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Blog do Velho Mundo - Por Flávio Aguiar

por publicado , última modificação 15/05/2013 13:30

Bola de cristal: o mundo em 2030

por Flávio Aguiar, para a RBA publicado 15/05/2013 13:56, última modificação 15/05/2013 17:31

De quatro em quatro anos o National Intelligence Council dos Estados Unidos elabora um relatório sobre “o estado da arte do futuro” a ser entregue ao presidente norte-americano depois de sua posse. O NIC, assim chamado na intimidade (Enaici, em inglês) é um órgão assessor do Director of National Intelligence (DNI), ele mesmo um assessor direto da presidência.

Pois o relatório deste ano, entregue ao presidente Barack Obama em janeiro, agora divulgado na internet, prevê um 2030 nada róseo para os Estados Unidos e seus parceiros.

O relatório é muito pouco assertivo, em geral. Prefere traçar molduras possíveis. Tipo: o que ocorrerá se o Irã desistir de seu programa nuclear? O que ocorrerá se ele não desistir? E assim por diante. Mas em alguns tópicos o relatório é muito assertivo.

1) Haverá um declínio generalizado do poder e da influência dos países do Ocidente (Estados Unidos e seus tradicionais aliados, o que, nesta altura, inclui o Japão) no mundo. Hoje estes países são responsáveis por 56% da atividade econômica mundial. Em 2030, abracarão apenas 25%. Uma queda vertiginosa, representando uma reversão de cinco séculos de tendência histórica, a partir do Renascimento.

2) Apesar de a economia chinesa superar a norte-americana em tamanho, o mundo será mais multipolar, com a formação de blocos continentais, em particular devido à atuação da China, Índia, Brasil e África do Sul. A Rússia é um caso à parte, pois já dispõe, pelo menos, de um ex-bloco regional. Estes blocos disputarão espaço com os Estados Unidos e a União Europeia. O peso e a influência desta declinarão em velocidade maior ainda, pondo em risco, inclusive, sua sobrevivência. A crise europeia, diz o relatório, deverá se estender pelo menos por dez anos.

3) 60% da população mundial estará vivendo em cidades, e a classe média será o maior grupo social do planeta, com 3 bilhões (35%) de pessoas numa população global de 8,4 bilhão (1 bilhão a mais do que a de hoje). Pela primeira vez na história da humanidade, os muito pobres não serão maioria. Na América Latina, o grande desafio continuará, no entanto, a ser o da diminuição das diferenças sociais.

4) Estas duas realidades combinadas determinarão um crescimento exponencial da demanda por educação, tratamento de saúde e também por alimento (35%), água (40%) e energia (50%), o que poderá servir de moldura para novos conflitos. Este cenário é desfavorável para o meio ambiente, mas, neste sentido, a América Latina será melhor poupada do que outras regiões do globo.

5) Haverá um crescimento na formação de “comunidades congregadas” supranacionais, como a “googlelândia”, a “twitterlândia”, a “facebooklândia”.  O poder estatal terá de conviver com estes espaços, além de haver uma repartição de poderes entre diferentes estados de influência em suas vizinhanças: além dos Brics, este será o caso, por exemplo, da Colômbia, Indonésia, Nigéria e Turquia.

Bom, vamos às conclusões laterais depois da leitura de um documento destes:

1) O mundo da nossa direita brasileira é muito pequeno, mesquinho, caduco e disparatado.

2) O Brasil está certo em apostar na multilateralidade da sua diplomacia, e em investir em contatos sul-sul.

3) É preciso acelerar o crescimento econômico latino-americano e a melhor distribuição de sua renda. Muita gente protesta, dizendo que é necessário parar de pensar em crescimento. Mas como não há, no horizonte próximo ou distante, uma perspectiva de substituição do padrão capitalista de produção, e como dentro deste ninguém pretende  abrir mão de nada, a única maneira de satisfazer as populações emergentes e seu crescente “envelhecimento” é fazer o bolo aumentar, como diziam os economistas hegemônicos nos anos 1970, mas dividindo desde logo, como eles não diziam nem queriam.

4) É preciso apostar pesado na formação e educação, para ter uma grande massa crítica capaz de navegar do universo das novas tecnologias. Sem isso, não só haverá um déficit de habilitação técnica, como também haverá um político: se poucos dominarem o acesso a essas tecnologias, estes tenderão a formar “castas de direita”, em detrimento dos outros “desfavorecidos tecnologicamente”.

Em todo caso, são previsões. Em 2030 eu completarei 83 anos, se o Patrão Velho lá de riba permitir, como se diz no sul do meu país. Quem me acompanhar verá.

A eleição na OMC e o complexo de capataz

por Flavio Aguiar, para a RBA publicado 09/05/2013 16:08

Quando a gente fala em “Velho Mundo”, o que vem ao pensamento é a Europa. Ou a Eurásia e a África. Mas a expressão tem uma dimensão temporal, como demonstra o adjetivo. E nesta dimensão o Velho Mundo é a pátria da direita brasileira e de seus arautos embora, é claro, eles vivam assombrados, lembrando livremente comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, pelo “secreto horror” que a pátria brasileira lhes desperta.

Secreto? Cada vez menos. Já nem são assombrados, são aterrados pela dura realidade de abrirem a janela para ver, não o Sena, nem o Tâmisa, (por favor, não lembremos o Tejo, também subdesenvolvido), muito menos o Reno, o Elba e o Mosela, nem mesmo o Hudson e os Grandes Lagos, mas – horreur!, my God, meus sais! – os nossos rios, do Oiapoque ao Chuí, e em vez da retilínea Floresta Negra, as retortas da Amazônia, da Mata Atlântica, do Cerrado, da Caatinga, dos bananais etc.

Até os nossos temperados pinheiros – as araucárias – são cheios de curvas e obrigados a conviver com aquela mata confusa que eles abrigam e protegem, em vez de desfrutarem da exclusividade silenciosa e vertical dos pinheirais europeus e das Rochosas.

A nossa direita vive ainda em tempos de Casa Grande & Senzala. Imagina-se na Casa Grande, mas isto é uma espécie de miragem acalentada para compensar o fato de que na sua dura imaginação empedrada vivem mesmo é num puxadinho da Senzala. A Senzala somos nós, o Brasil. Eles são, mas não conseguem assim se reconhecer, apenas os capatazes da Senzala.

São assim mesmo, escritos com minúsucula, diante da majestade, do tamanho e do alcance da Senzala que eles querem administrar tirando um percentual de benefícios, entre eles o de quando em quando fazer um turismo – que pensam ainda ser exclusivo – pelo alpendre da Casa Grande, que são as suas paisagens. Porque Casa Grande mesmo, é a Europa; são os Estados Unidos, o Japão, a Coréia do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia.

Bom, pelo menos uma certa Europa, aquela entre o Oder (fronteira da Alemanha com a Polônia) e o Tâmisa. Pra lá do Oder também há uma espécie de Senzala, mas que pelo menos, para este tipo de imaginário, é branca em vez de trigueira ou mesmo negra. Bom, há o mundo dos amarelos e indianos que se agiganta, vá lá: mas deixem que eles briguem e se entendam com os Estados Unidos e a Rússia.

Esse “complexo de capataz” reapareceu com fúria em vários comentários que li sobre a eleição do diplomata brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo para a direção geral da OMC. Com indisfarçável má vontade muitos destes comentários tiveram de reconhecer que a diplomacia brasileira marcou um ponto. Aliás, um ponto não, um golaço. Uma cesta daquelas de Oscar na seleção. Fruto de um trabalho paciente de aquisição de respeito e representatividade.

Porém, essa vitória também propicia à indigestão e acidez da capatazia a oportunidade de lembrar que ela se deve ao “equivocado privilégio” que nosso país dá ao “terceiro mundo”, preferindo abrir embaixadas pela África, dinamizar o Mercosul, procurar se instalar na América Central, no Caribe, na Ásia, em vez de abrir mais e mais escritórios-mercadinhos nas salas de espera do “primeiro mundo”.

É uma visão de tal anacronismo e subserviência que dá pena. Ela se baseia num retrato em branco e preto do mundo, ainda o da guerra fria, sem conseguir reconhecer o quão mais complexo este nosso vale de lágrimas e realizações se tornou. Até porque se há um lugar em que a diplomacia brasileira é respeitada – e agora talvez comece também a ser temida – é a Europa.

Prova disso é que, se os países líderes da União Europeia, os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul fizeram campanha pelo diplomata mexicano Hermínio Blanco, nenhum deles teve a coragem de vetar o brasileiro. Ao contrário do que ocorreu anteriormente, quando a eleição de um tailandês provocou tal tempestade que ele se viu forçado a repartir o mandato com o neozelandês que era o preferido do clube da Casa Grande Mundial.vivam assombrados, lembrando livremente comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, pelo "secreto horror" que a pátria brasileira lhes desperta.

O “velho mundo” que a nossa direita acalanta com sua “realidade” vem perdendo espaço a olhos vistos na ordem internacional – o que não quer dizer que esteja entregando o poder e desistindo de procurar manter sua hegemonia. Para tanto, vem semeando a desgraça e o infortúnio dentro de suas próprias fronteiras, tendo aumentado o seu “exército da pobreza de reserva” enormemente nos Estados Unidos durante as administrações republicanas recentes e fazendo o mesmo agora na Europa, onde o pensamento ortodoxo dominante (vem perdendo a hegemonia) está criando sua própria periferia.

Mas este é o mundo em que a nossa direita se espelha. E vai continuar se espelhando durante muito tempo, mesmo que a imagem que ela vê vire uma mera fantasmagoria. Seu ideal é o México – que virou decididamente um puxadinho econômico dos Estados Unidos que importa quase tudo de lá ou por lá – até boa parte das incômodas drogas. Mas pelo menos nos filmes, de vez em quando uma horda de robustos caubóis invade México – o que, para a nossa direita, sem dúvida, é um sinal de proximidade com a civilização.


Islândia: mais uma 'vítima' da União Europeia

por Flávio Aguiar publicado 03/05/2013 10:45
Caso à parte na trajetória da crise financeira, sempre à frente nos efeitos e nas soluções, a ilha de 320 mil habitantes corre risco de nova guinada à lógica conservadora graças a eleições no último fim de semana
Islandia

Tranquilidade social na ilha do norte da Europa pode estar com os dias contados

Primeiro foi a Itália. Embora ela esteja agora com um novo governo que promete priorizar o combate ao desemprego, o vampiresco Silvio Berlusconi (que sempre renasce das próprias cinzas) está de volta, e seu braço direito (esquerdo ele não tem) Alfonso Alfano é o vice-primeiro ministro e ministro do Interior. Berlusconi fortaleceu seu partido declarando-se anti-euro e virtualmente eurocético, espelhando uma desconfiança em relação à União Europeia que, na Itália, atinge 53% dos eleitores.

Agora foi a vez da pequena Islândia. Esta ilha de 320 mil habitantes é sempre uma espécie de termômetro avant-la-lettre do que se passa nos interiores vulcânicos da Europa. Na virada do século XX para o XXI, a Islândia tornou-se a menina dos olhos do neo-liberalismo, desregulamentando tudo, inclusive seu sistema financeiro. Em 2008, foi o primeiro país europeu a afundar na marola da crise do Lehman Brothers e outras agências financeiras dos Estados Unidos. Foi também o primeiro país a se recuperar, depois de uma dramática série de manifestações e de uma troca de governo, com os social-democratas subindo ao poder, em coligação com os Verdes. Houve uma devassa no seu sistema bancário, e o país entrou em vias de recuperação. O desemprego caiu para pouco mais de 5%.

Em outubro do ano passado fiz uma série de reportagens – publicadas inclusive aqui no Blog do Velho Mundo – sobre o sucesso do então novo governo em enfrentar de modo original a crise que se abatera sobre o país. Fugindo do receituário neoliberal, tendo o controle sobre a própria moeda, não tendo de se submeter aos ditames do Banco Central Europeu nem da Comissão Européia, a Islândia tornou-se um caso à parte no cenário da União Europeia devastada pelas políticas de “austeridade” postas em prática a partir da zona do euro. Além disso esta coligação levou a cabo uma importante reforma constitucional, democratizando o sistema de votação, que antes favorecia determinadas regiões do país em detrimento de outras.

Entretanto, no último fim de semana as eleições trouxeram de volta o Partido Independente, vastamente descrito como o responsável pela crise de 2008, com 26,5% da votação. Com o Partido Progressivo, também conservador, deve ter uma maioria folgada no Parlamento, com 38 cadeiras entre 63. O Partido Social-Democrata, até bem pouco tempo tido como o favorito, ficou com apenas 13,5% dos votos e nove cadeiras.

Um retorno da lógica conservadora anterior? Em termos. Em primeiro lugar o Partido Independente mudou sua retórica, falando agora na defesa dos empregos, numa diminuição de impostos e na resolução do problema – que permanece para larga parcela da população – de hipotecas que não têm como ser pagas. Além disso, defendeu a “reestruturação” – ou seja, cortes – das dívidas de seu sistema financeiro para credores internacionais, antes algo impensável para o partido.

Por outro lado, vários analistas na mídia vêm apontando que a principal causa da derrocada dos social-democratas foi sua insistente defesa da entrada da Islândia na União Européia, coisa que, no país, larga maioria parece abominar.

O partido demonstrou coerência com seu programa (embora seus correligionários Verdes fossem mais cautelosos quanto à adesão a U.E.). Podem até ter razão no longo prazo, pois defendem que a adesão a um bloco economicamente forte é a solução mais estável para a estabilização econômica, uma vez que a Islândia tem poucas frentes de atuação econômica, basicamente a pesca industrializada, os estaleiros e o setor serviços, além de biotecnologia e software. País de interior enregelado durante quase todo ano, tem um setor agropecuário relativamente pobre, limitando-se a carneiros, batatas e verduras e legumes produzidos em estufas. O abastecimento depende basicamente de importações. Ainda assim, a Islândia tem um dos Índices de Desenvolvimento Humanos (IDHs) mais altos do mundo e uma renda per capita de causar inveja.

Porém a febre especulativa que tomou conta do país a partir do final do século XX fez com que muitos de seus habitantes trocassem posições estáveis por especulações financeiras, como a compra de ações de bancos ou no mercado internacional, tendo sido levados na enxurrada que fez a economia do país desabar em 2008.

Dentro deste quadro, a última coisa que pode parecer interessante a um cidadão do país é a aproximação com a União Europeia, vendo a sucessão de nações que vão perdendo a sua “soberania cidadã” diante da avassaladora hegemonia da destruição do sistema de bem-estar social (bastante amplo na Islândia) que tomou conta do continente.

Apesar da sua mudança retórica e no tratamento da dívida externa de seu sistema bancário, o Partido Independente promete levantar restrições à circulação do capital financeiro, hoje mais severamente controlado pelo estado do que antes, em um ou dois anos. É bom lembrar que este foi um dos fatores que levou à crise em 2008, com os três maiores bancos islandeses agigantando-se em investimentos de risco e débitos a pagar.

A ver.

Com carne de cavalo, Europa amplia escândalos nas redes alimentares

por Flavio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 20/02/2013 14:40, última modificação 20/02/2013 15:38

Alimentos processados com carne de origem suspeita em supermercado da Europa: episódio reflete problemas estruturais do continente (CC/London Permaculture)

A carne de cavalo não é perigosa para o ser humano – ao contrário daquela da vaca louca, nos anos 90 do século passado, quem não lembra? Isso pode ser verdade. Mas há problemas apontados que vêm com a carne de cavalo.

Um dos problemas é de fato bioquímico: cavalos tomam remédios desaconselhados para os seres humanos, como Fenilbutazona, que é um anti-inflamatório, e isso pode, eventualmente, acompanhar a carne equina, sobretudo se o abate ou a comercialização forem feitos de modo clandestino.

Outro problema é que este novo “escândalo da carne de cavalo” no lugar da bovina expõe o drama da falta de fiscalização ou de sua precária realização em escala continental. Como em outros casos, sempre se procura um bode expiatório, de preferência num país distante. Agora é o caso da Romênia, responsável por grande quantidade do fornecimento de carnes (bovina e equina) para a Europa. Mas o problema não é romeno, é europeu, pois a carne da cavalo foi detectada na Irlanda, no Reino Unido, na França, Portugal, Espanha, Holanda e até na austera e vetusta Alemanha. 

Sem falar no “país Nestlé”, a maior empresa produtora de alimentos do mundo que, depois de anunciar que seus produtos estavam a salvo, teve de retirar lasanhas e outros produtos das gôndolas de supermercado quando algumas amostras apresentaram vestígios da carne de cavalo.

Um terceiro ponto é que este episódio é mais um numa cadeia de escândalos e problemas alimentares. No fim de ano passado uma estranha incidência de problemas gastrointestinais foi detectada na França, cuja origem até o momento não foi completamente esclarecida. Um pouco antes uma verdadeira epidemia de infecções gastrointestinais afetou milhares de crianças na Alemanha, com diarreias e vômitos, obrigando centenas de escolas a fecharem suas portas, uma vez que a causa foi detectada na merenda escolar. Desta vez a culpa recaiu sobre morangos importados da China.

Da mesma forma, em 2011 uma epidemia de graves infecções no aparelho digestivo, esta com várias vítimas fatais, atingiu diversos países europeus a partir da região do norte da Alemanha, sobretudo em torno de Hamburgo. Primeiro, a culpa foi posta em pepinos importados da Espanha, com graves prejuízos econômicos para os produtores daquele país, que, depois, o governo alemão teve de indenizar. Mais tarde, constatou-se que a contaminação iniciara a partir de plantações de brotos vegetais em sítios daquela região, mas o problema foi novamente mandado para longe, pois se anunciou que os tais brotos vinham do Egito.

Ocorre, no entanto, que não houve epidemia na China nem no Egito. O problema foi e pelo visto continua sendo europeu, e de dimensão europeia, só podendo, portanto, ser equacionado numa dimensão europeia. Aí reside o problema do problema, uma vez que em dimensão europeia, com a crise do sistema financeiro e as consequentes “políticas de austeridade” para contê-la, ou pelo menos circunscrevê-la aos governos e suas “dívidas soberanas”, em vários países as agências e o alcance da fiscalização vêm passando por reduções expressivas.

Sistemas hospitalares, como no caso da infecção de 2011, vêm mostrando superlotação, e também ocorrem problemas de coordenação dentro dos sistemas de saúde. Na epidemia de 2011 decorreram duas ou três semanas entre os primeiros casos e o alerta de que o caso era de grande dimensão por falta de circulação das informações entre os centros hospitalares e a demora em fazê-las chegar ao Instituto Robert Koch, o centro de controle de endemias e epidemias na Alemanha.

A solução, portanto, passa pela recuperação do poder de fiscalização dos estados e da União Europeia como um todo. Mas isso, como se sabe, não agrada a atual hegemonia economicamente ortodoxa que prevalece no continente.

O discurso de Obama, a direita e a esquerda

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 15/02/2013 11:51

Barack Obama, durante discurso 'inovador' na Casa Branca: surpresas à direita e à esquerda (©Jason Reed/Reuters)

Houve uma certa euforia nos governos inglês e alemão, e na direção da União Europeia (UE) com o discurso feito no início da semana pelo presidente Obama perante o Congresso, uma fala anual conhecida pelo nome de “State of the Union”.

A euforia – não compartilhada, pelo menos com o mesmo entusiasmo, pelo presidente francês – se deveu a uma linha do discurso, em que Obama aventava a possibilidade de retomar o diálogo para a criação de uma zona de livre comércio entre os EUA. e a UE.

Seria a maior zona de livre comércio do mundo, e a previsão dos entusiastas do acordo de ambos os lados do Atlântico são de que que ele potenciaria o comércio que, atualmente, já é responsável por 15 milhões de empregos e mobiliza 50% das exportações, em ambos os sentidos.

Leituras de esquerda também privilegiaram esta linha do discurso, mas em sentido contrário. Essa zona de livre comércio significaria necessariamente a pulverização de mais direitos de trabalhadores, nos moldes dos “planos de austeridade” que vêm devastando as sociedades europeias, além de promover a circulação desregrada de capitais e outras prebendas financeiras.

É claro que tudo isso, de ambos os lados do espectro analítico, ainda navega no terreno movediço das expectativas. Os obstáculos a remover são gigantescos. Por exemplo, a reação mais comedida do presidente François Hollande se deve ao fato de ele certamente não ver com bons olhos a possibilidade de mexer nos subsídios agrícolas de seu país, ou no financiamento ao setor por parte da UE.

Além disso os acertos necessários quanto à indústria automotiva, à produção e comercialização de brinquedos, e ao uso de transgênicos na produção de alimentos (favorecido nos EUA e proibido ou limitado em vários países da UE) são também complicados, só para citar alguns exemplos.

Essa linha do discurso de Obama provocou, entretanto, uma curiosa incapacidade de visualizar o restante de sua fala, também de ambos os lados do espectro analítico. Um Obama mais agressivo e mais afirmativo apareceu, provocando uma reação curiosa: enquanto os democratas aplaudiam de pé trechos da fala, os republicanos permaneciam sentados, como estátuas de gelo.

Vários dos pontos levantados pelo presidente norte-americano colidiam de frente com o que os republicanos pregam e vem sendo posto em prática na Europa. Obama falou em investimentos públicos pesados em escolas e na educação, em infra-estrutura (pontes, óleo e gasodutos e modernização dos portos). Além disso privilegiou a criação de empregos como mola-mestra da economia e saída para o atual impasse das crises financeiras e – supremo horror! – defendeu a elevação do salário mínimo federal para 9 dólares a hora.

Falou ainda sobre o abrandamento das leis draconianas sobre imigração (defendidas por partidos de direita e extrema-direita na Europa e pelos republicanos também), sobre tratamento igualitário aos gays perante a lei, destacou a necessidade de proteção das mulheres contra a violência, inclusive a doméstica, e – novo horror! – voltou a defender a necessidade de limitar o comércio de armas e munições.

Sublinhou também a necessidade de enfrentar a questão das mudanças climáticas (negada por Mitt Romney quando candidato, pelo menos como resultado da ação humana), “encontrando soluções de mercado para ela”.

Tudo isso passou batido pelas reações da banca e dos governos conservadores da Europa e também pelas análises e observações de muita gente de esquerda.

O que prova que de fato, às vezes os extremos podem se encontrar.

O papa se vai. Viva o papa!

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 11/02/2013 13:46

Ratzinger deixará o Vaticano e, como de praxe, já se fazem debates para escolher seu sucessor (©Giampiero Sposito/Reuters)

Nesta segunda-feira de Carnaval (11) o Papa Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar sua renúncia ao Trono de São Pedro. É a primeira vez em mais ou menos 600 anos que um Papa renuncia a seu posto. Alegação: doença e incapacidade (física, talvez espiritual) para permanecer o cargo.

Depressão? É o que se insinua no noticiário. Que o papa tinha um caráter depressivo, isso era notório. Mas o que avulta nisso é que o outrora poderoso Cardeal Ratzinger, o homem da doutrina que mandava calar os teólogos da libertação da América Latina, não conseguiu gestar um papa relevante para o Vaticano.

O papa estava enfraquecido desde os últimos escândalos cercando o Banco do Vaticano, acusado de não ter defesas eficazes contra a lavagem de dinheiro, e as revelações indiscretas feitas pelo seu mordomo, que ele acabou perdoando.

De certo modo sobre ele pesava a sombra de seu antecessor, o arqui-conservador João Paulo II, mas um “globe-trotter” em escala global, inclusive na mídia.

Agora já se discute sua sucessão. Na mídia internacional, aparece o nome do cardeal Peter Turkson, nascido em Gana, na África. Seria o primeiro papa negro da história (ainda que o nome “Papa Negro” fosse dado ao Superior da Ordem dos Jesuítas durante muito tempo).

Turkson, jovem para o cargo (nasceu em 1948), foi nomeado cardeal por João Paulo II em 2003, e Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz em 2009,  por Bento XVI. Considerado um erudito em matérias bíblicas, e com trânsito nos meandros do Vaticano, Tuskson defende plosições ortodoxas em matéria de sexo, pregando sua abstinência como melhor solução para conter a AIDS, embora reconheça que a camisinha possa ser usada no caso de casais estáveis em que um dos parceiros esteja contaminado. Ao mesmo tempo, manifestou-se várias vezes de modo crítico em relação ao FMI, e pediu a criação de um novo sistema financeiro internacional, que controle melhor a atual orgia bancária.

A ver o que dirá o Colégio dos Cardeais a partir de 28  de fevereiro, data em que Bento XVI deixará oficialmente o (en)cargo. 

Espanha: o buraco é mais embaixo. Cada vez mais

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 25/01/2013 14:50, última modificação 25/01/2013 19:48

Pessoas esperam por uma vaga de trabalho; desemprego atinge 26% da população (Foto: Susana Vera/Reuters)

Lembram-se de quando o Brasil era “o país do futuro”? Pois é. Agora a Europa tornou-se “o Continente do futuro”. Cada vez mais a hegemonia ortodoxa impõe sacrifícios cada vez mais duros em nome de um futuro melhor – que vai se distanciando também cada vez mais, e torna-se mais e mais problemático.

Uma frase do vice-ministro das Finanças de Madri, Fernando Jiménez, seria tudo, trágica e cômica, se não fosse um total teatro do absurdo. “Os cortes [no orçamento e nos empregos] podem ter um impacto negativo no curto prazo”. Mas pontuou que a política do governo, tornando mais fácil para as empresas despedirem seus empregados, “ajudaria eventualmente a criar mais empregos”. “As coisas ficarão menos ruins.”

É difícil prever o que exatamente o vice-ministro quis dizer com “menos ruins”. Afinal, as coisas estão péssimas.

Um relatório oficial divulgado na quinta-feira mostrou que a taxa de desemprego nom país superou os 26% (seis milhões de trabalhadores, meia população de São Paulo). Só em 2012, 700 mil espanhóis (uma João Pessoa) perderam o emprego. Dez por cento dos lares espanhóis não têm sequer uma pessoa empregada. 55% dos jovens abaixo de 25 anos que também não estudam estão desempregados.

Dentro da situação emperrada, as desigualdades regionais são enormes, e crescem. No sul da Espanha 66% dos jovens não têm emprego. Na província de Cádiz, no sudoeste, 40% da força de trabalho está desempregada. Na Andaluzia, 65% dos jovens não têm emprego.

O FMI prevê um ecolhimento de 1,5% na economia espanhola em 2013. Mais de um milhão de residências novas permanecem sem vendas, herança do boom e bolha no setor imbiliário.

Mas a União Européia exige que a Espanha baixe seu déficit orçamentário para 4,5% do PIB, o que significa mais 30 bilhões de euros em cortes nas despesas públicas. Ao mesmo tempo, o país deve conseguir mais 10 bilhões de euros para honrar o acréscimo de suas dívidas no ano passado, sob a forma de juros. E já tomou 40 bilhões de euros emprestados para socorrer seus bancos empestados.

Mas o governo de Mariano Rajoy exsuda confiança (ou será suor frio?): ao final de 2014, as coisas vão melhorar, afirma.

É o país do futuro, no Continente do futuro. Até porque a hegemonia da U. E. não crê que haja qualquer outro futuro possível, senão este, da destruição do estado de bem-estar social e do reerguimento – não se sabe do quê, nem mesmo se e algo, sobre seus escombros.

A ver. Quem sobreviver verá. Porque os dirigentes desta hecatombe permanecem cegos para a destruição que estão provocando, acreditando-se os salvadores da pátria.

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China x Japão: por um punhado de rochas

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 22/01/2013 14:13

Senkaku, formada por cinco ilhotas e três rochedos (Foto: IISSVoices)

Enquanto a temperatura continua fervendo no Sahara, com a contagem dos mortos devido ao ataque terrorista e a brutal repressão do exército argelino de um lado, e os enfrentamentos entre o exército francês, apoiado pela aviação, e os grupos ligados ou à AlQaeda ou dela derivados no norte do Mali, em outro ponto do globo a temperatura também começou a subir para níveis perigosos. Que outro ponto? As ilhas Diaoyu, como as chamam os chineses, ou Senkaku, como são chamadas pelos japoneses.

São cinco ilhotas pequenas e três rochedos (como o Atol das Rocas, no Brasil), desertos em termos de vida humana, povoadas elas por aves e algumas espécies agrestes, como bodes domésticos que se “aculturaram” na ilha, toupeiras, e uma rala vegetação. Ficam a leste da China Continental, ao sul do Japão (perto da ilha de Okinawa) e ao norte da China Nacionalista ou Taiwan ou ainda Formosa.

Seu valor econômico, no momento, é próximo do zero, embora tenham sido detectadas reservas de petróleo e gás nas proximidades. Mas seu valor histórico e como contencioso é enorme.

Três países as disputam: os três mencionados dois parágrafos acima. A República Popular da China reconhece inclusive que as ilhas pertenceriam ao território da ilha de Taiwan, mas como não reconhecem a “outra” China, reivindicam desde já o arquipélago para seu território. Durante séculos o Império Chinês considerou as ilhas como território seu, mas na verdade nada fez de concreto para ocupá-lo.

No final do século XIX o Japão ocupou as ilhotas, mas também nada fez para povoá-las, a não ser promover visitas oficiais de militares e cientistas. Em 1945 os Estados Unidos assumiram a sua administração, mas a devolveram ao Japão em 1971.

Agora a R. P. da China resolveu disputar as ilhas – por seu valor militar. Através daquela região a Marinha Chinesa pode ter acesso direto ao Pacífico. Se as ilhas permanecerem com o Japão, este acesso seria fatalmente detectado e controlado pela Marinha Japonesa. Por seu lado o governo de Taiwan, se reivindica as ilhas, pelo menos no momento não tem capacidade militar para se aventurar em meio à disputa dos outros dois contendores.

Inicialmente, a disputa foi retórica. Entretanto, com o novo governo, conservador e nacionalista, de Shinzo Abe no Japão, vitorioso em 26 de dezembro do ano passado, a retórica começou a subir. Da retórica, passou-se à ação. A China enviou aviões desarmados, de observação; o Japão enviou uma esquadrilha de caças. A China enviou outra, em retaliação. Criou-se, na semana passada, aquela situação em que um descuido, um dedo no botão errado, pode deflagrar um enfrentamento de proporções indefinidas.

Os Estados Unidos estão numa situação particularmente complicada: de um lado, o Japão, de inimigo até 45, passou a aliado preferencial; do outro, não há o menor interesse num conflito, mesmo que indireto, com a China no momento, que é adversária e parceira econômica simultaneamente. Tudo o que Washington tem feito até o momento é recomendar moderação aos dois lados.

Analistas ocidentais afirmam que a China usa as ilhas para distrair a atenção em relação aos seus problemas internos, como as acusações de corrupção e o crescimento das desigualdades internas. Mas o mesmo pode-se dizer do novo governo japonês, que assumiu em meio a um contínuo deslizamento para baixo da economia japonesa, tendência que se mantém há anos e que está enfraquecendo o seu poderio na região e no mundo.

A disputa vai continuar. Tudo o que se pode esperar é uma confiança nas palavras do ex-homem forte do Partido Comunista Chinês, Den Xiaoping. Ele foi o principal negociador, do lado chinês, do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, que acabou se efetivando apenas em 1972, 27 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Na ocasião, sobre a questão das ilhas, Xiaoping afirmou que a questão ficaria para ser resolvida através de negociações para as futuras gerações, que, disse ele, “seriam mais sábias do que a nossa”. Esperemos que sim, embora a atual geração não pareça ter dado ouvidos às suas palavras.

Novas regras para as agências de classificação na Europa

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 17/01/2013 13:55

Relatório estimula bancos e outros investidores a terem seus próprios critérios (Foto: Parlamento Europeu/Divulgação)

O Parlamento da União Europeia, reunido em Estrasburgo, ontem (16), aprovou regras mais estritas para o funcionamento das agências de classificação do risco de investimentos, como a Standard & Poor’s, a Fitch e a Moody’s. A aprovação se deu por larga maioria: 599 votos a favor, 27 contra e 68 abstenções. Anteriormente um relatório sobre a necessidade das regulamentações fora aprovado por 579 votos contra 58, com 60 abstenções.

O relatório prevê uma série de medidas para diminuir o poder dessas três agências, estimulando bancos e outros investidores a terem seus próprios critérios, além de pretender forçar uma maior diversificação no setor. Pela nova legislação, os investidores financeiros serão forçados a trocar a agência que têm como referência pelo menos de quatro em quatro anos.

A matéria aprovada age em diferentes níveis da constituição e da ação das agências.

Nenhum investidor só poderá deter 5% das ações em mais de uma agência de classificação, a menos que elas pertencem ao mesmo grupo de agências. As agências também estarão proibidas de emitir avaliações sobre uma instituição se algum de seus próprios investidores detiver mais de 10% das ações da avaliada.

Nos relatórios, as agências deverão explicitar os motivos de suas avaliações e das mudanças ocorridas. Além disso, deverão se abster de sugerir mudanças em políticas econômicas de seus avaliados. Elas terão de anunciar previamente as datas em que as avaliações serão divulgadas, e não fazer a divulgação durante os horários de funcionamento das bolsas europeias, somente após seu fechamento, ou até uma hora antes de sua abertura.

Os investidores ou avaliados que se sentirem prejudicados por negligência ou erro nas avaliações poderão também processar as agências nas cortes europeias.

A decisão foi tomada com uma avaliação prévia de que o comportamento das agências tinha exacerbado a crise europeia das dívidas soberanas.

A legislação adotada recebeu críticas tanto à esquerda quanto à direita. Falando à Agência France Presse, Sven Giegold, deputado e especialista em finanças pelos Partidos Verdes, a considerou um avanço e avaliou positivamente a recomendação de que a União Europeia, através de sua Comissão Executiva, criasse sua própria agência de classificação, mas também avaliou como insuficientes as medidas destinadas a diminuir o poder das três grandes agências do setor.

Já deputados da ala conservadora argumentaram que a legislação adotada coibia “a liberdade de expressão” (v. matéria de Martin Banks, “EU Parliament approves new rules on credit agencies”, de 17.01.2013, em TheParliament.com”). Alguns disseram também que as agências já tinham sido suficientemente criticadas pelo seu comportamento durante a crise e que tinham “melhorado” desde 2008.

A aprovação dessa nova legislação deu-se numa circunstância em que cresce o debate sobre a adoção de “eurobonds”, letras de tesouro, por parte do Banco Central Europeu, e sobre a disposição deste de interferir no mercado financeiro comprando diretamente letras dos países endividados para forçar a queda dos juros. Para a ala conservadora aqueles bonds transformariam – oh! Horror! – a economia da União Europeia numa “economia de solidariedade de mão única”, ou seja, com os países mais ricos e estáveis financiando as dívidas dos mais pobres e instáveis.

Na contramão deste raciocínio, espraiava-se ontem por toda a Europa a repercussão negativa do encolhimento em 0,5% da economia alemã no último trimestre de 2012, reduzindo seu crescimento anual para 0,7% – cifras parecidas com as que a direita brasileira usou para espinafrar o governo Dilma e seu “intervencionismo” na economia. Segundo vários analistas, citados pelo New York Times e pela Der Spiegel, isso mostra que a economia alemã também é vulnerável, e cada vez mais, à crise. 

Existe uma sensação dispersa na Alemanha, acalentada por parte da mídia, semelhante àquela de São Paulo nos anos 1920, 1930, quando se dizia que este estado era a “locomotiva” do Brasil. O sucesso relativo da Alemanha (que ainda não se refez de todo da queda de 5,1% em sua economia em 2009) em escapar aos efeitos mais perversos da crise se baseou na manutenção de suas exportações. Porém, como além da China, seus maiores parceiros são os “compatriotas” de União Europeia, as dificuldades globais desta terminaram por pular os rios Reno e Oder (este na fronteira com a Polônia), atingindo em cheio a economia germânica.  

A conclusão é, ironicamente, a de que não há locomotiva sem comboio que lhe sirva carvão, e este está custando cada vez mais caro, graças ao imbróglio financeiro do continente, alimentado em parte pela ação das agências medidoras do risco dos investimentos, ação que agora a resolução do Parlamento europeu procura balizar.    

 

Europa: como o neoliberalismo renasce das cinzas

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 09/01/2013 12:42

Riga, com 700 mil habitantes, é a capital do país que foi ao colapso e se reergueu (Foto: Jorge López. Flickr)

O neoliberalismo e suas doutrinas ortodoxas vivem renascendo das cinzas: das próprias e das que semeia ao redor, incinerando sonhos, direitos, expectativas no Moloch do Mercado. Como isso é possível? É claro que isso se deve, em grande parte, a renitência de seus arautos – como se vê no Brasil agora que se tenta incinerar o governo Dilma tendo em vista 2014 – em reconhecer alternativas ou os próprios erros, em termos de avaliação e previsão do que vai acontecendo pelo mundo.

Mas essa renitência precisa de algum suporte, nem que seja de fantasia. Assim se deu com o Brasil do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. Ou o Chile. Ou a Islândia. Ou a Irlanda. Ou o México. A própria Rússia. Mais recentemente, a Europa inteira. O rastro de destruição é longo e devastador. 

Mas sempre resta uma esperança. Aqui na Europa a esperança agora chama-se Letônia.

A Letônia é um pequeno país de pouco mais de dois milhões de habitantes, à beira do Mar Báltico, entre a Estônia, a Lituânia, a Bielorrússia e a própria Rússia. A capital, Riga, tem pouco mais de 700 mil habitantes. Pertencia ao bloco de influência soviética. Depois da desagregação da União Soviética e do comunismo, a economia letã entrou em colapso. Encolheu em 50% e o sistema financeiro do país quebrou. Reergueu-se, “milagrosamente”, como sempre, graças a empréstimos estrangeiros (em particular de bancos suecos), que criaram uma “bolha de prosperidade”. A crise de crédito de 2007/2008 voltou a devastar o país, que recorreu a um empréstimo de 7,5 bilhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI), mais o amargo purgante que vem junto nessas ocasiões.

E o purgante veio. A crise fizera a economia se retrair novamente em 20%. Abriu um verdadeiro buraco nas contas públicas, além de trazer à tona uma dívida internacional gigantesca – privada, ao contrário da grega, que era pública. O sistema bancário voltou a naufragar. Em cima deste quadro, a “austeridade” dançou e rolou.

O governo dispensou um terço do funcionalismo e esmagou salários. O setor privado também – em nome de restaurar a “competitividade” do país, de olho nas exportações. O setor da saúde foi literalmente deserdado. Tudo isso reativou “a confiança” financeira, no entanto. Os empréstimos voltaram. As exportações cresceram.

Surpreendentemente, não houve protestos. Por isso a Letônia vem sendo apresentada como “a prova” de que o purgante e a cólica podem compensar, desde que haja suficiente dose de conformismo nas veias do país. É a nova menina dos olhos do neoliberalismo, o bom exemplo em meio aos carentes de disciplina: Grécia, Espanha, Portugal, Itália, até a vizinha Lituânia, onde os protestos não param de ocorrer, sem falar no Reino Unido, na Bélgica, na Irlanda. Ao contrário da Islândia (confira aqui no blog as nossas reportagens a respeito), o governo “austero” do primeiro-ministro Valdis Dombrivskis não caiu. Ao contrário, foi reeleito. Líderes sindicais dão entrevistas afirmando a inutilidade de fazer greves. Graças às exportações, cujo aumento foi motivado pelo arrocho salarial, o PIB em 2011 cresceu 5%, um número recorde para uma Europa em naufrágio constante em dilúvios econômicos e doses de adrenalina devastando as economias, as bolsas e os nervos dos cidadãos. Em suma, um Paraíso.

Bom, mas nem tudo é perfeito no Paraíso. A Letônia continua sendo um dos países mais pobres da Europa, com um índice de pobreza de 30,9% da sua população, segundo estatísticas da União Européia. O desemprego diminuiu, mas ao final de 2012 estava em 14,2%. Deste percentual, 17% dos desempregados sequer procura emprego. 5% da população emigrou, e as pesquisas indicam que a possibilidade de volta é pequena.

Tudo isso me lembra de um diálogo que tive, décadas atrás, quando presidia um cineclube em Porto Alegre. Na saída do cinema, comentávamos – alguns cinéfilos – o filme, um faroeste. Ao final, quando os índios iam tomar o forte, em vez da prometida cavalaria chegou apenas uma carroça coberta por uma lona. A indiada se assanhou, atacando em massa, com aquela gritaria e rifles brandidos para o ar. O pessoal da carroça desarmou a lona, e apareceu uma metralhadora de tripé, que devastou os atacantes. 

Um dos cinéfilos comentava, entusiasmado, aspectos “progressistas” do filme, revelados nos conflitos entre os defensores do forte. “Peraí”, eu retruquei, “e os índios”? “Ora”, me disse o cinéfilo, “em faroeste índio é cenário”. Pobre John Ford!

Mas a verdade é que no neoliberalismo a metáfora se aplica. Povo é cenário. Não importa a magreza – ou esqualidez – do ator. O que conta é o figurino.