro, precisa de novos rumos. Nada contra quem gosta das coisas como elas estão, muito pelo contrário, mas...

Emir Sader

A desesperadora crise do liberalismo norte-americano

Os EUA precisariam primeiro colocar sua casa em ordem, antes de promover os seus valores e instituições no exterior
por Emir Sader publicado 21/07/2014 15:56, última modificação 21/07/2014 16:46
Departamento de Estado/EUA
John Kerry

Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o presidente do Curdistão Iraquiano, Masud Barzani. A difícil tarefa de semear conflitos e depois cortar gastos militares

Na década de 1930 as pessoas viajavam à Italia e à URSS e voltavam elogiando a eficácia de regimes autoritários, em comparação com as democracias. “Hoje as democracias vivem um período parecido de inveja e desânimo”, afirma o escritor e historiador canadense Michael Ignatieff, em artigo para o The New York Review of Books, reproduzido pelo Estadão. Os que viajam à China e se maravilham com o trem-bala entre Pequim e Xangai se perguntam na volta por que esses regimes conseguem construir ferrovias “enquanto as democracias levam 40 anos para decidir que não podem nem sequer começar”.

Segundo Ignatieff, que foi líder da oposição na Câmara dos Comuns de seu país até o início da década, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, o avanço do que ele considera como regimes de constitucionalismo democrático parou. Em todos os lados esses regimes se desgastam, enquanto os que ele considera autoritários avançam e servem como referencia para os outros. O modelo desses regimes autoritários seria o capitalismo de Estado, com “crescimento sem democracia”.

E, para piorar a situação para os regimes liberais, “os Estados Unidos oferecem um exemplo desanimador”, lamenta ele. “É difícil defender a democracia liberal com muito entusiasmo, quando ela funciona tão precariamente em casa.” Os EUA precisariam primeiro colocar sua casa em ordem, antes de promover os seus valores e instituições no exterior.

Hoje as grandes decisões que os EUA deveriam tomar estão bloqueadas pelos impasses entre o governo e o Congresso. Segundo um cientista político citado por Ignatieff, “os EUA mergulharam em guerras que não deveriam ser travadas e promoveram objetivos, como direitos humanos, democracia e construção nacional, que não poderiam realizar”.

Hoje, quando os EUA são demandados para atuar em várias frentes externas de maneira mais forte – Afeganistão, Iraque, Ucrânia, entre outros –, uma das poucas coincidências entre republicanos e democratas é a necessidade de cortar os gastos militares. O que significa: “Ficar fora de guerras ou desastres humanitários de outros povos; recusar-se a promover democracia ou direitos humanos em lugares onde eles não criarão raízes; obrigar aliados a arcar mais com o fardo de sua própria defesa; e desistir de moldar os bens públicos globais e a ordem política global”.

A crise de governabilidade indica, assim, para a renúncia da defesa de teses clássicas que o liberalismo norte-americana sempre pregou. Em seu último discurso importante, Obama já indicou seu objetivo de repatriar os militares, provavelmente com a vista posta nas eleições parlamentares de novembro, quando o governo pode perder completamente o controle do Congresso, ficando Obama relegado a ser um “pato manco” pelos dois anos que restariam de governo.

Ignatieff tem de aceitar que a proposta mais viável para desbloquear a situação interna dos EUA é a apresentada pelo Nobel de Economia Joseph Stiglitz, que propõe uma alíquota de imposto de renda de 40% para os que controlam os 25% superiores da renda nacional; uma alíquota de 20% para para os que detêm os 25% seguintes, com deduções fiscais para os 50% restantes. Além disso, impostos de 15% sobre os lucros corporativos e imposto sobre o consumo de 5%.

São propostas que violam o receituário liberal de menos imposto, elevando a captação de recursos pelo Estado para 26%, o que poderia resolver a crise fiscal do país, diminuir a gritante e crescente desigualdade social e estimular a retomada do crescimento econômico.

É um raio X da profunda crise do liberalismo norte-americano.

frustração

Dilma retira democratização da mídia da plataforma de campanha

Programa de governo de um segundo mandato presidencial ignora regulação de um setor estratégico para o amadurecimento da democracia do país
por Intervozes publicado 21/07/2014 14:35, última modificação 21/07/2014 15:04
fabio pozzebom/arquivo abr
dilma

Grupo de Trabalho criado no governo Lula não avançou com Dilma

Um sentimento de frustração acometeu defensores de uma mídia mais democrática nas últimas semanas, após a veiculação na imprensa nacional da notícia que apontava a silenciosa retirada da pauta da comunicação da plataforma de campanha da presidenta e candidata à reeleição Dilma Rousseff.

A única proposta que diz respeito ao setor cita a ampliação do acesso à internet e acaba por construir a falsa ideia de que a rede seria capaz de sanar sozinha as necessidades de liberdade de expressão e comunicação da população. Mesmo após intensos debates internos, o programa de governo intitulado “Mais mudanças, mais futuros” simplesmente não lista, dentre suas prioridades, mudanças em um setor estratégico para o desenvolvimento cultural, econômico e social brasileiro.

Há muito, a sociedade civil aponta a necessidade de uma comunicação mais diversa e plural no Brasil; de regras para impedir monopólios e oligopólios no setor (como ocorre em vários países do mundo); do fortalecimento de veículos públicos e comunitários; do estímulo à produção regional, independente e alternativa; de transparência no trato da concessão e renovação das outorgas de rádio e TV; da prestação de serviços de telecomunicações acessíveis e de qualidade; e da participação de representações da sociedade na elaboração e acompanhamento das políticas públicas desta área (como há na saúde, educação, moradia e assistência social, por exemplo).

Esse desejo se expressou nas mais de 600 propostas aprovadas, ainda em 2009, pela 1ª Conferência Nacional de Comunicação, após debates que envolveram mais de 30 mil pessoas em todo o país. Mas, desde então, essas recomendações nunca foram seriamente levadas em consideração pelo governo federal – diferentemente do que fizeram vários vizinhos nossos na América Latina, como Argentina, México, Uruguai e Equador, que recentemente reformaram seus sistemas de comunicação visando a democratizá-los. Apesar de, no último ano do governo Lula, ter sido criado um grupo de trabalho para formular uma minuta de nova legislação para a área, o trabalho foi repassado à gestão Dilma e não avançou.

Não se pode dizer que foi por falta de sugestões. Entidades da sociedade civil organizadas em torno do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e da Campanha Para Expressar a Liberdade optaram por traduzir as deliberações da Conferência em uma proposta concreta: nasceu o Projeto de Iniciativa Popular da Lei da Mídia Democrática (íntegra disponível em paraexpressaraliberdade.org.br). Mais uma vez, a gestão Dilma Rousseff não se mostrou receptiva à agenda. A espera, agora frustrada, era que isso ocorresse em um eventual segundo mandato da presidenta.

Perguntamo-nos, então, que tamanha pressão exercem os grandes grupos de comunicação do país sobre o governo federal a ponto de silenciar o debate público sobre o tema, reiteradamente barrar qualquer tentativa de avanço possível no Congresso Nacional e, agora, levar uma candidatura presidencial a retirar do seu programa de propostas uma questão historicamente reivindicada pela sociedade civil brasileira e já enfrentada por tantos países?

Acreditamos que ainda é tempo da campanha de Dilma Rousseff reverter a retirada e acolher as propostas feitas no âmbito do projeto da Lei da Mídia Democrática. Para uma candidatura que prega “mais mudanças”, enfrentar o tema, seja nas eleições ou em um eventual segundo mandato, é tarefa urgente. Afinal, sem diversidade na mídia e sem um ambiente democrático de debate público, transformações que assegurem mais direitos à população ficarão cada vez mais difíceis.

E, como não vivemos de espera, entendemos que tal fato somente reafirma a importância estratégica da nossa pauta, conclama o movimento a organizar ainda mais a luta pelo direito à comunicação e a seguir em frente na busca de construir um país onde todos/as tenham voz e se sintam representados/as nos meios de comunicação.

análise

A queda do avião malaio na Ucrânia: um 'atentado' suspeito demais

Tentativa de culpar Rússia sem evidências sugere o pior: isolados e em declínio, EUA tentariam manter supremacia por meio de provocação e guerra permanentes
por Paul Craig Roberts* publicado 19/07/2014 13:19
EFE/Anastasia Vlasova
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Destroços do avião derrubado por míssil em território ucraniano. Ao que tudo indica, nova mentira americana

Na tentativa de isolar a Rússia, ao acusar o país de comandar a derrubada do avião da Malaysian Airlines que transportava cerca de 300 pessoas, o habitante da Casa Branca isolou Washington.

A Câmara de Comércio dos EUA e a Associação Nacional da Indústria [no original, National Association of Manufacturers] fizeram publicar anúncios e emitiram opiniões nas páginas do New York TimesWall Street JournalWashington Post protestando contra as sanções inventadas pelos EUA.

A Associação Nacional de Fabricantes disse que “estamos desapontados com os EUA, por ampliarem sanções unilaterais de modo que muito prejudica a posição comercial norte-americana no mundo.” A Agência Bloomberg noticia que “reunidos em Bruxelas, líderes da União Europeia recusaram-se a acompanhar as medidas impostas pelos EUA.”

As sanções não terão efeito sobre empresas russas. As empresas russas podem obter mais financiamentos do que carecem, de bancos chineses, franceses e alemães.

Os três traços que definem a cidade de Washington – arrogância, soberba e corrupção –, também emburrecem a capital norte-americana e a fazem incapaz de aprender. Gente arrogante, tomada de soberba, nunca aprende. Quando encontram resistência, respondem com propinas, ameaças e coerção. A diplomacia exige capacidade razoável para aprender com os erros — os próprios e os dos outros; mas já há anos Washington esqueceu a diplomacia. Washington só conhece a força bruta.

Consequentemente, os EUA, com as sanções, só são capazes de solapar o próprio poder e a própria influência. As sanções só têm estimulado os países a se afastarem do sistema de pagamentos em dólares, que é o fundamento do poder norte-americano.

Christian Noyer, presidente do Banco da França e membro do Conselho de Administração do Banco Central Europeu, disse que as sanções de Washington estão afastando as empresas e os países do sistema de pagamentos em dólares. A soma gigantesca de dinheiro que os EUA assaltaram, sob a forma de “multa” aplicada ao banco francês BNP Paribas, por manter transações com países que os EUA “desaprovam”, mostra bem claramente os graves riscos que ameaçam todos os que ainda insistam em negociar em dólares, quando os EUA ditam as regras que bem entendam.

O ataque dos EUA contra o banco francês serviu para que muitos recordassem as numerosas sanções passadas e se pusessem em alerta contra sanções futuras, como as que ameaçam o banco Commerzbank da Alemanha. Já é inevitável um movimento para diversificar as moedas usadas no comércio internacional. Como Noyer destacou, o comércio entre a Europa e a China não precisa do dólar e pode ser integralmente pago em euros ou renminbi (moeda da República Popular da China).

O fato de os EUA imporem regras só deles a todas as transações denominadas em dólares, em todo o mundo, está acelerando o movimento de países que se afastam do sistema de pagamento na moeda norte-americana. Alguns países já criaram acordos bilaterais com seus parceiros comerciais, para que os pagamentos se façam nas respectivas moedas próprias.

Os países BRICS já estão estabelecendo novos métodos de pagamento, independentes do dólar, e estão criando seu próprio fundo monetário, para financiar seus negócios.

O valor do dólar dos EUA como moeda de troca depende de seu papel no sistema internacional de pagamentos. Se esse papel vai desaparecendo, também começa a sumir a demanda por dólar e o valor de troca do dólar. A inflação entrará na economia dos EUA via preços de importações, e os norte-americanos, já tão pressionados, verão cair ainda mais os seus padrões de vida.

No século 21, a cada dia menos gente confia nos EUA. As mentiras de Washington, como “armas de destruição em massa” no Iraque (que nunca existiram); “armas químicas usadas por Assad” (que jamais as usou); e “armas atômicas do Irã” (que absolutamente não existem) já são tratadas como absolutas mentiras por outros governos. São mentiras e mais mentiras, que os EUA usam para destruir países e ameaçar outros países com destruição, para manter o mundo em eterno sobressalto.

Washington nada tem a oferecer ao mundo, que consiga acalmar o sobressalto e a aflição que os EUA distribuem pelo planeta. Ser nação amiga de Washington implica aceitar todas as suas chantagens. E muitos já começam a concluir que a amizade de não compensa o preço altíssimo que custa.

O escândalo da espionagem universal pela Agência de Segurança Nacional dos EUA contra o mundo, e a recusa dos EUA a se desculparem e desistirem da prática reiterada daqueles atos aprofundaram ainda mais a desconfiança, que já se vê hoje até entre os próprios aliados dos EUA. Pesquisas, em todo o planeta, mostram que outros países veem os EUA como a maior ameaça à paz.

Nem o próprio povo norte-americano confia no governo dos EUA. Pesquisas mostram que ampla maioria de norte-americanos entendem que os políticos, a imprensa empresarial prostituída [a expressão usada no texto orinal é presstitute media] e grupos de interesses privados, como Wall Street e o complexo militar/de segurança, violentam todo o sistema para servir seus próprios interesses, às custas do povo dos EUA.

O império de Washington está começando a rachar, circunstância que provoca ação desesperada. Hoje, (17, quinta-feira), ouvi notícias na National Public Radio sobre um avião de passageiros malaio que caiu em território da Ucrânia. A notícia era verdadeira. Mas foi apresentada em tom de fazer crer que teria havido alguma espécie de complô urdido pela Rússia e “separatistas” ucranianos. Na BBC, mais e mais opiniões enviesadas, cada vez mais enviesadas. Até que matéria sobre as “mídias sociais” “noticiava” que o avião teria sido derrubado por um sistema russo de armas antiaéreas.

Nenhum dos “especialistas” ouvidos sequer se preocupava com o que os “separatistas” teriam a ganhar com derrubar um avião de passageiros. Nada disso. Todos já haviam decidido que a Rússia “é culpada”, o que “evidentemente” “obriga(ria)” a União Europeia a apoiar sanções ainda mais duras contra a Moscou. A BBC acompanhava o script dos EUA e “noticiava” o que Washington queria ver nas manchetes!

A operação tem, isso sim, todos os indícios de ter sido concebida em Washington. Todos os promotores oficiais de guerras rapidamente apareceram em todos os canais de televisão e em todas as manchetes. O vice-presidente dos EUA Joe Biden declarou que “a aeronave foi explodida em voo”. Que “não foi acidente”.

Ora! Por que alguém teria tanta certeza, antes de qualquer confirmação oficial? Visivelmente, Biden não procurava culpar o governo ucraniano. Claro que quem abateu a aeronave em “pleno voo” foi… a Rússia! É o modo como Washington opera: grita “culpado!” tantas e tantas vezes, até que já ninguém se lembre de exigir provas.

O senador John McCain pôs-se imediatamente a “declarar” que havia cidadãos norte-americanos no avião, o que bastava para ele “exigir” ações punitivas contra a Rússia (tudo isso antes de alguém conhecer a lista de passageiros do avião e as causas da queda).

As “investigações” estão sendo feitas pelo regime de Kiev, fantoche de Washington. Acho que já se poderia escrever a conclusão hoje, sem investigar coisa alguma.

É alta a probabilidade de que apareçam provas fabricadas, como as provas fabricadas que o secretário de Estado Colin Powell dos EUA apresentou à ONU, para “provar” a existência das inexistentes “armas de destruição em massa” iraquianas. Washington safa-se há tanto tempo, com tantas mentiras, golpes, encenações e crimes, que já se convenceu de que se safará sempre.

No momento em que escrevo, não há ainda informação confiável sobre o avião, mas a velha pergunta dos romanos vale sempre: cui bono? Quem se beneficia?

Os “separatistas” nada têm a ganhar com derrubar um avião de passageiros, mas Washington, sim, tinha “bom” motivo: culpar a Rússia. E bem poderia ter também um segundo motivo. Dentre os muitos rumores, há um rumor que diz que o avião presidencial do presidente Vladimir Putin voava rota semelhante à do avião malaio, com diferença de 37 minutos entre um e outro avião. Esse rumor disparou especulações de que Washington teria decidido livrar-se de Putin, mas errou o alvo: tomou o avião malaio pelo jato presidencial russo. O site Russia Today (RT) noticia que os dois aviões teriam aparência semelhante.

Antes de começarem a “explicar” que Washington seria sofisticada demais para ‘errar’ de avião, lembro que quando os EUA derrubaram avião iraniano no espaço aéreo do Irã, a Marinha dos EUA “explicou” que “pensara” que os 290 civis assassinados naquele atentado estivessem num jato iraniano, um F-14 Tomcat, jato de combate fabricado pelos EUA, e muito usado também pela Marinha dos EUA.

Ora! Se a Marinha norte-americana não consegue distinguir nem entre um jato de combate que usa todos os dias, e um avião de passageiros iraniano… é claro que os EUA podem se atrapalhar e confundir dois aviões de passageiros que, como diz RT são, sim, até que “parecidos”.

Durante toda a matéria da BBC, publicada para inventar a culpa da Rússia, nenhum “especialista” lembrou-se do avião iraniano de passageiros que os EUA “abateram em pleno voo”. Ninguém “exigiu” sanções contra os EUA.

Seja qual for o desfecho do incidente com o avião malaio, os fatos indicam um perigo na política soft de Putin contra a intervenção armada e violentíssima dos EUA na Ucrânia. A decisão de Putin, de responder com diplomacia, não com recursos militares, às provocações de Washington na Ucrânia, deu vantagem inicial ao governante russo – como se comprova na reação da UE e de associações de empresários norte-americanos contra as sanções de Obama.

Contudo, ao não impor fim imediato, por meios militares, ao conflito que Washington patrocina e comanda na Ucrânia, Putin deixou a porta aberta para os crimes e complôs que Washington está maquinando — e que são especialidade dos EUA.

Se Putin tivesse aceitado o pedido dos antigos territórios russos do leste e sul da Ucrânia, para se reincorporarem à Rússia, o imbróglio ucraniano teria acabado já há meses; e a Rússia não estaria exposta a tantos riscos.

Putin não colheu o benefício de ter-se recusado a enviar soldados para os antigos territórios russos: a posição oficial” de Washington é que há soldados russos operando na Ucrânia. Quando os fatos não ajudam a “confirmar” o que mais interessa à agenda de Washington, “dá-se um jeitinho” nos fatos.

A imprensa empresarial norte-americana culpa Putin; já decidiram que o presidente russo é autor de toda a violência na Ucrânia. É coisa inventada na cabeça de Washington, mas “virou fato” nos jornais e televisões: é o que basta como justificativa para qualquer sanção.

Dado que não há prática ou ato, por sujos que sejam, que Washington não abrace, Putin e a Rússia estão expostos a alto risco de se tornarem vítima de atentados graves ou dos golpes mais abjetos.

A Rússia parece hipnotizada pelo Ocidente, sob forte motivação para ser incluída como parte. Esse anseio por ser aceita trabalha a favor da agenda e dos golpes de Washington.

A Rússia não precisa do Ocidente; a Europa, sim, precisa da Rússia. Opção interessante para a Rússia é cuidar de seus interesses e esperar que a Europa a procure, interessada.

O governo russo não deve esquecer que a atitude de Washington em relação à Rússia é modelada pela “Doutrina Wolfowitz”, que diz:

“Nosso primeiro objetivo é impedir a reemergência de um novo rival, seja no território da ex-União Soviética ou em qualquer ponto, que represente ameaça da ordem que exerceu, antes, a União Soviética. Essa é a consideração dominante que subjaz à nova estratégia regional de defesa, e exige que trabalhemos para impedir que qualquer potência se imponha, numa região cujos recursos, sob controle consolidado, bastarão para gerar poder global.”

*Paul Craigs Robert foi secretário assistente do Tesouro dos EUA e editor associado do Wall Street Journal. Seu último livro é "Como os Estados Unidos se perderam"

ranço neoliberal

As âncoras do atraso que aprisionam a administração pública

A obsessão dos ricos pelo ajuste fiscal permanente, o desvio de recursos decorrentes da injustiça tributária, e a privatização do patrimônio e da gestão põem o Estado em xeque: miopias a ser superadas
por Marcio Pochmann publicado 18/07/2014 14:24, última modificação 19/07/2014 20:29
Wilson Dias/Agência Brasil
Sonegômetro

Manifestação em Brasília denuncia que até o final do ano mais de R$ 400 bilhões em impostos serão sonegados

No Brasil do início do século 21, a continuidade dos êxitos alcançados depende – em grande medida – da reorganização do Estado brasileiro. Isso porque prevalece de um lado a herança do modo autoritário, burocrático e patrimonialista conferido à gestão pública pela ditadura civil-militar (1964-1985) a constranger avanços da democracia participativa no interior da função pública em praticamente todas as esferas governamentais.

De outro, o espraiamento da cultura gerencialista implantada pelos governos neoliberais dos anos de 1990 inoculou o sentido privatista no interior da administração pública brasileira. Assim, a prática do planejamento indicativo nas decisões administrativas foi substituída pela sedução anárquica do ativismo de "curtoprazismo", responsável pela desestabilização do comportamento de gestão pública consagrado internacionalmente.

Em síntese, o Brasil carrega hoje três âncoras do atraso que aprisionam a administração pública. A primeira delas refere-se ao desejo dos ricos de promover o ajuste fiscal permanente, capaz de mobilizar governos na sanha arrecadatória e contenção de gastos estratégicos para a população pobre.

Em função disso, governos neoliberais buscaram modernizar o Estado fundamentalmente para torná-lo imbatível na arrecadação de impostos, taxas e contribuições, sobretudo na população mais pobre, uma vez que em relação aos segmentos ricos manteve silêncio profundo. A elevação da arrecadação de tributos ocorreu, sobretudo, no consumo e renda do trabalho, enquanto houve corpo mole dos governos para a tributação sobre a renda da propriedade dos ricos (lucros, juros, aluguéis e renda da terra).

A segunda âncora do atraso pode ser identificada na transferência para o setor privado de parte do patrimônio do Estado e da gestão pública. Pela privatização de parcela do setor público estatal nos anos de 1990 houve a demissão de mais de meio milhão de funcionários públicos e a arrecadação de próximo de US$ 100 bilhões. Essa quantia imensa de recursos, equivalente a 15% do PIB da época, não se direcionou a ampliação dos investimentos públicos ou do gasto social, mas à contenção do papel do Estado e pagamento do endividamento público.

Pela terceirização da mão de obra no exercício da função pública tem sido atendidas exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal, que compromete gasto de pessoal até de determinado parâmetro. Assim, o Sistema Único de Saúde (SUS) opera nacionalmente, por exemplo, por meio de ampla presença de OS (organizações sociais), o que faz com que a maior parcela dos trabalhadores do SUS seja contratada no regime da terceirização.

Por fim, a terceira âncora se relaciona aos desvios para os ricos dos recursos públicos para o incremento da política social. Para financiar a bolsa ao setor privado de alta classe média e ricos, o neoliberalismo não apenas avançou na arrecadação sobre os pobres, como também drenou recursos orçamentários da área social por meio da Desvinculação de Recursos da União (DRU) e, ainda, implantou a “canga” do superávit fiscal (economia para pagar juros da dívida interna).

A cada ano, a Receita Federal deixa de arrecadar um volume de recursos equivalente ao montante comprometido com o Bolsa Família, isso se somente considerar os abatimentos realizados na declaração do Imposto de Renda pelos gastos privados com saúde, educação e previdência. Ao mesmo tempo manifestam-se práticas de isentar tributos aos ricos na forma de impostos diretos por parte de governos estaduais e municipais, como nos casos dos grandes proprietários rurais (ITR), da especulação imobiliária e supermansões (IPTU), dos donos de aviões, helicópteros e lanchas (IPVA), entre outros.

O atraso se mostra inequívoco, aprisionando parte importante da administração pública à cultura do descrédito e do apequenamento na eficiência das políticas públicas por recorrente fragmentação. Essa miopia anacrônica do gerencialismo na gestão pública tem sido combatida a partir de 2003, conforme comprovam iniciativas direcionadas à desoneração fiscal no consumo, à reversão do processo privatista e de extensão da terceirização precarizante, à contenção da bolsa de juros aos ricos e à diminuição da DRU e do superávit fiscal.

O êxito da experiência democrática e popular alcançado desde a última década requer a sua continuidade por meio do decisivo enfrentamento às três âncoras gestadas pelo neoliberalismo. Isso implica reforçar a democrática concepção estratégica do Estado em sua relação com o mercado, bem como a inovação permanente no interior da gestão pública brasileira.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas

são paulo

Mídia esconde greve nas universidades

por Altamiro Borges, do Blog do Miro publicado 14/07/2014 17:17, última modificação 14/07/2014 17:26
mídia ninja/cc
usp

Professores e servidores das universidades públicas de SP estão parados há 40 dias por reajuste e investimentos

Os professores e servidores das universidades públicas de São Paulo estão em greve há 40 dias. Eles reivindicam aumento de salário e maiores investimentos no setor. O governador Geraldo Alckmin, porém, não aceita negociar com as entidades sindicais da categoria e ainda sinaliza que deseja privatizar as instituições de ensino. Já o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), reunido na semana passada, argumentou que a “folha de pagamento das três instituições passou do patamar prudencial adequado”. Na mídia paulista, totalmente vinculada aos tucanos, a greve não existe, não é notícia. Quando se refere à longa paralisação, os jornalões babam seu ódio contra os grevistas.

Em artigo editorializado publicado na sexta-feira (11), o Estadão acusou os sindicatos do setor de intransigentes por se recusarem a participar de uma falsa rodada de negociação. “A Cruesp propôs uma reunião com as entidades sindicais dos docentes e funcionários administrativos na próxima semana, mas com a condição de que a questão salarial não seja incluída na pauta. Já os líderes dos grevistas continuam afirmando que os ganhos da USP, da Unicamp e da Unesp com as aplicações de suas reservas técnicas no sistema financeiro permitem a concessão do reajuste pleiteado. Também reivindicam aumento de 9,57% para 11,6% na cota do ICMS a que as três universidades têm direito.”

Para o jornalão, que sempre bajulou as universidades paulistas pessimamente administradas nos governos tucanos, a reivindicação salarial é absurda. “Atualmente, a Unesp e a Unicamp consomem, respectivamente, 95,42% e 97,33% de seus orçamentos com salários. Na USP, esse gasto é de 105,3%, o que tem obrigado a instituição a recorrer às reservas técnicas. É por isso que o Cruesp decidiu não conceder qualquer reajuste salarial em 2014. Já o governo estadual resiste ao aumento do porcentual do ICMS destinado às três universidades públicas paulistas, alegando que os problemas financeiros por elas enfrentados decorrem não de falta de verbas, mas de má gestão.”

O Estadão ainda critica as táticas usadas pelos grevistas. “Diante do impasse, as corporações sindicais apelaram para os mais variados artifícios, propondo aos estudantes, docentes e servidores que debatam ‘as concepções da Reitoria sobre a universidade pública’, busquem apoio político de ‘entidades científicas, movimentos sociais, personalidades e mídia alternativa’ e peçam audiência ao governador Geraldo Alckmin. Apoiados pela bancada do PT na Assembleia Legislativa, os grevistas alegam que o partido de Alckmin (PSDB) quer privatizar as universidades públicas, por ser ‘neoliberal’”. O jornalão, a exemplo do restante da mídia, gostaria que a categoria morresse à mingua – de preferência em silêncio!

pressão de mercado

Os abutres da crise e as raízes das tensões na Argentina

Decisão judicial obtida nos EUA favorece especuladores financeiros e ameaça ainda mais a já fragilizada economia do país vizinho
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 14/07/2014 12:31
cc / wikipedia
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Cristina e Néstor Kirchner em campanha eleitoral. Estabilidade ameaçada por decisão judicial favorável ao mercado

A eclosão da crise argentina em 2001 era mais que anunciada. Diante de duas crises de hiperinflação – de que o Brasil se safou pela indexação – Carlos Menem, que havia anunciado um choque produtivo, fez exatamente o contrário. Chamou economistas liberais que terminaram impondo a resposta mais drástica possível: a paridade entre a moeda argentina e o dólar.

Uma solução mágica contra a inflação. A Argentina renunciava a ter uma política cambial, em troca do controle da inflação. Os argentinos passavam a ter um poder aquisitivo alto, dentro mesmo do país podiam comprar em prazos longos sem juros. Quando depositavam dinheiro no banco, consideravam que tinham o correspondente em dólares.

Era uma bomba de tempo, que mais cedo ou mais tarde explodiria. A divida pública acumulada era gigantesca. Carlos Menem foi derrotado, mas seu sucessor, o radical Fernando de la Rua, manteve a paridade e a bomba acabou explodindo no colo dele. A pressão desatou quando ele decretou o fim da paridade – e ele acabaria renunciando.

Da noite para o dia os depósitos dos argentinos nos bancos ficaram reduzidos a um quarto. Com o fim da paridade, a cotação passou de 1 dólar a 1 peso, para 1 a 4. Foi a maior crise da história da Argentina, com um empobrecimento radical de amplos setores populares e de classe média. Surgiram vários movimentos e protestos, o mais conhecido deles – o dos piqueteiros – consistia em bloquear as estradas e impedir a circulação da produção, como forma de se fazerem ouvir em sua principal reivindicação: a criação de empregos.

Em uma única semana se sucederam vários presidentes, até que nas eleições Carlos Menem, prometia dolarizar definitivamente a Argentina. Ele foi vencido no primeiro turno, diante das alianças em torno do segundo colocado, Néstor Kirchner – um até ali desconhecido governador do interior.

Os piqueteiros não participaram do processo eleitoral, propondo a orientação “que se vayan todos”. Não acreditavam que algum governo conseguiria sobreviver. Foi um erro. Se tivesse sido Menem o vencedor, teria havido a dolarização na Argentina e a inviabilização de qualquer processo de integração latino-americana.

Como não tentaram disputar hegemonia, esses movimentos deixaram o espaço livre para ser ocupado por Kirchner. Diante da provável derrota no segundo turno, Menem renunciou à disputa e Kirchner foi empossado presidente.

Entre tantas heranças malditas que recebeu, uma foi a imensa dívida, contraída pela ditadura e pelo governo de Menem. Néstor Kirchner conseguiu articular uma complexa renegociação da dívida, pagando bem abaixo do valor de face dos papéis da dívida.

Conseguiu que 93% dos credores aceitassem os termos da renegociação, mas 7% rejeitaram e, dentre eles, 1% comprou papéis restantes por um preço irrisório. Mas esse fundos – com razão chamados de fundos abutres – colocaram em prática o que já haviam feito com outros países, entre eles o Peru: com vínculos estreitos com setores do Judiciário dos Estados Unidos, conseguiram decisão de um juiz pela qual a Argentina teria que priorizar o pagamento dos credores que não haviam aceitado a renegociação.

Esse mesmo juiz bloqueou o pagamento feito pela Argentina aos demais 93%, colocando o país à beira do calote, porque se pagar o 1% prioritariamente, terá que fazer o mesmo com os restantes 6%, mais os montantes da renegociação, o que consumiria metade das já reduzidas reservas do país.

A economia argentina já havia entrado, pela primeira vez, desde o começo do governo dos Kirchner, em recessão. Qualquer que seja o processo de renegociação da decisão do juiz norte-americano, o país vai ter de desembolsar dólares. Certamente aprofundará ainda mais a recessão, afetará a já elevada inflação – mais de 30% –, assim como o preço do dólar.

Essa situação difícil se dá num momento político desfavorável para o governo, em que Cristina Kirchner não pode se candidatar de novo e, com apoio popular baixo, não tem condições, até aqui, de eleger um sucessor que dê continuidade direta às orientações de sua administração. Em agosto haverá eleições internas nos partidos, e em outubro de 2015, eleições presidenciais. Será um período tenso daqui até lá para a Argentina.