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sem saída

Por que os tucanos tornaram-se golpistas

Dividem-se entre os que concentram o fogo na Dilma – liderados por Aécio – e os que apostam nas tentativas de tirar Lula da jogada via tapetão, para não terem que enfrentar nova derrota diante dele em 2018
por Emir Sader publicado 02/08/2015 12:44
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Depois de defender plataformas neoliberais e até possibilidade de ser melhor continuação de Lula, tucanos ja não têm nada a propor

FHC sempre se sentiu filiado à social-democracia europeia, antes de tudo à francesa, de Mitterrand, depois à espanhola, de Felipe Gonzalez. Os tucanos estavam dentro do PMDB, disputando espaço em São Paulo com o Quércia. Tentaram lancar a candidatura do Antonio Ermírio ao governo do Estado. Perderam, se deram conta que não tinham condições de disputar o partido com Quércia e saíram.

O grupo, basicamente paulista, tinha Montoro, Covas, FHC, Serjão, Serra, além do Tasso Jereissatti e um que outro perdido pelo Brasil. O Montoro se sentia democrata-cristão, mas não se opôs a assumir a social-democracia como nome. Era um vinculo ideológico, sem nenhuma outra característica dos partidos social-democratas, com significativa presença no movimento sindical. Era um grupo de políticos à busca de uma reinserção melhor no sistema politico. Seu cacife era a imagem de alguns desses políticos.

A candidatura de Mario Covas à presidência, em 1989, foi um fracasso, chegou em quarto. Mas revelava uma tendência que iria se consolidar depois, no seu lema central da campanha: “Um choque de capitalismo”.

O governo Collor foi um rito de passagem pros tucanos na direção do neoliberalismo. Um grupo de avançada entrou diretamente ao governo, entre eles Celso Lafer e Sérgio Rouanet. Era a preparação do terreno para que todos ingressassem, caminho em que estava comprometido FHC, mas que foi brecado por Mario Covas.

O governo Itamar finalmente foi a grande chance de abertura do caminho dos tucanos. Itamar não tinha equipe própria, tinha saído do PMDB e assumido como candidato a vice do Collor. Quando a presidencia caiu no seu colo, chamou FHC primeiro pro Itamaraty e, logo, para o Ministério da Economia. Collor já havia conseguido mudar a agenda nacional, centrando-a nos temas preferidos do neoliberalismo: desqualificação do Estado, abertura do mercado interno, privatizações.

Os tucanos se espelharam na virada de Mitterrand para o neoliberalismo e, particularmente, no governo de Felipe Gonzalez, para assumir esse novo modelo. FHC assumiu a virada definitiva para a cara atual do PSDB, ao retomar o projeto neoliberal interrompido do Collor e montar as alianças correspondentes. Chamou o então PFL de ACM para constituir um novo bloco de forças no governo e colocou em prática um projeto globalmente neoliberal, com todos os seus ingredientes: privatizações, Estado mínimo, abertura do mercado, precarização das relações de trabalho, associado a um discurso de desmoralização da empregados públicos, dos professores, da esquerda e dos movimentos sociais. Montoro e Covas ficaram marginalizados ate sua morte em 2001, com FHC dando a cara nova do partido.

O sonho de FHC era que Collor tivesse feito o  trabalho sujo do neoliberalismo, para que ele aparecesse como a versão da terceira via – de Bill Clinton e de Tony Blair, que sucederam a Ronald Reagan e a Margareth Thatcher. Mas como Collor fracassou, ele teve que assumir a agenda suja, pesada, do neoliberalismo, a começar pelas privatizações. Teve o sucesso imediato que tiveram todos os governos neoliberais, conforme controlaram a inflação ou a camuflaram – no caso do FHC, multiplicando por dez a dívida publica, no caso do Menem, fazendo a mágica da paridade com o dólar, que explodiu depois espetacularmente –, conseguiu se reeleger com isso e depois se esgotou. Não houve nem retomada do desenvolvimento, aumentou e não diminui a concentração de renda e a própria inflação retornou.

Os tucanos não conseguiram eleger o sucessor de FHC e nunca mais triunfaram, perdendo sucessivamente diante do sucesso incomparavelmente maior do Lula, na política interna e internacional. No começo, os tucanos apontavam no fracasso imediato do Lula, por sua suposta “incompetência”, “populismo”, “estatismo”. Depois, apostaram que o “mensalão” o derrubaria, não se atreveram a apelar para o impeachment, com medo da reação popular, preferiram sangrá-lo até as eleições de 2006. Mas as políticas sociais estenderem o apoio do Lula, que derrotou o candidato tucano e se reelegeu.

Em 2010, o candidato tucano saiu amplamente na frente nas pesquisas, davam como seguro que o Lula não elegeria “um poste”, mas perderam de novo. Em 2014 ja foram para sua última parada. Tentaram com Aécio e com Marina e perderam. A partir daí se deram conta que, mesmo contando com a ativa participação política do monopólio privado da mídia, não ganhariam no voto.

A partir desse momento, restou-lhes – de forma muito similar à UDN diante do Getúlio – apelar para soluções golpistas. Se dividem entre os que concentram o fogo na Dilma – liderados pelo Aécio –, com a ilusão de nova eleição, e os que se concentram nas tentativas de tirar o Lula da jogada via tapetão, para não terem que enfrentar nova derrota diante dele em 2018.

Depois de defender plataformas neoliberais e até mesmo uma inviabilizada possibilidade de ser a melhor continuação do Lula – com o Serra na primeira parte da campanha em 2010 –, os tucanos já não têm nada a propor. Seu golpismo se reflete também em que só se interessam por tirar o PT do governo e da disputa eleitoral de 2018, sem o que não têm nenhuma possibilidade de voltar ao governo. Se tornaram um partido velho, superado pela própria realidade concreta, com os mesmos candidatos e as mesmas direções. Viraram uma UDN do século 21.

 

 

 

 

 

golpe

A nova marcha dos insensatos e a sua primeira vítima

Muitos que vão sair às ruas contra Dilma acreditam piamente que o PT estaria, agora, jogando pela janela, a supostamente maravilhosa “herança” de Fernando Henrique Cardoso. Conheça os dados
por Mauro Santayana, do Blog publicado 01/08/2015 13:38, última modificação 01/08/2015 13:44
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Aqueles que reclamam do país nos últimos anos esqueceram ou desconhecem a realidade dos anos FHC

Esperam-se, para o próximo dia 16 de agosto – mês do suicídio de Vargas e de tantas desgraças que já se abateram sobre o Brasil – novas manifestações pelo impeachment da presidenta da República, por parte de pessoas que  acusam o governo de  ser corrupto e comunista e de estar quebrando o país.

Se esses brasileiros, antes de ficar repetindo sempre os mesmos comentários dos portais e redes sociais, procurassem fontes internacionais em que o mercado financeiro normalmente confia para tomar suas decisões, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, veriam que a história é bem diferente, e que se o PIB e a renda per capita caíram, e a dívida pública líquida praticamente dobrou, foi no governo Fernando Henrique Cardoso.

Segundo o Banco Mundial (worldbank1), o PIB do Brasil, que era de US$ 534 bilhões, em 1994, caiu para US$ 504 bilhões, quando Fernando Henrique Cardoso deixou o governo, oito anos depois.

Para subir, extraordinariamente, desses US$ 504 bilhões, em 2002, para US$ 2,346 trilhões, em 2014, último dado oficial levantado pelo Banco Mundial, crescendo mais de 400% em dólares, em apenas 11 anos, depois que o PT chegou ao poder.

E isso, apesar de o senhor Fernando Henrique Cardoso ter vendido mais de US$ 100 bilhões em empresas brasileiras, muitas delas estratégicas, como a Telebras, a Vale do Rio Doce e parte da Petrobras, com financiamento do BNDES e uso de “moedas podres”, com o pretexto de sanear as finanças e aumentar o crescimento do país.

Com a renda per capita ocorreu a mesma coisa. No lugar de crescer em oito anos, a renda per capita da população brasileira, também segundo o Banco Mundial - (worldbank2) - caiu de US$ 3.426, em 1994, no início do governo, para US$ 2.810, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002. E aumentou, também, em mais de 400%, de US$ 2.810, para US$ 11.208, também segundo o World Bank, depois que o PT chegou ao poder.

O salário mínimo, que em 1994, no final do governo Itamar Franco, valia US$ 108, caiu 23%, para US$ 81, no final do governo FHC, e aumentou em três vezes, para mais de US$ 250, agora.

As reservas monetárias internacionais – o dinheiro que o país possui em moeda forte –que eram de US$ 31,746 bilhões, no final do governo Itamar Franco, cresceram em apenas algumas centenas de milhões de dólares por ano, para US$ 37,832 bilhões –(worldbank3) nos oito anos do governo FHC.

Nessa época, elas eram de fato,  negativas, já que o Brasil, para chegar a esse montante, teve que fazer uma dívida de US$ 40 bilhões com o FMI.

Depois, elas se multiplicaram para US$ 358,816 bilhões em 2013, e para US$ 370,803 bilhões, em dados de quinta-feira, dia 30 (Bacen), transformando o Brasil de devedor em credor do FMI,  depois do pagamento total da dívida com essa instituição em 2005, e de emprestarmos dinheiro para o Fundo Monetário Internacional, quando do pacote de ajuda à Grécia em 2008.

E, também, no terceiro maior credor individual externo dos EUA, segundo consta, para quem quiser conferir, do próprio site oficial do tesouro norte-americano (usa treasury).
O Investimento Estrangeiro Direto (IED), que foi de US$ 16,590 bilhões, em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, também subiu mais de quase 400%, para US$ 80,842 bilhões, em 2013, depois que o PT chegou ao poder, ainda segundo dados do Banco Mundial (worldbank4), passando de aproximadamente US$ 175 bilhões nos anos FHC (mais ou menos US$ 100 bilhões em venda de empresas nacionais) para US$ 440 bilhões entre 2002 e 2014.

A dívida pública líquida (o que o país deve, fora o que tem guardado no banco), que, apesar das privatizações, dobrou no governo Fernando Henrique, para quase 60%, caiu para 35%, agora, 12 anos depois de o PT chegar ao poder.

Quanto à questão fiscal, não custa nada lembrar que a média de déficit público, sem desvalorização cambial, dos anos FHC, foi de 5,53%, e com desvalorização cambial, de 6,59%, bem maior que os 3,13% da média dos anos que se seguiram à sua saída do poder; e que o superavit primário entre 1995 e 2002 foi de 1,5%, muito menor que os 2,98% da média de 2003 e 2013, segundo Ipeadata e o Banco Central.

E, ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil ocupa, hoje, apenas o quinquagésimo lugar do mundo, em dívida pública, em situação muito melhor do que os EUA, o Japão, a Zona do Euro, ou países como a Alemanha, a França, a Grã Bretanha – cujos jornais adoram ficar nos ditando regras e “conselhos” – ou o Canadá (economichelp).

Também ao contrário do que muita gente pensa, a carga tributária no Brasil caiu ligeiramente, segundo Banco Mundial, de 2002, no final do governo FHC, para o último dado disponível, de dez anos depois (worldbank5), e não está entre as primeiras do mundo, assim como a dívida externa, que caiu mais de 10 pontos percentuais nos últimos dez anos, e é a segunda mais baixa, depois da China, entre os países do G20 (quandl).

Não dá, para, em perfeito juízo, acreditar que os advogados, economistas, empresários, jornalistas, empreendedores, funcionários públicos, majoritariamente formados na universidade, que bateram panelas contra Dilma em suas varandas, no início do ano, acreditem mais nos boatos das redes sociais, do que no FMI e no Banco Mundial, organizações que podem ser taxadas de tudo, menos de terem sido “aparelhadas” pelo governo brasileiro e seus seguidores.

Considerando-se estas informações, que estão, há muito tempo, publicamente disponíveis na internet, o grande mistério da economia brasileira, nos últimos 12 anos, é saber em que dados tantos jornalistas, economistas, e “analistas”, ouvidos a todo momento, por jornais, emissoras de rádio e televisão, se basearam, antes e agora, para tirar, como se extrai um coelho da cartola – ou da "cachola" – o absurdo paradigma, que vêm defendendo há anos, de que o governo Fernando Henrique foi um tremendo sucesso econômico, e de que deixou “de presente” para a administração seguinte, um país econômica e financeiramente bem-sucedido.

Nefasto paradigma, este, que abriu caminho, pela repetição, para outra teoria tão frágil quanto mentirosa, na qual acreditam piamente muitos dos cidadãos que vão sair às ruas no próximo dia 16: a de que o PT estaria, agora, jogando pela janela, essa – supostamente maravilhosa – “herança” de Fernando Henrique Cardoso.

Leia texto completo

'perverso mecanismo'

'Inflação virou arma ideológica', diz Ladislau Dowbor

Segundo economista, abordagem da mídia é contaminada pelo interesse do mercado, o mesmo que pressiona o governo no sentido do ajuste fiscal, do arrocho dos trabalhadores e do rentismo financeiro
por Redação RBA publicado 30/07/2015 16:23, última modificação 30/07/2015 16:37
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Para Dowbor, a inflação é uma das faces do rentismo para justificar a perversa política de juros

São Paulo – No momento em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central eleva mais uma vez a taxa de juros (Selic), a 14,25% ao ano, sob o pretexto de combater a inflação, vale ler a entrevista do professor de Economia da PUC-SP Ladislau Dowbor à jornalista Maria Inês Nassif, publicada na última edição da revista do Clube de Engenharia Brasil, chamada Engenharia em Revista, para desmistificar o que a cada dia parece mais uma orquestração da mídia em defesa da alta dos preços.

“A inflação virou uma arma ideológica”, afirma Dowbor, depois de analisar que “existe um trabalho de chantagem e contaminação pelo aceno do “risco inflacionário” – e todos sabem que a inflação é um golpe mortal em termos políticos”. Segundo o professor, a abordagem da grande mídia sobre a inflação é contaminada pelo interesse do mercado, o mesmo mercado que pressiona o governo no sentido do ajuste fiscal, do arrocho dos trabalhadores e do rentismo financeiro.

"Quando se baixam os juros, nas televisões, nas rádios, nos jornais, imediatamente se consultam os chamados economistas que dizem, 'é inevitável, a inflação vai subir'. Em regra, esses economistas são todos eles de empresas financeiras”

“O maior jornal econômico do país, por exemplo, em fevereiro (deste ano) publicou uma matéria que contém um quadro com as projeções de inflação, com o título: “O que os economistas esperam”. E são listadas 21 “apostas” em índices inflacionários feitas por economistas de  instituições. Entre eles, não tem nenhum Amir Khair, um Luiz Gonzaga Belluzzo, uma Tânia Bacelar, um Rubens Ricupero, um Bresser-Pereira ou um Marcio Pochmann; nem sequer um IBGE ou um Dieese. Apenas de bancos ou consultorias ligadas ao mercado financeiro – e ambos ganham com a inflação. Esses economistas geram expectativas inflacionárias que se autocumprem, pois os agentes econômicos acompanham as expectativas e elevam preventivamente os preços”.

Longe do discurso tecnicista que tenta jogar a culpa da inflação sobre as costas do governo e seu pretenso desmazelo com as contas públicas, a alta dos preços no Brasil sempre foi, e continua sendo, um perverso mecanismo de concentração de renda, entre outros. Para Dowbor, a inflação é uma das faces do rentismo para justificar a perversa política de juros.

“O rentismo é um conceito que se vincula ao mercado internacional, que gerou uma espécie de elite que vive dos juros, não da produção. E isso tem uma enorme profundidade no país. O Santander, por exemplo, que é um grande grupo mundial, tem cerca de 30% de seus lucros originários do Brasil. Isto é, o mercado financeiro impõe drenos e também estruturas políticas de poder que tornam muito difícil a qualquer governo gerar transformações necessárias para romper essa lógica. De 2013 a 2014, Dilma tentou reduzir a taxa Selic, e os juros de acesso de pessoas físicas e jurídicas ao crédito, e a reação foi de pressões políticas muito fortes. E é curioso como as reações se manifestam. Quando se baixam os juros, nas televisões, nas rádios, nos jornais, imediatamente se consulta os chamados economistas que dizem, 'é inevitável, a inflação vai subir'. Em regra, esses economistas são todos eles de empresas financeiras.”

Leia a entrevista completa: http://zip.net/bsrJ1l

POLÍTICA INDUSTRIAL

Regularização de dinheiro no exterior: críticas e justificativas

Texto de novo projeto fala em um prazo de 120 dias para que as pessoas declarem seus bens no exterior e gozem de anistia. A condição é que os recursos tenham origem lícita e comprovável.
por Luiz de Queiroz, do GGN publicado 28/07/2015 16:37, última modificação 28/07/2015 16:43
Marcos Santos/USP Imagens
lavagem de dinheiro

Uma das principais críticas é a possibilidade de que se aproveitem para trazer ao país dinheiro do crime

No mês de agosto, o Senado Federal deve analisar o projeto substitutivo à Lei nº 7.492, de crimes contra o sistema financeiro. A intenção é oferecer uma oportunidade de regularização para contribuintes brasileiros que têm dinheiro no exterior não declarado à Receita.

Oportunidade que não vem facilmente. No direito tributário é comum que o pagamento do imposto atrasado (e da respectiva multa) acabe com a punibilidade do crime. No entanto, essa regra não é válida para o crime de evasão de divisas. Dessa forma, mesmo que haja interesse em regularizar a situação, dificilmente o contribuinte se sente encorajado, sabendo que vai enfrentar duras sanções penais.

O texto desse novo projeto fala em um prazo de 120 dias (após a aprovação) para que as pessoas declarem espontaneamente seus bens no exterior e gozem de anistia plena. A condição é que os recursos tenham origem lícita e comprovável.

Não é necessário, nesse caso, repatriar o dinheiro, apenas declará-lo e pagar o valor devido. As alíquotas devem ser fixadas em 17,5% de Imposto de Renda e 17,5 % de multa.

Jornal GGN ouviu o colaborador do Senado Federal na elaboração do projeto, o advogado e professor da Universidade de São Paulo (USP), Heleno Torres, para compreender suas justificativas diante de algumas questões que causam preocupação no mercado.

O material está dividido nos seguintes pontos:

Lavanderia oficial de dinheiro – sobre a preocupação de juristas de que o governo se preste a lavar dinheiro ilícito inadvertidamente;

Impunidade e injustiça – sobre a crítica de que o projeto vai garantir a impunidade dos inadimplentes;

Medida arrecadatória: pecunia non olet – sobre o argumento de que se trata apenas de uma medida arrecadatória, emergencial e improvisada diante do momento atual das contas públicas do país;

Prazo curto, preço alto – sobre a preocupação de que o prazo da anistia seja insuficiente para levantar todas as informações comprobatórias de origem dos recursos;

Insegurança jurídica – sobre as garantias de privacidade dos contribuintes;

Valores irreais, baixa adesão – sobre impressão do mercado de que os números de recursos no exterior não correspondem à realidade e de que a adesão será baixa, haja visto que o mais difícil, mandar o dinheiro para fora sem que a Receita tomasse conhecimento, já foi feito.

Lavanderia oficial de dinheiro

Uma das principais críticas ao projeto é a possibilidade de que criminosos se aproveitem do perdão do governo para trazer de volta ao país dinheiro proveniente de tráfico de drogas, armas ou corrupção.

Nessa lógica, pela necessidade de aumentar a arrecadação, a administração pública acabaria funcionando como uma lavanderia oficial de dinheiro ilegal.

Para o professor Heleno Torres não há a menor possibilidade de isso acontecer. “Todos os recursos deverão ter a origem comprovada. O projeto ainda será objeto de regulamentação específica para decidir como será feita essa comprovação”, disse.

Alguns especialistas do mercado, no entanto, entendem que esses documentos estão passíveis de fraude. Ainda assim, concordam que é improvável que o dono de dinheiro ilícito se arrisque a perder tudo apostando na chance de iludir instituições financeiras, bancárias, o Ministério Público e a própria Receita Federal.

Heleno Torres enxerga essa questão até como uma oportunidade. “Existem fraudes desde que o mundo é mundo. Nós fazemos o possível para coibir isso. Mas quem tentar fraudar a declaração para trazer para o país dinheiro ilícito estará assumindo um grande risco”, afirmou.

Impunidade e injustiça

Outra crítica recorrente ao projeto é a injustiça cometida contra o cidadão que sempre cumpriu suas obrigações tributárias diante da anistia dos inadimplentes. A ausência de um processo criminal é vista por alguns como impunidade.

No entanto, o professor Heleno Torres busca lembrar as condições que esse dinheiro foi remetido para fora do país para começo de conversa, em períodos de grande instabilidade e incerteza.

“Você tem que ver o motivo porque não foi declarado: planos econômicos loucos que se sucederam no país que levaram pessoas com medo de perder tudo a mandar dinheiro para o exterior. Às vezes a pessoa queria fazer um tratamento de saúde nos Estados Unidos e para mandar dinheiro para fora tinha que procurar um doleiro. O que eu estou dizendo é que pessoas foram levadas a esfriar dinheiro para ter posição no exterior para fazer uma exportação de produtos, importação, tratamentos de saúde, a educação de algum familiar. Então, é difícil de a gente julgar”, defendeu.

Além disso, ele considera a pena dura demais, o que inviabiliza hoje em dia uma tentativa de regularização. “O sujeito, por mais sério que seja, o homem mais probo do país, porque tenha, por acaso, recursos da sua pessoa jurídica que ficaram no exterior e que não estão declarados, por mais que ele queira, ele só vai conseguir regularizar se passar seis anos na cadeia. Você acha que isso é justo? Isso é isonômico? Não é”.

Medida arrecadatória – pecunia non olet

Outro argumento dos que são contrários ao projeto é que a medida é meramente arrecadatória. Uma tentativa desesperada do Ministério da Fazenda de equilibrar as contas públicas.

O professor Heleno entende que, nesse ponto, a discussão técnica vira política. E acredita que as objeções à realização do projeto na gestão atual seriam rapidamente derrubadas caso a oposição assumisse a presidência em 2018.

“O que as pessoas não querem é que esse governo faça, porque eles querem que o governo continue em dificuldade financeira. Ora, não é o governo que continua em dificuldade financeira, é o país, sou eu, é você. Mas eles fariam a mesma coisa em 2018, tenha a absoluta certeza”.

Ele lembrou que o tratamento do dinheiro em matéria tributária vem de um princípio de Vespasiano, que ao instituir uma taxa para a utilização dos banheiros públicos na Roma Antiga justificou: “Pecunia non olet, o dinheiro não tem cheiro”. Esse conceito hoje significa que um cidadão deve pagar os tributos devidos até mesmo sobre o lucro obtido de maneira ilícita.

Quanto à afirmação de que a medida surgiu apenas da necessidade de arrecadação, o professor lembra que não, que foi convidado para dar contribuição técnica na CPI do HSBC, e que o projeto nasceu como resposta dos senadores Randolfe Rodrigues e Ricardo Ferraço aos vários casos de evasão de divisas que estavam sendo investigados.

Ainda assim, ele garante que o projeto não está sendo pensado para proteger ninguém. Tanto que ele exclui a possibilidade de anistia não só dos que já foram condenados, como também de pessoas denunciadas. “Só que nós não podemos também abandonar a presunção de inocência que está na Constituição, e estender essa exclusão para quem não tem processo em curso”.

O professor Heleno não busca esconder o caráter arrecadatório da medida, mas lembra que o projeto não foi concebido pelo Ministério da Fazenda. O senador Randolfe Rodrigues foi quem primeiro propôs o Projeto de Lei do Senado. “O Ministério da Fazenda simplesmente gostou da ideia. A assessoria do Ministério tomou conhecimento, procurou o senador, o senador explicou, teve mais três reuniões técnicas, o ministro se convenceu de que aquilo era oportuno para o momento e foi avante. Quem diz que a iniciativa tem cunho arrecadatório e que é um expediente orientado pelo governo não sabe absolutamente nada do que aconteceu”.

O Ministério, claro, gostou do projeto. Na justificativa, consta um trabalho feito pelo professor Dev Kar, ex-ecomonista sênior do FMI e economista-chefe da Global Financial Integrity (GFI), no qual ele cruzou dados obtidos com o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Banco Central e outras instituições financeiras, para verificar os fluxos financeiros ilícitos em nível mundial.

“Brasileiros mantêm no exterior algo em torno de US$ 200 bilhões de origem lícita e US$ 400 bilhões de origem ilícita. Eu não acredito que venha tudo. Vamos dizer que venha para o Brasil algo em torno de US$ 70 bilhões de dólares. Vai dar R$ 250 bilhões. R$ 250 bilhões é 5% do PIB brasileiro. Isso pode gerar algo em torno de R$ 70 bilhões em matéria de impostos, não é pouca coisa. E, mais ainda, você aumenta a base de tributação para os anos subsequentes. Porque essa riqueza girando aqui dentro vai gerar novos impostos para o país no futuro”, detalhou Heleno Torres.

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr Senador Randolfe Rodrigues
O senador Randolfe Rodrigues foi quem primeiro propôs o Projeto de Lei do Senado

Prazo curto, preço alto

Mesmo entre aqueles que aceitam os aspectos positivos do projeto é possível encontrar críticas.

A mais comum diz respeito ao alto valor dos tributos cobrados para a regularização. As alíquotas de 17,5% de Imposto de Renda e 17,5% de multa são consideradas abusivas. Ainda assim, é preciso levar em conta que o valor cobrado pelas vias normais seria superior. E que a somatória de 35% não foge muito do padrão internacional. A Índia, quando aprovou medida semelhante fixou a alíquota em 30%. O Reino Unido em 33%.

Quanto ao prazo, o professor Heleno diz que ainda pode ser alterado no parlamento. “Mas é um prazo que pra nós parece razoável. Principalmente porque o projeto ainda não foi aprovado. Na prática vão ser seis meses. E as pessoas já podem se movimentar a partir de agora. E estão. Tenha certeza disso. Os escritórios de advocacia estão a mil por hora, os bancos estão já sendo consultados”.

Insegurança jurídica

Outra questão levantada, especialmente por advogados tributaristas é se o projeto vai oferecer segurança jurídica para o contribuinte que decidir aderir. Há uma dúvida sobre os documentos que serão pedidos para comprovar a origem dos recursos, se a comprovação vai ser suficiente, se algum cadastro vai ser criado de modo a manter esses contribuintes sob o escrutínio permanente da Receita Federal.

Heleno Torres garante que não. “Os dados transitarão de forma documentada, mediante declarações próprias, por intermédio de instituições financeiras, como determina o GAFI, o órgão internacional de controle de lavagem de dinheiro.  Neste caso, preservadas por sigilo bancário. Em seguida, entrarão nas declarações retificadoras de patrimônio junto à Receita Federal. Aqui, sob proteção de sigilo fiscal. Portanto, pretender uma lista aberta a todos das declarações merece cuidados, pois todo cidadão tem proteção constitucional a sigilo bancário e fiscal”.

Valores irreais, baixa adesão

Por fim, o mercado se questiona sobre a veracidade dos números apresentados na justificativa do projeto. É quase consenso que os valores de recursos lícitos estariam inflados e os de recursos ilícitos subestimados.

Além disso, especialistas se questionam por que um contribuinte que já conseguiu mandar os recursos para fora por baixo do radar da Receita optaria por trazer de volta agora. Para ganhar mais com juros no Brasil? O pagamento de Imposto de Renda mais multa torna essa opção pouco interessante. Por uma crise de consciência? É pouco provável.

Para o professor Heleno, a razão é simples: o cerco está fechando. A nova dinâmica econômica mundial não vai mais ser tão permissiva com as finanças ilícitas.

Os Estados Unidos já implementaram um regime batizado de Offshore Voluntary Disclosure, muito semelhante ao que esse projeto de Regularização Cambial e Tributária propõe agora.

África do Sul, Alemanha, Austrália, Canadá, Espanha, França, Índia, Itália, Japão, Portugal, Reino Unido, Rússia, a lista de países que já seguiram os mesmos passos é enorme. “Todos os países do G20 já fizeram isso, exceto o Brasil”, garantiu Heleno.

“Agora, esses acordos do Foreign Account Tax Compliance Act (FATCA), e da Base Erosion and Profit Shifting (BEPS ) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) vão entrar em vigor e terão regras muito rígidas que vão praticamente inibir essa circulação de dinheiro em contas não declaradas. A Suíça, Israel, Estados Unidos e outros países já estão mandando cartas para os seus correntistas pedindo que eles demonstrem que os recursos estão declarados no seu país de origem. Quem não declarar agora não vai ter outra oportunidade”.

domínio

Sem ampliar acesso à informação, Google mantém 'status quo' da grande mídia

Afinal, por que a empresa fez questão de receber em sua sede a presidenta Dilma Rousseff em recente visita aos Estados Unidos?
por Mauro Santayana publicado 27/07/2015 17:57
Reprodução
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Como os usuários podem estar no controle do que eles veem se a informação não tem a liberdade prometida?

Quando as grandes empresas de internet surgiram, nascidas nas universidades, e não nos grandes grupos de comunicação que já existiam, houve esperança de que elas viessem a contribuir para a consolidação de um ambiente de produção, publicação e troca de informações realmente livre.

Um novo espaço que privilegiasse o indivíduo no lugar do "sistema", ajudando-o a libertar-se do deletério domínio da mídia tradicional, umbilicalmente ligada, de parte a parte, por milhares de tentáculos, aos maiores grupos empresariais privados, que, no mundo inteiro, e em cada país, trabalham para manter o status quo e defender seus interesses, entre eles o de continuar – mesmo depois do surgimento da Rede Mundial de Computadores – a manipular e a explorar, do nascimento à morte, o homem comum.

Website mais visitado do mundo, e a marca mais valiosa do planeta, com aproximadamente 25 mil funcionários, um enorme faturamento e bilhões de usuários, o Google parecia ser uma dessas empresas, voltada, como rezava a missão inicial do  “navegador” criado por Larry Page e Serguey Bryn, a “tornar a informação mundial universalmente útil e acessível.”

A primeira impressão, era a de que o Google buscava, ao menos aparentemente, uma aura de identificação e comprometimento com os “melhores” valores, que se refletia no lema “don't be evil” – “não seja mau”, e outros slogans relacionados de sua “filosofia corporativa”, como “você pode ganhar dinheiro sem fazer o mal”, ou “você pode ser sério sem um terno”.

Uma impressão reforçada – teoricamente – pelo fato do Google não perder  uma oportunidade de declarar seu “marcante” comprometimento com a neutralidade da internet, como diz, quase sempre, seu vice-presidente e “Chief Internet Evangelist”, Vint Cerf, quando afirma  que “não se pode permitir que os provedores de acesso controlem o que as pessoas veem e fazem online.”

No entanto, o Google, além de ter tido problemas em vários países do mundo no quesito privacidade, sempre esteve estreitamente ligado à comunidade de informações norte-americana, como revelaram jornais como o The Huffington Post, no ano passado, reproduzindo e-mails divulgados pela Al Jazeera America, trocados entre o presidente da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos EUA, o general Keith Alexander, o presidente do Google, Erick Schmidt, e um dos seus fundadores, Serguey Bryn, nos anos de 2011 e 2012.

Afinal, porque o Google – em uma excelente jogada de relações públicas – por meio do seu presidente Erick Schmidt – fez questão de receber na sede da empresa a presidenta brasileira Dilma Roussef em sua recente visita aos Estados Unidos?

Não apenas porque o Brasil é o quinto país do mundo em usuários de internet ou abriga o único Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Google na América Latina.

Mas também, e principalmente, porque no auge do escândalo de vigilância global da NSA, e dos Five Eyes – a aliança de espionagem anglosaxônica que reúne os EUA, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia, o Reino Unido e “parceiros privados” – em que Edward Snowden desnudou ao mundo o gigantesco sistema de monitoramento em massa e a íntima correlação entre agências de informação dos EUA e grandes empresas norte-americanas que dominam o negócio da internet – incluindo, como vimos, o Google – foi Dilma Roussef que liderou a reação mundial aos EUA, suspendendo sua visita de Estado aos Estados Unidos, e aliando-se à Chanceler alemã Angela Merkel, na apresentação e aprovação, na ONU, por 193 países – contra a vontade de Washington – das diretrizes de uma “lei de internet mundial”, a resolução sobre “O Direito à Privacidade na Era Digital”.

Diante do gigantismo do Google e do dinheiro que aplica em marketing – incluindo um bilhão de dólares para um fundo de filantropia – é preciso prestar a atenção em detalhes para encontrar provas de seu claro comprometimento com o status quo e as forças mais conservadoras em cada país em que atua.

Talvez a mais evidente delas, que pode passar – e essa é a sua função – despercebida pela maioria dos leitores, é a presença de uma seção denominada de “Sugestões dos Editores”, que se pode ver no alto da tela, na coluna da direita, da página inicial do Google Notícias.

Dependendo do momento em que estiver olhando, o leitor pode se deparar com chamadas para matérias prosaicas, como dicas de beleza, dietas etc.

Mas, na maioria das vezes, ele terá chance de encontrar, “casualmente”, no mesmo espaço, no Brasil, por exemplo – mas não apenas em nosso país – o mesmo tipo de conteúdo  reacionário, anacrônico e fascista, que intoxica maciçamente a internet brasileira, hoje, o que leva, naturalmente, qualquer leitor mais atento a se perguntar: que raios de “editores” são esses?

Seriam “editores” do Google? Ou “editores” voluntários, organizados em grupos de leitores?

Não. Trata-se de “editores” de veículos de informação “tradicionais”,  que enviam suas “sugestões”, principalmente de artigos de opinião, ao Google, por meio de feeds.

Em suas informações sobre a seção, o Google explica que qualquer veículo pode enviar uma sugestão.

Mas quem escolhe quais e em que ordem essas sugestões irão ser publicadas na primeira página do Google News?

Se fossemos pensar no âmbito exclusivamente empresarial, compreende-se que, procurando fabricar de óculos a relógios, de carros a balões de reprodução de sinal de internet – e ampliando suas atividades para serviços correlatos de fornecimento de banda larga para usuários finais, que acaba de lançar nos EUA – o Google se sinta cada vez mais como parte do ambiente empresarial  tradicional, voltado para ganhar dinheiro e lucrar com o consumidor final – no seu caso, bilhões de consumidores finais – com os quais  estabelece contato, por meio de seu browser, todos os dias.

Também se compreende que o Google busque boas relações com grandes empresas jornalísticas dos países em que está presente, de onde busca – ainda – a maior parte do conteúdo informativo apresentado a seus usuários por seu motor de pesquisa, principalmente depois que foi proibido de indexar esse conteúdo – por ter se recusado a pagar por ele –, em países como a Espanha.

O problema é que, ao fazer isso – dar destaque às “sugestões dos editores” – um eufemismo para levar  o consumidor a ter acesso destacado e facilitado, no alto de página, ao diktat da mídia tradicional, manipuladora e conservadora que predomina nos países em que atua, o Google está tomando uma atitude política, e também está renegando, descaradamente, o seu Guia de Neutralidade da Rede e os princípios que ele evidencia, quando afirma que:

“Neutralidade da rede é o princípio de que os usuários da internet devem estar no controle do que eles veem e de quais aplicações eles usam na internet. A Internet tem operado de acordo com este princípio de neutralidade desde seus primeiros dias... Fundamentalmente, a neutralidade da rede é a igualdade de acesso à internet. Em nossa opinião, as operadoras de banda larga não devem ser autorizadas a usar seu poder de mercado para discriminar candidatos ou conteúdos concorrentes. Assim como as empresas de telefonia não estão autorizadas a dizer aos consumidores para quem eles devem ligar ou o que eles podem dizer, as operadoras de banda larga não devem ser autorizadas a utilizar seu poder de mercado para controlar a atividade online.”

E também está, na verdade, rasgando os compromissos assumidos com o público, quando do lançamento do seu serviço de  notícias, em 2002, quando afirmou que havia criado um site “altamente incomum” que oferecia um serviço de notícias compilado unicamente por algoritmos de computador, sem intervenção humana, ressaltando que para esse serviço não empregava “editores, editores de gestão, ou editores executivos.”

Como os usuários devem estar no controle do que eles veem? Como “unicamente” por “algoritmos de computador” e sem “intervenção humana”?

São robôs os “editores” privados  que determinam com suas “sugestões” no alto da coluna da direita, da página inicial do Google News, todos os dias, o que o leitor deve ler, nos países em que o Google atua, começando pelos Estados Unidos?

Desse ponto de vista, o Google pode não estar empregando “editores”. Mas nem precisa.

Ao menos nessa seção, o maior site de buscas do planeta preferiu terceirizar o trabalho de escolher o que seus usuários devem ler para os grandes grupos de mídia. Abrindo mão de estabelecer – por meio da internet – um marco na história da comunicação – um novo patamar na relação entre o indivíduo e o universo informacional, para transformar-se, como um mero aparelho de rádio ou televisão, em apenas mais um instrumento de repetição e disseminação do que dizem os maiores jornais e revistas de cada país em que atua. Delegando a essas empresas e jornais – que tem seus próprios compromissos e interesses – o direito de determinar o que eles acham que é mais importante e conveniente – para eles e seus anunciantes, é claro – que os usuários vejam e leiam.

Ainda em suas informações sobre o serviço, o Google diz que é possível para o leitor escolher com que “editores” prefere ter mais “vínculos”, e existe até mesmo uma barra deslizante para que ele possa “personalizar esta fonte de notícias”, mas  a maioria dos usuários tem tempo, conhecimento, ou iniciativa para trabalhar com ela?

E como fica isso no caso das centenas de milhões de usuários que acessam o Google News sem ter uma conta do Google, ou em “lan houses” e “cybercafés” – como ocorre na maioria dos países mais pobres – ou de seu trabalho, por exemplo?

Eles vão deixar de ler, e de ser influenciados, pelas chamadas dessa seção específica?

Seria mais honesto que – caso se visse a isso obrigado, mesmo considerando-se o público que já acarreta para os portais da mídia tradicional – o Google  colocasse como publicidade claramente identificada, banners dirigidos para o conteúdo desses veículos na primeira página do Google News e cobrasse – claramente – por esse serviço.

Ao disfarçar esse conteúdo, colocando-o no alto da página, mas obedecendo ao mesmo layout, tamanho de letra etc., das chamadas normais de conteúdo automaticamente indexado, o Google mostra que tem reforçado, ao longo do tempo, de forma sutil, mas reconhecível, uma decisão clara: a de ficar ao lado do Sistema e não do cidadão, ajudando a reproduzir os esquemas de poder, dominação e manipulação que existem no mercado editorial e jornalístico de cada país, na rede mundial de computadores.

Transformando-se em um instrumento e uma extensão a mais da "fabricação do consenso", ou do consentimento, de que fala Noam Chomsky e do controle do sistema jornalístico tradicional sobre o homem comum, e contribuindo para estender o poder dos grandes grupos empresariais de comunicação de cada país sobre a opinião pública.

Com seus carros  que andam sozinhos, o Google Earth, o novo serviço que permite chamar do Gmail para telefones, e suas ações no apoio à pesquisa científica e à filantropia, a marca Google pretende se apresentar e ser identificada com uma empresa inovadora, que pareça estar voltada, como um farol, para o século XXI e o futuro.

Livrar-se dessa excrescência incômoda, do ponto de vista moral e político, deixando apenas os algoritmos, a busca temática, e o critério de relevância aritmética, como mecanismos de escolha do leitor, na primeira página de seu serviço de notícias – isso, sim, faria do Google, ao menos aparentemente, uma marca realmente inovadora do ponto de vista da relação da mídia com a opinião pública.

Quem sabe, assim, o Google poderia abrir caminho para se transformar em uma companhia verdadeiramente global – da forma como pretende apresentar-se e quer que o público reconheça – e não – como ele parece ser agora – uma mera extensão do poder do establishment norte-americano – e de seus prepostos locais – sobre a internet e os seus usuários em todo o mundo.

Do DCM

Questão de dinheiro: a origem do ódio assassino da Abril pelo PT

No futuro, estudiosos tentarão decifrar por que nem Lula, nem Dilma mexeram no sistema que irriga recursos do contribuinte para mãos da imprensa comercial. Minha hipótese é: medo, medo e ainda medo
por Paulo Nogueira, do DCM publicado 26/07/2015 14:44

Os franceses têm uma frase para a investigação de crimes: “Procure a mulher.” Você pode adaptá-la para o Brasil de hoje.

“Procure o dinheiro.” É o que você deve fazer caso queira entender o ódio desumano da Veja pelo PT, expresso mais uma vez na capa desta semana.

Isso vale não apenas para a Veja, é bom acrescentar.

O jornalista Ricardo Kotscho, que fez parte da equipe de Lula em seus primeiros tempos, conta uma história reveladora.

Duas fontes de reportagens da revista foram desmentidas antes que chegasse às bancas

Roberto Civita queria uma audiência com Lula, algum tempo depois de sua posse. E pediu a Kotscho que a arranjasse.

O objetivo não era discutir os rumos do Brasil e do mundo. Era pedir dinheiro para o governo, na forma de anúncios.

Ou mais dinheiro.

As coisas não correram como Roberto esperava. As consequências editoriais estão aí. Nem a morte de Roberto deteve a fúria assassina da Veja.

É um paradoxo. As mesmas empresas liberais que condenam o Estado são visceralmente dependentes do dinheiro público que ele canaliza para elas.

Sem esse dinheiro, elas simplesmente não sobreviveriam.

Não é errado dizer que o Estado brasileiro financia as grandes empresas jornalísticas. É, para elas, um Estado Babá.

Não é apenas dinheiro de anúncios, embora seja este o grosso. Ele vem de outras formas.

Poucos anos atrás, quando ainda tinha resultados contábeis expressivos, a Abril levou cerca de R$ 25 milhões do BNDES para uma obra que deveria ter sido bancada por ela mesma, e não pelo contribuinte: um arranjo em seu sistema de assinaturas.

É um dado público.

Parêntese: se na CPI do BNDES for aberto um capítulo para as relações da mídia com o banco, teremos informações sensacionais.

Em 2009, quando a Veja já abdicara de qualquer honestidade no ataque ao PT, a Abril levou R$ 50 milhões do governo de Lula apenas em anúncios.

Por que tamanha revolta, então?

Mais uma vez: procure o dinheiro. A Globo estava levando, e continua a levar, dez vezes mais, R$ 500 milhões.

Lula e Dilma, ironicamente, vêm financiando a mídia que tenta exterminá-los.

Tamanha dependência leva a surtos de paranoia a cada eleição: e se a festa acabar? E se o governo decide reduzir ao mínimo os investimentos publicitários que vão dar nas corporações jornalísticas?

Seria uma calamidade para essas empresas. Elas cresceram graças ao dinheiro público posto nelas em proporções nababescas.

Note. Não é só o governo federal. Quantos recursos públicos não são encaminhados para as companhias de jornalismo pelo governo de São Paulo, o mais ricos do Brasil? De anúncios a compras de assinaturas, a mãozinha amiga está sempre presente.

No futuro, estudiosos tentarão decifrar por que nem Lula, nem Dilma mexeram adequadamente neste sistema que irriga recursos do contribuinte para mãos e bolsos particulares.

Minha hipótese é: medo, medo e ainda medo.

Quando os dados se tornaram públicos, e começou a surgir aqui e ali indignação, inventou-se uma coisa chamada “mídia técnica” para justificar o injustificável.

Com isso, teoricamente estava explicado por que anualmente o governo colocava 150 milhões de reais no SBT para terminar num jornalismo com Sheherazades.

Mas era e é uma falácia. Governo nenhum é obrigado a colocar dinheiro em empresa nenhuma, sobretudo quando há fundadas desconfianças sobre o caráter dela e seu comprometimento com o bem estar público.

No caso específico da Abril, e da Veja, a questão do dinheiro público se tornou especialmente dramática com a Era Digital e seu efeito destruidor sobre a mídia impressa.

Um governo amigo melhoraria extraordinariamente a situação financeira da Abril. O declínio não seria estancado, porque é impossível, mas seria mitigado.

A verba de anúncios federais cresceria instantaneamente. Lotes gigantescos de assinaturas de revistas seriam comprados. Financiamentos a juros maternais seriam obtidos.

É isso o que move a Abril – e, em medidas diferentes, as demais grandes empresas jornalísticas.

Procure o dinheiro, caso queira entender a sanha homicida delas, mal disfarçada num moralismo cínico, demagógico e canalha, para não dizer criminoso.

É O ESTADO, IMBECIS!

Em torno do Estado se dão os grandes debates atuais. É o alvo do golpe

Quem pode promover direitos, integração regional, crescimento com distribuição de renda e desenvolvimento social, entre outras obrigações civilizatórias, é o Estado. O retrocesso neoliberal é uma causa mercantil
por Emir Sader, para a RBA publicado 26/07/2015 14:12
Thomas Bedenk/Freeimages.com

Desde que Ronald Reagan disse que o Estado deixava de ser solução para ser o problema, o Estado passou a estar no centro dos debates e das lutas políticas. Reagan apontava-o como ineficiente, corrupto, expropriador de recursos das pessoas, produtor de inflação, desperdiçador, burocrático – em resumo, fonte dos problemas da humanidade.

No seu lugar, se passou a promover a centralidade do mercado e das empresas, identificados como eficientes, dinâmicos, baratos. Quanto menos Estado, melhor (para eles). Estado mínimo significa mercado máximo. Menos regulação estatal, menos direitos, menos proteção, menos políticas de inclusão social.

Alguns dos que fizeram a crítica de uma chamada “Estadolatria” da esquerda no período histórico anterior, buscaram refúgio na “sociedade civil”, que mal podia mascarar o mercado, na versão dominante do neoliberalismo, entre eles ONGs e alguns intelectuais, pela rejeição comum do mercado. Sem o que dizer do ponto de vista do poder do Estado, essa forças desapareceram da cena política.

Superar o neoliberalismo é assumir funções que foram anuladas no Estado mínimo. Estado mínimo não significa mais cidadania, porém menos, porque cidadão é o sujeito de direitos e o que mais faz o neoliberalismo é expropriar direitos, em favor do consumidor e do mercado. Quem pode garantir direitos, promover políticas sociais, participar de processos de integração regional e de alianças Sul-Sul, induzir políticas de expansão econômica com distribuição de renda, programa de desenvolvimento tecnológico e científico, entre outras obrigações civilizatórias, é o Estado.

Por tudo isso, o alvo central da direita, das suas tentativas de restauração conservadora, é o Estado. É em torno do Estado que se dão os grandes debates atuais – sejam econômicos, sociais, culturais ou diretamente políticos.

No Brasil, não por acaso os alvos centrais da direita têm sido sempre o Estado – Petrobras, Correios, Fundos de Pensão, BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica – tentando desarticular a capacidade de ação do Estado.

Diga-me o que você tem a dizer sobre o Estado e eu te direi onde você se situa política e ideologicamente. Não é a polarização que encanta ao neoliberalismo, entre um Estado que ele mesmo maltratou, desfeito, e uma suposta em esfera privada, a que vige no mundo contemporâneo. Porque a esfera do neoliberalismo não é uma esfera meramente privada, é esfera mercantil, em que tudo se vende, tudo se compra, tudo tem preço, tudo é mercadoria. E a esfera da esquerda é a esfera pública, a esfera dos direitos e da cidadania. O Estado é um espaço de disputa hegemônica entre as duas esferas – a pública e a mercantil –, frequentemente as duas se representam e se disputam dentro do próprio Estado.

Muita razão têm os países que decidiram refundar o Estado, para adequá-lo à nova base social que sustenta o poder político, o novo bloco social que leva adiante as políticas de superação do neoliberalismo. Os que não o fizeram, sofrem com um aparato burocrático incapaz de incorporar a participação popular que os novos governos requerem.

Não se trata de que todo debate possa ser reduzido ao Estado, mas cada proposta de modelo e de política econômica reserva um lugar para o Estado, supõe uma forma de Estado. Um Estado de subordinação às forças do mercado ou um Estado capaz de implementar políticas soberanas, democráticas, populares.

Como o mercado anda com pouco prestígio, não apenas pelos danos que causaram as políticas neoliberais, mas também pela profunda e prolongada crise internacional do capitalismo, a direita se concentra em atacar o Estado e os governos que se valeriam do Estado para praticar políticas “populistas”, “corruptas”, inflacionárias. Mas atacam o Estado para voltar a impor políticas centradas no mercado.

Nunca como agora o pensamento crítico tem teve que se voltar para o tema do Estado, das formas que deve assumir o poder político para corresponder aos governos e ao processo que busca a construção de modelos de superação do neoliberalismo. Do tipo de poder popular que se necessita para deitar raízes definitivas nas formas novas formas de Estado que precisamos.

 

Tijolaço

Mídia fascista quer criminalizar editoras de esquerda

A RBA agradece e republica texto do jornalista Miguel do Rosário: "Na ditadura, perseguiram somente editoras e jornalistas que ousavam discordar do discurso único pró-imperialista. Hoje fazem a mesma coisa"
por Miguel do Rosário, no blog Tijolaço publicado 24/07/2015 12:13, última modificação 24/07/2015 12:14
Tijolçao/Reprodução

É uma guerra política em todos os sentidos.

A direita brasileira não admite que exista nenhuma iniciativa independente de suas patranhas imperialistas e golpistas.

Blogs de esquerda, tem que ser processados judicialmente e não podem obter qualquer patrocínio, público ou privado.

A mídia brasileira só protege blogueiros cubanos – que escrevem contra Cuba, claro.

Agora a “força-tarefa” de setores tucanos da PF e mídia, num conluio criminoso, vazando informações seletivamente, promove um ataque político a uma das mais importantes iniciativas da esquerda brasileira: a editora Atitude, que produz a Rede Brasil Atual, a Revista do Brasil, o programa de rádio Jornal Brasil Atual, entre outros projetos.

Além de bloquearem o debate sobre a democratização dos meios de comunicação, as forças reacionárias da mídia, as mesmas que se locupletaram por décadas do regime militar e de conchavos dentro do governo, tentam matar qualquer ação que ouse trazer um mínimo de contraponto à narrativa eternamente golpista das corporações midiáticas.

Na ditadura, perseguiram e censuraram somente editoras e jornalistas que ousavam discordar do discurso único pró-imperialista.

Hoje fazem a mesma coisa, talvez com um pouco mais de sofisticação.

Uma pena que o ministro da Justiça seja leniente com essa transformação da Polícia Federal em polícia política à serviço da mídia, da direita e do golpe.

'rating'

Agência 'nacional' rebaixa nota do Brasil. Alguém já ouviu falar dela?

Aproveitadores surfam a onda do pessimismo, e dão de cara com os números da economia real
por Mauro Santayana, em seu blog publicado 24/07/2015 09:34
arquivo/EBC
Dolar

Apesar dos US$ 370 bi em reservas internacionais, Austin Ratings rebaixa nota do Brasil em moeda estrangeira

A vontade de aproveitar a onda para aparecer – e de "melhorar" o estado de espírito do país – é grande.

Não bastassem as sandices perpetradas por agências de "classificação de risco" estrangeiras, que, como já demonstramos muitas vezes aqui, não têm a menor moral nem credibilidade para prever, auditar ou classificar coisíssima nenhuma, é preciso também conviver com simulacros tupiniquins desses autênticos simulacros externos, que não resistem à tentação de se meter a "gato mestre".

Uma  certa Austin Rating – com esse nome o leitor tende a se perguntar se está situada no Texas e como, ainda, nunca ouviu falar dela – que se identifica como a primeira empresa nacional a "conceder" ratings no país – e já adverte, em sua apresentação, ter desenvolvido e trabalhar com "metodologia própria" – e que seu "processo é eficiente, porque atinge os seus objetivos, concedendo sempre uma opinião fundamentada em fatores quantitativos e qualitativos" (sic) – acaba de rebaixar a nota creditícia do Brasil em moeda estrangeira.

O Brasil, em pleno processo de recuperação de superávits no comércio exterior, do alto de US$ 2.346 trilhões de PIB, US$ 370 bilhões em reservas internacionais, e de sua condição de terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos penhoradamente, agradece.

Indignação

Em nota, Sindicato dos Bancários de SP se solidariza com presidenta da entidade

Entidade presidida por Juvandia Moreira defende apuração de crimes de corrupção e protesta contra "irresponsabilidade" de publicação em expor a vida de pessoas por razões políticas, e proteger outras
por Redação RBA publicado 23/07/2015 18:13, última modificação 23/07/2015 18:26
Mauricio Morais/Sind Bancários de SP
Juvandia

A presidenta do Sindicato dos Bancários, Juvandia Moreira

Nota da diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região:

São Paulo – O nome da presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Juvandia Moreira, surgiu nos últimos dias com mais intensidade em reportagens que tratam da Operação Lava Jato. Por descuido ou talvez maldade, foram divulgados dados sigilosos de alguém sobre quem não paira qualquer suspeita, nenhuma atuação irresponsável ou crime imputável.

O crime, talvez, seja o do trabalho incansável da dirigente, como tantos outros sindicalistas no país e no mundo, na defesa dos direitos dos trabalhadores. No caso dela, desde o início da década de 1990.

Juvandia, além de representante de quase 150 mil bancários em São Paulo, Osasco e região, e de cerca de 500 mil em todo o Brasil, faz parte da direção da CUT. Está à frente da Editora Atitude, da Rede Brasil Atual (rede de comunicação dos trabalhadores), e integra o Conselho da Cidade e do Instituto Lula, motivo pelo qual muitas vezes participa de reuniões com empresários de vários setores. Discutir conjuntura e fazer a defesa dos interesses dos trabalhadores, seja em que fórum for, é papel do Sindicato.

Por essa razão, ela foi convidada para uma reunião organizada pelo ex-presidente Lula e pela empreiteira Odebrecht em maio de 2012, sobre conjuntura nacional. A participação de nenhum empresário foi questionada – dentre eles banqueiros como Roberto Setubal, do Itaú, e Luiz Trabucco, do Bradesco, Jorge Gerdau, Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, e o vice-presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho – mas dos representantes dos trabalhadores, sim (além dela, Sérgio Nobre, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC). A ponto de a mulher de Marcelo Odebrecht, ao ser comunicada da presença da sindicalista, afirmar: “Se sujar minha toalha de linho ou pedir marmitex...vou pirar. Saudações sindicais? Não mereço”.

O Sindicato apoia a apuração dos crimes de corrupção, problema estrutural que assola o país há décadas. Mas não aceita a seletividade que expõe alguns e protege outros. Nem que Juvandia, por ser presidenta de um sindicato, seja atingida sem provas e seus dados pessoais revelados de forma tão irresponsável. A entidade manterá firme sua atuação em defesa dos direitos dos bancários e de todos os trabalhadores. Mesmo que isso incomode muita gente.