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Publicado em 30/01/2012

Europa/Irã: quem semeia ventos...



Por Flavio Aguiar

Sarkozy, Merkel e Monti em Davos: além da economia, política externa de parte da Europa pode ser igualmente desastrosa (Foto: ©Philippe Wojazer/Reuters)

...ouve o que não quer!

É o que aconteceu com város ministros de Relações Exteriores que, amadoristicamente, resolveram dizer que aumentavam a pressão econômica sobre o Irã porque essa era uma maneira de evitar a possível agressão armada israelense contra aquele pais.

Além de não evitar coisa nenhuma, mas apenas ceder a uma chantagem, o corolário foi um tiro no próprio pé: suspender as importações de óleo bruto do Irã a partir de 1º de julho. A Grécia foi a primeira a gritar: sem esse petróleo, ela afunda de vez.

Ao mesmo tempo, o restante da Europa lhe sonega ajuda, ameaçando não lhe remeter a próxima parcela desta, caso não chegue a um acordo com os bancos privados credores. A chanceler Angela Merkel pede calma aos desesperados gregos e ao resto do mundo que, do Japão à América Latina (de leste para oeste, atravessando o mundo), arranca os cabelos diante da recessão "auto-feliz" da Europa.

Ora, o Irã fez o que devia fazer: está em discussão no seu Parlamento a proposta de, se a Europa quiser suspender as importações de petróleo a partir de 1º de julho, suspender as suas exportações para o Velho Continente desde já. Ou seja, sem disparar um tiro - o que lhe atrairia a ação da 5ª Frota Naval norte-americana estacionada no Bahrein, do outro lado do Golfo Pérsico - o Irã está fechando o estreito de Ormuz para a Europa inteira - o que pode ter efeitos catastróficos para o mundo europeu e o nosso também.

É no que dá brincar de política externa.

Em relação ao Irã, no Ocidente vai-se alegremente no caminho da guerra, numa situação que lembra a da Primeira Guerra Mundial. Ninguém acreditava no conflito, nem na sua proporção. Mas ele ocorreu, e mudou a face do mundo. E para pior, apesar do fim dos grandes impérios do passado.

Publicado em 24/01/2012

O Irã e Os vestígios do dia



Por Flavio Aguiar

"Os vestígios do dia" é o nome em português (em inglês "The remains of the day") de um filme com Anthony Hopkins e Emma Thompson como protagonistas, e James Ivory na direção (adaptado de um romance de Kazuo Ishiguro). O foco do filme se centra na relação entre o mordomo Mr. Stevens (Hopkins) e a chefe da criadagem Ms. Kenton (Thompson), uma relação conflituada pelo impossibilidade do primeiro admitir o amor correspondido que sente pela segunda. A cena se divide entre o reencontro de ambos, na década de 50 e o primeiro encontro, em Darlington Hall, em 1935, uma mansão inglesa onde o dono aristocrático reúne pares europeus tentando criar um clima favorável de aproximação entre as potências ocidentais e o regime nazista alemão, diante da ameaça comunista.

Deixemos os amores conturbados da dupla Hokins/Thompson de lado, pelo menos neste artigo. Nosso foco vai para o fato de que, entre os pares convocados pelo aristocrático Lorde Darlington, há alguém que não o é: trata-se do plebeu Mr. Lewis (Christopher Reeve), um congressista norte-americano, que tem o papel quase de um "penetra" naquele meio de pessoas que, pelo que se entende, se reune regularmente para discutir como influir na política internacional.

Lá pelas tantas Mr. Lewis não esconde sua decepção e perplexidade pelo que ouve na reunião, e diz em alto e bom tom ao Lorde anfitrião que política internacional é coisa para "professionals", não para "gentlemen amateurs" - coisa para profissionais, não para aristocratas amadores.

A lembrança me veio à mente diante das declarações dos ministros de relações exteriores da União Européia que acompanharam a decisão tomada de encaminhar a suspensão de importações do petróleo iraniano a partir de primeiro de julho próximo, como meio de pressionar aquele país por causa de seu programa nuclear.

As declarações falavam, por exemplo, em "esperar que a decisão não contribua para agravar a economia mundial". Também diziam que era desejável que o Irã "não tivesse tempo para procurar alternativas de exportação de seu óleo cru".

É inacreditável ouvir isso de políticos que querem parecer e deveriam ser "profissionais", ao invés de "genltemen amateurs". Porque é claro que a decisão, além de aumentar o risco de uma guerra na região, cujas conseqüências são tão imprevisíveis quanto certamente catastróficas em todos os sentidos, vai catapultar os riscos de uma recessão e turbulência em escala mundial. E que o Irã - que, ao contrário do que se pensa - está longe de estar isolado, vai procurar alternativas, e as têm.

20 % das exportações iranianas vão para a U. E. Mas a China já declarou que não aceita esse embargo, além de o Japão e a Coréia do Sul estarem recalcitrantes. A Rússia não vai abandonar o Irã à própria sorte (ainda que China e Rússia também pressionem o país por melhor clareza no caráter não bélico de seu programa nuclear).

Além disso, há a questão militar propriamente dita. Muito se tem falado sobre a relação da ameaça do Irã de fechar o estreito de Ormuz com o escoamento de algo entre 25 e 30 % da produção mundial de petróleo. Mas há mais: como já foi apontado aqui neste blog, a 5a. Frota norte-americana estaciona no golfo Pérsico, no vizinho Bahrain. O Irã já ameaçou fechar o estreito caso a ameaça de embargo se concretrize. Isso equivaleria não só a bloquear navios ingleses, franceses, alemães, etc., mas também a confinar a 5a. Frota, que supervisiona o Oceano Índico. Ou seja, isso significa Guerra, Guerra significa, além de destruição, recessão, preço do petróleo nas nuvens, etc.

Além disso, a decisão elevou a temperatura dentro da própria U. E. Ela vem "puxada" sobretudo pela Grã-Bretanha, França e Alemanha. Em vários dos outros países a reação foi de um acompanhamento a contragosto, pelo risco que isso traz para as próprias economias e a da região como um todo. A reação mais angustiada veio da Grécia, cuja combalida economia depende vitalmente do petróleo iraniano. O governo grego já declarou que a decisão vai implicar mais ajuda para seu país - num clima em que a opinião pública predominante na Europa, alimentada por um novo nacionalismo do tipo "salve-se quem puder", ou "farinha pouca, meu euro primeiro", volta-se contra essa mesma ajuda.

Em suma, brnca-se com fogo com uma retórica de bombeiros.

No citado filme, anos depois do fim da Guerra M. Lewis compra a mansão dos herdeiros de Lord Darlington, que ficou desacreditado e caiu em desgraça, acusado de traição e de colaboração com o inimigo nazista. Voltando ao palco da famosa reunião, e se reencontrando com o mordomo Mr. Stevens, ele lamenta as observações duras que fez ao aristocrata.

Talvez não devesse.

Publicado em 18/01/2012

A Síria, sob risco de intervenção



Por Flavio Aguiar

O emir do Qatar, Hamad bin Khalifa al Thani, está entre os que defendem intervenção militar na Síria (Foto: CC/Ammar Abd Rabbo)

Que a Síria está sob uma ditadura, não há quem de bom senso ou de bom coração duvide. O governo de Bashar al-Assad faz água, enquanto se entrega a uma repressão brutal contra seus opositores - cuja identidade é tão maleável quanto ainda obscura. Mas há medidas preconizadas que não ajudam muito a situação, pelo menos quando se pensa numa ainda longínqua democracia na região e no país.

O presidente Barack Obama pediu a renúncia ou a queda de Bashar al-Assad, como remédio - seja para a situação Síria ou para favorecer sua posição nas próximas eleições, premido pela pressão da extrema-direita entrincheirada no Partido Republicano.

Porém... o fez durante a visita do rei da Jordânia, Abdulla II.

Já o emir do Qatar, Hamad bin Khalifa al Thani, propôs que se enviassem tropas da Liga Árabe para a Síria, a fim de por fim às lutas naquele país. Nenhum deles - emir ou rei - é um democrata exemplar. O próprio emir chegou ao poder através de um golpe - é verdade que incruento - contra seu pai, que estava na Suíça.

A proposta do emir do Qatar provocou um pequeno incêndio. Ainda bem que, de momento, apenas retórico. O presidente da Tunísia, recém eleito depois do fim de uma ditadura de dezenas de anos em seu país, disse que a proposta atearia fogo em toda a região.

O Irã disse que, no caso de uma intervenção dessa natureza, interviria em favor de al-Assad. A Rússia sinalizou que não gostou da proposta. Entre outros efeitos, a intervenção provocaria reações do Hezbollah no vizinho Líbano, mobilizaria a Turquia, que pressiona Damasco por uma solução, ainda que por outros métodos e de outra natureza, e certamente atiçaria os falcões de Israel. Em suma, um desastre, com conseqüências imprevisíveis para o (des)equilíbrio da política mundial e a (falta de) saúde da economia internacional.

Esses desenvolvimentos mostram como ainda está longe a possibilidade de uma nova estabilidade para o mundo árabe. As revoltas populares mostraram a inviabilidade de a situação continuar como está. Mas ainda não se vislumbra a emergência de novas forças organizadas que capitalizem, de modo inovador, esse descontentamento.

No Egito, que passa por um processo eleitoral, a Irmandade Islâmica deve ficar com o maior peso parlamentar: 46% das cadeiras. Pode ser que ela se atualize, fazendo diminuir o peso de antigas propostas de caráter religioso e avançando em direção a uma secularização política. De todo modo, isso será difícil e tortuoso.

No lado das monarquias sunitas, os emirados, os sheiks e outros potentados árabes, a situação continua, grosso modo, inabalável. Talvez os Estados Unidos obtenham algumas concessões no sentido de se implementarem algumas reformas "liberalizantes", ainda sem se saber em que extensão, porque estarão atadas ao princípio de não abalar os alicerces das estruturas vigentes.

Enquanto perdurar essa situação de protestos populares ainda impotentes contra dirigentes que se aferram desesperadamente às suas estruturas de poder, permanecerá o risco de alguma dessas propostas intempestivas, como a do emir do Qatar, ser levada a sério, e desencadear um conflito semelhante ao da Primeira Guerra Mundial. Só que agora com armamentos mais poderosos e alcance ainda maior.

Publicado em 12/01/2012

Irã vive guerra não declarada



Por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual

Carro do cientista nuclear iraniano Mostafa Ahmadi-Roshan foi explodido em Teerã (Foto: ©Sajad Safari/Reuters)

Há uma guerra não declarada no Irã.

Sua vítima mais recente foi o físico Mostafa Ahmadi Roshan, de 32 anos. Trata-se do quinto assassinato de um cientista iraniano ligado ao programa nuclear daquele país, desde 2007. Em todos os atentados o método foi o mesmo: bombas magnéticas presas nos carros das vítimas. Uma sexta vítima conseguiu sobreviver: o físico Ferydon Abasi resistiu aos ferimentos, e hoje é o chefe da Agência de Energia Atômica do Irã.

A maioria dos analistas de Irã e segurança atribui essas ações ao Mossad, o Serviço Secreto israelense. Também há suspeitas de que uma explosão num depósito de munições, que matou 17 pessoas há dois meses, entre elas o general Hassan Tehrani Moghaddam, ligado ao programa nuclear, tenha sido armada pelo Mossad, embora a versão oficial iraniana fale em acidente.

O governo de Israel negou envolvimento, mas daquele modo vago que deixa dúvidas, ou com declarações que beiram o sarcasmo, como a de uma autoridade que disse nada ter a ver com o caso, mas que "não derramaria lágrimas" pelo acontecido (General de Brigada Yoav Mordechai no Facebook, porta-voz do Exército).

Há instituições de pesquisa nos Estados Unidos, como a Carnegie Endowment for International Peace, que lançam suspeitas sobre o próprio governo iraniano, falando que alguns desses cientistas tinham manifestado dissidências em relação ao governo dos aiatolás.

O governo norte-americano também negou qualquer envolvimento com o caso, mas foi mais enfático, condenando o atentado. O Irã protestou junto ao Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon.

Os atentados são um índice de que a guerra contra o Irã já começou, só que de forma velada. Fica uma dúvida quanto ao objetivo desses atentados. Se for deter o programa nuclear do Irã, são ineficazes. Porém pode ser que visem provocar uma reação intempestiva por parte do governo iraniano, o que, então, justificaria uma ação militar declarada.

De qualquer modo, seria justo que houvesse uma ampla condenação internacional desses atentados. Não será matando cientistas que se avançará no caminho da paz.

Publicado em 10/01/2012

Um nó chamado Ormuz



Por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual

Vista espacial do Estreito de Ormuz: xadrez geopolítico e tabuleiro de nova Guerra Fria (Foto: Nasa)

A expulsão da diplomata Lívia Acosta Noguera, consulesa da Venezuela em Miami, decretada pelo governo norte-americano, mais parece uma retaliação contra a visita do presidente Ahmadinejad a Caracas do que um ato contra Hugo Chávez. Ainda que possa ser uma advertência para este último.

Tudo por causa de um nó chamado Ormuz. Esse é o nome do estreito que liga o golfo Pérsico ao Oceano Índico. De um lado do golfo estão Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, uma ponta de Omã, e Bahrein – onde estaciona a 5ª Frota Naval dos Estados Unidos. Do outro lado está o Irã e seu propalado e temido programa nuclear, além de sua própria frota naval, que fica fazendo exercícios com mísseis nas barbas da 5ª Frota.

Pelo estreito de Ormuz passam de um terço a 40% do petróleo consumido no mundo. Essa é a principal razão da tensão do Ocidente com o Irã – não Israel, embora este país seja um peão importante nesse jogo entre reis, rainhas, emires e presidentes de um lado, e bispos (ou aiatolás) do outro.

A impressão que se tem é que com a chegada de Ahmadinejad a Caracas (depois a Quito, Manágua e Havana) o Departamento de Estado em Washington se agitou e o raio da maldição caiu sobre a cabeça da consulesa.

A acusação contra ela é vaga, e na verdade Washington se baseou num dispositivo das convenções internacionais que asseguram a um estado o direito de considerar alguém persona non grata sem a necessidade de dar explicações. Uma fala em supostas conversações (no México) sobre ataques cibernéticos aos Estados Unidos.

Deve-se citar também, entre os motivos de Washington, a condenação à morte do cidadão norte-americano de ascendência iraniana Amir Hekmati pelos tribunais de Teerã, acusado de ser um espião da CIA. E ainda o anúncio pelo jornal Keyhan de que a central nuclear de Fordow, perto da cidade de Qom, retomara o processo de enriquecimento de urânio.

Por sua vez, o alvo escolhido – a diplomata venezuelana – serve como uma advertência não só a países da América Latina que queiram manter relações próximas com o Irã, mas também a países de outras regiões. É um elemento de pressão sobre a União Europeia, que discute a possibilidade de um embargo ao petróleo iraniano.

A possibilidade dessa medida aumentaria na medida em que a U. E. teria mais facilidades agora para ampliar as importações da Líbia, depois do assassinato de Muhammar Khaddafi. Também serve de advertência à Rússia que, se tem feito pressão para controlar a expansão nuclear do Irã (embora a tenha apoiado, como, inclusive, algumas empresas europeias o fizeram no passado por meio de insumos indiretos), mantém uma amizade nada discreta com o presidente Ahmadinejad (mais com ele, diga-se de passagem, do que com os aiatolás,todos ferrenhos anti-comunistas, embora isso seja coisa do passado) e também uma mais discreta com Bashar al Assad, o contestado presidente sírio, que o Irã também apóia.

Foi neste complexo tabuleiro de uma "guerra fria" cada vez mais quente que a peã Lívia dançou. O nó de Ormuz pegou o seu pescoço.

Publicado em 05/01/2012

O lado (mais) feio da política alemã (2) - com PS.



Por Flavio Aguiar

Christian Wulff na TV alemã: novos pedidos de desculpas e persistência no cargo (Foto: ©zdf.de/reprodução)

 

Na quarta (4) à noite, como combinado, as tevês públicas alemãs ARD e ZDF divulgaram vídeo com entrevista gravada com o presidente Christian Wulff, em edição conjunta.

O presidente fez algo em que está ficando especialista: admitir erros e pedir desculpas por eles.

E em dizer que não renuncia.

Desta vez, o pedido de desculpas maior ficou por conta de seu telefonema para o editor-diretor-chefe do jornal Bild, Kai Diekmann, sobre a então futura divulgação de reportagem sobre o empréstimo que recebeu de um amigo, o empresário Egon Geerkens, no valor de 500 mil euros para a compra de uma casa.

De resto, Wulff colocou-se na posição de quem está sendo vítima de uma vasculhação indiscreta de sua vida privada por uma mídia interesseira e sensacionalista.

E pediu que o povo alemão o apoie. Aliás, pesquisa recente do semanário Stern mostrava que 63% dos pesquisados o apoiavam, contra 30% que não.

Convenceu? Não. Pelo menos essa é a reação da mídia.

E mergulhou um pouco mais no dedal em que ameaça se afogar.

Wulff declarou que não pediu ao Bild que não publicasse a matéria, mas que a retardasse por um dia. Diekmann veio a público na edição de hoje, quinta (5), para dizer que isso era outra mentira. E escreveu um fax (publicado) a Wulff pedindo a concordância dele para publicar a íntegra da gravação do recado presidencial.

Pode ser um xeque-mate. Aguardam-se novos capítulos.

Entrementes alguns comentários e conjecturas:

Em primeiro lugar, para este blogueiro, a situação parece uma luta entre Collor e Carlos Lacerda. A atitude de Diekmann remete a um comentário de outro editor do Bild, tempos atrás, Mathias Düpfner, que declarou: "Quem sobe de elevador com o Bild também desce com ele". Mutatis mutandis, isso lembra aquela frase de um editor de Veja sobre o primeiro governo Lula: "eu vou derrubar esse presidente". É o complexo de Carlos Lacerda (contra Getúlio) em ação.

Por outro lado, como Collor, Wulff se enreda mais cada vez que tenta dar uma explicação. Periga ter que ficar dando explicações sobre o resto de seu mandato, se não cair desta vez.

Para mim a chave dessa questão toda está na pergunta - que provavelmente vai ficar sem resposta cabal - sobre por que o Bild, que apoiou Wulff ladeira acima, decidiu retirar o apoio. Terá sido apenas porque descobriu uma matéria sensacionalista sobre o empréstimo e avaliou que isso valia mais do que a lealdade para com o presidente? Qual a natureza da relação de Wulff com Diekmann? Favores de mídia? Será que foi isso que se rompeu?

Em parte sim. O Bild apoiou Wulff quando este se divorciou de sua primeira mulher para casar-se com a segunda. Católico que é, na religiosa Alemanha, isso poderia custar caro. Porém, o Bild – o jornal mais vendido no país – cobriu de festas, louros e elogios morais seu segundo relacionamento. Em troca, segundo a revista Der Spiegel, tinha um acesso privilegiado a informações de Wulff.

Entretanto, a ascensão de Wulff projetou-o – com seu estilo de vida marcado pela ostentação e um certo luxo nos hábitos – em outras publicações voltadas para "socialites", tipo a brasileira Caras, por exemplo. O Bild perdeu a primazia. Terá isso desencantado a preferência e a proteção?

Vá saber.

No restante da mídia – conservadora ou progressista – da Alemanha paira tanto uma crítica ao presidente, quanto uma crítica (em que não falta uma ponta de inveja recalcada) sobre seu relacionamento com o sensacionalista Bild.

O fato é que Wulff vem perdendo credibilidade, apesar do apoio manifesto nas pesquisas anteriores. Isso é grave, para uma Alemanha que tenta ser a rígida vestal diante da crise europeia das dívidas públicas, e, dentro dela, para a chanceler Angela Merkel, que vê seu segundo presidente (o primeiro foi Horst Köhler) em apuros.

PS - Na quarta-feira Wulff declarou que pedira para postergar a publicaçào da matéria, sem querer impedi-la. Na quinta-feira o diretor do Bild, Kai Diekmann, escreveu um fax para Wulff pedindo uma autorização para divulgar o teor da gravação, enquanto seu jornal dizia que Wulff de fato pedira para a matéria não ser publicada. Wulff negou essa autorização (necessária porque a ligação era privada e o caso não está sob investigação judicial nem policial). Na sexta-feira, informe de um dos poucos jornalistas que teve acesso à gravação dizia que Wulff falara a verdade, mas que se destemperou durante o telefonema. Ou seja, haveria termos e expressões incompatíveis com uma gravação presidencial.

A novela continua.

 

 

 

Publicado em 04/01/2012

O lado feio da política alemã



Por Flavio Aguiar

O presidente alemão, Christian Wulff, enredado em estranhos acontecimentos (Foto: Presidência da Alemanha/Divulgação)

O sistema político alemão foi montado em torno da ideia da resiliência, de que nada deve nem pode provocar abalos sísmicos ou mudanças bruscas de direção. Por isso, evita-se a concentração de poderes numa única pessoa ou mesmo num único partido. É claro que há aí uma dupla lembrança: tanto a do Führer, hoje taxado de maluco que enterrou a Alemanha na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto, quanto a da disputa entre o Kaiser Wilhelm II e o chanceler Otto von Bismark, cuja queda é vista como algo que ajudou a enterrar a Alemanha (então um jovem país e império) na Primeira Guerra Mundial.

Mas isso não quer dizer que ele (o sistema) não seja infenso a crises pessoais. Vimos algumas no passado recente: o ministro Zu Gutenberg, estrela sucessória em relação à chanceler Angela Merkel foi forçado a renunciar, acusado de vexatório plágio em sua tese de doutorado; o presidente Horst Köhler, ex-diretor do FMI, renunciou, desgastado por suas declarações de que a presença militar alemã no exterior (novidade depois da Segunda Guerra) visava também garantir o comércio do país.

Agora a Alemanha enfrenta outra crise centrada numa só personalidade. Trata-se do sucessor de Köhler, Christian Wulff. No momento em que escrevo este post está anunciado que mais tarde, à noite, Wulff dará uma entrevista coletiva na TV, tentando explicar tudo o que "aconteceu".

Pois é. O que, afinal, "aconteceu"?

Tudo começou antes de ele chegar à presidência que, na Alemanha, é um cargo quase de magistratura mas que, por isso mesmo, funciona como uma das pedras basilares daquele equiíbrio resiliente do sistema como um todo. Tanto é assim que o presidente, por exemplo, se pertence a algum partido, deve dele se desligar logo que eleito.

Wulff era o primeiro-ministro (aqui tudo funciona no sistema parlamentar) do estado da Baixa Saxônia, quando foi questionado por um deputado do Partido Verde sobre se teria alguma ligação econômica com seu amigo, o empresário Egon Geerkens. Wulff negou.

Depois de chegar à presidência, veio à tona, em meados de dezembro, que Wulff recebera um empréstimo de 500 mil euros de Geerkens para comprar uma casa. A denúncia foi feita pelo semanário reconhecidamente sensacionalista e de direita Bild. Wulff negou de novo, explicando que o empréstimo fora feito pela esposa de Geerkens.

A seguir vieram à tona documentos (divulgados inclusive pela revista já não tão sensacionalista Der Spiegel) que comprovavam que o empréstimo fora de fato feito pelo empresário, não pela mulher dele. Ou seja, Wulff mentira duas vezes.

Importante: até então, e até hoje, não se comprovou algum tipo de favorecimento ilícito de Wulff para com Geerkens. Mas o caso estava lançado: o presidente alemão não pode mentir, tem que ser melhor do que (o norte-americano)  George Washington.

Uma série de reportagens, cada uma pior do que a outra, varreu a mídia alemã, explorando uma suposta (ou verdadeira) "vida luxuosa" de Wulff, com empréstimos de casas em resorts ricos, por amigos, para passar férias, um gosto por aparecer em cassinos internacionais (embora nada se comprovasse quanto a despesas excessivas) etc. Algo de um mau gosto exemplar (não me refiro às viagens de Wulff, isso é coisa da sua vida privada, mas às reportagens).

Wulff veio a público e, antes do Natal, se desculpou pelas mentiras. E disse que não renunciaria.

Porém aí as coisas começaram a se complicar. Para pagar o empréstimo do amigo, Wulff contraiu outro, com um banco público, o BWf, no mesmo valor, 500 mil euros. Mas a juros bem abaixo (mais ou menos 2%) dos praticados pelo banco, e até pelo amigo (que cobrara juros de 4%). Numa época de crise da dívida pública varrendo a Europa toda, isso pegou muito mal.

Para complicar, no começo de janeiro veio à tona uma gravação de um  telefonema (na secretária eletrônica) do editor do Bild, Kai Diekmann, em que Wulff o ameaça com represálias legais caso a reportagem sobre o empréstimo fosse publicada.

A mídia inteira voltou-se contra Wulff, acusando-o de ameaçar a liberdade de imprensa. Exagero? Sim mas, aliado a uma tal imprevidência da parte de Wulff, dá o que pensar.

Afinal é reconhecido o fato de que o Bild fora sempre um jornal aliado de Wulff. Promoveu-o. Vejam só: Wulff é católico, mas faz alguns anos se divorciou de sua então esposa para casar-se com outra mulher. O Bild, afeito a escândalos, dedicou-se (segund o Der Spiegel) criteriosamente a por panos quentes na questão e a expor o novo relacionamento de Wulff como dotado de todos os valores familiares tradicionais.

Ou seja: ao mesmo tempo em que é necessário meditar sobre o que terá levado Wulff a se enredar nessa tempestade em dedal - já nem copo d'água - é necessário pensar no que terá feito o Bild voltar-se contra seu antigo "protegido".

Há algo de estranho - senão de podre - e não é no reino da Dinamarca.

Aguardemos a entrevista. Amanhã darei notícias.

PS - Wulff deu a entrevista, e não renunciou. Amanhã discutimos o caso.

 

Publicado em 02/01/2012

2012 de altos e baixos



Por flávioaguiar

Para passar de ano, você pode esperar pelo seguinte: nas mãos da atual composição (vamos chamar assim) que dirige o nosso país, ele vai continuar em alta. A América Latina também. Em geral, ela está em boas mãos.

A Europa vai continuar em baixa, apesar dos altos índices de civilidade da região. Nos Estados Unidos, os candidatos republicanos continuarão a fazer estragos. O pior deles será se algum deles for eleito.

Na Ásia, o Japão vai tentar recuperar sua credibilidade, destruída (mais uma vez) pelas tergiversações do governo em torno de Fukushima.

Na África, a situação vai continuar difícil. Na Liga Árabe, a luta continua. Não vai haver facilidades, pelo lado dos governos repressivos governantes. Mas as manifestações vão continuar.

Já no Oriente Médio, a Autoridade Palestina vai continuar a ser reconhecida internacionalmente.

Ao mundo, feliz ano novo...

 

 

Publicado em 29/12/2011

Mensagem de fim de ano: 2011 - 2012



Por Flavio Aguiar

Para passar de ano, você pode esperar pelo seguinte: nas mãos da atual composição (vamos chamar assim) que dirige o nosso país, ele vai continuar em alta. A América Latina também. Em geral, ela está em boas mãos.

A Europa vai continuar em baixa, apesar dos altos índices de civilidade da região.

Nos Estados Unidos, os candidatos republicanos continuarão a fazer estragos. O pior deles será se algum deles for eleito.

Na Ásia, o Japão vai tentar recuperar sua credibilidade, destruída (mais uma vez) pelas tergiversações do governo em torno de Fukushima.

Na África, a situação vai continuar difícil. Na Liga Árabe, a luta continua. Não vai haver facilidades, pelo lado dos governos repressivos governantes. Mas as manifestações vão continuar.

Já no Oriente Médio, a Autoridade Palestina vai continuar a ser reconhecida internacionalmente.

Um abraço, até 2012.

Flávio Aguiar.

Publicado em 13/12/2011

O nó da extrema-direita na Alemanha



Por Flavio Aguiar

Neste apagar das luzes de 2011 a extrema-direita alemã ganhou uma exposição surpreendente e vergonhosa (conforme explicado em "O terrorismo de direita na Alemanha", e "Duplo terror na Alemanha").

A descoberta de uma célula terrorista em Zwickau que há 13 anos agia na clandestinidade, responsável por dez assassinatos, dois atentados a bomba, 14 assaltos a banco, além de outras "atividades menores", pôs os serviços de inteligência do país (o federal e os regionais) numa situação constrangedora.

Como oito dos assassinados eram turcos, durante esse tempo todo os serviços de segurança procuraram uma hipotética "máfia turca" como responsável pelos crimes. 160 policiais investigaram a vida de 11 mil suspeitos. Entre esses, estavam familiares dos assassinados.

Recentemente saiu uma reportagem mostrando como a vida e a reputação desses familiares foir duramente atingida pelas investigações. Amizades se romperam, famílias foram isoladas, investigaram-se até suspeitas de crimes passionais. Crianças foram alvo de preconceitos nas escolas que frequentavam. Algumas dessas pessoas deixaram a Alemanha. Em nenhum momento a hipótese de um grupo terrorista de direita foi levada a sério. Tudo nas barbas dos serviços de inteligência. Há suspeitas de que nesses serviços possa haver simpatizantes que auxiliaram os criminosos, senão nos crimes, pelo menos no seu acobertamento.

O parlamento alemão pediu desculpas oficialmente àqueles familiares. A chanceler Angela Merkel qualificou o episódio de "vergonhoso". O presidente alemão, Christina Wulff, recebeu os que foram localizados na sua residência oficial, em desagravo. A Alemanha estuda agora a possibilidade de pagar uma indenização a essas pessoas.

Esse caso reabriu uma outra questão complicada na política alemã. Existe um partido oficialmente registrado, o "Nazionaldemokratische Partei Deutschlands" (NPD), que agora teve um acréscimo no seu nome, "die Volksunion", depois da fusão comum outro grupo, que é acusado de ser neonazi e que congrega militantes e os votos da extrema direita. Fundado em 1964, em lugar do "Deutsche Reichspartei", esse partido não prega propriamente a superioridade de alguma raça, mas sim o "direito" a uma "pureza étnica". É contra a União Europeia, que considera algo de espírito comunista, tem ligações com um político norte-americano, David Duke, que foi "Grand Wizard", autoridade máxima, da Ku-Klux-Klan, e denunciou a eleição de Barack Obama como uma "africanização" dos Estados Unidos. Não se diz antissemita, mas se manifesta contra a existência do estado de israel. De 13 a 15 de fevereiro realiza anualmente grandes manifestações em Dresden, lembrando o bombardeio arrasador dessa cidade em 1945, pelos norte-americanos e britânicos, que despejaram ali quase quatro toneladas de bombas incendiárias. De fato, esse bombardeio é considerado hoje um "crime de guerra", pois até hoje não se apresentou uma justificativa militar plausível para ele. Também até hoje não se sabe qual foi o número de mortos, tamanha foi a destruição da cidade. No seu centro um número incalculável de pessoas literalmente "se evaporou". Mas os NPDs usam esse argumento para dizer que este sim foi um "holocausto".

O NPD-VU disputa regularmente eleições. Nunca conseguiu eleger um representante para o Bundestag, o Parlamento Federal, por não ter atingido a cláusula de barreira de 5% dos votos. Entretanto, tem representantes em dois parlamentos estaduais, nos estados da Saxônia e de Mecklenburg-Vorpommern, ambos na antiga Alemanha Oriental, além de alguns outros em administrações regionais. Aqui em Berlim, por exemplo, eles não têm representantes no Conselho da Cidade (que têm stauts de estado), mas têm em dois conselhos regionais, cujos membros são eleitos diretamente.

A descoberta da célula de Zwickau trouxe à baila a ligação de alguns membros do NPD com o esquema de proteção de seus três membros principais. Um desses suspeitos, inclusive, é acusado de ter repassado uma das armas usada nos assassinatos cometidos. Por sua vez, isso reacendeu um tema antigo: a proibição do NPD.

Porém...

Novos fatos constrangedores vieram à tona. Veio à luz o fato de que há 130 informantes pagos pelo estado alemão infiltrados no NPD, 10 deles em postos de liderança. Um deles, inclusive, como parte de seu disfarce, chegou a publicar um livro considerado antissemita. Alguns desses informantes são dos serviços regionais de inteligência, sobretudo nos estados governados pela CDU – União Democrata Cristã, da chanceler Ângela Merkel, ou da União Social Cristã (CSU) da Baviera. Nos estados governados pelo SPD esses informantes foram "desativados", por assim dizer. E há uma resistência, por parte desses serviços de inteligência, em "desativar" esses informantes, sob a alegação de que desse modo ficariam sem vigilância sobre a extrema-direita alemã. Entretanto, lembram outros, essa "vigilância" pode ser inoperante, como comprovou o caso da célula de Zwickau.

Tem mais. Lembrou-se de que em 2003 já houve uma tentativa de fechar o NPD, através da Suprema Corte. Entretanto os juízes consideraram que o partido não poderia ser proibido. Como havia agentes do governo infiltrados inclusive em sua direção, poder-se-ia considerar que, em parte, suas propostas tinham sido também patrocinadas pelo próprio estado, e assim as atividades de seus membros não poderiam ser consideradas ilegais, ou inconstitucionais. Agora, a batalha jurídica vai retornar, porque certamente os membros do NPD vão alegar que a decisão anterior da Suprema Corte deitou jurisprudência.

Enfim, a questão entrou num labirinto até agora sem saída. Essa bizarra "coligação" entre a extrema-direita e a estratégia de infiltração dos serviços de inteligência deu um nó cego na política alemã.

 

Publicado em 01/12/2011

Crise dos bancos: choveu dólar no saco sem fundo



Por Flavio Aguiar

Montanha de dólares foi colocada no mercado na quarta-feira para evitar quebras em bancos europeus (Foto: © Yuriko Nakao/Reuters)

Já não se trata mais de uma crise apenas da Zona do Euro. Eu disse "apenas". Ela continua existindo. Mas se alastrou, e virou uma "crise bancária mundial". Faltaria liqüidez a partir de hoje, com o nível de confiança e de empréstimos entre as instituições financeiras tendendo a zero. Tudo porque os bancos europeus deixaram de ser confiáveis, e ninguém mais quer investir neles.

Então os bancos centrais de seis países mais um derramaram dólares aos borbotões, aos bilhões, neste saco sem fundo que desde 2008 emperra a vida de todo mundo., ou do mundo todo. Seis mais um: seis agiram de maneira mais ou menos coordenada, o FED norte-americano, o Bank of England, mais os bancos centrais Europeu, do Canadá, Japão e Suíça. O sétimo - o da China - agiu por fora, mas também agiu, injetando dinheiro no seu próprio sistema bancário, igualmente ameaçado pela ameaça de insolvência do europeu.

Vai adiantar? Sim, é claro. Houve euforia nos mercados financeiros, como acontece sempre que chove na horta deles. Ações e índices subiram, os juros dos empréstimos da rolagem das dívidas soberanas caíram um pouco. Em outras palavras, o sistema bancário e a Zona do Euro ganharam um pouco de tempo, uns dez dias, é o que se estima, até que na semana que vem a prevista cúpula da União Européia possa tentar redesenhar a liga continental.

A reação na Europa - a julgar pela mídia - foi de cautela e apreensão. Cautela porque ninguém sabe ainda o quanto o sistema pode aguentar. Apreensão porque a ação dos Bancos Centrais evidenciou a gravidade da situação e a iminência de uma ruptura na (des)ordem financeira mundial, que está puída: ficaria rota, em pedaços. Como nova Atlântida, a Itália submergiria no oceano da dívida, arrastando o transatlântico espanhol, que iria fazer companhia às baleeiras portuguesas, às trirremes gregas e aos barquinhos irlandeses no fundo do mar.

O caso da Itália seria o mais grave, porque o Fundo Europeu de Estabilidade, previsto para ter um trilhão de euros de liquidez, só conseguiu arrecadar até agora 750 bi, o que é insuficiente para socorrer o país no caso de uma insolvência de fato. Com a Itália indo para o brejo, mais da metade da Europa afundaria de imediato, França à frente. A Alemanha não afundaria (ainda) mas ficaria atolada até os joelhos. Uma outra conseqüência não menos alarmante para o sistema europeu é que uma Europa quebrada teria de se voltar mendicante para a Rússia, de quem ela depende visceralmente, no começo deste inverno (ainda que a temperatura esteja nesse momento amena para a estação), para a importação de gás. E as manchetes em Berlim já estão anunciando que "o aquecimento vai virar um luxo", porque o preço do gás e do óleo vai subir. Por quê? Porque a Alemanha está fechando usinas nucleares (ainda bem!), mas ainda não tem substituição autônoma.

De qualquer modo, para continuarmos no campo das metáforas, a iniciativa dos bancos centrais é comparável à agua jogada sobre Fukushima enquanto seu sistema de segurança derretia. Ela vai evaporar e, para usar um termo do gosto da direita, o contribuinte vai continuar pagando a conta d'água.

Uma observação lateral: muitos analistas reiteram (agora) que essa injeção de capital no sistema bancário deveria ter sido feita em 2008, quando ele rachou pela primeira vez. Agora pode ser tarde demais.

Na semana que vem tem mais: começa a cúpula européia, novas cargas de adrenalina e de analgésicos virão.

 

Publicado em 28/11/2011

Irã: não é que o Brasil tinha razão?



Por Flavio Aguiar

Brasil pode ser, de novo, mediador do programa nuclear do Irã, presidido por Mahmoud Ahmadinejad (Foto: ©Caren Firouz/Reuters

Agora quem está dizendo isso não sou eu. É Anne Marie Slaughter, professora de CIência Política e Relações Internacionais da Universidade de Princepton, e ex-diretora de Planejamento Político de Departamento de Estados dos Estados Unidos, de 2009 a 2011, por indicação da Secretária de Estado Hillary Clinton.

Foi durante sua gestão no Departamento de Estado que aconteceu a famosa história do acordo entre Brasil, Turquia e Irã a respeito do programa nuclear deste último país, iniciativa tão bombardeada na nossa mídia pró-Guerra Fria e descrita como "infantil", "megalomaníaca", etc.

A professora argumenta, em artigo publicado na semana passada no Financial Times, que a posição dos Estados Unidos de então bombardear o acordo era baseada na ideia de que ele não deteria o programa nuclear do Irã. O acordo previa a transferência de 1200 kg de urânio pouco enriquecido (LEU, na sigla em inglês para "low-enriched uranium) do Irã para a Turquia, como um "depósito em custódia", em troca de 1200 kg de urânio não enriquecido, o que permitiria que o Irã continuasse seu programa de uso do minério para fins médicos.

Porém hoje a ex-diretora e atual (novamente) professora lamenta que essa decisão tenha sido tomada por Washington, por duas razões. A primeira, óbvia, é que o boicote do acordo e sua condenação (pela secretária Clinton) como irrelevante, ingênuo, etc, não impediu o desenvolvimento do programa. Além disso, outras iniciativas, como a de infiltrar um virus no programa computacional do Irã (fabricado pelo Mossad israelense), não impediram a continuidade do programa (a professora não cita, mas aqui se deveria mencionar também o assassinato de cientistas iranianos ligados a esse programa), embora o retardassem. A segunda é que qualquer outra opção alternativa à via diplomática é pior, e com aquela opção, Washington retardou, isso sim, o progresso dessa via.

Então a professora se volta para a idéia de como retomar a iniciativa política internacional. Seria cabível que os Estados Unidos fizessem isso? Claro que não. Além de o Irã receber qualquer iniciativa norte-americana com desconfiança, há o problema de que o governo Obama está na mira eleitoral, acossado pelos republicanos, que logo passariam a atacar uma iniciativa dessas como "fraqueza", "abandono de Israel" e quejandos argumentos.

Alguém mais do Conselho de Segurança? China? Rússia? Impensável. Isso provocaria uma tempestade em torno do assunto, por causa da reação em Washington. França? Reino Unido? Também impensável. São países comprometidos por sua  postura no caso líbio. Podemos acrescentar Alemanha? Também impensável. Haveria uma tempestade interna no país europeu por causa do virtual confronto com Israel, além de uma tempestade externa, na União Europeia, que estuda tomar medidas mais duras ainda contra o Irã.

A Turquia? Complicado, nesse momento em que o país está em linha de confronto com um aliado de Teerã, o governo de Bashar al-Assad, de Damasco.

Então quem resta? Ora, gente, diz a professora, o Brasil! Por que? Primeiro porque o Brasil não tem nada a perder. Segundo porque a presidenta Dilma vai a Washington em março e poderia discutir o assunto com Obama e, segundo a professora, as relações entre os dois são ótimas. Terceiro, porque o Brasil tem credibilidade junto a Teerã, e credibilidade internacional porque é um país que flertou com a hipótese do armamento nuclear e abandonou-a. Deveria então, segundo ela, o governo norte-americano tomar a iniciativa de encorajar Brasília a retomar as conversações com Teerã.

Tudo aquilo que a nossa direita, perdida em seu anacronismo, não quer ouvir falar.

Publicado em 22/11/2011

O terrorismo de direita na Alemanha



Por Flavio Aguiar

A preocupação com a extrema-direita tomou conta da mídia na Alemanha (Foto: Flávio Aguiar)

Com o Serviço de Inteligência da Alemanha sob pressão, novos dados sobre a extrema direita começaram a surgir. É impressionante a soma de dados que esse setor tem: e é também impressionante como isso não serviu para nada no caso da "célula de Zwickau", o grupo dos quatro responsável por uma dezena de assassinatos e 14 assaltos a banco na última década.

A revista Der Spiegel publicou uma reportagem com os dados desse Serviço (18/11, "Facts and Myths about Germany's Far-Right Extremists", na versão em inglês. Barbara Hans, Benjamin Schulz e Jens Witte). O sobretítulo da matéria era muito significativo: "Escondidos à plena vista".

O Serviço (BfV) alemão estima em 25 mil o número de militantes de extrema-direita. Destes, 9,5 mil seriam favoráveis a algum tipo de violência. Entre estes, 5,6 mil seriam "neonazistas", ou seja, defenderiam um tipo de regime semelhante ao implantado por Adolf Hitler, além de defenderem a existência de um país "etnicamente homogêneo".

Se os números são baixos, pois a Alemanha tem quase 82 milhões de habitantes, a situação é preocupante porque eles estão aumentando: tanto os extremistas de direita no seu todo, como os propensos à violência, e os neonazistas entre eles.

Uma coisa é a presença dos neonazistas ostensivos, como no caso do partido NPD (cuja proibição voltou à baila), que fazem manifestações, empunham bandeiras, tocam música, fazem barulho e pregação ideológica, em suma. E às vezes entram em conflito com esquerdistas que acompanham as suas manifestações. Outra é a situação desses grupos extremistas voltados par aa violência sistemática. Como no caso da "célula de Zwickau", esses são grupos pequenos e fragmentados, que têm pouca comunicação entre si. Atualmente a investigação sobre essa célula chegu à conclusão de que a rede de apoio em torno dela contava com não mais do que 20 pessoas. Normalmente trabalham em silêncio, procuram não chamar a atenção, mas disputam entre si a primazia dos atos mais violentos. Recrutam sobretudo jovens, e procuram vestir-se como os grupos anarquistas de esquerda - talvez também para não despertar a atenção. Há casos em que alguns deles participam de de demonstrações ostensivas, mas logo retornam à essa "sombra" cinzenta.

O que mais tem provocado perplexidade, no entanto, é que a ação de grupos como esse era sistematicamente subestimada tanto pelo Serviço de Inteligência quanto pelas polícias locais, e que não havia colaboração entre eles. Também está sob investigação a possibilidade de tais grupos terem colaboradores dentro do sistema policial, que lhes garantiam algum tipo de proteção e despistamento. A polícia e o BfV tiveram algumas oportunidades de prender o "trio central de Zwickau", por exemplo. Mas não o fizeram, algumas vezes por negligência, outras por um "timing" errado nas ações, delatando-as antes que acontecessem ou chegando tarde demais.

Segundo a reportagem (baseando-se nos documentos do BfV), em 2010 foram regsitrados 15.905 crimes políticos de extrema-direita, 638 deles envolovendo ferimentos corporais. A noção de "crime" aqui vai, por exemplo, desde ataques xenófobos contra estrangeiros até a depredação ou profanação de sinagogas, ou propriedade de grupos visados, como turcos, muçulmanos, africanos, latinos, etc.

Outras pesquisas apontam que a violência de extrema direita foi responsável por 137 vítimas fatais de 1990 a 2009. Entretanto o BfV só resgistra, em seus autos, 47 vítimas, o que põe em discussão o conceito com que trabalha. Outras fontes chegam a apontar, nesse período, 182 mortes. Há uma dificuldade neste ponto. Por exemplo, recentemente um jovem morreu atropelado ao fugir de perseguidores de dentro de uma estação de metrô. O jovem era italiano de ascendência turca. Foi crime político? Foi assassinato culposo? Casos como esse, de difícil detecção e classificação, tem aumentado em cidades alemãs, inclusive em Berlim, levando a campanhas publicitárias preventivas.

Uma pesquisa feita pela Universidade Tecnológica de Chemnitz trouxe outros dados perturbadores. A pesquisa centrou-se em saber qual é a receptividade das ideias de extrema-direita. Ou seja, partiu da ideia de que, se é verdade que existe uma reprovação largamente majoritária de atos violentos, outra é a situação quando se discute a simpatia pelo caldo de cultura que levam esses grupos a justificar a sua violência. Foram feitas as seguintes perguntas, e os percentuais abaixo reproduzem a soma das respostas "concordo totalmente" e "concordo em grande parte":

1) Os estrangeiros vêm para a Alemanha para aproveitar a seguridade social: 34,3%.

2) A Alemanha corre o risco de ser tomada pelos estrangeiros: 35,6%.

3) Se não fosse pelo Holocausto, Hitler teria sido um grande estadista: 10,7%.

4) O nazismo também tionha bons aspectos: 10,3%.

5) A Alemanha precisa de um líder de pulso firme, o que beneficiaria todos: 13,2%.

6) Os alemães de fato são superiores a outros povos: 13,3%.

Dois pontos merecem consideração. Primeiro, os autores da pesquisa apontaram que muitos dos pesquisados sabem "qual é a resposta politicamente correta" e se escondem por trás dela. Segundo, apesar desses números serem impressionantes, a Alemanha ainda é um dos países europeus em que a extrema-direita (indo além dos grupos terroristas ou de pregação neonazista) tem pouca expressão na política institucional, ao contrário de outros, como a Holanda, a Suíça, a Áustria, a Hungria e até mesmo a França.

Um outro dado preocupante apontado por pesquisadores do tema é a passividade que se vê na maioria das pessoas quando confrontadas com uma violência desse tipo. Não reagem, não manifestam solidariedade com a vítima, se escondem atrás de um muro de indiferença. Por isso as campanhas hoje se centram não apenas na condenação da violência em si, mas também da passividade diante dela.

De todo modo, não se deve esquecer que hoje a Alemanha não tem clima político, cultural ou econômico para um "nazi revival", se me permitem a expressão. Há uma solidez democrática hoje no país, o que inclui, é claro, políticas e políticos do campo conservador, mas não reacionários ou de tendências fascistas.

Porém isso não exclui as preocupações com a segurança e com os danos - até mortíferos - que esses grupos extremados podem fazer. Como lembrou meu amigo Chico de Oliveira nos idos do atentado do Riocentro, ainda no governo Figueiredo, ao crepúsculo da ditadura, quando ainda não se sabia muito bem a extensão do que acontecera, "para fazer uma barbaridade, dois malucos e um carro bastam". A "célula de Zwickau" é testemunha disso.

Publicado em 17/11/2011

Duplo terror na Alemanha



Por Flavio Aguiar

Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos foram encontrados mortos em um trailer. Célula de extremadireita neonazi cometeu pelo menos dez assassinatos durante 10 anos (Foto:Reprodução/Wikipedia)

Há o terrorismo. E o terrorismo do terrorismo, o meta-terrorismo. A Alemanha está aterrorizada diante dos dois.

O terrorismo: uma célula de extremadireita neonazi cometeu pelo menos dez assassinatos durante 10 anos, estando na clandestinidade desde 1998. Nunca foram incomodados, até este mês de novembro, quando foram descobertos.

O meta-terrorismo: analistas, comentaristas, deputados, investigadores são unânimes em afirmar que isso não seria possível sem a negligência dos órgãos de segurança e inteligência, ou até mesmo a colaboração por parte de alguns de seus membros.

A chanceler Angela Merkel qualificou o caso como "uma vergonha para a Alemanha".

Os fatos recentes: no dia 4 de novembro dois homens encapuzados assaltaram um banco na cidade de Eisenach. Apesar das máscaras, foram identificados e cercados num trailer. O trailer pegou fogo. Os policiais encontraram os dois mortos, o dinheiro do roubo queimado. A versão oficial diz que os dois se mataram mutuamente, um atingido na cabeça o outro no peito. Motivo? Ainda desconhecido. Disputa? Suicídio a quatro mãos? Mistério.

Dentro do trailer, os policiais encontraram várias armas. Uma chamou a atenção: pertencia a uma jovem policial assassinada em 2007. Ela estava dentro de um carro, com um colega, que ficou gravemente ferido, mas sobreviveu. Motivo: até hoje, desconhecido.

No mesmo dia em que os dois (Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos) foram encontrados mortos, uma casa na cidade próxima de Zwickau explodiu e pegou fogo. A casa era ocupada pelos dois, mais uma mulher: Beate Zschäpe, que se entregou. Ela é acusada de ter provocado a explosão para destruir provas. Descobriu-se que os três, com ajuda de mais um suspeito, preso depois, "Holger G.", compunham uma célula neonazi desde o começo dos anos 90. Tinham sido indiciados por isso, mas desapareceram. A polícia encontrou ainda um vídeo no trailer onde os dois praticamente confessavam (o vídeo é uma pequena ficção envolvendo a Pantera Cor de Rosa) o assassinato de nove imigrantes, oito turcos e um grego, donos de pequenos negócios (bistrôs, internet café), em várias cidades alemãs.

O caldo começou a engrossar. O progresso das investigações mostrou que um agente do serviço secreto regional estava presente a um desses assassinatos, o de um comerciante turco no seu internet café. Esse agente era conhecido por suas idéias de extrema-direita e apelidade de "Pequeno Adolfo" (alusão a Adolf Hitler). Ele (ou outro agente) é suspeito de ter estado presente em seis dos nove asassinatos de imigrantes.

Encontrou-se ainda material que ligava o trio/quarteto a atentados com bombas de fragmentação (essas cheias de pregos e rebites de metal) em bairros de imigrantes de Düsseldorf e Colônia, deixando mais de 30 feridos. Também foram responsáveis por 14 assaltos a banco durante esse tempo todo. O grupo se identificava como um movimento "National Sozialist Untergrund".

São suspeitos de terem matado com uma facada um chefe de polícia da Baviera que investigava atividades de extrema-direita em 2008. Tinham em seu poder uma lista com 88 nomes de políticos (entre eles deputados do Reichstag) cuja finalidade ainda é desconhecida. Mas o número 88 é simbólico, pois remete a "HH" (H é a oitava letra do alfabeto), iniciais da expressão nazista "Heil Hitler".

Todas as autoridades envolvidas sempre negaram a hipótese de atos terroristas de extrema-direita. A polícia sempre falou, no caso dos imigrantes mortos, em uma "máfia turca", que nunca foi encontrada. O caso da policial (morta na cidade de Heilbronn) permanecia sem solução. A polícia criou uma "Operação Bósforo" (nome do estreito que separa a Ásia da Europa na cidade turca de Istambul) para investigar o caso. Durante 11 anos 160 policiais vasculharam a vida de 11 mil suspeitos, sem resultado.

Agora o caso veio à tona. Como resultado, não só o grupo (originário da cidade de Jena) está sob investigação. Os serviços secretos - nacional e regionais - e a polícia também estão no foco. Como todos os mortos (com exceção dos policiais) eram comerciantes, suspeita-se também de um esquema de extorsão.

As perguntas se avolumam: o que aconteceu no trailer? Por que a mulher se entregou? Há outros envolvidos, dentro e fora dos órgãos de segurança e investigação? O que levou esses órgãos a negarem sistematicamente o terrorismo de direita, quando as evidências se acumulavam? Será apenas a obsessão com o possível terrorismo de esquerda ou islâmico, que varreu a Europa toda?

Teme-se que a descoberta do grupo provoque uma nova onda de ataques "em solidariedade". Na madrugada de quarta para quinta desta semana um africano foi vítima de um ataque por quatro homens armados com tacos de beisebol numa estação de metrô de Berlim (Lichtenfeld) onde essa violência é comum. Existe até um comunicado de embaixadas africanas e do Haiti desaconselhando seus cidadãos de andarem por esta estação e outras na cidade.

Certamente, vai haver uma devassa nos órgãos de segurança. Esperemos que com resultados concretos e urgentes.

Publicado em 14/11/2011

Obama, Europa, Israel, China, Rússia... E um problema chamado Irã



Por Flavio Aguiar

Durante o fim de semana, num encontro rápido, o presidente Barack Obama voltou a insistir com seus colegas mandatários da Rússia (Dmitry Medvedev) e da China (Hu Jintao) para que concordem com sanções mais pesadas ao Irã, por causa do programa nuclear deste país, agora acusado frontalmente pela Agência Internacional de Energia Nuclear, da ONU, de conter uma programação bélica.

Medvedev deu uma resposta diplomática: disse que se preocupava, e que iria pensar no assunto. Jintao deu uma resposta “chinésica”: olhou para cima, para baixo, para os lados e fez que não era com ele.

Entende-se o comportamento dos três. A Rússia tem interesses diretos no programa nuclear iraniano, tenha este intenções bélicas ou não. A China está penetrando em todos os espaços possíveis, e não vai comprar uma briga com os aiatolás e com Ahmadinejad ao mesmo tempo em Teerã, e no momento em que estes últimos estão brigando entre si. Ali Khamenei, o aiataolá dos aiatolás está disputando espaço com Ahmadinejad no controle político do futuro iraniano; o futuro deste depende do programa nuclear, porque ele é o interlocutor com Vladimir Putin (quem, de quebra, Medvedev deve consultar antes de dar qualquer resposta a Obama ou a alguém mais). A China não vai meter a mão nessa cumbuca. Além do mais, a China não tem que afagar Israel por razões eleitorais.

Obama tem. Israel e seu governante são hostis a Obama. Por isso, o presidente norte-americano tem de afagar a AIPAC – o lobby israelense junto, entre outras instâncias, ao Congresso norte-americano – que também, pelo menos na Câmara de Deputados, é hostil a Obama. Enfim, o presidente norte-americano está numa embrulhada, tentando sair pelo lado da pressão internacional sobre o Irã, enquanto os falcões israelenses agitam a bandeira de um ataque aéreo contra as instalações nucleares daquele país e os pré-candidatos republicanos prometem apoio incondicional a essa temeridade.

A pressão internacional também é complicada. Por exemplo, Alemanha, Itália, França, Bélgica e Holanda estão entre os principais exportadores europeus para o Irã, numa série de negócios que superam os dez milhões de euros anuais. É pouco? Em tempo de políticas recessivas para amortecer os juros da dívida pública europeia nada é pouco. Tudo é muito. A Alemanha vendeu tanques para a Arábia Saudita em plena primavera árabe. Fundamento? Em tempos bicudos qualquer coisa serve.

Para que os países europeus arrochem seus negócios com o Irã, Israel tem de provar (e está se esforçando: vem aí uma nova missão diplomática com esse fim) que os produtos vendidos podem ser utilizados para a produção bélica. Recentemente isso aconteceu com caminhões pesados: Israel argumentou que estes poderiam ser transformados em rampas de lançamento para foguetes. O argumento deu certo. Os caminhões foram incorporados à lista de exportações proibidas para o Irã.

Enquanto isso, o cenário total engrossa o caldo. No fim de semana uma explosão num transporte de munições matou 17 guardas revolucionários no Irã, entre eles o Major General Hasan Moghaddann, considerado um dos principais responsáveis pelo setor de armamentos. O governo de Teerã disse que foi um acidente. Entretanto o jornal israelense Haaretz publicou, citando uma fonte “de Serviço de Inteligência do Ocidente” (sic), que a explosão foi conseqüência de uma ação do Mossad, o Serviço Secreto de Israel. Se foi ou se não foi, ainda está por confirmar. Mas o quadro se tornou mais complexo ainda.

Obama tem com que se preocupar.

Publicado em 11/11/2011

EUA: sinais de vida inteligente



Por Flavio Aguiar

Pentágono: advertência contra um ataque ao Irã (Foto: Sgt. Ken Hammond/Força Aérea dos EUA Divulgação)

Há sinais de vida inteligente ao norte do Rio Bravo.

O Rio Bravo, que os norte-americanos chamam de Rio Grande, divide o México dos Estados Unidos, na altura do Texas. Pois ao norte do Rio Bravo surgiram sinais de vida inteligente na semana que passou, além dos movimentos Occupy a sua cidade.

No plano institucional, o Pentágono e o secretário da Defesa em Washington lançaram um alerta, advertindo que um ataque militar contra as instalações nucleares do Irã criaria uma situação “imprevisível”. Leia-se: a retaliação iraniana poderia ser contundente, a eficácia da ação não seria garantida, poderia surgir daí uma guerra prolongada ao invés de uma cirurgia localizada, como foi o bombardeio de instalações semelhantes no Iraque no século passado. Sem falar na situação das tropas norte-americanas ainda neste país e no Afeganistão e na dos civis israelenses. Esse alerta soa como uma advertência ao governo de Benyamin Netanyahu, aos sauditas e outras monarquias ou autocracias do Oriente Médio, e também... aos falcões de Washington, remanescentes da era e das táticas de George Bush, hoje ainda entrincheirados em setores do Departamento de Estado.

Já no plano político stricu sensu, houve alguns movimentos e resultados muito interessantes. No estado do Mississipi uma legislação que praticamente colocava fora da lei toda e qualquer forma de aborto foi rejeitada, em plebiscito. Apesar da declaração dos mentores do projeto de lei – sobretudo republicanos – de que vão continuar lutando pela sua aprovação, o resultado foi um banho de água fria nas suas pretensões. 

No estado de Ohio, também um plebiscito rejeitou o projeto de lei do governador republicano que tornava ilegal a atuação de sindicatos de trabalhadores de funcionários públicos, bem como greves nesse setor. A derrota foi considerada um duro revés para o governador, que pretendia seguir os passos de seu colega também republicano no estado de Wisconsin. Pode ser que esse resultado signifique uma reversão da tendência de endurecimento anti-sindical que em todas as frentes os republicanos vinham tentando implementar.

No estado do Arizona, que hoje tem uma das legislações mais duras anti-imigrantes ilegais, o principal mentor dessas leis, senador estadual Russel Pearce, perdeu sua cadeira para o também republicano, mas mais moderado, Jerry Lewis (sic!), numa votação de 53% x 45%, com os demais votos em branco ou nulos.  O senador Pearce foi o autor da lei 1070, que permite revistas indiscriminadas de pessoas com aparência de imigrantes, pedidos de documento sem razão aparente, devassa nas escolas e consultórios médicos atrás de filhos de imigrantes ilegais, etc.Tanto o governador de Ohio quanto o senador Pearce eram próximos do Movimento Tea Party que assim, por tabela, também foi derrotado nessas votações.

Como disse o líder João Amazonas, mas por motivos muito diferentes: “notícias alvissareiras”!

Publicado em 09/11/2011

Tambores de guerra no Oriente Médio e em Washington



Por Flavio Aguiar

Último encontro presencial de Obama e Netanyahu foi em maio deste ano, mas conversas telefônicas são bem mais frequentes. Deve ser duro ter de tratar com o primeiro-ministro israelense (Foto: Jim Young/Reuters - arquivo)

Soam os tambores de guerra. Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, quer uma investigação para descobrir quem vazou a informação de que ele estaria fazendo pressão, com o ministro da Defesa, Ehud Barak, sobre outros membros do gabinete para que aceitem a hipótese de um ataque armado contra as instalações nucleares do Irã. Para tranquilizar o noticiário, Barak vem a público dizer que o governo israelense não se decidiu por um ataque – ainda (sic). Enquanto isso, a aviação israelense fez manobras militares na Sardenha (Itália), e a população de Tel Aviv foi surpreendida por um "ensaio" de ataque aéreo.

Como se não bastasse, relatos saídos da recente reunião do G20, em Cannes, na França, dão conta de um diálogo entre Sarkozy e Obama, presidentes da França e dos Estados Unidos:

— I can't stand him (Netanyahu), he is a liar —, diz o primeiro.

— You're fed up with him? I have to deal with him every day! —, retruca o segundo.

("Não aguento mais ele: ele é um mentiroso". "Você está com ele até aqui? E eu que tenho que lidar com ele todos os dias!".)

A investigação de Netanyahu não precisa ir longe. Quem está denunciando diariamente a tentativa de nova guerra é Meir Dagan, ex-chefe do Mossad, o serviço secreto israelense. Junto dele, estão Danny Yatom e Efraim Halevy, também ex-chefes do Mossad, e Yuval Diskin, ex-chefe do Shin Bet, o serviço secreto do Ministério de Relações Exteriores de israel. Ou seja, gente razoavelmente bem informada.

É claro que existe a versão (não impossível) de que tudo não passa de um jogo de cena para forçar mais sanções contra o governo de Teerã, diante do relatório da Agência Internacional de Energia Atômica que afirma estar o Irã de fato se capacitando para entrar no clube das armas atômicas. Entretanto o governo de sua Majestade na Inglaterra anunciou sua disposição de enviar navios de guerra para a região do leste do Mediterrâneo, que apoiariam um eventual ataque israelense.

Para completar esse quadro já complicado, porta-voz da Otan disse que, no caso de uma guerra dessas, a Otan não vai entrar em ação. Ao mesmo tempo, os sauditas e outros governos da região não escondem sua satisfação diante da possibilidade de um ataque contra o Irã. Outras fontes (do britânico The Guardian) dão conta de que, de certo modo, a guerra já começou. Nos últimos tempos três cientistas do programa nuclear iraniano foram assassinados e um gravemente ferido em atentados. Um quarto desapareceu, foi dado como dissidente, mas reapareceu uma ano depois, de volta a Teerã, alegando que fora sequestrado por agentes norte-americanos.

Segundo a Aiea, a agência da ONU para energia atômica,  Teerã teria 4,5 toneladas de urânio enriquecido, capaz de ser utilizado para a fabricação de ogivas nucleares. Mas os planos iranianos ainda estariam no papel, ou melho, no computador. Não haveria ainda a fabricação de um artefato concreto, mas sim seu planejamento virtual - o que é bem mais do que a metade do caminho. Isso seria corroborado por uma das armas já usadas nessa guerra em surdina ser um vírus, qo que tudo indica (The Guardian) produzido pelo serviço secreto israelense (Dagan confirma), o Stuxnet 2009, que produziu estragos (mas não parou) enormes na rede do  programa nuclear iraniano.

Como se não bastasse, os candidatos republicanos nos Estados Unidos fazem coro com Netanyahu, e dizem que apoiariam Israel caso este atacasse Teerã (na verdade a base de Fordow, em Qom, ao sul da capital.

Ou seja, de tudo isso uma coisa se conclui como certa: além da pressão sobre Teerã, há um torniquete em torno de Obama. Caso o ataque se confirme, apenas os norte-americanos tem armas eficientes para um bombardeio eficaz contra instalações subterrâneas do tipo que há no Irã. Se os Estados Unidos entrarem nessa guerra, a reeleição de Obama estará de fato comprometida, logo ele, que está propagandeando a retirada de tropas do Iraque e do Afeganistão.

A crise econômica que se aprofundaria, graças ao inevitável aumento do preço do petróleo (apesar dos favores dos sauditas), também ajudaria a bombardear essa candidatura.

Realmente, Obama tem razão: deve ser duro ter de tratar com Netanyhau todos os dias.

Publicado em 07/11/2011

Israel vai atacar Irã: um blefe?



Por Flavio Aguiar

Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ameaça uma nova guerra (Foto: © Jack Guez/Reuters - arquivo)

Até agora a maioria dos comentaristas na mídia internacional tem apontado que a ameaça do governo israelense em relação ao Irã (bombardear suas instalações nucleares) pode ser um mero blefe, uma forma de pressão (chantagem?) sobre as potências do Ocidente para que elas desencadeiem mais represálias econômicas e políticas sobre a antiga Pérsia.

Pode ser. Mas e se o blefe sair do blefe? Isto é, um blefe, como na partida de pôquer, pode deixar de sê-lo, se o adversário aceitar a parada. Aí o jogo desanda.

Bem, além da guerra propriamente dita, o fim do mundo estará próximo. A primeira conseqüência de um ataque de Israel contra o Irã será o congelamento do que resta da já combalida primavera árabe. A Síria fechará com o Irã, a Turquia reterá seu apoio aos insurgentes contra o governo de Damasco, a relação de Tel Aviv com o novo governo do Egito entrará em definitiva moratória. Haverá mais ataques terroristas contra o território israelense.

O preço do petróleo subirá às nuvens de novo. A recessão mundial vai se aprofundar, com efeitos catastróficos em todas as frentes. Ficará mais difícil para os Estados Unidos e a Europa se recuperarem.

A retirada das tropas norte-americanas do Iraque e do Afeganistão estará ameaçada, e nesse quadro conturbado, a reeleição de Obama ficará improvável. Subirá a candidatura, no mínimo, de Mitt Romney, o menos maluco dos republicanos, ou de algum dos outros, mais malucos.

O que mais? Netanyahu terá conseguido uma frente única em Israel, num momento em que seu governo enfrenta contestações e protestos em função de sua política econômica. Terá arrastado não só seu partido mas também Ehud Barak numa aventura sem fim.

Os aiatolás iranianos serão reforçados, em detrimento de Ahmadinejad, o que reforçará mais ainda os falcões israelenses.

Complicado, não? Mas o mais complicado é que Netanyahu pode estar pensando exatamente nisto. 

Publicado em 03/11/2011

Grécia: um torpedo no meio do caminho - 2



Por Flavio Aguiar

Sarkozy e Ângela Merkel consideravam que tinham sido bem sucedidos em negociação, mas foram surrependidos quando Papandreou decidiu começar a fazer política (Foto: © Christian Hartmann/Reuters)

Era para ser a festa de Sarkozy. Não está sendo. Apesar dele estar tentando recuperar o pódio.

Depois da festa em torno de Ângela Merkel, pelo “sucesso” em conseguir um “acordo” na zona do euro em torno do Fundo de Estabilidade, do corte na dívida grega, e da “aceitação” por parte da Grécia, de mais “austeridade” em troca de mais “ajuda” para, no fundo, não permitir que os bancos se vejam em maus lençóis, era a vez de Sarkozy brilhar na presidência do G20. Sarkozy precisava disso: sua popularidade está lá embaixo, há eleições no ano que vem, a “libertação” da Líbia, com decisiva participação dos Rafales que a Dassault quer vender ao Brasil, não lhe rendeu os dividendos esperados nas pesquisas de opinião.

Mas... tinha uma Grécia no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma Grécia. O anúncio, por parte do primeiro ministro grego Georges Papandreou, de que pretendia realizar um plebiscito – no fundo sobre se a Grécia permanece ou não na zona do euro – roubou a cena de Sarkozy. Aliás, roubou quase tudo, além da cena: a coreografia, o bastidor, a plateia inteira. Sarkozy ficou sem roteiro, para não dizer sem rumo. Ainda na quarta à noite Sarkozy, Merkel e mais gente graúda se reuniram com Papandreou para tentar dissuadi-lo do plebiscito. Não conseguiram. Papandreou saiu dizendo que iria antecipar o plebiscito para dezembro. No fim desistiu mesmo, devido ao racha que a proposta provocou no seu partido. Agora ninguém sabe o que vai acontecer com ele nesta sexta-feira. Enquanto isso, Sarkozy tenta capitalizar o recuo de Papandreou, dizendo que foi ele quem convenceu o PM grego a desistir.

A situação de Papandreou está por um fio. Mas pode-se dizer que em três dias ele fez o que se recusou a fazer durante ano e meio, que é o prazo em que ele vem engolindo sapos de Sarkozy e Merkel, e fazendo o seu povo grego engolir os purgantes amargos dos pacotes de austeridade que não levaram a nada que não fosse a inanição da economia grega e o desalento e/ou fúria das ruas de Atenas: Política. Acabou recuando devido à confusão interna de seu partido, pressionado também pela ameaça de que a próxima parcela da "ajuda" do FMI/Fundo de Estabilidade (8 bi de euros) não seria entregue. Além disso Papandreou alega que, embora a oposição lhe permaneça hostil, suas principais lideranças concordaram em aprovar o pacote de estabilidade, coisa que não acontecia antes.

 

O governo de Papandreou pode cair ou ficar. De quinta para sexta ninguém sabe, ninguém viu. Pode se formar um novo governo de transição, sem Papandreou. A oposição conservadora até agora não aceita um governo de unidade nacional: quer eleições, certa de que vai ganhar. Em Cannes os BRICS se comprometem a ajudar a combalida Europa.

"Tudo é nevoeiro", como dizia o Fernando Pessoa em "Mensagem".

Publicado em 31/10/2011

Enquanto isso, na pequena Islândia...



Por Flavio Aguiar

Foto de satélite da Islândia; mancha branca na parte inferior direita marca o vulcão Vatnajökull (Foto: Wikipedia)

Era uma vez um país pequeno, chamado Islândia. Ninguém conhecia muito do país, a não ser que ficava no círculo polar, tinha vulcões cujas cinzas de vez em quando fechavam o tráfego aéreo na Europa, e tinha muito pouca gente (uns 300 mil habitantes, menos do que quase todas as capitais brasileiras). Mas de uma hora para outra o país ficou famoso. Saiu em tudo o que é jornal. Por quê? Porque se tornara a bola da vez, a menina dos olhos do ideário neoliberal. Desregulara tudo na economia, sobretudo no setor financeiro. Foi uma festa, e uma glória! “Como a Islândia acertou”, cantavam todos os sabichões (pundits, em inglês) da mídia e da economia. Isso porque no nosso recanto, na América Latina, vicejavam aqueles “mofados” herdeiros do decrépito terceiro-mundismo, os nostálgicos do socialismo, os Lulas, Chavez, depois Evos, Correias, Kirchners, Tabarés, Mujicas, etc.

E o capital rolava, cantava e tocava a música para todos dançarem. Na Europa, então, foi uma correria: todos queriam ir trabalhar na Islândia. Não havia garantias, but who cares? Quem se importa? Tinham emprego, tinha din-din rolando para os bolsos...

Ocorre que assim como o sistema financeiro desregulado tragava dinheiro de todos os lados, ele acabou tragado também por todos os lados. Os três maiores bancos islandeses movimentavam números – em créditos e débitos – muito maiores do que a economia do país. Quando as finanças internacionais derreteram em 2008, os bancos islandeses viraram (ou fizeram) água, porque o Banco Central Islandês não teve como garanti-los diante da fuga de capitais dos bancos internacionais. O país foi para o brejo. Milhares de pessoas dormiram empregadas e acordaram desempregadas, assim, do dia para a noite e da noite para o dia. Sem direito a nada. Aí a frase ficou assim: era uma vez a Islândia...

A Islândia, de novo, era a bola da vez. Primeiro, veio o socorro do FMI. Com a receita habitual: arrocho, “austeridade”, coisas assim. O governo adotou. Em conseqüência, caiu. O novo governo, social-democrata (o primeiro em décadas) não rompeu com o FMI, mas recauchutou as medidas. Adotou seguranças para o novo sistema bancário. Fez uma devassa no setor, o que resultou até em processos e algumas detenções. Nada muito grave, mas serviu para mostrar que agora havia disciplina no pedaço. Além do FMI, a Islândia negociou novos empréstimos com uma pluralidade de países, Holanda, Rússia, França, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Polônia, Alemanha, Noruega. Recuperou o fluxo de capitais, mas de modo mais disciplinado. Com isso, a economia voltou a rolar. A dívida pública foi estabilizada em torno de 90% do PIB (antes da farândula financeira era de 30% do PIB; logo depois passou a mais de 120%). Mas a dívida externa total da Islândia, em 2008, incluindo o setor privado, era de 50 bilhões de euros (para efeitos de cálculo, porque a Islândia não pertence à Zona do Euro), sendo que seu PIB anual era de 8,5 bilhões... A Islândia se inscreveu para entrar na U. E. – mas não na Zona do Euro. A crise da dívida pública dos países dessa Zona, a partir de 2010, praticamente não a afetou. Ao contrário, a favoreceu. A economia islandesa está se recuperando. Segundo Paul Krugman no NY Times, em vez de encolher a rede de proteção social, a Islândia ampliou-a, mesmo com cortes na despesa pública. Sustentou o poder aquisitivo da população. Não fez, como a Zona do Euro força os gregos a fazer, os mais desvalidos pagarem a conta. Os empregos estão voltando. Gente que fugira com uma mão na frente e outra atrás em 2008 voltou com as duas mãos para a frente em 2011. Os três bancos que quebraram em 2008 foram estatizados, e parte de suas dívidas congeladas (é verdade que parte de seus ativos depositados fora, em particular na Holanda e no Reino Unido também foram congelados). Dois deles foram reprivatizados, mas o terceiro segue sob controle estatal. Todo o setor foi redisciplinado.

Por quê tudo isso? Porque a Islândia tem soberania sobre a própria moeda, entre outras razões. Porque seu Banco Central, ao contrário do Banco Central Europeu, tem um Tesouro que emite letras, toma e faz empréstimos, enfim, age como um banco. Em 2011 a economia islandesa é considerada, inclusive pelo FMI, como renascida. Já a da Grécia só vai renascer, se deixarem, em 2020, quando sua dívida pública vai ser reduzida a 120% do PIB, e está com uma economia moribunda.

Palavras de David Oddson, do BC islandês: “Se estivéssemos amarrados ao euro (...) teríamos de sucumbir às leis ditadas pela França e pela Alemanha”.

Como a Grécia, que amargou um ano e meio de desmazelo, e vai amargar mais dez de recessão “austera”, porque perdeu sua soberania (não só porque entrou na Zona do Euro, é verdade).

Mas agora a imprensa convencional não fala mais da Islândia. Afinal, ela não é mais a menina dos olhos do seu ideário. A Islândia ficou sem vez. Só tem, quando algum vulcão entra de novo no cenário.

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Flavio Aguiar

Flávio Aguiar

É colaborador em Berlim. Toda semana traz suas análises nada convencionais sobre o que acontece na Europa e no mundo. Leia mais.

 
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