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Na Rede

um peso, duas medidas

Dona Marisa, Cláudia Cruz e a justiça de classe de Sérgio Moro

Após decretar condenação eterna da ex-primeira dama, juiz da Lava Jato inocentou mulher de Eduardo Cunha
por Jeferson Miola publicado 26/05/2017 13h28, última modificação 26/05/2017 14h27
RICARDO STUCKERT//AGÊNCIA BRASIL
dona maria claudia cruz sergio moro.jpg

Dona Marisa foi perseguida por Moro. Titular de contas milionárias na Suíça, Cláudia Cruz foi inocentada

Brasil 247 –  Sergio Moro foi um caçador implacável da Dona Marisa. O juiz-acusador perseguiu a ex-primeira dama com uma tal e eficiente obsessão que conseguiu, finalmente, condená-la à morte com um AVC.

À continuação, um odioso Moro, um ser possuído por sentimentos que são estranhos a pessoas justas e de bem, quis decretar a condenação eterna da Dona Marisa.

Ele descumpriu o Código de Processo Penal e relutou, por mais de 30 dias depois do óbito, em declarar a inocência da Dona Marisa.

O grande crime cometido por Marisa Letícia, na convicção do Moro e dos seus colegas justiceiros de Curitiba, foi ter sido a companheira de vida e de sonhos do ex-presidente Lula; a parceira do sonho de um Brasil digno, justo e democrático.

Neste 25 de maio de 2017, Moro trocou a toga daquele juiz-acusador que persegue obsessivamente Lula, pelo traje de advogado de defesa dos integrantes da sua classe – no caso, a família Cunha/Temer/Aécio.

Moro inocentou Cláudia Cruz, a “senhora” do presidiário Eduardo Cunha (como a burguesia patriarcal se referes às mulheres dos “chefes de família”), o integrante da camarilha e sócio de Michel Temer na conspiração que golpeou a Presidente Dilma.

A gentileza do Moro com Cláudia Cruz tem antecedentes. Sem a mínima plausibilidade, em 2016 ele decidiu devolver o passaporte dela, sendo ela ré pelos crimes de lavagem de dinheiro e de evasão de divisas – ou seja, dinheiro depositado no estrangeiro.

Titular de contas milionárias na Suíça, a única maneira da Cláudia Cruz sair do país para, eventualmente, gerenciar as contas (os alegados trusts) da família, seria com o passaporte que Moro fez a deferência de mandar devolver-lhe (à Cláudia Cruz).

Na sentença, Moro entendeu, inacreditavelmente, que “não há provas” de que Cláudia Cruz conhecia e de que ela tenha se beneficiado da propina de contratos da Odebrecht com a Petrobras, recebida por Eduardo Cunha no contrato de exploração do campo de petróleo em Benin (sic).

O pagamento, através do cartão de crédito dela, das aulas de tênis do filho nos EUA a um custo de mais de US$ 100 mil (uma bagatela, a considerar o critério do Moro), e os gastos extravagantes com artigos de luxo em lojas de grife na Europa e EUA, estranhamente não foram levados em consideração por Moro e pelo MP.

Para dissimular a desfaçatez jurídica, no despacho Moro anotou uma “reprimenda” a Cláudia Cruz e registrou, simplesmente, que ela foi “negligente” (sic). “Zeloso” no cumprimento da Lei (como não é na condenação do Lula), Moro destacou, porém, que “negligência” não é suficiente para condenar alguém (sic).

Cada qual que tire as próprias conclusões.

Se, contudo, alguém ainda acreditar que a justiça é cega, que faça o teste.

Sugiro, todavia, que só testem “a imparcialidade e a isenção” da justiça aqueles seres humanos que não sejam negros, pobres, trabalhadores, subalternos e, principalmente, petistas, anticapitalistas e anti-imperialistas.

análise

A barbárie do golpe: escombros, mortos, Exército na rua – chegamos a 1968, sem AI-5

A barbárie se completa com o decreto de Temer: um estado de sítio molambo, disfarçado, covarde, típico de um velhaco que pode levar o Brasil ao abismo
por Rodrigo Vianna publicado 24/05/2017 18h51, última modificação 24/05/2017 19h34
divulgação
cavalaria em bsb.jpg

Cavalaria: trabalhadores em marcha contra as reformas de Temer são atacados em Brasília

Escrevinhador – O prefeito da maior cidade do país caminha em meio aos escombros. Tinha acabado de mandar demolir um prédio na cracolândia, com moradores dentro.

Do outro lado do Brasil, dez corpos se amontoam, em meio a mais um massacre de trabalhadores rurais no Pará. A polícia paraense teria promovido a matança. O uso da força, sem disfarces, sempre foi a linguagem da elite brasileira: escravocrata, ardilosa, antipopular.

Trabalhadores em marcha contra as “reformas” de Temer são atacados brutalmente pela polícia em Brasília. Bombas, porrada, tiros.

Prédios ministeriais incendiados. Brasília arde. A direita de facebook diz que há “vândalos” nas ruas.

Vândalos. Derrubar direitos trabalhistas e mudar a Previdência, impondo um programa econômico derrotado nas urnas: esse o verdadeiro vandalismo que ameaça o país desde que um golpe derrubou a presidenta eleita.

A Globo e os bancos querem uma semidemocracia sem povo. O mercado já decidiu: as urnas não valem, o que vale são as decisões nas mesas das corretoras e dos operadores das bolsas.

Queimaram votos, vandalizaram a democracia, colocaram meganhas pra lançar bombas contra com o povo. E o vandalismo é de quem?

divulgação Doria nos escombros.jpg
O prefeito João Doria caminha entre os escombros da cracolândia: ação autoritária para entregar área à especulação imobiliária
A barbárie se completa com o decreto de Temer: um estado de sítio molambo, disfarçado, covarde, típico de um velhaco que pode levar o Brasil ao abismo. O Exército está nas ruas em nome da lei e da ordem.

A Lava Jato e a Polícia Federal podem tudo.

Enquanto isso, tucanos pisam nos pobres da cracolândia e os mortos se amontoam no Pará (também, sob governo do PSDB).

A Democracia agoniza. Parecemos às vésperas de um momento decisivo. Ou as garantias civis retornam. Ou o Brasil escravocrata, de sempre, vai impor a ordem, a morte e o terror.

Em um ano de golpe, caminhamos de 64 a 68. Já é possível ver o abismo que a Globo, os bancos e os tucanos cavaram com seus pés. Uma parte dos golpistas já foi tragada pelo abismo. Mas ameaçam lançar o país inteiro no buraco.

Sete dias de Exército nas ruas de Brasília, segundo o decreto criminoso de Temer. Sete dias em que o lado de cá pode virar o jogo, ou assistir ao enterro definitivo da Democracia.

Intimidação

Quem vazou tinha a clara intenção de calar Reinaldo Azevedo

Jornalista foi grampeado em conversa com irmã de Aécio Neves, ambos fazendo críticas à Lava Jato e à revista Veja por denúncias contra o senador. Divulgação fere a Constituição
por Luiz Carlos Azenha publicado 24/05/2017 09h20
Reprodução/Jovem Pan/Folhapress
Reinaldo Azevedo

Estado policial: agora atingido, Reinaldo Azevedo chegou a saudar divulgação de grampos ilegais da Lava Jato

Viomundo – Não tenho motivo para defender Reinaldo Azevedo — e não apenas por diferenças ideológicas. Ele e seu então "parceiro" Diogo Mainardi me acusaram — na Veja impressa e digital — de ter um contrato milionário com o governo federal que nunca tive: fui assalariado de uma empresa que ganhou uma concorrência pública! O Globo fez o mesmo, na primeira página, por ordem de Brasília dada a uma jornalista que fez a informação chegar a mim.

Mais que isso, Reinaldo mentiu publicamente a meu respeito em uma polêmica: fantasiou que eu teria pedido a ele um freelancer na revista Primeira Leitura quando eu era correspondente em Nova York. Freelancer negado. O problema com esta versão é que nunca falei com Reinaldo Azevedo: nem por telefone, nem por e-mail, nem pessoalmente. Eu não o conheço.

Portanto, sei bem o que é este "jornalismo" de destruir reputações.

Dito isso, é um absurdo que uma conversa telefônica dele com Andrea Neves, a irmã do senador Aécio Neves, tenha sido vazada. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), pela Polícia Federal. É mais um sintoma do avanço do estado policial. É "culpa" por associação. É exatamente o que fizeram com a conversa entre a ex-primeira-dama Marisa Letícia e um dos filhos dela.

Reinaldo Azevedo tornou-se crítico tardio dos métodos da Lava Jato. Diz-se que fez isso por conveniência política, quando a operação começou a avançar sobre os tucanos. Pouco importa: quem vazou tinha a clara intenção de retaliar. De demitir. De intimidar.

Eu sei muito bem o que é isso: cresci numa cidade pequena do interior paulista, durante a ditadura militar, filho de um militante comunista, e tive de me acostumar à ideia de incorrer no "crime por associação" — crime inexistente mesmo pelos parâmetros do regime, já que meu pai era, nos dizeres da época, "etapista" e defensor de frente ampla.

É assim no fascismo: Reinaldo a partir de agora será desqualificado pelos adversários como o jornalista que telefonou ou recebeu telefonema da mulher presa por corrupção, quando a conversa entre os dois não tinha absolutamente nenhuma relação com o inquérito.

Assim como aconteceu com o blogueiro Eduardo Guimarães, é pura tentativa de intimidação. Ainda que o blogueiro da Veja tenha, no passado, defendido os métodos que agora se voltaram contra ele, trata-se de mais uma tentativa de calar os críticos da Lava Jato.

Do Sul21:

Em 2016, Reinaldo Azevedo defendeu grampo e quebra de sigilo contra Dilma

A Procuradoria-Geral da República anexou, em inquérito da Operação Lava Jato, o conteúdo de conversas gravadas por interceptação telefônica entre o jornalista Reinaldo Azevedo, que mantem um blog na revista Veja, e Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves.

Nestas conversas, Reinaldo Azevedo critica uma reportagem da Veja e a atuação do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. Após a divulgação do fato, pelo site Buzzfeed, Reinaldo Azevedo anunciou que estava pedindo demissão da Veja e divulgou uma nota criticando a violação da garantia constitucional do sigilo de fonte e alertando para a instauração de um estado policial no país.

Já no dia 18 de março de 2016, em um episódio similar, o mesmo Reinaldo Azevedo defendeu a divulgação do conteúdo do grampo que atingiu a então presidenta da República, Dilma Rousseff (PT). Naquela ocasião, em um post intitulado "Dilma Rousseff quer prender Sérgio Moro, e eu quero prender Dilma Rousseff", o jornalista escreveu em seu blog na Veja:

"Dilma não foi grampeada. Grampeados foram outros entes e pessoas que estão sob investigação. O problema é que eles todos estavam em linha direta com a presidente da República. (…) Não se tratou de escuta ilegal, mas legalmente determinada. A quebra do sigilo dessas mensagens, dado o contexto, é plenamente justificada. A única área de debate será o uso das gravações feitas quando já suspensa a quebra do sigilo. Muito provavelmente, não poderão ser empregadas como prova."

Os diálogos sobre a capa 

Do Buzzfeed (reprodução parcial)

Andrea Neves — Agora, que está acontecendo na Veja, o que o pessoal fez…

Reinaldo Azevedo — Ah, eu vi. É nojento, nojento. Eu vi.

Andrea Neves — Assinaram todos os jornalistas e vão pegar a loucura desse cara para esquentar a maluquice contra mim.

Reinaldo Azevedo — Tanto é que logo no primeiro parágrafo, a Veja publicou no começo de abril que não sei o que, na conta de Andrea Neves. Como se o depoimento do cara endossasse isso. E ele não fala isso.

Andrea Neves — Como se agora tivesse uma coleção de contas lá fora e a minha é uma delas.

Reinaldo Azevedo — Eu vou ter de entrar nessa história porque já haviam me enchido o saco. Vou entrar evidentemente com o meu texto e não com o deles. Pergunto: essas questões que você levantou para mim, posso colocar como se fosse resposta do Aécio?

Andrea Neves — Nós mandamos agora para a Veja uma nota para botar nessa matéria.

Reinaldo Azevedo — Não quer mandar para mim também?

Andrea Neves — Mando.

A irmã do senador e Reinaldo Azevedo começam então a criticar a Lava Jato. Ela afirma que a Procuradoria-Geral da República separou investigações contra Aécio para que ele fosse considerado o campeão de inquéritos.

Andrea Neves — Você tem vários casos, todos juntados. Como eles queriam que o Aécio aparecessem como campeão de inquéritos…

Reinaldo Azevedo — Sim, esse era o objetivo.

Andrea Neves — […] É inacreditável, é uma covardia.

Reinaldo Azevedo — […] É incrível, a Odeberecht agora virou a grande selecionadora de quem sobrevive e morre na política. A Odebrecht nunca teve tanto poder. É asqueroso. Me manda esse levantamento, me interessa, sim.

O levantamento citado no diálogo é uma compilação dos inquéritos que, segundo Andrea Neves, mostraria que Janot adotou um critério de caixa dois para os citados e outros para Aécio.

Entre os dias 13 e 14 de abril, foram dois textos publicados pelo jornalista sobre o tucano. O primeiro relata as acusações da Odebrecht e a posição da defesa. Já o segundo texto é em tom similar à conversa com Andrea Neves: "Janot aplica a Aécio critério de exceção, e inquéritos procriam!"

No final do diálogo gravado, há ainda uma crítica a Janot.

Reinaldo Azevedo — A gente precisa ter elementos objetivos de um certo senhor mineiro aí, cuidando da candidatura dele ou à presidência ou ao governo do Estado.

Andrea Neves — Como assim?

Reinaldo Azevedo — O nosso procurador-geral.

Andrea Neves — Você está achando?

Reinaldo Azevedo — Ôxi.. fiquei sabendo que está tendo conversas. Eu só preciso ter gente que endosse isso de algum jeito. Ter um pouco mais de elementos concretos. Que ele está, está. Presidência talvez não, mas o governo de Minas, sim.

Andrea Neves cita, em tom de chacota, a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia. Ela é mineira.

Andrea Neves — Vai disputar com a Carminha (risos).

Reinaldo Azevedo — Ah, deve ser né. Sua prima (risos).

Nota de esclarecimento da PGR

A Procuradoria-Geral da República esclarece que a informação veiculada na matéria do Buzzfeed "PGR anexa grampos de Reinaldo Azevedo com Andrea Neves em inquérito (…)" está errada.

A PGR não anexou, não divulgou, não transcreveu, não utilizou como fundamento de nenhum pedido, nem juntou o referido diálogo aos autos da Ação Cautelar 4316, na qual Andrea Neves figura como investigada.

Todas as conversas utilizadas pela PGR em suas petições constam tão somente dos relatórios produzidos pela Polícia Federal, que destaca os diálogos que podem ser relevantes para o fato investigado. Neste caso específico, não foi apontada a referida conversa.

A ação cautelar contém quatro mídias. As duas primeiras referem-se aos termos de confidencialidade firmados com os colaboradores (folhas 55 e 57), anexados com a inicial da cautelar.

As outras duas, diretamente juntadas pela PF, referem-se aos relatórios (autos circunstanciados) parciais de análise das interceptações telefônicas autorizadas pelo ministro-relator (folha 249, anexadas dia 24/04, e folha 386, anexada dia 19/05).

A Ação Cautelar 4316 ainda não deu a primeira entrada na PGR, tendo sido aberta vista pelo ministro Edson Fachin apenas nesta terça-feira, 23 de maio, com chegada prevista para quarta-feira, 24 de maio.

Assessoria de Comunicação Estratégica do PGR com informações do STF

PS do Viomundo: Na campanha de 2010, algum tucano deve ter imaginado que os "blogueiros sujos" se reuniam num aparelho para receber ordens do lulopetismo, talvez no mesmo tom da conversa reproduzida acima. Uma ideia absurda. Terminada a campanha e empossados os eleitos, recebo uma ligação no meu celular de um assessor: "quem está falando aí?". Dei meu nome. Por coincidência, era um jornalista com o qual eu já havia trabalhado na Globo. Ele agora servia ao novo governo, de outro tucano. Aparentemente, estava checando a quem pertenciam números que haviam sido grampeados. Devem ter gravado muitas conversas sobre a saúde dos gatos da Conceição Lemes.

Resistente

Sonho e realidade: o último editorial de Mino Carta

Diretas são solução inteligente e pacífica, mas a casa-grande vai resistir, diz diretor de "CartaCapital", que só voltaria a escrever se as eleições fossem convocadas sem demora e justiça fosse feita
por Mino Carta publicado 23/05/2017 14h44, última modificação 23/05/2017 17h57
Reprodução/EBC
Diretas Já

Imponentes manifestações das Diretas Já de 1984 chocaram-se com a rejeição da emenda, comandada por quem se tornaria presidente

CartaCapital – Os fados costumam arcar com um papel importante, às vezes decisivo, na história do Brasil. Em meio ao caos precipitado pelo golpe de 2016 irrompe o elemento-surpresa de sorte a abrir uma perspectiva para a saída da crise. A solução correta, pacífica e inteligente, está na convocação de eleições diretas antecipadas no prazo mais curto possível. Ao povo a palavra final.

Não faltam pedras neste caminho, a se considerar que as instituições da República inexistem, enquanto os senhores da casa-grande cuidarão, conforme a tradição manda, de conciliar seus interesses com a nova conjuntura.

Gláucio Dettmar/Agência CNJ Carmen Lúcia
Carmen Lúcia é um dos nomes cotados para substituir Temer

Houvesse condições de confiar nos poderes republicanos, contássemos com Legislativo e Judiciário à altura da situação, poderíamos apostar em um retoque constitucional capaz de reduzir ao mínimo o tempo de um governo provisório eleito indiretamente para logo alcançar o momento das diretas.

Corremos o risco, contudo, de ter de padecer a súbita presença no Planalto de Cármen Lúcia, por exemplo, ou Nelson Jobim. Pasmem: talvez Fernando Henrique. E que tal Henrique Meirelles?

Não duvidemos que seja este o projeto de saída acalentado pelos golpistas e não nos deixemos enganar se a mídia nativa se apressasse a abandonar o barco que soçobra. Trata-se de um específico barco, e não do transatlântico das prepotências e das artimanhas da casa-grande.

Mino concede entrevista hoje às 17h - transmissão ao vivo

Hoje (23), às 17h, o jornalista Mino Carta concede entrevista no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, com transmissão ao vivo pela internet. Mino Carta será entrevistado pelos jornalistas Eleonora de Lucena, Fernando Morais, Luis Nassif, Luiz Carlos Azenha, Miro Borges, Paulo Henrique Amorim e Rodrigo Vianna. Acompanhe aqui.

Os barões midiáticos saberão instruir editorialistas, colunistas, repórteres, âncoras, locutores, no sentido que lhes convém, a eles apenas e não ao País.

Nos corredores da casa-grande ouve-se murmurar os nomes mais cotados para reger a orquestra do futuro e ninguém como Henrique Meirelles, o homem para todas as estações, seria mais adequado para a manutenção do projeto de país até hoje comandado por Michel Temer.

Diga-se que aos infinitos atributos de Meirelles soma-se o de ter sido presidente do conselho de administração da holding da JBS, de 2012 a 2016. Sublinho, JBS, a empresa do Joesley, o grande acusador do momento.

Fabio Pozzebom/Agência Brasil Meirelles
Meirelles também é cotado

A capa de Veja pós-depoimento de Lula na República de Curitiba tem a força altamente simbólica de toda a ferocidade, no nível extremo e mais vulgar, que o ódio de classe pode atingir no Brasil do golpe de 2016. A campanha das Lojas Marisa por ocasião do Dia das Mães não deixa por menos. E é fácil imaginar os aplausos que saudaram as duas iniciativas e os cumprimentos calorosos recebidos pelos autores, celebrados por sua genialidade.

Vivemos um estado de exceção em que tudo se permite impunemente. A casa-grande manda sem intermediários, ao contrário da ditadura da segunda metade do século passado, que entregou aos militares o serviço sujo. Assenhorou-se das instituições e fez delas suas aias, valeu-se da colaboração dos milenaristas curitibanos e confirmou a mídia nativa no departamento de propaganda. Os jagunços prontificam-se a vestir uniforme policial.

E os barões midiáticos são titulares da mansão, representada País afora, uma das suas dependências se estabelece no Rio de Janeiro nas cercanias da Lagoa Rodrigo de Freitas e em São Paulo às margens fétidas do Rio Pinheiros. Dali reinam os senhores Marinho, e ganham, inclusive, a genuflexão de políticos que se dizem de esquerda: o apoio do plim plim é indispensável à sua ascensão. Vale acrescentar que uma entrevista nas páginas amarelas de Veja também é muito valiosa.

Em diversas passagens dos governos de Lula e Dilma, a Secom virou antessala da Globo, enquanto CartaCapital era definida revista chapa-branca por praticar o jornalismo com o respeito devido à verdade factual, embora punida por um critério técnico que na Inglaterra teria fulminado The Economist. Nem se fale dos tempos do ministro Paulo Bernardo. Como propagandista das vontades da casa-grande, a mídia esbalda-se agora, fiel à tarefa de semear o ódio contra o operário ousado além da conta e do seu partido.

RBA Sarney
Sarney foi quem comandou no Congresso a rejeição da emenda das diretas por uma vantagem de dois votos apenas
 

Escrevi mais de uma vez neste espaço que a vitória de um ex-metalúrgico nas eleições de 2002 representava um divisor de águas na história do Brasil, ao inaugurar uma nova estação política em busca da democracia autêntica, até então impedida pela monstruosa desigualdade social. Iludia-me, como já se dera inúmeras vezes. Mudança houve, contudo, no sentido oposto e o Brasil correu vertiginosamente no rumo do passado remoto.

Nos dois mandatos de Lula, o País tornou-se protagonista na ribalta da política mundial, hoje passa a figurar no coro grego dos desgraçados. Os vendilhões da pátria que dizem amar, conforme convêm aos canalhas, cuidam de assegurar-lhe a condição de súdito de algum império. E quem haverá de impedi-los? Por ora, não é imaginável a revolta das ruas.

Dizia um grande brasileiro, exceção obviamente, Joaquim Nabuco, que não bastava abolir a escravidão, seria preciso acabar com a cultura da escravidão, caso contrário o Brasil padeceria mais três séculos de prepotência e atraso. Palavras escritas há bem mais de cem anos, tragicamente proféticas.

Manter a maioria neste limbo, neste prematuro oblívio, foi o objetivo da chamada elite, sempre eficaz nos seus intentos, como costumava sublinhar Raymundo Faoro. Sábia apenas no empenho de manter de pé a casa-senzala e a senzala, ao mesmo tempo incapaz de entender que o povo é um tesouro do País, a par das inúmeras dádivas oferecidas pela natureza.

História dolorosa até o absurdo absoluto dos dias de hoje, sem descurar de variados aspectos da situação. Elite cada vez mais ignorante, grosseira, exibicionista, feroz. Podemos entender a resignação de quantos trazem nos lombos a marca da chibata, assim como podemos perceber a índole e os humores da chamada elite ao confrontar os senhores atuais com aqueles desenhados por Debret, enquanto escravos agitam sobre suas cabeças leques descomunais. São exatamente os mesmos.

RBA Lula e Vermigle
Na foto de 2002, Lula e seu amigo Vermigle, aquele que recentemente citou Colombo

Neste cenário, e com tais personagens, ainda há quem suponha viver em um recanto digno da contemporaneidade. Nutrem os pretensos letrados a certeza de que convivem aqui direita e esquerda, como se houvesse ideologias vivas além daquela da predação.

Sim, haverá um ou outro conservador, ou liberal à moda antiga, algum respeitável leitor de Marx e Gramsci, assim como há os generosos e solidários leitores de CartaCapital. Mas a dicotomia criada à sombra da Revolução Francesa nas nossas paragens, sobretudo nesta quadra da história, não tem a mais pálida chance de medrar.

Não sei se teremos a ventura de assistir à reedição da campanha das Diretas Já de 1984. Reuniu milhões em ruas e praças, foram as primeiras, fluviais manifestações populares movidas pelos mais dignos intuitos. Recordo, porém, e com pesar, que José Sarney, futuro presidente da República, foi quem comandou no Congresso a rejeição da emenda das diretas por uma vantagem de dois votos apenas.

RBA Debret
Esta cena é sempre a mesma (Debret)

CartaCapital certamente apoiaria a candidatura de Lula se a razão acabasse por triunfar e vingasse a solução das eleições antecipadas. Um destacado juiz italiano, Gerardo Colombo, integrante da força-tarefa da Mani Pulite, na qual Sergio Moro diz inspirar-se, veio ao Brasil no ano passado para entender de perto o funcionamento da Lava Jato.

No regresso à Itália disse textualmente ao amigo Antonio Vermigli: “Se Mani Pulite tivesse se portado como o juiz Moro, nós é que teríamos acabado na cadeia”. Vermigli é um carteiro toscano que, depois de aposentado, tornou-se respeitado ativista político e bom amigo de Lula, e como tal participou de uma recente reunião na Câmara dos Deputados em Roma com os advogados do ex-presidente, chamados a expor irregularidades e absurdos jurídicos cometidos pela República de Curitiba.

Sinto muito comunicar aos nossos fiéis leitores que este é o meu último editorial, só voltaria a escrever se as diretas fossem convocadas sem maiores delongas e se, finalmente, a justiça fosse feita. Minha ausência neste espaço não significa que abandono a pequena e valente equipe de CartaCapital, de honestos praticantes do jornalismo, tanto mais em um momento de dificuldade extrema. Estamos asfixiados financeiramente por um governo ilegítimo, sabidamente corrupto, e pelo abandono de setores do empresariado que outrora tinham maior compromisso com a diversidade e a pluralidade.

Democracia mercantil

Poder econômico se apossou do Estado e barrou avanços civilizatórios

Os escândalos são fruto da natureza viciada da relação do Estado com o mercado. É necessária uma reforma política que democratize o voto e coíba o poder do dinheiro sobre Legislativo, Executivo e Judiciário
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 22/05/2017 11h13, última modificação 22/05/2017 11h13
Arquivo/Senado
posse sarney

Durante a transição na década de 80, PMDB resgatou o espírito reformista, agora, é mais funcional para o mercado

Durante o período da ditadura civil-militar (1964-1985), os principais inimigos da democracia podiam ser simplificados pelos grandes capitalistas e pelo estamento dirigente estatal, ambos tementes das reformas civilizatórias prometidas no ciclo político do segundo pós-guerra (1945-1964). Por conta disso, as reformas de base apresentadas pelo governo Jango para conter o tipo de capitalismo selvagem estabelecido no Brasil foram brutalmente rompidas pelo golpe de Estado em 1964.

Ainda durante a transição para a retomada democrática, na primeira metade da década de 1980, o lançamento do programa Esperança e Mudança do PMDB resgatou o espírito reformista enquanto componente necessário para a transformação da relação transparente do Estado com o mercado e da atuação ética do estamento dirigente estatal. Mais de três décadas depois, a experiência democrática brasileira, a mais longeva de todas, se manteve distante da perspectiva de civilizar o capitalismo selvagem aqui instalado, e tampouco de estancar o patrimonialismo inserido no interior do Estado.

Sem reformas, o regime democrático se tornou funcional aos capitalistas, capazes de converter o sistema eleitoral numa espécie de negócio rentável. Enquanto os grandes capitalistas financiam privadamente o processo eleitoral, recebem em contrapartida um conjunto de benesses operado arbitrariamente pelo estamento dirigente estatal.

Dessa forma, o mercantilismo capitalista invadiu o certame eleitoral da escolha democrática da representação popular, acompanhado, em geral, de lucros extraordinários obtidos a partir do financiamento do sistema político. Do conjunto das delações recentemente tornadas públicas, percebe-se o quanto o poder do dinheiro não parece ter limites para os verdadeiros donos do Brasil.

Tudo parece estar à venda. Da compra de leis no Legislativo a pareceres e decisões no Judiciário, as aferições de fiscais e outras funções de interesse do Executivo. Mesmo as informações econômicas confidenciais são privilegiadas a poucos, o que faz o capitalismo de Estado funcionar ao reverso. Não seria mais o Estado a comandar o conjunto dos capitalistas, mas simplesmente o contrário.  

Nessa mesma perspectiva, o velho estamento dirigente nas mais distintas esferas do aparelho de Estado terminaria o utilizando para o seu fim próprio. Parcela do estamento segue recebendo remunerações acima do limite constitucional, o que torna atual a velha máxima: "para os amigos tudo, os inimigos a lei".

Para resolver o descrédito que se generaliza, é necessária a realização da reforma política que democratize o voto, coíba o poder do dinheiro e facilite a formação de convergência para maioria partidária. Na sequência, o desencadeamento das eleições gerais.

Conforme experiências passadas, o Brasil cresce justamente no interior das dificuldades. São elas que forçam a adoção de soluções até então inimagináveis.  

Talvez por isso os escândalos que na atualidade proliferam possam revelar não apenas a natureza viciada da relação do Estado com o mercado como também os laços do patrimonialismo ainda presente no estamento estatal dirigente. Em plena crise, a mais amarga de sua história republicana, a recuperação do elo perdido das verdadeiras reformas prometidas no ciclo democrático do segundo pós-guerra (1945 – 1964) permite conectar o momento atual com uma perspectiva de futuro diferente da democracia mercantil e do patrimonialismo do estamento estatal.  

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.

medo do povo

Quem tem medo da democracia

Quem tem medo da democracia, tem medo do povo, tem medo da maioria, tem medo das eleições, tem medo do controle popular sobre os governos, tem medo de que o povo seja solução e nao problema.
por Emir Sader publicado 21/05/2017 15h03, última modificação 21/05/2017 17h26
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O governo do golpe deu errado porque violou a vontade popular e governou para o capital financeiro.

Diante do fracasso do governo Temer, a democracia reaparece no horizonte como a forma pela qual o Brasil pode se reencontrar consigo mesmo, pode se reunificar como país, pode encontrar os espaços para a convivência de todos os pontos de vista e interesses em um marco institucional. Mas nessa hora a democracia assusta aos que têm medo do povo. Apela-se até para a história de que retomar eleições direitas para presidente seria um golpe, da forma mais paradoxal. Democracia seria golpe e golpe seria o que?

Instaura-se o pânico nas elites dominantes. Depois do golpe, mesmo diante da falta de resultados econômicos positivos e da falta total de apoio popular, as elites estavam dispostas a seguir com Temer, como o mal menor. Depois de se pronunciar pela impossibilidade de um Congresso povoado de parlamentares comprometidos com a corrupção eleger um novo presidente e que nesse caso só mesmo eleições diretas poderiam definir um novo presidente legitimo, a FSP e FHC, entre outros, preferiram retroceder e lutar, como seja, pela manutenção do Temer, mesmo ferido de morte.

Porque não encontram alternativa que possa recompor o consenso que lograram para o golpe e se apavoram diante da possibilidade do povo intervir na crise e votar para presidente. Têm medo da democracia.

Porque um governo antipopular como este, apoiado por toda a direita, promoveu a popularidade de quem fez governo radicalmente oposto e fez de Lula, de novo, o favorito para se tornar presidente do Brasil. Lula é o nome do pânico das elites, do medo à democracia

Porque só governos escolhidos pelo povo têm legitimidade, credibilidade, força, apoio, para enfrentar os problemas do país, mesmo os mais graves. E o governo do golpe só aumentou os problemas existentes e introduziu vários outros. Hoje o Brasil vive uma profunda depressão econômica, com alto nível de desemprego, uma crise social como não se conhecia há tempos, uma falta de legitimidade do governo e uma crise de credibilidade da política.

O governo golpista foi instalado para retomar o modelo neoliberal de Collor e FHC, derrotado em quatro eleições. Foi a via que a direita conseguiu de derrotar os governos do PT. Para isso teria que fazer aprovar o pacote de medidas regressivas e antipopulares que mandou ao Congresso e avançar na privatização, antes de tudo da Petrobras.

Enquanto avançava nessa direção, a direita unida o apoiava, não importavam as acusações de corrupção que envolviam a cada vez maior número de membros do governo e ao próprio Temer. Os fins justificavam os meios. Não era para acabar com a corrupção que o golpe havia sido dado, mas para acabar com o governo do PT.

Mas conforme as mobilizações populares, o enfraquecimento da base parlamentar do governo, a inviabilização da aprovação do pacote de projetos do governo se tornava uma realidade, Temer foi se tornando um estorvo. As denúncias contra ele retornaram e ganharam vulto, primeiro pelo TSE, depois pelas delações da JBS. A mídia abandonava Temer e partidos da base do governo iniciavam uma deserção em massa.

Aí voltou o pânico: fim do governo Temer, sem amadurecimento de uma alternativa dentro do golpe. E risco de um novo golpe gerar um governo ainda mais frágil. FHC, FSP, que haviam pedido a renúncia de Temer, voltaram atrás, junto a outras vozes dentro do golpe. O mal menor ainda tem possibilidade de ter vigência ou a deslegitimação do governo golpista é irreversível.

O fantasma da democracia, o fantasma das eleições, o fantasma do Lula reapareceram e o pânico se instaura. O medo do retrocesso em relação às medidas antipopulares já aprovadas, o medo do estancamento da privatização da Petrobras, o medo do retorno de um governo que retome o desenvolvimento econômico e seus programas de distribuição de renda – tudo isso tira o sono da direita brasileira, que enveredou por um caminho que a divide e lhe coloca desafios que talvez não saiba resolver.

Um Brasil democrático será, antes de tudo, um Brasil que seja governado por quem o povo escolheu. O governo do golpe deu errado porque violou a vontade popular, porque governou conforme os interesses da minoria, do grande empresariado, do capital financeiro.

A democracia é o lado certo da história, porque respeita o direito da maioria, porque submete os governos ao voto popular, porque elege representantes conforme a decisão autônoma do povo e não conforme o poder do dinheiro.

Quem tem medo da democracia, tem medo do povo, tem medo da maioria, tem medo das eleições, tem medo do controle popular sobre os governos, tem medo de que o povo seja solução e não problema.

 

 

governo cercado

Áudio tratado mostra Temer se gabando do 'apoio da imprensa'

Partes do áudio que estavam inaudíveis agora podem ser compreendidas. Por bons minutos Temer também se gaba para o empresário Joesley Batista pela retirada de direitos e supressão de gastos sociais
por Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania publicado 19/05/2017 16h33, última modificação 19/05/2017 19h05
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Temer e a imprensa: presidente revela parceria que já vinha sendo cantada em verso e prosa

O Blog da Cidadania obteve do engenheiro de som e produtor de áudio Guilherme Gama, da Dope Áudio Design, versão “tratada” e melhorada do áudio da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, do Grupo JBS.

Segundo o técnico, muita coisa foi comprometida no áudio divulgado pela Globo porque foi gravada com microfone de lapela, que se coloca embaixo da roupa. Mas grande parte da gravação pôde ser melhorada.

Há vários trechos nos quais Temer fala bem baixinho, denotando que não queria ser ouvido.

O áudio analisado parece ter sido editado em mais de um ponto. A análise dos “timecodes” (“minutagem” do vídeo) mostra que a maioria dos sites que publicaram o áudio usaram a mesma versão.

O perito em questão tratou a gravação em um programa de edição de áudio a fim de eliminar ruídos e destacar a frequência em que as vozes atuam, a fim de elevar seu volume. Em algumas partes do vídeo deu certo.

O técnico ainda informa que conseguiu “nivelar” o volume das vozes dos dois locutores da gravação em tela, a fim de compensar o tom mais baixo que Michel Temer imprimiu à sua fala em contraposição à voz mais alta e decidida de Joesley.

Graças a isso, partes do áudio que estavam inaudíveis agora podem ser compreendidas.

Já no início da gravação, Temer diz a Joesley que a versão de Dilma Rousseff e de seus apoiadores de que ela sofreu um golpe, não colou. Temer diz que “ainda bem” que tem muito apoio no Congresso e muito apoio da imprensa. E que a economia está “dando certo” em “seis meses de governo”, apesar de estar no cargo há um ano e um mês.

Detalhe: Temer e Joesley dão sorrisinhos quando o presidente diz ter “apoio da imprensa”.

Por bons minutos Temer se gaba para Joesley pela retirada de direitos e supressão de gastos sociais. Os dois interlocutores afirmam que Temer fez tudo “muito rápido”, no que estão cobertos de razão.

Mais adiante, Temer se gaba por Moro ter indeferido “21 perguntas dele (de Eduardo Cunha)”, perguntas que, respondidas por Temer, indicariam suas relações impróprias com um agente privado investigado pela Lava Jato.

Joesley diz que está “de bem” com Eduardo (Cunha) e Temer responde que “tem que manter isso”.

Joesley diz a Temer que está “meio enrolado” porque está sendo investigado e “ainda” não foi denunciado.

Josley diz a Temer que “deu conta” de dois juízes e que está para “dar conta” do procurador que estava atrás dele e que isso tem um “lado bom” e outro “ruim”.

Dali para frente, Joesley relata a Temer como está conseguindo controlar a investigação no Ministério Público.

Enfim, está tudo muito claro. A relação imprópria de Temer com Joesley Batista é inquestionável. Foi relatado um crime ao presidente da República. O empresário em questão não explica como “deu conta” das autoridades que o investigam, mas isso não é muito difícil de descobrir.

Mais adiante, Joesley também se gaba de sua “boa relação com a imprensa”.

O fato mais inquestionável que a agora maior clareza desse áudio gera é que, além do que está sendo dito por aí sobre Temer ter no mínimo prevaricado, agora o presidente da República revela uma sua parceria com a imprensa que já vinha sendo cantada em verso e prosa nas redes sociais e blogs.

Por que não me surpreendo? Aliás, quem é, de fato, imprensa “chapa-branca”.

Enfim, ouça o áudio “tratado” pelo engenheiro de som Guilherme Gama, da Dope Áudio Design:

ponto de vista

Mauro Santayana: o alvo final ainda é tirar Lula do jogo

"Aqueles que estão soltando foguetes que nos desculpem, mas não nos colocamos entre os que comemoram, efusivamente, as últimas notícias"
por Mauro Santayana publicado 18/05/2017 17h24, última modificação 18/05/2017 17h33
arquivo facebook
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Lula: eleições em 2018 permitiriam que ex-presidente refizesse relação com a opinião pública

O jornalista Mauro Santayana escreve artigo em que analisa a crise que se instalou no país com as denúncias contra o presidente Michel Temer. Leia abaixo a íntegra do artigo:

Moralmente e por uma questão de princípios, em defesa da democracia, quem está contra os casuísmos e arbitrariedades jurídico-investigativas da Operação Lava Jato no caso de Lula, tem que se manter contra eles também quando atingem o campo adversário.

Até mesmo porque partem, e fazem parte da estratégia, de quem tem apenas um interesse: o seu próprio lado.

Não vemos como solução para o país um impeachment de Temer, a ser conduzido pela figura nefasta da Janaína Paschoal, que já defende essa hipótese para aparecer nos jornais, nem a convocação de eleições indiretas para a Presidência da República para as quais a mídia já especula, significativamente, citando o nome de Sérgio Moro, se "magistrado poderá ser candidato".

Isso, em um processo a ser conduzido por um congresso majoritariamente golpista, em grande parte também investigado por uma operação cuja autoridade máxima é o próprio "chefe" da República de Curitiba.

A ideia de uma nova campanha pelas Diretas Já é correta, do ponto de vista da lógica democrática.

Mas se formos objetivos e pragmáticos, considerando a atual situação política, retira tempo precioso da oposição, que poderia ser utilizado, caso as eleições se fizessem normalmente em 2018, para que Lula se recuperasse e refizesse - aproveitando a crescente impopularidade do governo Temer e denunciando e esclarecendo as mentiras de que tem sido alvo - sua relação com a opinião pública e seu caminho para a Presidência da República.

Uma eleição agora, mesmo que direta, pode jogar o poder no colo de Jair Bolsonaro, apoiado pela sensação de caos institucional, pela condição de não estar sendo processado pela Lava Jato, e, caso chegue ao segundo turno, como as pesquisas indicam, por uma aliança que abrangeria da extrema-direita a setores mais oportunistas do próprio PMDB e do PSDB, passando pelo "centro" fisiológico dos partidos nanicos conservadores, unida pelo objetivo comum de evitar, a qualquer custo, que o PT e sua "jararaca" voltem à Presidência da República.

Finalmente, a leitura mais correta é de que os principais alvos das mais recentes manobras da "justiça" não sejam nem Temer nem Aécio, por mais implacáveis que sejam, contra ele, os juízes e procuradores.

As acusações contra os dois foram forjadas - já que se tratam claramente de arapucas propositadamente montadas - como forma de abrir caminho, definitivamente, para a condenação de Lula.

A percepção da população de que a Justiça e o Ministério Público estavam sendo totalmente seletivos e parciais no trato dos gregos com relação aos troianos vinha crescendo a olhos vistos nas últimas semanas, e aumentava, na mesma proporção, a popularidade e as intenções de voto do ex-presidente da República, especialmente depois de seu depoimento em Curitiba e da absurda proibição de funcionamento do seu instituto.

Com as acusações contra Temer e Aécio, o antipetismo entrega duas torres para capturar e eliminar o Rei que odeia e persegue, sem êxito, há tanto tempo.

A partir de agora, ninguém pode mais dizer que a Operação Lava Jato só atinge o PT, enquanto afaga seus adversários.

E Lula poderá então, ser condenado "exemplarmente" por Moro, aproveitando-se o caos político que tomará conta do país nas próximas semanas, sendo definitivamente impedido de voltar por via eleitoral ao Palácio do Planalto, tanto agora, em eventuais "Diretas Já", como em 2018.

#ForaGlobo

Globo derruba mais um presidente. Isso não é uma boa notícia

Com mais uma ação da emissora, é urgente ampliar o debate sobre a democratização da comunicação no Brasil
por Renata Mielli publicado 18/05/2017 12h34
REPRODUÇÃO
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Organizações Globo detonaram uma bomba que vai derrubar mais um presidente da República no Brasil

Mídia Ninja – "Brasília assustada com as revelações do jornal O Globo". Essa foi uma das frases de efeito ditas por Willian Bonner durante a edição desta quarta-feira (17), dia em que as Organizações Globo detonaram uma bomba que vai derrubar mais um presidente da República no Brasil – golpista, mas presidente.

A denúncia de que Michel Temer foi gravado pelo executivo da JBS, Joesley Batista, dando aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha colocou um ponto final no mandato do golpista Michel Temer. Partidos da base do governo, parlamentares e muitos expoentes da direita, incluindo articulistas da Rede Globo, afirmam com convicção que não há mais condições de Temer permanecer na Presidência.

Tudo começou por volta das 19h, com a reportagem do jornalista Lauro Jardim publicada no site de O Globo. Praticamente na mesma hora, entra um Plantão na programação da Globo para dar o furo e chamar a audiência para o Jornal Nacional.

O misto de perplexidade, indignação e comemoração que tomou conta das redes sociais pode ser ilustrado pela frase "A Casa Caiu".

A gente tira o Temer e depois...

Depois elege um novo presidente por eleição indireta. Pelo menos este é o desejo da Rede Globo, que já colocou seu exército de lobotomizadores para martelar no rádio, na internet, na TV aberta e fechada que, em caso de vacância da presidência nas condições de hoje, a diretriz constitucional prevista no artigo 81 é a eleição indireta. Falam abertamente que a eleição direta é inconstitucional.

Golpe Jurídico-Midiático

A caracterização de que o Brasil é alvo de um golpe jurídico-midiático se reforça. Temer passou a ser um obstáculo aos objetivos políticos e econômicos dos setores que financiaram o golpe. Passado um ano do impeachment, o país está mergulhado numa grave crise econômica, o desemprego é recorde e o presidente ostenta o índice de 61% de ruim e péssimo, segundo avaliação do Data Folha. Como dar continuidade à agenda das reformas neoliberais, de retirada de direitos neste cenário? Como manter o apoio ao golpe e à Lava Jato com um governo enlameado, citado diretamente nas delações, sem qualquer credibilidade?

A aliança mídia-judiciário se aprofunda e não vacila em fazer o que precisa ser feito, doa a quem doer. Nada disso é em nome da democracia, ou da ética, ou da luta contra a corrupção. É um passo no sentido de aprofundar o golpe.

Diretas Já!

A denúncia contra Temer abre mais um capítulo de imprevisibilidade na conjuntura política.

Apesar dos objetivos explícitos da Rede Globo, a sociedade brasileira não pode permitir que um parlamento desmoralizado por denúncias de corrupção eleja, em colégio eleitoral, um novo presidente da República. Este é o momento de sair às ruas para exigir que o povo tenha garantido o seu direito ao voto.

E como diz o ditado: as crises abrem janelas de oportunidade. Temos que construir um amplo arco de alianças para enfrentar o arbítrio.

Fora Globo

O papel político que a Globo, acompanhada pelo restante da mídia hegemônica, tem cumprido no país é totalmente incompatível com a democracia.

É urgente ampliar o debate sobre a democratização da comunicação no Brasil. Já passou da hora de este tema ocupar lugar prioritário na agenda do movimento social. Sem enfrentar o monopólio privado dos meios de comunicação não é possível garantir direitos sociais, trabalhistas, a soberania nacional e, principalmente, não é possível construir um país democrático.

Não podemos continuar a ser uma nação que é dominada por uma emissora de televisão. É hora de dizer um basta a este monopólio.

A palavra de ordem #ForaGlobo representa muito mais do que um grito contra a emissora dos Marinho, ela condensa a indignação de quem não suporta mais ser manipulado por um discurso único. Ela representa a luta de quem quer ter voz, ter rosto, ter visibilidade nos meios de comunicação do seu país.

Vamos todos às ruas e às redes disputar os rumos do nosso país e lutar pelas eleições diretas.

Emir Sader

Candido, o intelectual da esfera pública

A burocratização da vida acadêmica faz com que professores escrevam, grande parte do tempo, para seus pares e agências de fomento. Sempre com rigor e elegância, Antonio Candido escrevia para o povo
por Emir Sader, para a RBA publicado 15/05/2017 17h14, última modificação 15/05/2017 19h46
Guilherme Maranhão/Flip
Antonio Candido

Candido soube combinar a dedicação extrema ao trabalho acadêmico com o constante compromisso político

Antonio Candido era chamado pelos mais próximos de Candido. Foi como eu sempre me acostumei a chamá-lo. Como era chamado pelo meu tio, Azis Simão, amigo e companheiro muito próximo dele, através de quem eu o conheci desde criança. Era como a Gilda, sua companheira de vida e minha querida professora de estética, o chamava. Em compensação, chamava-me pelo apelido que eu tinha quando criança. Para mim sempre ficou o critério: quem o chamava Candido era próximo. Os outros o chamavam pelo nome profissional, de professor, de intelectual, como ele ficou tão conhecido: Antonio Candido.

Mas eu só soube que ele era um dos intelectuais contemporâneos mais importantes do Brasil e conheci sua projeção na América Latina e no mundo, mais tarde.

Um tema central no mundo contemporâneo é a crise e, como alguns anunciam, o fim do intelectual da esfera pública. Este foi caracterizado por três traços marcantes: a abordagem de temas de interesse geral, a utilização e linguagem acessível a todos e o alinhamento do lado do povo contra as oligarquias.

Essas caracterizações foram se perdendo ao longo do tempo. A incessante especialização foi fragmentando o saber, fazendo-o menos acessível, mais hermético, fenômeno muito presente no estruturalismo e no pós-estruturalismo, entre tantos outros fenômenos. Ao mesmo tempo, a multiplicação dos campi universitários foi distanciando as universidades das cidades propriamente ditas. Se antes, num barzinho perto da universidade, era possível conviver com personagens da cidade, agora a convivência ficou restrita aos que frequentam um departamento.

No caso da USP, por exemplo, fomos expulsos da Rua Maria Antônia – no centro de São Paulo, em que nos barzinhos se misturavam estudantes, boêmios, professores, transeuntes – para o isolamento da Cidade Universitária, em que o bar da História está separado do bar da Geografia, e assim por diante.

A burocratização da vida acadêmica, por sua vez, faz com que os professore escrevam, grande parte do tempo, formulários e projetos de pesquisa, assim como relatórios. Escrevem muito mais para seus pares e para as agências de fomento, do que para o público. São muito conhecidos no espaço acadêmico e desconhecidos da sociedade.

O conjunto desses fenômenos foi produzindo a desaparição do intelectual da esfera pública, substituído pelo burocrata da vida acadêmica. A vida intelectual foi assimilada a um emaranhado de linguagens e conceitos herméticos e inacessíveis, abordando temas cada vez mais distantes da realidade concreta das pessoas. Ao mesmo tempo em que o próprio intelectual foi se distanciando dos interesses da grande massa da população, situando-se no campo das próprias elites tradicionais, de cujas formas de vida ele compartilha.

Candido foi o melhor modelo de intelectual da esfera publica. Seus temas de análise ؘ– seja na sociologia ou na teoria literária, eram de interesse geral – do caipira à importância da leitura, dos parceiros do Rio Bonito à Formação da literatura brasileira, da ética ao socialismo –, combinam importância da investigação, rigor na análise e forma de exposição elegante e acessível.

Candido soube combinar a dedicação extrema ao trabalho acadêmico com o constante compromisso político – que o levou a participar da fundação do PT e estar sempre presente nos momentos decisivos da história brasileira. Nunca se deixou levar pela burocratização da atividade acadêmica, foi sempre imensamente generoso em atender os que o buscaram ao longo de toda sua vida.

Com a morte de Candido na última sexta-feira (12), o Brasil se despede de seu mais importante intelectual da esfera pública, modelo de comportamento pessoal e político, que manteve o espírito crítico, mesclado sempre ao fino humor que sempre o caracterizou.