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Na Rede

por publicado , última modificação 18/12/2014 11:56

Crise internacional

Putin afirma que EUA querem fazer da Rússia um 'troféu de caça'

'Por acaso não é um muro o escudo antimísseis ao lado de nossas fronteiras; por acaso não é um muro (...) a ampliação da Otan para o Leste', indagou o líder do Kremlin em entrevista coletiva hoje
por EFE* publicado 18/12/2014 11:56, última modificação 18/12/2014 12:21
EFE
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Putin: sanções ocidentais causaram em torno de 25% a 30% dos problemas econômicos que o país sofre atualmente

Moscou – O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse nesta quinta-feira (18) que o Ocidente "decidiu que é um império e que todos os demais são vassalos", aos quais é preciso achatar, e opinou que querem transformar o "urso russo" em um "troféu de caça". Em entrevista coletiva, Putin acusou os parceiros ocidentais de querer erguer um novo Muro de Berlim, desta vez "virtual", com suas medidas contra a Rússia.

"Por acaso não é um muro o escudo antimísseis ao lado de nossas fronteiras? Por acaso não é um muro (...) a ampliação da Otan para o Leste, algo que nos prometeram que não aconteceria depois da queda do muro de Berlim", perguntou o líder do Kremlin. Putin voltou a se referir às sanções do Ocidente contra Moscou, adotadas pelo papel da Rússia na crise da Ucrânia, como uma nova tentativa dos Estados Unidos e Europa de "arrancar as garras e os dentes do urso" russo para que se transforme "em um troféu de caça".

"Às vezes penso se não seria melhor que o urso ficasse tranquilo, comendo favas e mel. Talvez assim o deixassem em paz. Não o deixarão! Porque sempre tentarão colocar uma corrente nele. E quando o prenderem, lhe arrancarão os dentes e as garras, que hoje são (nossa) força de contenção nuclear", disse o líder russo.

Ao mesmo tempo, Putin reconheceu que as sanções ocidentais já prejudicaram a economia russa, e são causadoras de "em torno de 25% a 30% dos problemas econômicos que o país sofre". Por outro lado e após admitir a presença de voluntários russos no leste da Ucrânia, combatendo o bando rebelde, Putin reiterou que "na consciência social" da Rússia, o conflito armado nas regiões rebeldes ucranianas "é uma operação de castigo realizada pelas atuais autoridades de Kiev".

"Não foram os milicianos do leste que enviaram suas unidades a Kiev, mas as autoridades de Kiev que levaram suas forças armadas para o leste", ressaltou o chefe do Kremlin, que voltou a qualificar de "golpe de Estado" a reviravolta de poder vivida na Ucrânia no início deste ano.

Razões da crise

Ao que parece, a Rússia está, economicamente, nas cordas. O rublo perdeu cerca de 50% de seu valor frente ao dólar, desde junho. O aumento dos preços de produtos importados elevou a inflação a 9,1% ao ano. A causa nítida é uma queda abrupta e estranha nos preços internacionais do petróleo — de cerca de US$ 100 o barril, há um mês, para US$ 60 hoje. Como gás e óleo respondem por cerca de 75% das exportações russas, teme-se que o país perca condições de gerar divisas necessárias para cumprimento de seus compromissos comerciais e financeiros com o exterior.

O petróleo caiu devido a uma decisão unilateral da Arábia Saudita — maior exportador mundial do combustível e principal aliado dos EUA no Oriente Médio, ao lado de Israel. Há cerca de dois meses, o governo de Riad agiu em sentido diametralmente oposto ao que recomendaria a lógica comercial mais óbvia. Numa conjuntura em que a economia global e o consumo de petróleo refluem, ele decidiu elevar fortemente a extração do produto, derrubando os preços.

As razões são controversas. A explicação mais tradicional sugere que se trata de uma tentativa de inviabilizar (por concorrência) a exploração de petróleo em rochas de xisto, que cresceu muito nos Estados Unidos, mas é custosa — além de ambientalmente devastadora. Cada vez parece mais crível, no entanto, que a derrubada dos preços foi ditada por interesses geopolíticos. Os três países mais prejudicados pelo petróleo baixo são Irã (o grande adversário regional da Arábia Saudita no Oriente Médio), Rússia e Venezuela (que Washington busca insistentemente colocar em dificuldades).

Se Moscou seguir a ortodoxia econômica, sua resposta pode provocar graves problemas internos na Rússia. Implicaria elevar as taxas de juros (houve uma alta emergencial para 17% ao ano, anteontem), gastar boa parte das reservas internacionais de divisas (para comprar rublos e tentar sustentar seu preço), tornar o país vulnerável a outros ataques.

* Com Antonio Martins, do Outras Palavras.

máscaras

Prefeito tucano é cassado por corrupção, mas 'grande' imprensa ignora

Na sua seletividade, a mídia tradicional, sempre tão "neutra e imparcial", prefere encobrir escândalos envolvendo caciques do PSDB e reserva sua atenção apenas ao 'lulopetismo'
por Altamiro Borges, na Carta Maior publicado 17/12/2014 11:35
PSDB / reprodução
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De Nadai (esq), prefeito tucano cassado por corrupção. Mais um escândalo do PSDB ignorado pela imprensa

No domingo passado (7), o empresário Omar Najar (PMDB) venceu as eleições para a prefeitura de Americana, município com 226 mil habitantes no interior de São Paulo. A mídia chapa-branca, servil ao governador Geraldo Alckmin, deu pouca atenção para o pleito fora de época. O motivo é simples: o prefeito Diego De Nadai, do PSDB, foi cassado por graves denúncias de corrupção.

Na sua seletividade, a chamada grande imprensa, sempre tão "neutra e imparcial", prefere encobrir escândalos envolvendo caciques tucanos. As manchetes são garrafais apenas para os políticos de esquerda. Desta forma, a mídia hegemônica estimula na sociedade o ódio doentio, quase fascista, ao PT e ao chamado “lulopetismo”.

Durante várias semanas, a cidade de Americana ficou acéfala. Na ausência do prefeito, sacos de lixos se acumularam nas ruas, pronto-socorros ficaram fechados e a merenda não foi entregue nas escolas. A população sofreu e os protestos viraram rotina no município, a 127 quilômetros da capital paulista. Os jornalões e as emissoras de rádio e televisão, porém, não deram maior atenção a este sofrimento.

O prefeito cassado sempre foi ligado ao governador Geraldo Alckmin. Sua cassação foi uma verdadeira novela, apesar das provas de irregularidades na prestação de contas da eleição de outubro de 2012. Desgastado, o PSDB preferiu não lançar candidato e, oportunista, apoiou o industrial eleito. Pobre Americana!

São inúmeros os casos de políticos tucanos cassados ou envolvidos em corrupção que não merecem as manchetes da mídia “imparcial”. Em abril passado, o governador Siqueira Campos, do Tocantins, renunciou ao cargo para escapar da cassação. Pesavam sobre o histórico chefão do PSDB várias denúncias de desvio de recursos do Estado.

A renúncia foi uma manobra para garantir a candidatura de Eduardo Siqueira Campos, filho do tucano, ao governo estadual. Ele justificou a manobra alegando que a medida foi tomada “com o propósito de continuar servindo ao bravo povo tocantinense, respeitando as normas sobre inelegibilidade definidas pela Constituição Federal”. A mídia nunca fez alarde com este caso bizarro!

A seletividade é a regra. O deputado Carlos Alberto Lereia, do PSDB de Goiás, foi flagrado em negociações com o mafioso Carlinhos Cachoeira. A Câmara Federal até cogitou sua cassação. Em abril passado, ele até foi suspenso e o caso sumiu do noticiário. Já o ex-governador e ex-senador Eduardo Azeredo, que inaugurou o esquema do “mensalão” com o publicitário Marcos Valério, renunciou ao mandato de deputado federal para evitar seu julgamento no STF.

Na sequência, ele também desapareceu da mídia – que sempre tratou o escândalo de “mensalão mineiro” – e não tucano. Cadê o tal “jornalismo investigativo” da grande imprensa? Cadê as suas famosas campanhas moralistas de linchamento público?

E tem gente que acredita que Globo, Folha, Estadão e Veja ainda farão uma investigação isenta sobre o “trensalão tucano” em São Paulo ou sobre o “aecioporto” em Minas Gerais. A mídia hegemônica nunca investigou a fundo as denúncias de corrupção no processo da privataria – até porque ela sempre defendeu a privatização das estatais.

Ela também evitou dar continuidade às apurações sobre a compra de votos na reeleição de FHC – que sempre foi seu protegido. A escandalização da política, com suas manchetes garrafais e diárias, servem apenas para atacar os que não rezam da sua cartilha. Não há qualquer imparcialidade ou isenção no jornalismo. A mídia tem dono e defende sua classe!

interesses

Afinal de contas, o que quer a direita latino-americana?

Valendo-se do que lhe resta – o monopólio da midia, o terrorismo econômico, as reiteradas denúncias de corrupção (dos outros) –, parece claro que só se quer a volta das grandes forças do poder econômico
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 14/12/2014 09:51, última modificação 14/12/2014 11:24
Bolívia / PR
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Evo Morales recebe movimentos sociais camponeses: políticas sociais que as direitas do continente ignoram

A direita latino-americana viveu momentos de euforia com a vitória dos Estados Unidos na guerra fria, com o fim da União Soviética, o triunfo da democracia liberal em uma parte majoritária do planeta e, igualmente, do modelo econômico neoliberal. A velha direita oligárquica buscava se renovar com teses liberais de mercado contra o Estado, os partidos e os movimentos populares.

O neoliberalismo tentava fazer com que a direita, que sempre havia representado o passado, tratasse de aparecer como “o novo”, o futuro, a superação de um passado em que a direita se sentia incômoda.

Para a América Latina todos esses fenômenos significaram a proliferação de governos que vinham da mais rançosa direita, assim como outros, originários de forças nacionalistas e da social democracia, assumindo o novo figurino representado pelo neoliberalismo.

Pretendiam, uma vez mais, apagar a demarcação entre direita e esquerda, fazendo convergir tudo para um modelo único ditadores como Pinochet, nacionalistas como Carlos Menem e social democratas como FHC. O pensamento único se traduzia em governos únicos.

As crise mexicana de 1994, brasileira de 1999 e argentina de 2001 liquidaram precocemente essa euforia da direita latino-americana, que foi seguida pela eleição de governos anti-neoliberais. A direita, que pretendia reinar soberana por muito tempo, deixou flancos abertos, a partir dos quais foi se reestruturando a esquerda latino-americana.

A crença que a retração do Estado da economia, a centralidade do mercado, o controle da inflação, seriam suficiente para a legitimidade dos novos tipos de governo no continente, fracassou. Não se davam conta que o principal problema dos países da região é a desigualdade social e que a falta de avanços neste tema impediria esses governos de consolidar-se.

Foi o que aconteceu com governos eleitos com a bandeira do controle da inflação, que em geral conseguiram se reeleger baseados neste mote, até se esgotarem e fracassarem. Foi assim na Argentina, Brasil, Uruguai, Venezuela, Equador e Bolívia, com particularidades em cada país.

Desprevenida, confiante na derrota da esquerda, a direita foi sendo derrotada naqueles países, porém, mais que isso, teve que se constituir, se consolidar e se reeleger a governos populares, que preencheram os vazios deixados pelos governos neoliberais. Sobretudo, privilegiaram o tema central do continente mais desigual do mundo, com suas políticas sociais.

Para isso, recuperaram o papel ativo do Estado, combatendo a centralidade do mercado, elaboraram políticas de integração regional e de intercâmbio Sul-Sul. Como resultado, países que vinham de profundas instabilidades políticas, como a Bolívia e o Equador, passaram a ter os governos mais estáveis e legítimos da sua história.

Um país como a Argentina, que havia sofrido a pior crise da sua história, na saída da política suicida de paridade da sua moeda com o dólar, pôde se recuperar, retomar o crescimento econômico, com grande distribuição de renda. O Brasil pôde sair de uma profunda e prolongada recessão provocada pelas políticas do governo de FHC, retomou um ciclo expansivo da sua economia, promovendo ao mesmo tempo o mais amplo processo de democratização social que o país já conheceu.

A direita, deslocada por esses governos, entrou em um desgastante processo de crise de identidade. O que fazer?  Desconhecer os avanços realizados ou tentar incorporá-los? Prometer abandonar os cânones neoliberais ou voltar a promovê-los, contando com um eventual esquecimento que as pessoas pudessem ter do seu fracasso recente?

Ao que tudo indica pelo tipo de candidaturas que a direita promove em países como o Equador – um banqueiro –, a Bolívia e o Chile – grandes empresários –, ou jovens políticos que propõem o retorno ao neoliberalismo pura e simplesmente – como no Brasil, no Uruguai, na Venezuela – faltam ideias,  imaginação e sobretudo compromisso com os avanços conquistados e com o futuro desses países.

O que quer a direita latino-americana, que se empenha tanto, valendo-se do que lhe resta – o monopólio dos meios de comunicação, o terrorismo econômico, as reiteradas denúncias de corrupção (dos outros) – para tentar retomar o governo? Está claro que a única coisa que a direita quer é desalojar as forças progressistas do governo, para abrir caminho para o retorno das grandes forças do poder econômico e midiático.

O que fariam no governo? Fica claro também que seriam processos de restauração conservadora, retomando os princípios do neoliberalismo – centralidade dos ajustes fiscais, diminuição do peso do Estado e de suas políticas sociais, rebaixamento do perfil dos processos de integração regional a favor de tratados de livre comércio com os Estados Unidos. Essas posições estão nos programas de todos os candidatos opositores nos países mencionados.

Tiveram, tem e seguirão tendo dificuldades para voltar a ganhar, justamente porque as profundas transformações postas em prática pelos governos que os sucederam, os diferenciam claramente da restauração conservadora. Podem encontrar carinhas lindas, jovens, aparentemente inovadores, mas que carregam o passado neoliberal, do qual não conseguem se livrar.

trabalho

Serviços respondem pela dinâmica das ocupações para a maior parcela da população

Mudança da sociedade urbano-industrial para a pós-industrial altera as perspectivas dos trabalhadores com a concentração de atividades no setor terciário, que pode representar 90% das vagas
por Marcio Pochmann publicado 12/12/2014 17:07, última modificação 12/12/2014 17:19
Clarice Castro/Governo RJ
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Serviços respondem pela dinâmica do trabalho imaterial, não mais vinculado à produção de bens tangíveis

Na transição atual da sociedade urbano-industrial para a pós-industrial, percebe-se o acúmulo de novas e importantes perspectivas para as classes trabalhadoras. Inicialmente, o sentido da ampliação da expectativa média de vida, para cada vez mais próximo dos 100 anos de idade. Simultaneamente, percebe-se a forte concentração do trabalho no setor terciário das economias (serviços em geral), podendo representar cerca de 90% do total das ocupações. Assim, o terciário tende não apenas a assumir uma posição predominante, tal como representou a alocação do trabalho no setor agropecuário até o século 19 e na indústria no século 20, como passar a exigir, por consequência, novas formas de organização e de representação dos interesses deste mundo do trabalho em transformação. Nos países desenvolvidos, por exemplo, os setores industriais e agropecuários absorvem atualmente não mais do que 10% do total dos ocupados.

Embora heterogêneo, o setor de serviços responde fundamentalmente pela dinâmica do trabalho imaterial, não mais vinculado à produção de bens tangíveis. Associa-se à produtividade imaterial e passa a ser exercido em qualquer local e horário, não mais em um local específico como era o mundo do trabalho na indústria ou na agropecuária e extrativismo mineral e vegetal. As novas tecnologias (internet e telefonia celular) em contato com as inovações na gestão da mão de obra não intensificam profundamente o exercício da atividade laboral no próprio local de trabalho. Ademais, constata-se também a extensão do trabalho exercido cada vez mais para além do local de trabalho, sem contrapartida remuneratória e protetiva, posto que o sistema de regulação pública do trabalho encontra-se fundamentalmente focado na empresa, como bem define a Consolidação das Leis do Trabalho.

Em virtude disso, a lógica de funcionamento da economia capitalista impõe a geração de maior excedente de mão de obra, a partir de ganhos altíssimos da produtividade imaterial. Para isso, o conhecimento, não mais a força física, torna-se importantíssimo na ampliação das novas fontes de geração de riqueza com o uso disseminado do trabalho imaterial. Nesses termos, a estratégia das classes trabalhadoras precisa ser reinventada, não apenas na defesa da realidade passada, alcançada por segmentos bem posicionados dos trabalhadores, mas também no protagonismo de um novo padrão civilizatório.

No curso da nova sociedade pós-industrial, a inserção no mercado de trabalho precisa ser gradualmente postergada ainda mais, possivelmente para o ingresso na atividade laboral para somente após a conclusão do ensino superior, com idade acima dos 24 anos de idade, e saída sincronizada do mercado de trabalho para o avanço da inatividade. Tudo isso acompanhado por jornada de trabalho reduzida, o que permite observar que o trabalho heterônomo deva corresponder a não mais do que 25% do tempo da vida humana. Antes disso, a sociedade agrária tinha no começo do trabalho a partir dos 5 a 6 anos de idade para se prolongar até praticamente a morte, com jornadas de trabalho extremamente longas (14 a 16 horas por dia) e sem períodos de descanso, como férias e inatividade remunerada (aposentadorias e pensões). Para alguém que conseguisse chegar aos 40 anos de idade tendo iniciado o trabalho aos 6 anos, por exemplo, o tempo comprometido somente com as atividades laborais absorvia cerca de 70% de toda a vida humana. Naquela época, em síntese, viver era fundamentalmente trabalhar, já que praticamente não havia uma separação nítida entre tempo de trabalho e de não trabalho. Na sociedade industrial, o ingresso no mercado laboral foi postergado para 16 anos de idade, garantindo aos ocupados, a partir daí, o acesso ao descanso semanal, férias, pensões e aposentadorias provenientes da regulação pública do trabalho. Com isso, alguém que ingressasse no mercado de trabalho depois dos 15 anos de idade e permanecesse ativo por mais 50 anos, teria, possivelmente, mais alguns anos de inatividade remunerada (aposentadoria e pensão). Assim, cerca de 50% do tempo de toda a vida estaria comprometido com o exercício do trabalho heterônomo.

A parte restante do ciclo da vida, não comprometida com o trabalhão pela sobrevivência, deveria estar associada à reconstrução da sociabilidade, estudo e formação cada vez mais exigidos pela nova organização da produção e distribuição internacionalizada. Isso porque, frente aos elevados e constantes ganhos de produtividade, torna-se possível a redução do tempo semanal de trabalho de algo ao redor das 40 horas para não mais de 20 horas. De certa forma, a transição entre as sociedades urbano-industrial e pós-industrial tende a não mais separar nítida e rigidamente o tempo do trabalho do não trabalho, podendo gerar maior mescla entre os dois tempos de trabalho e não trabalho, com maior intensidade e o risco da longevidade ampliada da jornada laboral para além do tradicional local de exercício efetivo do trabalho. Frente a isso, constata-se que o melhor entendimento acerca do novo mundo do trabalho possibilita a reinvenção da pauta sindical comprometida com a construção de uma sociedade superior.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas

central américa

A disputa pelo centro do mundo

No âmbito da Unasul será criada a cidadania sul-americana, não apenas com passaporte próprio para todos os habitantes da região, mas com efeitos diretos na vida dos imigrantes, dos estudantes e trabalhadores
por Emir Sader, para a RBA publicado 07/12/2014 14:07, última modificação 07/12/2014 14:10
governo do equador/reprodução
unasul

Sede da Unasul erguida em Metade do Mundo, sobre a linha do Equador

Conversando uma vez com uns norte-americanos nos EUA, o escritor e jornalista Eduardo Galeano conta que lhe perguntaram de onde era ele. Pareceu-lhe bastante complicado explicar que era do Uruguai, então se aproveitou que a Nicarágua estava no olho do furação, e lhes respondeu: Central América.

A cara de perplexidade deles foi enorme. É que para eles Central América é Kansas ou Massachussets ou Missouri, o centro da América. A América Central não existe para eles.

Agora as coisas podem ficar um pouco mais confusas ainda para eles. É que a belíssima sede da Unasul, inaugurada esta semana no Equador, foi construída numa cidade que se chama Metade do Mundo, perto de Quito, exatamente sobre a Linha do Equador, daí o nome. E pretende disputar a ideia de qual é o centro do mundo. Que, para os norte-americanos, evidentemente é Wall Street.

A inauguração do imponente edifício de Unasul, próximo de Quito, foi um momento importante para que os presidentes sul-americanos pudessem retomar o diálogo sobre o processo de integração regional e, ao mesmo tempo, expressar suas maiores preocupações.

Puderam recordar que a Unasul foi formada no momento em que se desencadeava a crise econômica internacional e que naquele momento se anunciaram medidas de proteção coletiva diante dos efeitos recessivos que chegavam do centro do capitalismo. Depois cada país buscou se defender da sua maneira, conseguindo resistir desde então, sem entrar em recessão, mas os efeitos negativos do centro do sistema seguem agindo sobre nossas economias.

Dilma ressaltou como a baixa dos preços do petróleo se soma à das commodities, pressionando para baixo as possibilidades de crescimento de nossas economias, enquanto os sinais de recuperação dos países centrais são desencorajadores. Unasul, na sua nova fase, pode vir a ocupar um papel importante no apoio comum às nossas economias.

A retomada do Banco do Sul está entre as decisões que vão nessa direção, ainda mais se se soma às decisões tomadas pelos Brics na reunião deste ano em Fortaleza. Depois de superar impasses, o Banco do Sul terá uma reunião decisiva na próxima semana, em Caracas, quando serão formalizadas as autoridades das distintas instâncias do banco, o que permitirá que ele comece finalmente a funcionar.

Mas não é nesse plano que a Unasul pretende disputar lugar no espaço da geopolítica mundial. Foram aprovadas a Escola Sul-americana de Defesa, que fará com que os militares do continente deixem de ser formados pelos EUA na Escola das Américas, para o serem numa nova doutrina de segurança, a ser elaborada por essa escola.

Será criada a cidadania sul-americana, não apenas com passaporte próprio para todos os habitantes da região, mas com efeitos diretos na vida dos imigrantes, dos estudantes, dos trabalhadores comuns, nos planos da pesquisa, da tecnologia, da educação, entre outros.

Contando com quase 500 milhões de habitantes, a Unasul se orgulha também que, com a finalização do processo de paz na Colômbia, se tornará plenamente uma zona de paz, um caso raro num mundo assolado cada vez mais por focos de guerra.

A pretensão da Unasul é, assim, passar de ter sua sede no centro geográfico do mundo, chegar a ser um centro político do mundo, disputando espaço num mundo cada vez mais multipolar.

mídia

'Não leia jornais, minta você mesmo'

Fernando Morais, comentarista da TVT, lembra palavras de ordem da greve de jornalistas de 1979 e alerta contra a manipulação nos veículos de comunicação
por Redação da RBA publicado 05/12/2014 13:53, última modificação 05/12/2014 16:00
Reprodução/TVT
fmorais

"Acredita em tudo que vê por ai? É bom reconsiderar", afirma Fernando Morais, comentarista da TVT

São Paulo – Comentarista da TVT, o jornalista e escritor Fernando Morais recomenda ‘olho crítico’ para tudo o que se produz na internet, jornais, revistas, rádio e TV. Ele recorda a história da greve dos jornalistas, ocorrida em São Paulo, em 1979, quando pichavam os muros com as palavras de ordem: "Não leia jornais, minta você mesmo".

Para o jornalista, passados 35 anos, a advertência continua válida. Ele cita o caso de Paulo Roberto Costa, ex-funcionário da Petrobras, que em depoimento à CPI no Congresso, afirmou que a corrupção está presente em todas as empresas do país e ocorre desde o governo Sarney, passando por todos os demais, até os dias atuais. A mídia tradicional deu destaque apenas para a primeira declaração e silenciou sobre a segunda.

Fernando Morais cita também o caso do Jornal Nacional, que foi obrigado a se retratar de tentativa de manipulação, quando disse que o mesmo Paulo Roberto Costa teria se reunido com a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o presidente Lula, Na realidade, o depoente, afirmou que nunca se reunira com nenhum dos dois – o oposto.

Assista o comentário completo da TVT

menos desigual

Decisão política de distribuir para crescer muda estrutura social

Trabalhadores pobres foram principais beneficiados pela decisão do Estado de inverter prioridades e enfrentar desigualdades. Mudança na estrutura da sociedade fortalece a classe trabalhadora brasileira
por Marcio Pochmann publicado 05/12/2014 11:44, última modificação 05/12/2014 11:50
hangar am / reprodução
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Feirão da casa própria em Manaus. Acesso a bens de consumo duráveis, expansão econômica e melhora na distribuição da renda

O curso das mudanças na estrutura social brasileira desde os anos 2000 indica a incorporação crescente de parcela importante dos trabalhadores de baixa renda no padrão de consumo de bens e serviços de maior valor unitário. Razão disso foi a elevação do nível geral de emprego acompanhada por políticas de fortalecimento do poder aquisitivo, como o salário mínimo, e por negociações exitosas de acordos coletivos comandadas pelos sindicatos dos trabalhadores.

A mudança nos preços relativos no interior do mercado interno do país, ocasionada pela ampliação da oferta chinesa dos bens industriais de menor valor e acrescida pela difusão do crédito ao consumo, também causou impacto somente comparável ao ocorrido anteriormente nos países desenvolvidos. Isso porque, desde o segundo pós-guerra do século passado, as economias capitalistas avançadas passaram a registrar alterações importantes na estrutura social.

O acesso a bens de consumo duráveis pela maioria da população, especialmente daqueles de valor unitário maior, como automóvel e casa própria, simbolizou o avanço do ciclo de expansão econômica, associado à significativa melhora na distribuição da renda. A pressão organizada dos trabalhadores e os acordos realizados com outras forças políticas progressistas favoreceram a ascensão e consolidação do Estado de bem estar social.

Em outros países não desenvolvidos como o Brasil não houve registros no mesmo sentido na expansão do padrão de consumo verificado nas economias desenvolvidas ao longo do século passado. O que se constatou, em consequência, foi a consolidação de uma estrutura social muito desigual, marcada pelo subconsumo dos trabalhadores em relação ao acesso dos bens duráveis como automóvel e moradia própria.

Contribuíram para isso a ausência tanto do Estado de bem estar social e de acordos políticos comprometidos com a redução da desigualdade na distribuição dos frutos da expansão econômica. No próprio Brasil, a prioridade ao crescimento econômico foi acompanhada por brutal concentração da renda. Ao final do século 20, o Brasil situava-se simultaneamente entre as oito economias mais ricas do mundo e as três mais desiguais do planeta.

Somente na década de 2000 o país encontrou importante inflexão na trajetória da desigualdade distributiva, com a inversão da antiga prioridade nacional. Isto é, a opção pelo estabelecimento da repartição da renda como um dos principais determinantes do crescimento econômico.

O avanço do Estado de bem estar social revelou o vigor das lutas sociais, especialmente das organizações dos trabalhadores, concomitante com a formação de uma nova maioria política favorável à desconcentração da renda. Assim, o Brasil caiu da terceira para a décima sétima posição no ranking da desigualdade mundial.

Como consequência, a estrutura social brasileira se modificou, tornando-se compatível com a tendência de homogeneização do padrão de consumo de bens duráveis, que até então se apresentava plenamente factível aos segmentos de classe média e de rendas superiores. Ademais, a característica do subconsumo dos trabalhadores brasileiros começou a ser superada com o início do processo de desconcentração da renda nacional.

O estrato social reconhecido pela literatura especializada como de trabalhadores pobres (working poor) foi um dos principais beneficiados pelo movimento político de inversão de prioridades (distribuir para crescer). Com isso, o país assistiu ao fortalecimento da classe trabalhadora, sobretudo daquela de baixa renda, como um dos principais resultados da mudança na estrutura da sociedade brasileira.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

mais um

PM paulista agride jornalista em cobertura esportiva e amplia histórico de violência

Agressão justificada 'porque a imprensa só ataca os policiais' ocorreu após partida entre Santos e Botafogo e dever ser mais um caso que passará impune pela Secretaria de Segurança paulista
por Redação RBA publicado 02/12/2014 13:28, última modificação 02/12/2014 14:21
Zanone Fraissat/Folhapress
PM

Truculência, que já é tônica contra movimentos sociais, tem cada vez mais sido usada para impedir trabalho de jornalistas

São Paulo – Cena repetida algumas vezes em coberturas de manifestações, a violência de policiais militares contra jornalistas ganhou um novo capítulo no último domingo (30), durante a partida entre Santos (SP) e Botafogo (RJ), na cidade de Santos, litoral paulista, válida pela penúltima rodada do Campeonato Brasileiro.

Após a partida, houve enfrentamento entre a torcida santista e a Polícia Militar, que invadiu a sede da organizada Sangue Jovem. O repórter esportivo Bruno Cassucci de Almeida, do jornal Lance!, tentou acompanhar a situação, mas foi impedido de realizar seu trabalho, teve fotos apagadas de seu celular e foi agredido verbal e fisicamente por agentes públicos, sob a justificativa de que a imprensa só ataca os policiais.

O veículo manifestou repúdio à ação dos policiais, assim como o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que cobrou ação da Secretaria da Segurança Pública. A secretaria abriu inquérito para apurar a denúncia. No entanto, em outros momentos, como na repressão contra a manifestação de 13 de junho de 2013 contra o aumento da tarifa de transportes em São Paulo, a resposta efetiva contra a violência policial foi nula.

Cabe lembrar que nenhum policial foi punido pelas agressões ocorridas contra profissionais de imprensa naquele dia. Caso do repórter fotográfico Sérgio Silva, que perdeu um olho ao ser atingido por uma bala de borracha disparada pela polícia e até hoje não foi sequer procurado pela secretaria para qualquer providência.

A seguir, o relato do repórter esportivo Bruno Cassucci de Almeida:

"Não quero aparecer, muito menos levantar bandeira. Tenho minhas opiniões, sentimentos aflorados neste momento e a cabeça ainda confusa. Escrevo aqui não para fazer juízo de valor, nem generalizar uma classe que sei que é mal paga, mal equipada e que deveria servir a uma sociedade que em boa parte lhe detesta. Como jornalista, acredito que não há opinião sem informação, e é por isso que venho aqui relatar o que vivi na tarde desse domingo, na Vila Belmiro.

No pior dia da minha curtíssima carreira jornalística e um dos piores da minha vida, fui agredido, ameaçado e tive material jornalístico apagado por policiais militares. Pensei em escrever "censurado", mas, por mais que entenda que foi isso que aconteceu, sei que a censura no nosso país já foi muito pior no passado do que a que sofri hoje, de modo que não seria justo colocar tudo num mesmo balaio.

A ordem cronológica foi a seguinte:

Como setorista do Santos no Lance! fui escalado para fazer a cobertura da partida da equipe contra o Botafogo. Como os paulistas já não almejam nada neste ano e o clube carioca acabou rebaixado, fui designado a ir para o vestiário visitante após o jogo. Assim que cheguei lá, ouvi barulho de bombas na rua. Ciente da minha função e ignorando as corriqueiras orientações da dona Maria, minha mãe, fui até lá averiguar o que se passava. Não era possível ter certeza, mas tudo indicava que vândalos que se dizem torcedores das duas equipes estavam brigando.

Decidi não ir ao encontro da confusão, como já fiz em outras ocasiões, mas fiquei ali esperando. Passado um tempo, a polícia se concentrou e foi para o lado esquerdo, próximo à entrada principal da Vila e na rua onde fica a sede da organizada Sangue Jovem. Fui atrás, mas mantendo distância. Ali bombas de efeito moral foram arremessadas, e alguns santistas revidaram atirando garrafas e paus. A polícia invadiu a sede da organizada e era possível ouvir explosões e barulho de vidro estilhaçado. Um morador da vizinhança me chamou para dentro de sua casa. Fiquei pouco tempo ali e logo voltei para a rua, a fim de tentar entender – e consequentemente relatar – o que estava acontecendo.

Uma policial, então, me mandou sair "vazado". Argumentei que eu estava trabalhando e ela retrucou: "Eu também. Dá linha, curioso!"

Voltei para a frente da casa na qual havia entrado e esperei as coisas se acalmarem. Já não se ouvia mais bombas ou disparos e decidi voltar para a frente da Sangue Jovem. Foi então que começou tudo.

Estava tirando fotos com o celular quando um policial me viu e, com a arma apontada para mim, gritou para eu encostar na parede com as mãos para o alto. Eu disse que era jornalista, mas isso parece não ter ajudado, pelo contrário.

No procedimento padrão – ao qual já havia sido submetido em abordagens policiais no passado – fui revistado com certa agressividade, mas até aí tudo bem. Depois de verificar que eu estava "limpo", o policial, já cercado por outros, pediu para eu abrir minha mochila, que também foi revistada. O passo seguinte foi tomar meu celular. O oficial pediu para eu desbloquear o aparelho e acessar as imagens. Ele então começou a apagar uma por uma. O procedimento durou uns cinco minutos, que pareceram eternos.

Enquanto ele fazia isso, uma outra autoridade pediu para eu não olhar para trás. Errei. Instintivamente, segundos depois eu acabei olhando para o celular e então fui agredido no rosto.

Depois, a policial que havia me abordado antes, aquela do "dá linha, curioso", me disse que eu já tinha sido avisado. Eu novamente argumentei que estava ali trabalhando, e ela afirmou: "Eu também estou e você não respeitou meu trabalho". Até agora não sei qual foi meu desrespeito.

Um outro oficial que se aproximou disse que eu estava ali para "defender torcedor" e que a mídia só mostrava quando a polícia bate "nesses caras". A minha intenção era exatamente outra, ouvir algum responsável pela operação para tentar entender o que estava acontecendo.

Foi então que ocorreu a cena mais aterrorizante de toda a abordagem. Um PM aparentando muito nervosismo se colocou entre mim e a parede, pegou uma bomba de efeito moral, puxou minha calça e a colocou dentro. "Você não é macho? Quero ver ser macho agora". Como fiz durante todo o episódio, expliquei que era jornalista, pedi desculpas, o chamei de "senhor". Ele falou mais algumas coisas que não me lembro agora e saiu.

Aliás, tudo isso aconteceu há cerca de quatro horas e eu já não lembro de diversos detalhes, pelo choque e medo, obviamente. Fiz questão de olhar o nome de todos, um por um, mas já me esqueci de boa parte. Aquela mesma policial percebeu quando eu olhei para a identificação dela e ironizou: "Quer levar para casa? Tenho várias outras, pode levar".

Após apagar todas as fotos, o policial que me enquadrou mandou eu desligar o aparelho e tirar o chip e a bateria. Expliquei que era impossível no iPhone e, graças a uma outra oficial que estava perto, ele acreditou.

Por fim, entreguei meu documento ao PM, que saiu e voltou instantes depois. Antes de ser liberado, ele me deu um recado, que começou com algo como "sei que você vem sempre aqui e eu também venho". Não lembro a continuação, mas tenho a impressão que se tratava de uma ameaça.

Ouvi uma ou outra ofensa dos demais oficiais ali presentes e fui liberado.

Já estou em casa, sem qualquer arranhão no corpo, mas com a adrenalina ainda a mil. Poder abraçar minha mãe, jantar o que ela preparou e saber que nada pior aconteceu é tranquilizante. Saber que todos os dias abusos desse tipo e outros muito piores acontecem com gente que não sabe ou não tem como se expressar é o que preocupa. Sei de todos os privilégios que tenho por ser branco, não viver na periferia e ter tido a oportunidade de estudar. Se passo por situações como essa, com certeza há quem viva coisa muito pior diariamente.

O texto é longo, mas espero que meus amigos que há uns dias defenderam a ditadura militar nesta mesma rede social possam ler. Dispenso seu like, faço questão da sua reflexão."

mitologia

O PMDB e a Odisseia imposta ao governo Dilma

O religioso e assessor de movimentos sociais Frei Betto vê no partido características que questionam as razões para ser chamado de 'base aliada'
por Redação da RBA publicado 01/12/2014 12:31, última modificação 01/12/2014 15:17
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Ulisses se amarra ao mastro para resistir ao canto das sereias: paralelos com o papel do PMDB no Congresso

O PMDB está à frente das duas Casas Legislativas brasileiras, a Câmara dos Deputados e o Senado. A Câmara é presidida por Henrique Eduardo Alves, mas há toda uma intensa atividade de bastidores para que seja eleito Eduardo Cunha, também PMDB, uma pessoa que o Executivo não "engole" facilmente. O Senado é presidido por Renan Calheiros, que inclusive é o presidente do Congresso – o conjunto das duas Casas Legislativas.

Nem na Roma Antiga, que era republicana, esse fenômeno parecia possível, um partido que domine toda a legislatura. Em nome da divisão de poderes, lá na Roma Antiga, as famílias nobres cultuavam a diversidade como uma espécie de antídoto ao absolutismo. Aqui não. No Brasil, a cobra fuma e não expira.

O PMDB terá, a partir do ano que vem, uma bancada de 19 senadores, 66 deputados federais e governará sete estados. A gente sabe que é um partido repartido em tendências, inclusive antagônicas. Nele, há de tudo. Desde o testemunho ético de um Pedro Simon, senador pelo RS, às recorrentes denúncias de corrupção que historicamente pesam sobre alguns de seus líderes.

O PMDB pratica, mais que a democracia, a demoarquia, que é originária do verbo grego "arquem", que significa ser o primeiro, estar à frente, no sentido de comandar processos.
Ora, para que plebiscito se, há décadas, vivemos em um regime parlamentarista?

O PMDB exerce a função de primeiro-ministro, mas o Executivo é quem preside. Ou, quem sabe, estamos, sem nos dar conta, em plena monarquia. A família peemedebista se sucede nas instâncias de poder com direito a conceder, a correligionários e aliados cargos e prebendas. Atualmente, o PMDB disputa acirradamente a nomeação dos novos ministros da presidenta Dilma.

Não importa que os discursos sejam outros. Na Inglaterra, enquanto o parlamento grita, a rainha reina. Aqui, ocorre o mesmo. Haja o que houver, estamos em mãos do mais despudorado fisiologismo, cujos discursos sobrevoam eloquentemente as práticas do clientelismo e do compadrio.

Se "o mundo gira e a Lusitana roda", como se dizia antigamente, os governos se sucedem e o PMDB impera. O lema do partido parece ser, ‘se hay gobierno, soy a favor'. Coitado do Dr. Ulysses Guimarães e toda a sua luta por uma democracia participativa.

Homero, autor da saga clássica ‘Odisseia’, escreveu que Ulisses encontrou na Ilha das Sereias curiosas criaturas com cabeças e vozes de mulheres, mas com corpos de pássaros, que com doces canções atraiam os marinheiros ao encontro das rochas. Quando o barco de Ulisses se aproximou, uma calmaria se abateu sobre o mar e a população se utilizou dos remos.

De acordo com as instruções de Circe, Ulisses tampou os ouvidos da população com cera, enquanto ele próprio foi amarrado ao mastro de modo que pudesse ouvir essa canção que atraía os marinheiros rumo às rochas, e poder passar por ela a salvo. ‘Aproxime-se, Ulisses’, cantavam as sereias.

Ulisses resistiu, mas quantos a bordo do "transgoverno" chamado PMDB são capazes de tapar os ouvidos ao canto das sereias?

Narra ainda Homero, que Penélope, fiel esposa de Ulisses, rejeitou todos os pretendentes, aqueles que queriam ficar com ela, pois o marido estava em longa viagem pelos mares e provavelmente teria morrido e não voltaria.

Até que um dia surgiu um mendigo, tomou o arco que era de Ulisses e conseguiu disparar uma flecha, coisa que nenhum outro homem havia conseguido até então. Na mesma hora, Penélope reconheceu nele o seu amado marido.

A democracia brasileira espera, como Penélope, o dia que poderá reconhecer sua plenitude na inclusão social daqueles que hoje se nos apresentam como o maltrapilho Ulisses, as 16 milhões de pessoas que neste país ainda se encontram em situação de miséria.

Ouça o comentário de Frei Betto na Rádio Brasil Atual:

equívoco

Fórum Mundial de Direitos Humanos no Marrocos foi aposta arriscada

Num país com pena de morte, presos políticos e repressão a movimentos sociais, evento serviu para satisfazer o rei e em nada contribuiu para a causa em escala mundial
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 30/11/2014 11:36, última modificação 30/11/2014 11:55
© aapsocidental.blogspot / reprodução
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Protesto pela autonomia do povo saharaouni no Marrocos: país desrespeita direitos humanos, mas sediou fórum mundial

O Primeiro Fórum Mundial de Direitos Humanos, realizado em Brasília em dezembro de 2013 e organizado pela Secretaria de Direitos Humanos, ainda sob o mandato da Maria do Rosário, foi um evento importante e representativo. Com participantes de mais de 70 países, foi tão amplo que, já na sua abertura, a presidenta Dilma teve de enfrentar, dentro do próprio auditório, uma manifestação de protesto organizada por movimentos indígenas.

Ao final daquele evento, porém, foi aceita a proposta de que o segundo fórum fosse realizado no Marrocos. Uma decisão que causou estranheza nos meios ligados aos direitos humanos, dado o caráter do regime político do país, que submete a sociedade marroquina a precárias e pouco confiáveis condições de direitos humanos.

O evento no país árabe começou no último dia 27 e se encerra hoje (30), marcado por problemas.

Para começar, o Marrocos ainda tem pena de morte. Alega-se que há anos ela não é aplicada. Mas o mais importante é que o regime – no caso, o rei – continua a se reivindicar o direito de tirar a vida de pessoas.

Em segundo lugar,  por se tratar de um regime monárquico em que o rei concentra grande parte do poder. Junto com a Jordânia, são os únicos países da região que ainda se mantém monárquicos.

Além disso, há grande quantidade de presos políticos no Marrocos. Uma parte são ligados à Frente Sarahoui, que reivindica a autonomia do Saara Ocidental, reivindicação reconhecida pela ONU, mas desconhecida pelo governo do país.

Há também presos de movimentos vinculados à chamada Primavera Árabe. No momento do surgimento deste movimento, o governo tolerou sua existência, mas depois prendeu muitos de seus ativistas e os mantém encarcerados.

Há ainda que registrar limitações ao livre direito de manifestações. Além de muitas serem são proibidas, os movimentos que as convocam são reprimidos com truculência.

Por esse conjunto de fatores, houve vários protestos, dentro e fora do Marrocos, pelo boicote ao fórum, liderado por organizações como Attac e outros, do próprio Marrocos. No Brasil, a Via Campesina e o MST também manifestaram essa posição. Um abaixo assinado encabeçado pelo Prêmio Nobel Perez Esquivel, igualmente reafirmou contrariedade.

Mais além da discussão sobre a efetividade ou não do boicote ou de uma atuação de dentro do Fórum, o certo é que as limitações que haviam sido apontadas se expressaram de diferentes maneiras.

Na própria abertura do evento, somente dois oradores – o ex-primeiro ministro espanhol Jose Luiz Zapatero e a presidenta do Comitê Internacional Contra a Pena de Morte - tocaram neste tema. Nenhum outro dos aspectos constrangedores, entre eles, os presos políticos ou a reivindicação dos sarahuois, foram mencionados. Um clima de abertura fortemente contrastante com o que tinha dado a tônica no Brasil.

Provavelmente por esse conjunto de fatores, apesar da extensa lista de personalidades anunciadas - entre elas o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, e a Diretora Geral da Unesco, Irina Bokova – não compareceram. Também deste ponto vista não foi um fórum expressivo e representativo, a ponto que a personalidade política mais expressiva foi o ex-primeiro ministro Zapatero, um personagem político já de muito pouco relevo na própria Espanha.

Nem sequer houve sinalizações do governo marroquinho de avançar na direção do respeito dos direitos humanos, como por exemplo, o fim da pena de morte e a anistia de presos políticos.

Em vez disso, a realização do fórum foi amplamente usada pela mídia do país para propagar que a escolha confirmaria que o Marrocos seria uma referência internacional no respeito dos direitos humanos, o que provavelmente deixou o rei Muhammad VI satisfeito.

O evento pode até ter representado um espaço de articulação dos movimento de direitos humanos dentro do Marrocos, mesmo que o mais importante deles tenha optado pelo boicote ao Fórum. Mas a aposta de fazer o Segundo Fórum Mundial dos Direitos Humanos em um paés com todos esses problemas, parece ter sido bastante equivocada e em nada fortaleceu a luta pelos direitos humanos em escala mundial.