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Publicado em 24/05/2012

Um jantar muito indigesto em Bruxelas



Por Flavio Aguiar

Hollande e Merkel, no centro de um cardápio indigesto para tirar a Europa da crise (©Larry Downing/Reuters)

Na quarta-feira (23) os 27 membros do Conselho Europeu - formado pelos governantes dos 27 países da União Européia - se reuniram para um "jantar informal" em Bruxelas.

A entrada era a situação da Grécia; o prato principal, a discordância sobre os "eurobonds"; a sobremesa, a questão do crescimento.

Sobre a Grécia, houve uma concordância: até o momento, os governantes pensam que deixar a Grécia sair do euro é mais caro do que mantê-la na zona da moeda. Apesar disso, essa margem de certeza vai diminuindo. Embora oficialmente negado, o fato é que os outros países da zona do euro estão desenhando modelos de reação para a eventual saída da Grécia, que muitos consideram inevitável a médio prazo. A certeza do custo maior, hoje, se refere à estimativa de que agora, nesse momento, a saída da Grécia colocaria uma pressão insuportável sobre outros países em dificuldade: Portugal, Irlanda, Espanha e Itália.

Mas o prato principal era o mais indigesto. François Hollande, o presidente recém-eleito e empossado na França, voltou a falar sobre a necessidade de que o Banco Central Europeu lance "eurobonds" – letras – no mercado, captando recursos diretamente (não apenas através das contribuições dos tesouros dos estados-membros) e catapultando sua capacidade de ajudar bancos e países em dificuldade. E a chanceler alemã Angela Merkel voltou a declarar que isso é impensável na atual conjuntura.

A insistência de Hollande se apoia na convicção de que a única possibilidade de salvar o euro é fazer a economia europeia crescer de imediato. Para isso, é necessário afrouxar o arrocho orçamentário imposto aos países em dificuldade e possibilitar que o sistema financeiro tenha maior liquidez e volume de recursos.

A intransigência de Merkel se apoia na convicção de que dar esse passo agora prejudicaria a Alemanha – que é favorecida pela corrida de investidores às suas letras do tesouro, vistas como mais seguras e compradas ou renovadas a juros baixíssimos – e estimularia os países em dificuldade a contemporizar com as "reformas" indispensáveis, quais sejam, a adequação das finanças públicas, das relações de trabalho, das aposentadorias e pensões, e dos investimentos, aos ditames da banca financeira.

É um duelo de gigantes, entre receitas que não se combinam entre si. De um lado, vem a pressão do coro dos descontentes, cada vez maior, e expresso em votações cada vez menos favoráveis aos defensores da "austeridade", depois das que levaram os conservadores ao poder em Portugal e na Espanha. Do outro, a pressão dos arautos da banca e da ortoxia financeira – assentados no Banco Central Europeu (BCE), na mídia, e no Bundesbank, o Banco Central Alemão, insistindo que é indispensável resistir às pressões "populistas".

Ou seja, o que fica claro é que existe de fato um projeto concertado para desossar o Estado do Bem Estar Social europeu e moldar governos e sociedades aos modelos e conveniências do mundo financeiro. Tanto é assim que dirigentes da área econômica, como Jörg Asmussen, do Conselho do BCE., já declararam que a oposição aos "eurobonds" não é uma questão de princípio, mas sim de momento. Eles poderiam ser uma opção – mas DEPOIS que os países em crise implementassem as reformas, o que recebe o nome eufemístico de "fortalecimento da união fiscal".

A novidade do encontro é que Angela Merkel e a Alemanha que ela representa estão cada vez mais isoladas no cenário europeu. Hollande recebeu o apoio (descrito como discreto) de Mário Monti, da Itália, do conservador Mariano Rajoy, da Espanha, e de José Barroso, o presidente da Comissão Europeia. Há quem sopre que por trás do pano o próprio Mário Draghi, presidente do BCE, estaria revendo suas posições ortodoxas: o problema estaria no seu "board", onde quem dá a nota é gente como Asmussen ou o ultra-ortodoxo Jens Weidmann, presidente do Bundesbank alemão.

Hollande tem um poderoso trunfo na mão, que já foi também discretamente evocado. O acordo fiscal que 25 países membros da UE assinaram, uns voluntariamente, outros à força, precisa ser ratificado pelos parlamentos nacionais até o fim do ano. E assessores do novo governo francês já vêm soprando que, se não se colocar a hipótese dos eurobonds pelo menos na fila de espera, o novo parlamento francês que será eleito em junho, com provável maioria de esquerda, e nesse particular com apoio da extrema-direita de Marine Le Pen, rejeitaria o acordo.

Aí sim o caldo entornaria e o racha seria claro.

Quanto à sobremesa, o crescimento, sim, todos concordam que é necessário incentivar o emprego, sobretudo entre os jovens, que é necessário mais empenho nisso etc.

A ver.

Publicado em 21/05/2012

O inimigo n* 1 de François Hollande.



Por Flavio Aguiar

Tornou-se lugar comum na esquerda afirmar que "é necessário derrotar Angela Merkel".

Tenho dúvidas. Não porque duvide do perfil conservador da chanceler alemã. Acontece que ela é apenas a ponta do iceberg.

Em sua campanha, François Hollande disse que seu inimigo principal eram os bancos, o sistema financeiro. Ele está certo.

Mas esse "sistema" - ainda que impessoal - tem rosto. Ou melhor, rostos.

Em geral são simpáticos, afáveis, gentis, jovens ou de meia idade, mas no seu campo são mais duros do que zagueiro de várzea e mais ortodoxos do que rótulo de Maizena, cokmo diria o Analista de Bagé.

Tomo um exemplo: Jens Weidmann, diretor do Bundesbank, o Banco Central Alemão.

Weidmann veio a campo neste fim de semana alertar os demais bancos que eles devem evitar se comprometer mais com a Grécia antes das novas eleições marcadas para 17 de junho. E os gregos devem escolher: ou ficar na zona do euro e engolir o pão que o Banco Central Europeu amassou, ou se afogarem por conta própria. Aquilo que antes era uma tragédia impensável, virou agora uma ameaça à soberania de um povo.

Algo de pessoal nisso? Nem pensar. Jens Weidmann tem 44 anos, e é o típico economista de "nova geração". Formado no meio ultra-conservador das faculdades de economia e administração da Alemanha, pertence a uma geração e a uma formação para a qual o mais importante é o figurino, não o usuário. Se o colarinho está muito apertado e ameaça sufocar o usuário, dane-se este: o importante é manter o figurino.

"Obedecer as regras das políticas monetárias voltadas para a estabilidade, muitas das quais estão inscritas no tratado da União Européia, não é uma obsessão legalista: é a chave para a aceitação da união monetária dos cidadãos europeus", escreveu ele recentemente no Financial Times (07/05/2012). Diz ele ainda que não obedecer a essas limitações seria "ignorar as lições da crise financeira".

Para ele o pior seria diminuir muito as taxas de juros, combinando isso com uma intervenção no mercado financeiro. Através de uma política de "simetria constante", evitando mudanças sazonais, o sistema financeiro como um todo induziria os sistemas financeiros a reformar seus "business models". É necessário incentivar a retenção de ganhos para acrescer o capital.

Nesse quadro, continua, "alguns políticos podem sofrer a tentação de negar medidas impopulares e tentar resolver os problemas através de uma acomodação monetária. Cabe aos que definem as políticas monetárias resistir a tais pressões".

Ou seja: são os heróis solitários dos gabinetes dos mundos financeiros que devem - e só eles - moldar o futuro.

Todo esse manancial ortodoxo é o resultado de um meio ambiente de formação que sufoca alternativas, abafa a imaginação e, ao fim e ao cabo, destrói a inteligência.

Por isso, embora o Banco Central Alemão tenha sua diretoria executiva nomeada pelo governo (50% pelo presidente, 50% peloo Conselho da República), onde o peso da (do) chanceler é evidente, fica a dúvida de quem pertence a quem.

A luta é para derrotar gente como Weidmann, não apenas Merkel. Até porque esta tem um instinto de sobrevivência notável e, dentro de certos limites, irá para onde o vento sopre.

Desde que sopre, é claro.

 

Publicado em 17/05/2012

Palestina: greve de fome e formas de luta



Por Flavio Aguiar

Nesta semana encerrou-se uma prolongada greve de fome de prisioneiros palestinos em Israel. Eram mais de 2 mil, alguns sem comer há 78 dias. A margem de segurança para uma atitude dessas é de 75 dias. Depois disso, a morte torna-se quase inevitável. Parece que no caso destes prisioneiros, houve possibilidade de contornar o risco iminente, pelo menos até agora.

As reivindicações dos grevistas eram a suspensão das chamadas "detenções admnistrativas" e do confinamento em solitárias. As "detenções administrativas" são prisões sem acusação precisa. Inicialmente por seis meses, podiam ser prolongadas indefinidamente. Já o confinamento impede, entre outras coisas, visitas de familiares.

Houve um prolongado esforço de negociação, mediado por enviados do Egito e da Jordânia. Enquanto isso se passava, o governo de Beniamyn Netanyahu fez um surpreendente movimento para o centro, diminuindo o peso da extrema-direita ortodoxa em sua política. É de se perguntar o que houve nos bastidores: talvez um ultimato do governo norte-americano advertindo os riscos e o preço da propalada ação militar contra o Irã? Não se sabe. Mas o movimento houve, e coincidiu com a negociação de uma saída para a greve de fome.

Houve um abrandamento das condições: as "detenções administrativas" só poderão ser prorrogadas se houver elementos substanciais acrescentados aos dossiês; e o confinamento total será suspenso, sobretudo para visitas de familiares.

O mais promissor foi destacado em algumas análises.

Primeiro, o movimento de Netanyahu em direção ao centro lhe dá mais credibilidade para retomar possíveis conversações de paz.

Segundo, do lado palestino, houve com certeza uma valorização de formas de luta diferentes e alternativas à política das bombas transportadas por suicidas e enfrentamentos armados com foguetes.

É a velha – mas por isso mesmo valiosa – "arma" da resistência passiva e pacífica que entra em cena, numa região martirizada pelo terrorismo e pelo terrorismo de estado. É Mahatma Ghandi contra o furor da guerra.

Esperemos que essa árvore crie raízes e frutifique.

Publicado em 14/05/2012

O euro: crescer ou murchar até implodir. Ou explodir



Por Flavio Aguiar

"Acrópoles, adeus". A revista semanal alemã mostra que a União Europeia trama a saída da Grécia da zona do Euro (©reprodução)

Ficar como está é que não pode. Quero dizer, prisioneiro de um caixa-forte onde trabalham pessoas que não ouvem nem vêem as ruas. Conseguem prestar atenção apenas nos próprios dogmas obtidos, construídos ou comprados através de um ensinamento da insensibilidade misturada com subserviência e arrogância. Subserviência em relação aos de cima; arrogância em relação aos de baixo, ou até àqueles que estão ao lado, mas fora da caixa-forte.

A grita(ria) vem de todos os lados: da esquerda, da direita, dos crentes e dos descrentes.

Levei um susto hoje de manhã, segunda-feira, 14 de maio. Desci para comprar um exemplar da revista Der Spiegel, cuja manchete diz: "Acrópole, adeus: por que a Grécia deve abandonar o euro". A manchete em si já me assustara. A Der Spiegel é decididamente pró-euro, pró-União Europeia, pró-liberal, muito anti-esquerda (e também muito anti-extrema direita). 

Entrei numa revistaria que nunca entrara. Pedi a revista, e o dono, na caixa, me apontou onde ela estava. Quando fui pagá-la, vi a manchete do Bild, jornal sensacionalista, que dizia, sobre uma foto da chanceler Angela Merkel: "Ein bitterer Muttitag",  "Um amargo dia das mães". Mutti é mamãe, em linguagem de criança, como muitas vezes é descrita a chanceler Angela Merkel. Era uma referência à eleição fragorosamente perdida pelo seu partido, a União Democrata Cristã, no estado da Nordrhein-Westfalen (Renânia do Norte-Vestfália), o mais populoso do país.

Comentei algo sobre dias difíceis, e o dono da revistaria me surpreendeu com uma diatribe contra os políticos, que para ele a política pouco importa, pois são todos iguais, na política só contam os lobistas, e que eles, os políticos só agem a favor dos bancos etc. etc. etc. Eu não conhecia o dono, nem ele me conhecia: isso é extremamente raro aqui na Alemanha, que eu saiba, ou pelo menos que eu soubesse até hoje. Devo dizer, aliás, que ele falou comigo mais tempo sobre política do que muitos de meus amigos fazem, tratando desse tema "incômodo" com muito tato e discrição.

Não me pareceu que ele, o revisteiro, fosse de esquerda. Estava simplesmente ecoando aquele conhecido clima de hostilidade à política que é um apanágio do pensamento conservador encruado, que não tem coragem de se expor como tal.

Mas pensei, por outro lado, que esse sentimento de descrença e descrédito vem sendo intensificado nos últimos tempos, e em toda parte. Por exemplo: o ex-primeiro-ministro grego, Georges Papandreou, caiu porque anunciou que iria fazer um plebiscito sobre o plano de "austeridade" na Grécia. Em conjunto, a Comissão Europeia, o Conselho Europeu (Merkel e Sarkozy à frente), o Banco Central Europeu o depuseram, pondo no seu lugar o buro/tecnocrata Lucas Papademus, que "governou" o país até agora.

Bom, o plebiscito acabou acontecendo, na última eleição: os partidos que sustentavam Papademus afundaram nos votos, a esquerda e a extrema-direita cresceram, ninguém conseguiu formar um novo governo, a Grécia está desgovernada. O partido que mais cresceu, o esquerdista Syriza, se nega a integrar qualquer governo que defenda o atual plano, e se aferra às previsões de que, se novas eleiçòes ocorrerem, ele terá 25% dos votos, em vez dos 16,5% que já obteve, superando o socialista Pasok.

Enquanto isso, crescem as nuvens ameaçadoras de todas as retóricas possíveis em torno da Grécia. Antes não se admitia que a Grécia saísse do euro: agora, na verdade, já se trama a sua saída. Como os gregos não votam de acordo com o figurino, então que se esboroem de encontro à própria desgraça. Ao invés de problema, passarão a ser vistos como um exemplo: a criança desobediente que é exemplarmente punida para ensinamento dos demais: ficará ao relento, exposta ao frio e à chuva.

O figurino da "austeridade" vem se provando apertado demais para os usuários em todos os cantos do mundo. Porém aos olhos dos encarregados da caixa-preta, se o figurino sufoca o cliente, dane-se o cliente; deve-se manter o figurino a qualquer custo.

Se as coisas forem adiante do jeito que estão, se a economia do euro continuar a ser manejada desse modo, com o esvaziamento dos poderes institucionais e o reforço do poder dos bastidores tecno-burocrático-financeiros, o espaço europeu marchará para a desarticulação, a confusão, o vazio e possivelmente o caos.

Por isso é preciso mudar a lógica do jogo. Ou o euro cresce, quer dizer, as instituições que o governam de fato passam a agir em função do crescimento, ou ele murcha, implode ou até explode. Mas deixando atrás de si um monte de países em escombros.

E fazendo do desencanto programado do dono da revistaria uma razão de ser e sobreviver consistente até que um novo líder populista de direita ressurja das cinzas do último para semear novamente a tragédia.

Essa é a razão pela qual todos os olhos e ouvidos devem se concentrar no encontro dessa terça-feira entre a conservadora Angela Merkel (que vem de seguidas derrotas eleitorais) e o socialista François Hollande (que vem de uma retumbante vitória).

Claro: o clima ensaiado será o de concertação, entendimento. Será preciso muita atenção às entrelinhas. Porque trata-se de algo parecido com uma final de copa do mundo. O prêmio pode ser a "copa do fim do mundo". 

A ver.

Publicado em 08/05/2012

O complicado labirinto grego - 2



Por Flavio Aguiar

O cenário pós-eleições na Grécia é de extrema fragmentação política (Foto: John Kolesidis. Reuters)

48 horas depois do Nova Democracia, de direita, ter sido o mais votado na eleição para o parlamento grego, e ainda ganhando o bonus de umas quarenta cadeiras extras, graças a essa condição, seu líder Antonis Samaras jogou a toalha: não teve como formar um novo governo de coalizão.

O cenário é fragmentado demais. Juntos, Pasok, o Partido Socialista, e Nova Democracia, embora tenham obtido apenas pouco mais de 32% dos votos, tem a metade das cadeiras no parlemento: 149, graças àquele bônus que a legislação eleitoral garante. Mas acontece que o Pasok, já primo pobre na eleiçào, não vai se conformar em ser o primo pobríssimo no governo, se ele for formado nessa base. Vai virar boi de presépio. Seria o seu atestado de óbito.

Por que? Porque o problema do Pasok está à sua esquerda: o Syriza, coalizão de esquerda que virou, pela primeira vez, o segundo partido mais votado no parlamento, com uma diferença para o ND de pouco mais de 2%, e mais de 3% em relação ao Pasok. Se este ficar como mero fiugurante numa coalizão governamental em que a ND não só dá as cartas, mas define a mesa e o baralho, negociando diretamente com Angela Merkel e François Hollande,  o Syriza não só vai devorá-lo pelas bordas com vai roer-lhe mesmo o núcleo duro eleitoral.

Entrementes, é quase impossível que o Syriza venha a por de pé uma coalizão de esquerda. Graças novamente ao bônus da ND, o número de cadeiras da esquerda é minoritário. A esquerda levou 44,46 % dos votos, contra 36,66% da direita (o restante ficou com partidos menores que não entraram no parlamento, graças à cláusula de barreira). No entanto, depois de distribuídas as cadeiras, o que, além do bônus, contra com aquelas que os outros partidos deixaram de lado, a direita tem 163 cadeiras contra 137 da esquerda.

Entretanto, diante do fracasso da ND, o Syriza, no momento, é o partido encarregado de formar uma coalizão. Seu líder já denunciou o pacto de austeridade como "nulo": e que vai sim tentar formar um governo em três dias. Tomara. Os cabelos em Bruxelas, Berlim, Frankfurt e Stuttgart, estão de pé.

Em suma, uma confusão.

Mas essa confusão tem nome. Em primeiro lugar, a profunda divisão das esquerdas. Impossível formar uma coalizão que conta com Syriza, Pasok e KKE, o Partido Comunista, mais o novo DIMAR. O KKE se recusou a conversas com o Syriza. Uma lástima. Esperemos que revisem essa posição draconiana e inútil.

Em segundo lugar, o nome chama-se "falta de democracia". Falta? É, falta. Que poderes tem o parlamento grego, diante da intervenção a que seu país foi submetido pela Comissão Européia e pela "troika", C. E., FMI e Banco Central Europeu, quando da reunúncia de Papandreou, o primeiro ministro que ameaçou fazer um plebiscito sobre os planos fiscais e foi imediatamente apeado do poder?

Numa situação dessas, ninguém quer abrir mão de nada. Porque abrir mão de uma migalha é abrir mão de tudo. É ficar fora da interlocução que conta, ou seja, aquela de mão única, mas que define quem pode se apresentar como dialogando com a banca e com a troika.

Talvez haja ainda alguma negociação que leve à formação de um governo de emergência. Ou então haverá novas eleições em junho, e o primeiro ministro/interventor Papademos continuará tocando o barco até lá.

Mas o que está faltando na Europa, berço da democracia moderna, é a própria criança: a democracia. Economia não é coisa para povo meter o bico.

Talvez o resultado da eleição francesa possa mudar esse quadro.

Publicado em 06/05/2012

Hollande ganhou!



Por Flavio Aguiar

Os apoiadores de Hollande não tiveram de esperar a abertura das urnas para começar a comemorar (Foto: Gonzalo Fuentes. Reuters)

François Hollande tornou-se o segundo presidente de esquerda eleito diretamente na França depois da Segunda Guerra, sucedendo Nicolas Sarkozy. O último presidente de esquerda eleito fora François Mitterand, eleito em 1981 e depois em 1988. Como chefes de estado houve ainda o caso de Vincent Auriol, eleito indiretamente depois da guerra, e Leon Blum, primeiro ministro e chefe de estado antes da guerra e logo depois, chefe do governo provisório.

Nos últimos dias a expectativa de voto em Nicolas Sarkozy cresceu, sobretudo devido ao alinhamento de um voto de direita, diante da ameaça mais concreta do candidato de esquerda ganhar.

Mas isso não foi suficiente para reverter o favoritismo de Hollande, que se manteve firme na posição de que "nada está decidido", conclamando os militantes de esquerda a manter a mobilização para levar eleitores às urnas, já que o voto é facultativo na França.

A eleição de Hollande cria uma nova situação política na Europa, que pode ser medida pelas reações conservadoras. Na França, muitos eleitores de Sarkozy lamentavam "o retorno da CGT ao poder". David Cameron e Angela Merkel, que antes tinham se recusado a receber o candidato socialista, telefonaram para cumprimenta-lo. Merkel convidou-o para vir a Berlim, a fim de conversar sobre a situação do euro e do continente.

Conseguirá Hollande estar à altura do desafio? Ele promete um "novo começo" para a Europa, renegociando os termos do pacto fiscal conservador que atualmente mergulha o continente numa política recessiva. Tem também de combater a xenofobia que se espraiou pela França, além de outros países europeus. Promete, nas suas palavras, um mundo de "crescimento, empregos, prosperidade".

A ver. 

A expectativa é muito grande, também devido às eleições na Grécia e na Itália (municipais), além de uma eleição estadual no norte da Alemanha, onde a coligação da Uniào Democrata Cristã de Angela Merkel e seu parceiro FDP no governo nacional, saiu-se mal, apesar deste último ter obtido um surpreendente crescimento. Para variar, a supresa positiva ficou com os Piratas, que conseguiram, pela terceira vez, colocar representantes num parlamento estadual.

As bolsas européias devem entrar em queda amanhã (segunda), a adrenalina deve subir, por outro lado, espera-se que haja algum entendimento rápido, uma vez que Merkel é conhecida por seu modo de negociar até o último suspiro, embora tenha uma retórica dura, e Hollande, que se mostrou mais firme na campanha do que se esperava, é conhecido por sua capacidade de negociar.

 

Publicado em 03/05/2012

A França e seus dois futuros



Por Flavio Aguiar

O comportamento de Sarkozy diz respeito ao fato de que ele tem nada ou muito pouco a defender (Foto: Reuters)

Para quem assistiu ao debate entre Nicolas Sarkozy e François Hollande na quarta-feira, ou dele teve notícia, uma coisa ficou clara: o primeiro está na defensiva, ou seja, na ofensiva.

Sem que Hollande se comporte como o virtual presidente eleito, ou favorito, sempre alertando para que "nada está decidido", Sarkozy vem se comportando como se fosse ele o candidato de oposição. Em parte, esse comportamento esdrúxulo se deve ao fato de que, por mais que o atual presidente pule de Herodes para Pilatos, corteje o bezerro de ouro e ao mesmo tempo se apresente como o portador das tábuas da lei, Hollande permanece na frente, nas pesquisas.

Sarkozy também levou um duro golpe quando Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita (com 18% dos votos no primeiro turno), anunciou que votará em branco no próximo domingo, embora liberando seus seguidores (ou súditos, ou séquito...) para votar de acordo com a consciência de cada um.

Mas esse comportamento de Sarkozy tem a ver também com o fato de que ele nada ou muito pouco tem a defender. Se ele se apresentar como o campeão de sua gestão, seu destino estará traçado de uma vez por todas, e o nó da corda em seu pescoço terá sido atado por ele mesmo, tão mal julgada ela tem sido pelos cidadãos que vão votar no dia 6. A rejeição a Sarkozy é enorme; então ele não tem outra saída a não ser a de não ser Sarkozy, mas um ser interplanetário que acabou de chegar na eleição.

Seu caminho, portanto, é do atacar Hollande sem mercê nem descanso: Hollande é o desastre, ele mente, ele vai destruir o Estado e a nação, etc. Ele, Hollande, e os sindicatos, seus apaniguados, que, segundo o presidente, deveriam abandonar as bandeiras vermelhas com que desfilam e empunhar a bandeira francesa.

Assim mesmo, apesar das artimanhas desse novo sátiro da política gaulesa, no sentido de que se satiriza a si próprio, confrontos houve. Um deles se deu quanto à educação, ou seja, o futuro.

Sarkozy questionou o plano de Hollande de abrir 60 mil novas vagas para professores no ensino francês. Os argumentos eram o de sempre: aumentos dos gastos públicos, do funcionalismo, etc. Hollande respondeu que se via na contingência de fazer esse aumento, depois que Sarkozy tinha reduzido o sistema público de ensino francês à inanição, através de uma política de cortes draconianos nos investimentos estatais. Sarkozy treplicou: ofereceu um aumento de 500 euros no salário dos atuais professores. Sim, mas desde que... eles trabalhem muito mais, é claro. Atualmente um professor com contrato normal deve dar 18 horas de aula por semana. Essa carga passaria para 21 horas, mais 5 de atendimento a pais e alunos, ou seja, 26 horas de trabalho.

Essa foi, até o momento, a filosofia de Sarkozy: aumentar a carga de trabalho de quem "está dentro", e criar a consigna de que "quem está fora não entra", reafirmando a "síndrome de arca de Noé" que se refere também aos imigrantes. Trabalhe mais e receba menos (apesar dos 500 euros), tenha sua aposentadoria diminuida e seu tempo de trabalho aumentado: só assim estareis no reino dos céus.

A maior questão, na verdade, neste momento, é esperar para ver se Hollande, confirmando sua eleição no domingo, levará adiante suas propostas. Não só a de recuperar o estado francês, fortalecendo, por exemplo, a educação, mas de liderar a revisão do pacto fiscal europeu e das políticas recessivas que vêm levando o continente à inanição. Caso contrário, ele poderá passar para a história como um... segundo Sakozy, ou Sarkozy segundo, o que prometeu e não cumpriu.

Mas, como diz o candidato socialista, nada está definido. A ver (e torcer) no domingo.

Publicado em 28/04/2012

Um poema para curtir no feriadão



Por Flavio Aguiar

Poema escrito pelo meu colega de Literatura Brasileira da USO, Luiz Roncari, no dia em que a Câmara Dos Deputados aprovou o novo e vergonhoso Código Florestal:

Ao fundo do esgoto

Veta Dilma
eles querem rapar o Brasil
eles querem rapar as matas do Brasil
eles querem matar as matas os rios e as águas do Brasil

Veta Dilma
que sairemos à rua
apoiaremos a sanidade das ações benfazejas
acredite em nós e ganhe a nossa confiança
do cidadão da cidadã do anônimo das ruas

Veta Dilma
que juntos daremos a eles o que merecem
os nomes na lista negra dos que deverão ser esquecidos
na lápide da história e no lixo da memória

Veta Dilma
tenha coragem  e acredite em nós
temos os nomes e partidos de todos eles
que traíram as matas os rios e as águas do Brasil
replicaremos por todos cantos internéticos do Brasil e do mundo
a insanidade do que pretenderam fazer e não fizeram

Veta Dilma
e conte com nosso apoio e poder
porque somos mais maiores e mais poderosos que eles
somos a rua guiada por uma mulher corajosa
que lhes dará o que merecem
a sarjeta da história

e seremos o canto fúnebre da enxurrada que os levará para o bueiro do esquecimento

Luiz Roncari 25/04/2012

Publicado em 26/04/2012

Futebol na Europa: Espanha fora



Por Flavio Aguiar

Dívida pública e desemprego em alta, crescimento em baixa e, agora, futebol eliminado: pobre Espanha (Foto: Susana Vera. Reuters)

Pobre Espanha!

Desemprego e recessão devastadores, futuro a perigo, Família Real em crise de credibilidade, Repsol em baixa, juros da dívida pública em alta...

E agora seus dois campeões estão fora da copa européia interclubes, em favor de duas equipes com atributos menores: Chelsea e Bayern de Munique. Como é possível?

Bem, antes de tudo, um esclarecimento: acho que nunca comentara futebol nesse blog, pelo menos assim abertamente. Mas se no Brasil existem, por baixo, uns 150 milhões de técnicos e comentaristas de futebol, também posso ser um.

Assisti à série de semifinais. No último dos jogos, o Bayern desclassificou o Real Madrid nos pênaltis, depois de cobranças bisonhas de Cristiano Ronaldo, Kaká e Sérgio Ramos.

Quando correram para bater os pênaltis, deu para sentir que errariam. Estavam com a cabeça em outro lugar. Os dois primeiros não chutaram de verdade: deram um taquinho na bola. Já Sérgio Ramos também não chutou: deu um pontapé na bola, como quem quisesse se livrar dela. Resumo: o time não se preparara para aquela eventualidade. Não se concentrara nela. Quando Cristiano Ronaldo e Kaká correram, dava para dizer: quem vai ao encontro da bola, ali, não são dois jogadores, são duas imagens holográficas, a estrela que cada um é é que vai bater o pênalti. Deu no que deu.

Já o caso do Barça é mais complicado. Estou convencido de que os dois melhores times do mundo, no momento, são, pela ordem, o Barcelona e a seleção alemã. Jogam bonito, alegre, com uma técnica exemplar, podem massacrar qualquer adversário. Então porque perdem, como a seleção alemã na Copa do Mundo, perante um time muito inferior, ou o Barça, várias vezes?

Porque às vezes o entusiasmo com o próprio jogo, com a própria imagem, rouba-lhes a concentração, o foco.

Vou dar um exemplo, que, aliás, envolve o Chelsea – também. Em 2006 meu glorioso Inter conquistou o campeonato mundial interclubes contra o mesmo Barça. Que o Barça era melhor time não havia dúvidas. O Inter suou para desclassificar o Al Aly (o campeão africano); o Barça passeou sobre o campeão norte-americano, do México.

Daí me recordo de duas coisas. A primeira é o Abel Braga (então técnico do Inter) dizendo: "Não adianta passar para meus jogadores um vídeo do Barça ganhando. Vou passar um deles perdendo".

E passou o quê? Um jogo contra o Chelsea. E o Barça perdeu para o Inter do mesmo modo que perdera para o Chelsea, e do mesmo modo com que foi agora desclassificado pelo mesmo Chelsea. Em todas essas oportunidades o Barcelona confiou na estrela de seus jogadores e levou gols (todos eles) em contra-ataques fulminantes. Sem combate no meio do campo, seus defensores, recuando, ou correndo atrás do prejuízo, foram envolvidos pelos adversários.

A situação é um pouco diferente da do Real Madrid. Este tem como karma confiar no estrelismo dos seus jogadores. O Barça, na estrela do seu time e do seu futebol. Mas para ambos (como acabou se tornando o caso da seleção alemã, deslumbrada com seu surpreendente jogo) a vitória seria algo "natural". Não se prepararam para a adversidade.

Lembro de, depois da entrevista do Abel Braga, lá em 2006, ter assistido a uma entrevista do técnico do Barcelona. Este falou, vagamente, sobre a equipe adversária (o Inter), que era um time isso, um time aquilo, mas sem envolvimento real. Em resumo, o Inter ganhou porque se preparou para enfrentar aquele Barça, naquele jogo, naquele momento. O Barcelona ia "ganhar mais uma".

Como aconteceu contra o Chelsea, agora. Vai ver até que os jogadores do Chelsea viram o video do jogo do Inter, cujos jogadores tinham visto o video do jogo do Chelsea... e assim por diante.

Para não dizer que não falei de espinhos, na última vez em que o Inter disputou o mundial interclubes, depois de sagrar-se bi na Libertadores, cometeu erros análogos aos do Barça e do Real Madrid juntos. Jogou contra o Mazembe africano com a cabeça já na Inter de Milão. Resultado: foi surpreendido e batido pela velocidade dos africanos – em contra-ataques fulminantes.

A história do Barcelona e do Real Madrid, agora, parece que vem de uma tragédia grega: excesso de confiança, hybris, cabeça nas alturas, quanto mais nas alturas, maior a queda. Só que dessa vez a tragédia grega aconteceu na Espanha.

Publicado em 23/04/2012

Na França, Sarkozy quer ganhar segundo turno 'no gogó'



Por Flavio Aguiar

Cartaz da campanha eleitoral de François Hollande, adversário de Sarkozy nas eleições presidenciais francesas (Foto: Flávio Aguiar/RBA)

Em desespero de causa, o presidente francês, Nicolas Sarkozy,  decidiu apostar no estilo de sua performance, de irrequieto pop star, contra o estilo mais comedido de seu adversário no segundo turno francês, François Hollande< em 6 de maio.

Propôs a multiplicação dos debates, advogando três em duas semanas. Hollande reagiu dentro de sua ponderação habitual. Disse não ver razões para mudar as regras do jogo agora. No primeiro turno, Sarkozy apostou tudo em chegar em primeiro lugar, mesmo que fosse por juma pequena margem. Não deu certo, e por duas razões principais.

A primeira é que uma parte dos eleitores da esquerda, de Jean-Luc Mélenchon, preferiram votar direto em Hollande, no primeiro turno, exatamente para bloquear o esforço de Sarkozy. A segunda é que uma parte dos eleitores potenciais de Sarkozy preferiram votar em Marine Le Pen, da extrema-direita.

As sucessivas trocas de posição de Sarkozy, querendo colher votos em todos os arraiais, afugentou uma parte da direita tradicional francesa, que preferiu a pregação nacionalista mais difusa de Le Pen, que resistiu inclusive à submissão da França à Alemanha na questão do euro (submissão intragável para uma parte da direita burguesa ou pequeno-burguesa), ao foco limitado anti-imigrante do atual presidente.

É verdade que este tentou mobiliar o velho nacionalismo gaulês ao final da campanha, recusando (tarde demais) o apoio de Angela Merkel, querendo erguer uma nova linha Maginot junto ao Reno. Mas não deu certo: seus excessivos sorrisos e apertos de mãos com a chanceler germânica o condenaram.

Num primeiro momento, Marine Le Pen demonstrou estar investindo mais em disputar a liderança da direita com Sarkozy do que em formar com este uma aliança anti-esquerda. Isso dá uma certa vantagem a Hollande, que já assegurou o apoio de Mélenchon e da candidata dos Verdes (quase 3%).

Potencialmente, uma parte dos eleitores de Le Pen (que venceu em regiões de alto desemprego e regressão econômica) pode até votar em Hollande, para continuar seu protesto contra a crise e sua gestão recessiva. Uma parte considerável dos eleitores de François Bayrou (9%), de centro-direita, prometia o voto em Hollande, pela mesma razão e também por não acreditar mais na agitação constante mas constantemente vazia do presidente franês.

No primeiro turno François Hollande também apostou no gogó, mas de um modo diverso. 70 mil voluntários percorreram 3,5 milhões de lares "puxando" o voto dos indecisos ou dos que pretendiam se abster. Isso pode ter ajudado, além da politização natural dessa eleição, a diminuir a abstenção. Esperava-se 25%, mas o não comparecimento caiu para 19%.

Um feito – e pontos para – o gogó socialista.

 

Publicado em 20/04/2012

O humor bipolar do capitalismo europeu.



Por Flavio Aguiar

Euforia e depressão: os sintomas do humor bipolar são...

Essa paródia do famoso e macunaímico dito brasileiro (muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são) ilustra a auto-visão (com alta e baixa estimas misturadas) dos 'pundits' (em inglês; traduzindo literalmente, 'os que exibem a sua sabedoria') europeus em torno do seu capitalismo. Esse termo foi consagrado pelo economista e premio Nobel de economia Paul Krugman em referência aos comentaristas ortodoxos da situação econômica mundial.

Neste fim de semana que se inicia essa estrutura bipolar recebeu reforço considerável: três grandes institutos de pesquisa alemães (de Munique, Halle e Kiel), reunidos em "think tank", prepararam relatório, cujan divulgação oficial será feita na próxima quinta, anunciando um futuro róseo para a economia alemã em meio à débâcle da Europa como um todo. Prevê o relatório um aumento no PIB alemão de 0,9% em 2012 e 2% em 2013, com mais 500 mil empregos neste ano e 300 mil no próximo. Além disso, a relação dívida pública/PIB, hoje em torno de 83,5%, cairia em 0,2% no mesmo período, devido a maior arrecadação de impostos com o aquecimento econômico.

Essa previsão é significativamente mais otimista que a do FMI: 0,6% neste ano e 1,5% de crescimento no próximo.

Essas previsões vêm alimentando uma relativa euforia do que já chamei "confiança nas virtudes teologais do capitalismo alemão". Essas virtudes teologais (da ideologia neo-liberal, na verdade, a partir dos discípulos do economista austríaco von Hayek) fizeram com que a Alemanha, exemplo do 'espírito do Norte', aplicassem as reformas duras mas necessárias para disciplinar a sua casa: congelamento de salários, cortes nos investimentos públicos, e nas políticas sociais, diminuição do seguro desemprego, aumento da idade para a aposentadoria e redução das pensões. Ao contrário, os países do 'perdulário Sul' da Europa não as aplicaram a tempo, e hoje, depois da bancarrota, estão tendo que aplicá-las a ferro e fogo.

Com tal visão apregoada na mídia - dentro e fora da Alemanha - (euforia para o Norte, depressão para o Sul) se atribui um verniz moral à crise européia, um verniz de tradição luterana, quiçá calvinista, e interpretação weberiana: trabalha, poupa, não ostenta, não te entrega ao ócio, e serás recompensado, nesta e na outra vida. Nada contra tais virtudes, mas sim contra a sua manipulação ideológica, que termina por mascarar a natureza multifacetada da crise, que passa a ser atribuída apenas às improbidades administrativas do Sul.

Essa manipulação ajuda a ocultar a parte das raízes da crise que que atinge a União Européia e a Zona do Euro, em particular, que está presa à desregulamentação do sistema fincaneiro. A chamada crise das dívidas públicas é apenas a fachada - ou a ponta do iceberg - de uma crise do sistema financeiro como um todo. Se países tomaram emprestado o que não podiam, bancos emprestaram o que não deviam, e tornaram-se ameaçados pela inadimplência de seus próprios devedores. A via da "austeridade", por si só considerada e aplicada unilateralmente, só tem aprofundado a crise dos que estão no fundo da crise pela recessão que impõe. A economia alemã se beneficia disso porque a competitividade dos outros países foi para o brejo, e como os investidores em euro estão na contingência de aplicar seus recursos nessa moeda, que está desvalorizada perante as outras, eles terminam por buscar o navio que lhes parece mais seguro. A Alemanha paga relativamente pouco para rolar suas dívidas públicas, enquanto os países adernados continuam pagando juros altíssimos.

O sistema financeiro, agora, está se reestruturando, às custas de bilhões (mais exatamente, um trilhão) de euros repassados pelo Banco Central Europeu sob diversas formas, que vão desde empréstimos a juros baixíssimos a compra de letras dos países endividados para que estes possam pagar os compromissos vincendos. A esse trilhão de euros vêm se juntar os quase 500 bilhões de dólares que os países do G20 acabam de garantir ao fundo de proteção da moeda européia, via FMI (com a promessa de que o sistema de voto no organismo internacional vai mudar para melhor).

Nessa sua reestruturação, o sistema financeiro europeu está reestrutrando os estados e o alcance da cidadania, podando os poderes dos primeiros e a efeitvidade da segunda, além de comprometer a democracia pela alienação relativa das populações concernidas já nào direi do centro, mas até mesmo da periferia das decisões. Entregue a seu apetite, pretende transformar o FMI numa espécie de Agência para o Financiamento do Atlântico Norte, parafraseando observação de Paulo Nogueira Batista, representante do Brasil e de mais 8 países latino-americanos no Conselho do FMI.

O ideal desse processo será o redesenho do estado do bem estar social europeu como estado do bem estar social dos bancos e da banca financeira como um todo. E também continuar condicionando qualquer recuperação financeira do continente ao privilégio da manutenção da banca financeira.

Num estudo interessante de um grupo da Universidade de Manchester, chamado "Deep Stall", ele sugere comparar a presente situação à do vôo de um avião. Neste, todos - passageiros, pilotos, comissários, a companhia aérea, o pessoal das torres de comando - estão comprometidos em manter o avião no ar. Na situação da crise financeira, não. O sistema financeiro - que põe combustível no tanque do "aparelho" - não está comprometido com o vôo. Se compromisso primeiro é manter lucrativo para si mesmo o preço do combustível, que ele injeta no tanque do aparelho para permitir seu vôo. Se aquele preço não lhe for conveniente, ele deixa o avião cair - desde que obtenha outro aparelho que compre seu "produto" - ou que o estado a que o avião pertence lhe dê cobertura para não ter prejuízo em qualquer hipótese - inclusive a da queda.

Continuando nas paráfrases criativas e livres, poderíamos imitar um personagem do "Alice no País das Maravilhas" (o Humpty-Dumpty), dizendo que o problema não é o de que as palavras possam ter vários significados (por exemplo, "austeridade", "euro", "crise", etc.), mas sim saber quem manda nelas.

Entretanto, cresce, mesmo entre economistas ortodoxos, a certeza de que, se nada for feito para regular quem manda no preço do combustível, tudo - não só os aviões em vôo - vai pelos ares, mais cedo ou mais tarde. Inclusive quem agora, aparentemente, voa em céu de brigadeiro, como a aeronave alemã.

 

Publicado em 18/04/2012

Julgamento de terrorista norueguês atinge ponto crítico



Por Flavio Aguiar

Assassino confesso, Breivik ajeita a gravata no tribunal: cultura de extrema-direita por trás do julgamento em Oslo (©Foto: Lise Aserud/Reuters)

O julgamento em Oslo do terrorista norueguês Anders Behring Breivik, que em julho do ano passado matou 77 pessoas, entre elas 69 num acampamento da juventude, atingiu um ponto crítico. A promotoria está explorando as idéias inspiradoras de Breivik. Ele alega que não se inspira nos nazistas do passado, mas sim nos "nacionalistas sérvios" que foram bombardeados pela OTAN na guerra da ex-Iugoslávia.

Essa exploração será fundamental para determinar um dos pontos cruciais do julgamento, que é o de considerar o acusado (e réu confesso) insano ou não. Até o momento houve dois laudos contraditórios, o primeiro dizendo que ele era insano e irresponsável por seu atos, não podendo, portanto, ir a julgamento. Já o segundo, por uma equipe diversa, afirmou sua sanidade e que ele podia sim ser responsabilizado por seus atos.

Breivik já declarou que não reconhece a autoridade do tribunal nem o processo contra ele, alegando que não cometeu crime algum, pois agiu em legítima defesa e do seu país, ameaçado pela política multicultural do governo. Também não admite que matou inocentes, dizendo, entre outras coisas, que só matou pessoas com mais de 14 anos. E diz que só se arrepende por não ter morto mais gente. Tudo isso dito num tom tranqüilo e com um ar sorridente, de quem está satisfeito por ter os holofotes sobre si.

É difícil dizer o que predomina nas suas declarações, se um exibicionismo vulgar ou se um narcisismo assassino - ou ambos. Fica evidente que ele está tentando usar o julgamento (que, em parte, está sendo televisionado) como uma tribuna para suas idéias. O mais assustador é que elas têm sim, alguma acolhida, ainda que muda e disfarçada.

A discussão também tem girado em torno de uma suposta organização que ele teria criado com mais três pessoas, em Londres, chamada de "Os Cavaleiros Templários". A investigação e o interrogatório da promotoria visam estabelecer se isso foi algo real ou se trata de uma fantasia do acusado, o que pode também ser decisivo para o pronunciamento sobre sua (in)sanidade mental.

O curioso é que, pela lei norueguesa, se ele for delcarado insano, ficará automaticamente detido pelo resto da vida. Mas se for delcarado são e condenado, receberá uma sentença no máximo de 21 anos, depois dos quais seu caso terá de ser reavaliado periodicamente. Ele poderia, em tese, até ser solto.

Um outro aspecto que está sendo julgado em Oslo - no bastidor do tribunal, é claro - é o da insanidade das idéias defendidas pelo acusado - que, no fundo, são apenas uma radicalização de idéias de extrema-direita correntes hoje em dia em muitos países da Europa. É claro que sua atitude foi condenada inclusive por várias organizações de extrema-direita. Mas não se pode evitar o pensamento de que elas são corresponsáveis, através de sua pregação intolerante, pelo caldo de cultura em que Anders Breivik - insano ou não - vicejou.

Publicado em 16/04/2012

Alemanha: incesto é crime?



Por Flavio Aguiar

O caso do casal Patrick e Susan Stübing e de seus quatro filhos vem sensibilizando a opinião pública alemã e a europeia, além de causar polêmica.

Ocorre que Patrick e Susan são irmãos biológicos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Entretanto, Patrick foi criado longe da família, por pais adotivos, por ter sofrido tentativa de abuso sexual por parte de seu pai biológico.

Já adulto, procurou sua família original, em 2000. Reencontrou-a, e depois da morte de sua mãe biológica, manifestou-se a paixão amorosa pela irmã. Não houve violência nem pressão: a irmã consentiu no relacionamento, e dele nasceram quatro filhos.

Como o Código Civil considera uma relação descrita como incestuosa um crime, Patrick (só ele) foi condenado à prisão, e os filhos foram afastados dos pais, vivendo em instituições públicas ou em famílias adotivas. Os dois – com apoio de advogados e também de políticos – vêm buscando uma reforma da lei que descriminalize o incesto, mas até agora sem sucesso. O caso foi levado à Corte Europeia, em Estrasburgo, que limitou-se a declarar na quinta-feira, 12 de abril, que a lei alemã não contrariava a Constituição da UE.

Na Alemanha, nasceu uma polêmica na mídia. As posições dividiram-se em três grandes blocos. O primeiro, mais conservador, ergueu-se em defesa da lei, alegando que a descriminalização do incesto abalaria a instituição familiar e teria conseqüências genéticas imprevisíveis. Como argumento, citam que dois dos filhos do casal têm problemas mentais.

O segundo bloco diz que o incesto é um problema sim, mas que deveria ser assunto para tratamento terapêutico, em vez de criminal – defendem que se dê apoio psicológico às famílias envolvidas, não que se tente punir ou "curar" seus praticantes – sendo, portanto, favorável à modificação da lei.

O terceiro prega a simples abolição dessa lei, apoiando-se na idéia do direito à privacidade, à livre escolha de comportamento sexual, desde que haja mútuo consentimento e não haja recurso a qualquer forma de violência ou pressão. Seus defensores citam que o incesto não é considerado crime numa série de países europeus e fora da Europa, inclusive no Brasil.

A polêmica abordou inclusive a consideração de que essa lei – velha de 500 anos – seria agora uma espécie de sobrevivência das práticas de eugenia durante o período nazista, tema particularmente sensível no país. E que, se seus princípios eugenistas fossem aplicados à risca, pessoas com qualquer deficiência, além de mulheres idosas, deveriam também ser proibidas de ter filhos.

Sobre os aspectos culturais da proibição do incesto, também há alegações de parte a parte, uns citando até estudos de Lévi-Strauss dizendo que a ;proibição do incesto está ligada à constituição do ambiente civilizado, outros lembrando que Cleópatra casou com dois irmãos antes de se apaixonar por César e Marco Antonio, além de outros casos complicados.

Até o momento, uma coisa é certa: a aplicação da lei, supostamente em defesa da família, conseguiu apenas, nesse caso, desestruturar uma.

Publicado em 11/04/2012

Europa: saídas criativas e/ou suicidas para a crise...



Por Flavio Aguiar

Espanha questiona se plantar Cannabis pode ser "salvação da lavoura" para a crise financeira (CC/M. Martin Vicente/Flickr)

E la nave va. Ou melhor, não vai: fica.

Depois de um breve intermezzo graças ao trilhão de euros que o Banco Central Europeu injetou no sistema bancário e financeiro do continente, a crise bateu às portas de novo, se é que saiu um dia. As letras espanholas estão custando bem mais caro do que antes para serem renovadas (6% para letras de dez anos, sendo que 7% é considerado o limite vermelho). Na Itália cresce a oposição ao plano de "austeridade" de Mario Monti enquanto sua margem de manobra diminui. Greves sacodem Portugal, Grécia, Espanha, França e arredores – neste último país as chances de Nicolas Sarkozy vencer a eleição permanecem remotas, enquanto na Grécia se anunciam eleições para maio com um resultado incerto.

Nos últimos dias um frenesi de vendas se abateu sobre as bolsas européias, todos tentando se desfazer das letras espanholas e italianas, por acreditarem que um "bailout" – a ajuda financeira que sufoca as economias – será inevitável, sendo uma questão de tempo.

O governo de Mariano Rajoy anuncia medidas que aprofundarão a recessão, num país que já tem 24% de desemprego entre a população economicamente ativa e quase 50% entre os jovens até 25 anos. É a saída suicida em operação. Um dado preocupante: na França, a candidata Marine Le Pen, de extrema direita, lidera entre os jovens de 18 a 24 anos.

Mas a criatividade humana não tem limites. Na Espanha, o prefeito da cidade catalã de Rasquera, com 900 habitantes, propôs utilizar as terras do município para o plantio de cannabis, a popular maconha, ao lado das tradicionais azeitonas e da criação de cabras. O plano é ambicioso: produziria 40 novos postos de trabalho e renderia aos cofres municipais a bagatela de 1,3 milhão de euros em 2 anos. A dívida municipal seria simplesmente zerada nesse período, permitindo novos investimentos.

Entretanto o plano ainda não vingou. Realizou-se um plebiscito, e o prefeito declarou que só o levaria adiante com 75% de aprovação. Deram 56% de "sim" ao ousado plano. Criou-se um impasse: o plano foi aprovado, mas não obteve o desejado "quorum". O prefeito vai repensar. Enquanto isso, as autoridades catalãs, judiciárias e a polícia se mobilizaram contra o plano, alegando sua ilegalidade. Ocorre que na Espanha não é ilegal plantar cannabis para consumo privado, mesmo coletivo. Entretanto o que assusta no caso do plano de Rasquera é seu tamanho, inédito na história do país – pelo menos em se tratando de plantios legais.

Outra saída "criativa" – mas que desta vez beira também o suicídio – foi anunciada na Grécia, pelo jornal Proto Thema. Diz o jornal que o governo grego passará a "alugar" serviços e recursos de sua polícia, como meio de obter verbas de manutenção e investimento, para empresas e pessoas físicas privadas. Um helicóptero custará 1.500 euros a hora, enquanto uma lancha de patrulha valerá 200 (e a Grécia tem uma infinidade de ilhas tradicionalmente repletas de turistas). Um policial custará 30 euros a hora; 40, se com ele for um carro.

Não se sabe ainda a dimensão da proposta. O pior dela, em todo caso, é que ela pode pegar –inclusive em nossa terra – onde não faltarão privatistas que a defendam.

Publicado em 10/04/2012

Günter Grass: o poema que abalou a Alemanha (e Israel).



Por Flavio Aguiar

Este é o poema que abalou a Alemanha e Israel, levando o governo deste país a declarar o escritor alemão e prêmio Nobel de literatura Gunter Grass persona non grata, provocando uma polêmica que promete nào ter fim. Em quatro versões (ao final, em português):

 

 

Gunter Grass, Premio Nobel de Literatura 1999. En su poema “Lo que hay que decir”, publicado por el diario alemán “Süddeutsche Zeitung”, Grass denuncia el programa atómico de Israel, las amenazas sionistas de bombardear Irán y la venta por Alemania a Israel de submarinos atómicos.

 
Lo que hay que decir
Gunter Grass
 
Por qué guardo silencio, demasiado tiempo,
sobre lo que es manifiesto y se utilizaba
en juegos de guerra a cuyo final, supervivientes,
solo acabamos como notas a pie de página.
 
Es el supuesto derecho a un ataque preventivo
el que podría exterminar al pueblo iraní,
subyugado y conducido al júbilo organizado
por un fanfarrón,
porque en su jurisdicción se sospecha
la fabricación de una bomba atómica.
 
Pero ¿por qué me prohíbo nombrar
a ese otro país en el que
desde hace años –aunque mantenido en secreto–
se dispone de un creciente potencial nuclear,
fuera de control, ya que
es inaccesible a toda inspección?
 
El silencio general sobre ese hecho,
al que se ha sometido mi propio silencio,
lo siento como gravosa mentira
y coacción que amenaza castigar
en cuanto no se respeta;
“antisemitismo” se llama la condena.
 
Ahora, sin embargo, porque mi país,
alcanzado y llamado a capítulo una y otra vez
por crímenes muy propios
sin parangón alguno,
de nuevo y de forma rutinaria, aunque
enseguida calificada de reparación,
va a entregar a Israel otro submarino cuya especialidad
es dirigir ojivas aniquiladoras
hacia donde no se ha probado
la existencia de una sola bomba,
aunque se quiera aportar como prueba el temor...
digo lo que hay que decir.
 
¿Por qué he callado hasta ahora?
Porque creía que mi origen,
marcado por un estigma imborrable,
me prohibía atribuir ese hecho, como evidente,
al país de Israel, al que estoy unido
y quiero seguir estándolo.
 
¿Por qué solo ahora lo digo,
envejecido y con mi última tinta:
Israel, potencia nuclear, pone en peligro
una paz mundial ya de por sí quebradiza?
 
Porque hay que decir
lo que mañana podría ser demasiado tarde,
y porque –suficientemente incriminados como alemanes–
podríamos ser cómplices de un crimen
que es previsible, por lo que nuestra parte de culpa
no podría extinguirse
con ninguna de las excusas habituales.
 
Lo admito: no sigo callando
porque estoy harto
de la hipocresía de Occidente; cabe esperar además
que muchos se liberen del silencio, exijan
al causante de ese peligro visible que renuncie
al uso de la fuerza e insistan también
en que los gobiernos de ambos países permitan
el control permanente y sin trabas
por una instancia internacional
del potencial nuclear israelí
y de las instalaciones nucleares iraníes.
 
Sólo así podremos ayudar a todos, israelíes y palestinos,
más aún, a todos los seres humanos que en esa región
ocupada por la demencia
viven enemistados codo con codo,
odiándose mutuamente,
y en definitiva también ayudarnos.
 
Fuente: El País, 4 de abril de 2012
Traducción de Miguel Sáenz


What Must Be Said
Gunter Grass
 
Why do I stay silent, conceal for too long
What clearly is and has been
Practiced in war games, at the end of which we as survivors
Are at best footnotes.
 
It is the alleged right to first strike
That could annihilate the Iranian people--
Enslaved by a loud-mouth
And guided to organized jubilation--
Because in their territory,
It is suspected, a bomb is being built.
 
Yet why do I forbid myself
To name that other country
In which, for years, even if secretly,
There has been a growing nuclear potential at hand
But beyond control, because no inspection is available?
 
The universal concealment of these facts,
To which my silence subordinated itself,
I sense as incriminating lies
And force--the punishment is promised
As soon as it is ignored;
The verdict of "anti-Semitism" is familiar.
 
Now, though, because in my country
Which from time to time has sought and confronted
Its very own crime
That is without compare
In turn on a purely commercial basis, if also
With nimble lips calling it a reparation, declares
A further U-boat should be delivered to Israel,
Whose specialty consists of guiding all-destroying warheads to where the existence
Of a single atomic bomb is unproven,
But as a fear wishes to be conclusive,
I say what must be said.
 
Why though have I stayed silent until now?
Because I thought my origin,
Afflicted by a stain never to be expunged
Kept the state of Israel, to which I am bound
And wish to stay bound,
From accepting this fact as pronounced truth.
 
Why do I say only now,
Aged and with my last ink,
That the nuclear power of Israel endangers
The already fragile world peace?
Because it must be said
What even tomorrow may be too late to say;
Also because we--as Germans burdened enough--
Could be the suppliers to a crime
That is foreseeable, wherefore our complicity
Could not be redeemed through any of the usual excuses.
 
And granted: I am silent no longer
Because I am tired of the hypocrisy
Of the West; in addition to which it is to be hoped
That this will free many from silence,
That they may prompt the perpetrator of the recognized danger
To renounce violence and
Likewise insist
That an unhindered and permanent control
Of the Israeli nuclear potential
And the Iranian nuclear sites
Be authorized through an international agency
By the governments of both countries.
 
Only this way are all, the Israelis and Palestinians,
Even more, all people, that in this
Region occupied by mania
Live cheek by jowl among enemies,
And also us, to be helped.



Was gesagt werden muss

 Gunter Grass



Warum schweige ich, verschweige zu lange,
was offensichtlich ist und in Planspielen
geübt wurde, an deren Ende als Überlebende
wir allenfalls Fußnoten sind.
 
Es ist das behauptete Recht auf den Erstschlag,
der das von einem Maulhelden unterjochte
und zum organisierten Jubel gelenkte
iranische Volk auslöschen könnte,
weil in dessen Machtbereich der Bau
einer Atombombe vermutet wird.
Doch warum untersage ich mir,
jenes andere Land beim Namen zu nennen,
in dem seit Jahren - wenn auch geheimgehalten -
ein wachsend nukleares Potential verfügbar
aber außer Kontrolle, weil keiner Prüfung
zugänglich ist?
Das allgemeine Verschweigen dieses Tatbestandes,
dem sich mein Schweigen untergeordnet hat,
empfinde ich als belastende Lüge
und Zwang, der Strafe in Aussicht stellt,
sobald er mißachtet wird;
das Verdikt "Antisemitismus" ist geläufig.
Jetzt aber, weil aus meinem Land,
das von ureigenen Verbrechen,
die ohne Vergleich sind,
Mal um Mal eingeholt und zur Rede gestellt wird,
wiederum und rein geschäftsmäßig, wenn auch
mit flinker Lippe als Wiedergutmachung deklariert,
ein weiteres U-Boot nach Israel
geliefert werden soll, dessen Spezialität
darin besteht, allesvernichtende Sprengköpfe
dorthin lenken zu können, wo die Existenz
einer einzigen Atombombe unbewiesen ist,
doch als Befürchtung von Beweiskraft sein will,
sage ich, was gesagt werden muß.
 
Warum aber schwieg ich bislang?
Weil ich meinte, meine Herkunft,
die von nie zu tilgendem Makel behaftet ist,
verbiete, diese Tatsache als ausgesprochene Wahrheit
dem Land Israel, dem ich verbunden bin
und bleiben will, zuzumuten.
 
Warum sage ich jetzt erst,
gealtert und mit letzter Tinte:
Die Atommacht Israel gefährdet
den ohnehin brüchigen Weltfrieden?
Weil gesagt werden muß,
was schon morgen zu spät sein könnte;
auch weil wir - als Deutsche belastet genug -
Zulieferer eines Verbrechens werden könnten,
das voraussehbar ist, weshalb unsere Mitschuld
durch keine der üblichen Ausreden
zu tilgen wäre.
 
Und zugegeben: ich schweige nicht mehr,
weil ich der Heuchelei des Westens
überdrüssig bin; zudem ist zu hoffen,
es mögen sich viele vom Schweigen befreien,
den Verursacher der erkennbaren Gefahr
zum Verzicht auf Gewalt auffordern und
gleichfalls darauf bestehen,
daß eine unbehinderte und permanente Kontrolle
des israelischen atomaren Potentials
und der iranischen Atomanlagen
durch eine internationale Instanz
von den Regierungen beider Länder zugelassen wird.
 
Nur so ist allen, den Israelis und Palästinensern,
mehr noch, allen Menschen, die in dieser
vom Wahn okkupierten Region
dicht bei dicht verfeindet leben
und letztlich auch uns zu helfen.
 
Fuente: Süddeutsche Zeitung, 4 de abril de 2012

 

 

 

Publicado em 02/04/2012

Angela Merkel: engolindo o xuxu...



Por Flavio Aguiar

François Hollande, o candidato socialista à presidência da França, podia bem ser apelidado de "picolé de xuxu", embora de uma variante diversa da do governador de S. Paulo, Geraldo Alckmin.

É que Hollande tem fama de tímido, timorato mesmo em matéria de decisões, apagado em matéria de carisma. Se o segundo turno da eleição francesa fosse hoje, no entanto, ele seria eleito, batendo o atual presidente Nicolás Sarkozy por cerca de 10 pontos percentuais, segundo todos os institutos de pesquisa.

É que uma boa parte dos eleitores rejeita Sarkozy, seu estilo espalhafatoso, sua verve meio falastrã, de tudo querer fazer e dizer por conta própria. O eleitorado também olha com muito maus olhos os escândalos em que ele se envolveu, as medidas que tomou para, como muitos de seus colegas europeus, pulverizar direitos dos trabalhadores, aposentados e investimentos sociais.

Por seu turno, Hollande deu uma tímida guinada à esquerda, anunciando desejar controlar mais de perto o mundo financeiro e rever o pacto fiscal europeu que vai levando o poder aquisitivo de várias populações à ruína.

Por esse motivo, a chanceler Angela Merkel, campeã desse pacto, decidiu tempos atrás promover uma rejeição continental ao candidato socialista. Convenceu vários líderes conservadores a não recebê-lo, e ela mesma deu o exemplo, rejeitando um pedido de Hollande para uma entrevista tempos atrás. O primeiro ministro inglês, David Cameron, e o espanhol, Mariano Rajoy, aderiram a esse pacto de rejeição. Isso não impediu que Hollande fosse recebido, por exemplo, pelo presidente italiano.

Entretanto as algumas pedras se puseram no caminho de Merkel. A primeira delas foi o próprio Sarkozy. O apoio explícito de Merkel não lhe rendeu o crescimento desejado em montante de votos. por isso, enquanto apelava para o nacionalismo xenófobo francês para colher mais votos à direita, ele passou a rejeitar o apoio da chanceler, ou pelo menos a po-lo na geladeira.

Agora a segunda pedra veio das pesquisas: se Sarkozy cresceu um pouco nas intenções de voto no primeiro turno (a ser realizado em 22 de abril), continua perdendo fragorosamente no segundo (em 6 de maio). No atual quadro, a eleição de Hollande está deixando de ser uma possibilidade para ser uma probabilidade.

Por baixo do pano, segundo informações divulgadas na mídia (Der Spiegel), arautos da chanceler estão já fazendo contatos com emissários de Hollande. Ainda haverá muita milhagem a percorrer, porque um mês é muito tempo, e Sarkozy é um lutador obstinado. Mas a necessidade, se faz sapo pular, faz também palatáveis os xuxus. De todo e qualquer modo, o governo alemão terá de chegar a uma concertação com o da França, com Sarkozy (que tampouco é fácil) reeleito ou Hollande estreando seu mandato.

Mas o xuxu não está para ser engolido apenas pela direita. Este é um desafio também para a esquerda, aglutinada em torno da candidatura de Jean-Luc Mélenchon. Este comprometeu-se com um programa mais ousado, e de 6% chegou a quase 15% das intenções de voto. Mas está longe de ameraçar um segundo turno entre Sarkozy e Hollande.

Como os demais candidatos de direita, à exceção da empedernida Marine Le Pen, estão abrindo mão de suas candidaturas em favor da de Sarkozy, a atitude de Mélenchon num segundo turno poderá ser decisiva.  Uma parte de seu eleitorado certamente preferirá votar nulo. Sem uma disposição clara sua de apoiar Hollande, essa parte poderá inchar.

Isso sim poderia ameaçar a candidatura de Hollande, favorecendo o incansável presidente francês.

Publicado em 29/03/2012

Os Brics e seus desafios



Por Flavio Aguiar

A reunião dos Brics na Índia ressaltou seus desafios internos e externos.

O maior desafio interno é o de atingir, sem solavancos maiores, um patamar de entendimento que permita a construção de um banco de desenvolvimento comum. Isso é uma necessidade –sobretudo para Índia, África do Sul e até a Rússia. Para a China, que faz um papel de coringa maior em várias frentes, essa seria mais uma frente para jogar com seus trilhões de reservas em qualquer moeda. Para o Brasil, que tem o BNDES – um banco maior que o Banco Mundial atrás de si, seria uma nova frente de investimento internacional. Seria muito eficaz se aliada à prática, que parece avançar, de se comerciar em moedas outras que não o dólar. Mas isso também é um desafio, pois o desequilíbrio interno dos Brics é muito grande: talvez a sigla devesse ser escrita briCs, se me entendem.

Mas há os desafios externos. O mais imediato é implementar a sua reivindicação de que a estrutura do FMI seja reformulada, sem falar em outros mecanismos e espaços internacionais. A proposta atualmente em debate elevaria o poder de voto (o poder de poder, simplesmente falando) a 16% das cotas do Fundo – igual a dos Estados Unidos. Para quem representa hoje um pouco mais do que um quarto da economia mundial, e em ascensão, é pouco. Mas é muito, dados os seus atuais 10% das cotas de voto. E deve-se levar em conta que o FMI é uma instituição extremamente conservadora, embora a atual administração, de Christine Lagarde, pareça dar continuidade aos planos de reforma do infeliz Dominique Strauss-Kahn.

Mas o maior desafio é o da credibilidade. Não faltam coveiros da ideia de que um parceiro internacional à altura da dupla EUA - União Europeia possa se constituir. Apontam para a diversidade de interesses (que é real), a diferença de estruturas políticas (que é real), a diferença na situação de "global players" - entre nações que são, três, membros do clube nuclear e envoltas em atritos bélicos externos e/ou internos, uma, sem vocação militar, e mais uma, sem vocação militar, embora nos tempos apartheid tenha participado de uma aventura nuclear conjunta com Israel, que mais parece, no grupo, uma subsidiária da China.

Sim, como apontei, todas as diferenças são reais. Porém, os analistas que se querem coveiros daquela ideia esquecem, sistematicamente, que os Brics agem na periferia - feliz e infelizmente - de um sistema ocidental que naufragou na sua própria crise financeira e - mais significativo - na inadimplência de seu ideário, de sua imaginação, para enfrentá-la.

Tem razão a presidenta Dilma Rousseff quando critica os países do bloco central do ocidente pelo seu comportamento – tanto o que levou à crise, pelaas várias irresponsabilidades de governos e de agentes financeiros – como pelas saídas propostas – derramando dinheiro na burra dos burros – os bancos que se atolaram – e ao mesmo tempo esmagando o poder aquisitivo e o de participação democrática de seus trabalhadores e população em geral. Tais atitudes vêm ameaçando o mundo inteiro com uma recessão que pode levar a regressões políticas de grande monta, como atesta o contínuo aceno de soluções de extrema direita na Europa.

E há ainda o desafio maior de promoverem-se os Brics como porta-vozes de um mundo terceiro que está sôfrego por representatividade – sem voz no cassino em que, com a conivência dos governantes europeus e dos EUA, as finanças transformaram o universo do investimento econômico. É o desafio de não se constituírem apenas como os valetes de uma nova elite que continuará a cortejar os reis e rainhas do baralho.

 

Publicado em 24/02/2012

Brasil, Brasil: férias...



Por Flavio Aguiar

Amigas, amigos:

Parto em férias para o Brasil. Volto em 28 de março. Ou a qualquer momento, em edição extraordinária.

Que acontecimentos?

Por exemplo:

1) A Rússia recria a União Soviética.

2) Benyamin Netanyahu declara paz com a Palestina.

3) Bashar Al-Assad chama a oposição para conversar.

4) A União Europeia perdoa a dívida da Grécia.

5) Os candidatos republicanos admitem descriminalizar o aborto, o casamento gay etc. ...

6) Enfim, escolha seu acontecimento extraordinário e me mande uma sugestão.

Publicado em 22/02/2012

Irã: o alvo de Netanyahu é a Casa Branca



Por Flavio Aguiar

(whitehouse.gov)

Para os falcões israelenses, o alvo de um ataque israelense ao Irã pode ser as instalações nucleares deste país. Mas para o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu, o alvo claro é a Casa Branca, em Washington, nos Estados Unidos.

A retórica tem crescido, de todos os lados dessa faca de muitos gumes. Cada vez fica mais clara a disposição israelense de atacar o Irã. Do lado deste, fica muito clara a disposição do aiatolá Ali Khamenei, patriarca dos aiatolás, de contribuir para os ataques a Israel. Do seu lado, o primeiro ministro Ahmadinejad continua atacando a imagem do Holocausto.

Já nos Estados Unidos, os pré-candidatos republicanos (com a exceção de um deles, mas sem chance, Ron Paul, deixam claro que sustentarão Israel em suas eventuais aventuras belicosas). E isso deixa claro qual é o principal alvo de Netanyahu.

O premiê israelense foi, alguns meses atrás, falar diretamente ao Congresso norte-americano. Ou melhor, foi falar diretamente ao lobby israelense, aos republicanos, e à Fox News, que é o que de mais reacionário existe na mídia norte-americana.

Ninguém pode, de sã consciência, negar a antipatia mútua entre Netanyahu e Barack Obama. Sobre este ainda pesa a proto-acusação de ser um muçulmano disfarçado. Aquele, para este, como ele confessou numa conversa vazada com Sarkozy, é uma "pulga na camisola", como se dizia antigamente.

E o problema, para Netanyahu, é que, se nada de novo acontecer, Obama será reeleito em novembro próximo. Os índices de emprego estão subindo nos EUA, modestamente, mas estão. A opinião pública norte-americana, segundo as últimas pesquisas, mostra-se ou satisfeita com a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão e do Iraque, ou acha que ela deveria ser mais rápida. Enfim, o clima não está para falcões, apesar dos esforços dos republicanos.

Para complicar, o governo de Washington vem dando sinais de que não quer, pelo menos de momento, atacar o Irã. James R. Clapper, um dos diretores da Inteligência norte-americana, em depoimento ao Congresso, deixou claro que na avaliação do governo (e sua) Teerã quer, de momento, dar-se o direito de ter todos os elementos para construir uma arma nuclear, mas que ainda não encetou passos concretos nessa direção.

Portanto, para Netanyahu, não resta outra saída senão a de provocar uma situação - pela retórica ou pelas armas - em que uma retaliação desastrada de Teerã force os Estados Unidos a atacar. Até porque, dizem muitos analistas militares nos EUA, Israel, de momento, não tem poder aéreo suficiente para prejudicar seriamente as instalações nucleares iranianas. Só os EUA têm. Ou a Rússia, mas não é o caso.

Nos Estados Unidos a situação é contraditória. Pesquisas de opinião mostram que se Washington atacasse, teria o apoio da maioria. A mesma que está contente porque as tropas de seu país estão deixando o Iraque e o Afeganistão, e duas guerras que custaram a vida de 6.300 norte-americanos, além de 46 mil feridos e 3 três trilhões de dólares, sem falar nas vítimas locais, que vão às centenas de milhares. Ombudsmen na mídia - do Washington Post e do NY Times - vêm denunciando que seus jornais estão superestimando nas matérias os dados sobre a capacidade militar e nuclear do Irã.

Para completar esse quadro complexo, o próprio governo israelense está dividido, e tem conflitos internos, como o iraniano. Ahmadinejad e Khamenei estão em disputa retórica? Sim. Pois bem, Netanyahu e Ehud Barak também. Este fica oscilando entre falcão e pomba (*). No momento, está pomba, dizendo que as sanções econômicas estão sendo efetivas e que deve-se dar tempo ao tempo.

Ou seja, somando tudo, estamos nas mãos de políticas instáveis, manejadas por políticos instáveis, que podem deflagrar um conflito de proporções inimagináveis por causa de sua necessidade de pendurarem-se ao poder.

*Em tempo: Falcão e Pomba. Esta é uma terminologia que remonta aos tempos dos conflitos entre EUA e Grã-Bretanha por causa da independência daquele. Os falcões eram favoráveis ao conflito aberto, enquanto os pombas, à contemporização. Depois, a teminologia foi reavivada na Guerra Fria, caracterizando os que favoreciam o confronto e os do apaziguamento.

Publicado em 17/02/2012

O telhado de vidro da Alemanha



Por Flavio Aguiar

O caso de Christian Wulff se espalhou, desgastou-se em uma batalha midiática e fez "engasgar" a Alemanha, levando a chanceler Angela Merkel a pedir acordo em torno da sucessão (Foto: © Thomas Peter. Reuters)

Sexta-feira, 17 de fevereiro, às 11 horas da manhã (08:00 em Brasília), a Alemanha engasgou.

O presidente Christian Wulff anunciou num pronunciamento ao vivo na TV sua renúncia ao cargo. A decisão em parte foi surpreendente, em parte, não.

Num movimento sem precedentes na história do país o Ministério Público do estado da Baixa Saxônia, de que Wulff foi primeiro-ministro antes de ser presidente, pediu ao Parlamento Nacional que suspendesse a sua imunidade para investigá-lo e processá-lo por corrupção ativa e passiva.

A denúncia se prende à relação do já ex-presidente com um produtor cinematográfico, David Groenewold, ao tempo em que aquele era chefe de governo do estado. Wulff favorecera a obtenção de empréstimos para financiamento de filmes para seu amigo, e depois Groenewold lhe propiciou uma temporada gratuita num hotel de luxo de sua propriedade. Para complicar, a Promotoria levantou que, depois das férias, quando o caso começou a se avolumar, Wulff pediu ao hotel recibos forjados como se ele mesmo tivesse pago pela estadia. Para ainda maior complicação, Groenewold é acusado de nunca ter realizado os projetos para que obteve financiamento, sob a forma de garantia (como se fosse uma fiança pública) com verbas públicas.

Esse desenlace da história aconteceu depois de uma verdadeira batalha entre Wulff e parte considerável da mídia alemã, sobretudo com o jornal sensacionalista Bild, mas também com a vetusta revista Der Spiegel, em torno do seu comportamento.

Tudo começou ao final de 2011, quando a Bild preparou reportagem sobre um empréstimo de 500 mil euros que Wulff recebeu de um outro amigo para a compra de uma casa, quando era chefe de governo da Baixa Saxônia. Ocorre que, na época, questionado por um deputado estadual do Partido Verde, Wulff negara ter recebido o empréstimo.

Inicialmente, Wulff tentou 1) impedir a publicação da matéria, segundo a direção do Bild; 2) retardar a sua publicação, segundo o ex-presidente.

Ocorre que isto foi feito através de um telefonema ao diretor do jornal, que promovera a carreira política de Wulff, em que este se destemperou e disse cobras e lagartos ao ex-parceiro. Que cobras e lagartos, não se sabe; mas devem ter sido pesados, algo incompatíveis com o linguajar em público de um presidente. Para azar deste, seu destempero foi feito na caixa postal do telefone, ficando gravado. Embora a gravação não tenha sido divulgada (tratava-se de um telefonema privado do ex-presidente), ela ficou pendurada como uma bola de ferro no pescoço de Wulff.

Bild favorecera Wulff, dando tratamento positivo a seu divórcio da primeira esposa para casar-se com a segunda, Bettina. Em se tratando de um político católico, isso poderia ser uma complicação, e as reportagens de Bild sobre a “nova vida familiar” do ex-presidente ajudaram a construir sua nova imagem de pessoa moralmente inatacável. Aparentemente, Wulff, graças a isto, favoreceria Bild com entrevistas e informações exclusivas. Mas depois de ter se tornado presidente, outras publicações concorrentes teriam entrado na preferência de Wulff, o que desagradou os dirigentes de Bild. Diz-se aqui que “quem sobe de elevador com Bild, com Bild há de descer”.  

A partir desse telefonema, que não impediu nem retardou a publicação da denúncia, uma parte da mídia alemã assumiu o caso como uma “ameaça à liberdade de imprensa”, e passou não só a denunciá-la, como a esquadrinhar a vida de Wulff. Der Spiegel, que favorecera Joachim Gauck como candidato à presidência, contra Wulff, passou a ataca-lo regularmente, apontando-o como alguém sem estatura moral para o cargo.

Ele levava uma vida de luxos e freqüentadora de altas rodas sociais da burguesia alemã e européia: isso desagradava o “padrão ético weberiano e protestante (luterano)” que um presidente alemão deveria supostamente seguir. Essa inadequação foi tema de extensa reportagem da Der Spiegel, “Der falsche Präsident”, http://www.spiegel.de/spiegel/print/index-2011-51.html .

Para complicar, Wulff foi se enredando em “declarações esclarecedoras” que nunca esclareciam completamente o caso, e assim foi se desgastando numa batalha midiática. As pesquisas de opinião, que inicialmente o favoreciam, foram progressivamente se voltando contra ele e pondo em dúvida até a sua honestidade pessoal.

Certamente contribuiu para esse desenvolvimento a situação peculiar que a Alemanha vive diante da crise financeira e das dívidas públicas que varre a Europa. Para boa parte da mídia boa parte das pesquisas de opinião, a Alemanha, ao impor a política dos “planos de austeridade” que vão devastando vários países do continente, tornou-se um “exemplo”, uma espécie de “reserva moral” da Europa. Um presidente de vida luxuosa e declarações dúbias algumas, falsas outras (sobre o empréstimo, Wulff, que já o negara, afirmou ainda te-lo recebido da mulher do amigo, o que não era verdade: fora deste mesmo), tornou-se incompatível com esse novo “nacionalismo germânico”, baseado num sentimento misto de  superioridade e ao mesmo tempo dever moral. Para se ter uma medida desse desenvolvimento, vários políticos da CDU estão clamando pela saída (ou expulsão) da Grécia da zona do Euro, talvez da União Européia, alegando a incompetência e a corrupção supostamente vigentes naquele país, depois que o presidente grego, Karolos Papoulias acusou o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, de tratar sua nação com “desprezo”. Vale dizer para esses políticos, depois da renúncia de Wulff: quem tem telhado de vidro...

O desgaste se avolumou, e culminou neste episódio da Promotoria pedir a suspensão de sua imunidade. Na sua renúncia, Wulff declarou que nos últimos dois meses ele e sua esposa tinham sido muito e repetidamente “feridos” pelas denúncias, que ele sempre se comportara “dentro da lei”, embora com erros que reconheceu (como no caso do telefonema), mas que um presidente ameaçado de investigação e processo era incompatível com o efetivo exercício do cargo em nome do bem estar dom país.

Wulff é o segundo presidente consecutivo da Alemanha que renuncia. O primeiro foi Horst Köhler, que renunciou em 2010 depois de declarações consideradas improcedentes sobre a presença militar alemã (que ela serviria aos interesses comerciais do país). Tal repetição fez com que alguns analistas questionassem a manutenção do cargo. Além disso, a renúncia de Wulff é um novo duro golpe para a chanceler Ângela Merkel, cuja coalizão de governo, apesar de sua popularidade pessoal como “condutora da crise”, está combalida, pela falência de seu parceiro FDP, que hoje não ultrapassaria a cláusula de barreira de 5% dos votos para ter assento no Parlamento.

Num pronunciamento logo após a renúncia, Merkel traçou uma linha divisória na políticxa alemã, que pode reverter em mais críticas contra ela. Logo depois da renúncia de Wulff, o primeiro partido a se pronunciar sobre o momento foi a Linke, cujo porta-voz declarou que era imediatamente necessário nesta circunstância pensar num candidato suprapartidário (o Colégio Eleitoral previsto na Constituição tem 30 dias para eleger um novo presidente). Logo após o SPD e o Partido Verde concordaram com a posição da Linke.

No seu pronunciamento, Merkel agradeceu a Wulff e sua esposa pela dedicação, e  disse que iria, primeiro, se reunir com os correligionários FDP e CSU (da Baviera) e depois com os partidos de oposição: o SPD e os Verdes. Omitiu a Linke, que é um partido que tem 76 cadeiras no Bundestag, e não pode ser tapado com nenhuma peneira. A declaração veio agravada pela situação de que a Linke tem várias de suas lideranças, no Bundestag e fora dele, cujas atividades vem sendo investigadas pela Polícia Secreta alemã, e cuja existência tem sido questionada por políticos da CSU e da própria CDU.

Para a sucessão de Wulff, até o momento, vários nomes vêm sendo cogitados. O mais citado – inclusive como suprapartidário,  é o de  Klaus Töpfer, um político da CDU, mas que se notabilizou como membro do Comitê da ONU para o Meio Ambiente e como membro da Comissão de Ética sobre Energia Atômica na Alemanha.

Também são citados os nomes de:

1)      Joachim Gauck, pastor protestante da ex-DDR, considerado um militante anti-comunista, que foi candidato do SPD e dos Verdes, em oposição a Wulff, mas sem o apoio da Linke.

2)      Norbert Lasmmert, presidente do Parlamento Nacional.

3)      Wolfgang Schäuble, atual ministro das Finanças.

4)      Ursula von der Leyen, atual ministra do Trabalho, apontada como uma possível sucessora de Ângela Merkel.

5)      Thomas de Mazière, atual ministro da Defesa.

6)      Katrin Göring-Eckardt, liderança do Partido Verde no Parlamento.

Além das ressonâncias políticas nacionais e internacionais, o caso expõe um “novo poder” da mídia alemã, que descobriu o gosto de provocar o sobe-desce de políticos – coisa que é muito ao gosto de nossa mídia brasileira convencional. Isso também poderá ter conseqüências ainda imprevisíveis no cenário interno da Alemanha.

Ações do documento

Flavio Aguiar

Flávio Aguiar

É colaborador em Berlim. Toda semana traz suas análises nada convencionais sobre o que acontece na Europa e no mundo. Leia mais.

 
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