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Blog do Velho Mundo - Por Flávio Aguiar

por publicado , última modificação 31/05/2013 23:25

O novo 'custo Brasil' para as velhas mentes europeias

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 27/05/2013 08:58, última modificação 27/05/2013 11:16
Crise na Europa

Pedintes nas ruas de países da Zona do Euro, visto cada vez em maior número, por conta das 'austeridades' econômicas

O custo-Brasil é muito alto. Não se trata daquele “custo” sempre marretado pelo ortodoxos da superstição neoliberal, que se refere a impostos muito altos, salários aumentando além da conta, intervencionismo estatal, etc. etc. etc. Não, o custo Brasil a que me refiro é outro. Trata-se do custo de ver-se um país deste tamanho fazendo sombra para aquela ortodoxia. Esta vem devastando a Europa em todos os sentidos. O último destes sentidos a vir à tona de modo dramático está na sua juventude.

Os números do desemprego entre aqueles de 18 a 25 anos na Zona do Euro são o mais recente índice da catástrofe. Os dados são de estatísticas da própria União Europeia:

Alemanha,  7,9%; Áustria, 9,9%; Holanda, 10,3%; Malta, 16%; Luxemburgo, 18,5%; Estônia, 19,4%; Finlândia, 19,5%; Bélgica, 19,6%; França, 26,9%; Eslovênia, 27,1%; Chipre, 28,4%; Irlanda, 30,9%; Eslováquia, 35,9%; Portugal, 38,6%; Itália, 38,7%; Espanha, 55,5% e Grécia, 59,4%.

O aspecto mais assustador destes números está na formação de uma geração inteira de desiludidos com tudo: os “sem-esperança”.

A Suécia não está na Zona do Euro, mas tem um número elevado de desempregados entre os jovens filhos de imigrantes estrangeiros.  Especialistas vêm apontando este alto indíce como a moldura das arruaças que tomaram conta dos bairros onde estes vivem e mesmo de outros na capital, Estocolmo, durante a semana que ora termina. Centenas de carros foram queimados, delegacias de polícia foram apedrejadas, lojas tiveram vitrines espatifadas em pelo menos cinco noites seguidas de enfrentamentos.

A avaliação de acontecimentos como este e dos números do desemprego acima relatados varia muito conforme a posição do avaliador. Mas a maioria das análises correntes ressalta algum extremismo político como ponto de chegada deste descontentamento. Há os que apontam o extremismo de esquerda como o perigo subjacente; outros, o de direita. Fico entre estes.

Por mais que a desesperança desta nova “juventude transviada”(título brasileiro do filme “Rebel without a cause”, de Nicholas Ray, que consagrou James Dean, filmado em 1955) possa motivar contestações ao desarranjado sistema econômico atual, a espinha dorsal deste desespero permanece sendo a descrença na política.

É certo que é difícil manter um interesse pela atual política predominante em grande parte dos países europeus, em que as diferenças entre os social-democratas e os conservadores se reduziu a quase zero durante as décadas que se seguiram à queda do muro de Berlim e ao fim da União Sovíética.

Em muitos países, como na Alemanha, os social-democratas (no caso aliados aos Verdes) foram os introdutores das reformas neoliberais mais radicais, caso também da Espanha; ou seguiram o modelo inaugurado na Europa por Margareth Thatcher, como no caso do Reino Unido, do trabalhista Tony Blair.

Durante este tempo a esquerda foi sendo reduzida muitas vezes a uma situação quase de “reserva ecológica”, de que apenas começa a sair recentemente, como no caso da campanha de Mélenchon na França, que ajudou a “puxar” o programa de François Hollande mais para a esquerda, embora este venha zigue-zagueando agora que está no governo.

Na Alemanha, a Linke – partido de egressos do Partido Social-Democrata e militantes socialistas de diferentes procedências na antiga Alemanha Oriental – oscila entre os 6% e os 10% na preferência da maior parte do eleitorado tendo, entretanto, conseguido algumas votações expressivas em alguns casos, como em Berlim, onde chegou a participar do penúltimo governo da cidade-estado, e em estados do leste.

Enquanto isto o Brasil vai puxando a América Latina mais para a esquerda e para o otimismo em relação ao futuro, o que mostram recentes pesquisas como a publicada pelo jornal Valor, em que 59% avaliam positivamente a situação econômica do país e 88% afirmam que 2014 será melhor do que 2013. Recentemente um jornal britânico sentenciou que este é um otimismo “de fachada” e que ele disfarça o verdadeiro “mal-estar” por detrás, graças a uma taxa de investimento muito baixa.

A crítica deste jornal ao governo de Dilma Rousseff, apontados ambos  como “o” e “a” responsáveis  pelo “mal-estar” aludido, mostra o quão incômoda se tornou a sombra que o Brasil projeta sobre as políticas neoliberais que hoje são moeda corrente em solo europeu, conquistando e ao mesmo tempo devastando corações e mentes no Velho Continente, que, se continuar assim, se tornará de fato cada vez mais velho e destituído de um senso de futuro.

Bola de cristal: o mundo em 2030

por Flávio Aguiar, para a RBA publicado 15/05/2013 13:56, última modificação 15/05/2013 17:31

De quatro em quatro anos o National Intelligence Council dos Estados Unidos elabora um relatório sobre “o estado da arte do futuro” a ser entregue ao presidente norte-americano depois de sua posse. O NIC, assim chamado na intimidade (Enaici, em inglês) é um órgão assessor do Director of National Intelligence (DNI), ele mesmo um assessor direto da presidência.

Pois o relatório deste ano, entregue ao presidente Barack Obama em janeiro, agora divulgado na internet, prevê um 2030 nada róseo para os Estados Unidos e seus parceiros.

O relatório é muito pouco assertivo, em geral. Prefere traçar molduras possíveis. Tipo: o que ocorrerá se o Irã desistir de seu programa nuclear? O que ocorrerá se ele não desistir? E assim por diante. Mas em alguns tópicos o relatório é muito assertivo.

1) Haverá um declínio generalizado do poder e da influência dos países do Ocidente (Estados Unidos e seus tradicionais aliados, o que, nesta altura, inclui o Japão) no mundo. Hoje estes países são responsáveis por 56% da atividade econômica mundial. Em 2030, abracarão apenas 25%. Uma queda vertiginosa, representando uma reversão de cinco séculos de tendência histórica, a partir do Renascimento.

2) Apesar de a economia chinesa superar a norte-americana em tamanho, o mundo será mais multipolar, com a formação de blocos continentais, em particular devido à atuação da China, Índia, Brasil e África do Sul. A Rússia é um caso à parte, pois já dispõe, pelo menos, de um ex-bloco regional. Estes blocos disputarão espaço com os Estados Unidos e a União Europeia. O peso e a influência desta declinarão em velocidade maior ainda, pondo em risco, inclusive, sua sobrevivência. A crise europeia, diz o relatório, deverá se estender pelo menos por dez anos.

3) 60% da população mundial estará vivendo em cidades, e a classe média será o maior grupo social do planeta, com 3 bilhões (35%) de pessoas numa população global de 8,4 bilhão (1 bilhão a mais do que a de hoje). Pela primeira vez na história da humanidade, os muito pobres não serão maioria. Na América Latina, o grande desafio continuará, no entanto, a ser o da diminuição das diferenças sociais.

4) Estas duas realidades combinadas determinarão um crescimento exponencial da demanda por educação, tratamento de saúde e também por alimento (35%), água (40%) e energia (50%), o que poderá servir de moldura para novos conflitos. Este cenário é desfavorável para o meio ambiente, mas, neste sentido, a América Latina será melhor poupada do que outras regiões do globo.

5) Haverá um crescimento na formação de “comunidades congregadas” supranacionais, como a “googlelândia”, a “twitterlândia”, a “facebooklândia”.  O poder estatal terá de conviver com estes espaços, além de haver uma repartição de poderes entre diferentes estados de influência em suas vizinhanças: além dos Brics, este será o caso, por exemplo, da Colômbia, Indonésia, Nigéria e Turquia.

Bom, vamos às conclusões laterais depois da leitura de um documento destes:

1) O mundo da nossa direita brasileira é muito pequeno, mesquinho, caduco e disparatado.

2) O Brasil está certo em apostar na multilateralidade da sua diplomacia, e em investir em contatos sul-sul.

3) É preciso acelerar o crescimento econômico latino-americano e a melhor distribuição de sua renda. Muita gente protesta, dizendo que é necessário parar de pensar em crescimento. Mas como não há, no horizonte próximo ou distante, uma perspectiva de substituição do padrão capitalista de produção, e como dentro deste ninguém pretende  abrir mão de nada, a única maneira de satisfazer as populações emergentes e seu crescente “envelhecimento” é fazer o bolo aumentar, como diziam os economistas hegemônicos nos anos 1970, mas dividindo desde logo, como eles não diziam nem queriam.

4) É preciso apostar pesado na formação e educação, para ter uma grande massa crítica capaz de navegar do universo das novas tecnologias. Sem isso, não só haverá um déficit de habilitação técnica, como também haverá um político: se poucos dominarem o acesso a essas tecnologias, estes tenderão a formar “castas de direita”, em detrimento dos outros “desfavorecidos tecnologicamente”.

Em todo caso, são previsões. Em 2030 eu completarei 83 anos, se o Patrão Velho lá de riba permitir, como se diz no sul do meu país. Quem me acompanhar verá.

A eleição na OMC e o complexo de capataz

por Flavio Aguiar, para a RBA publicado 09/05/2013 16:08

Quando a gente fala em “Velho Mundo”, o que vem ao pensamento é a Europa. Ou a Eurásia e a África. Mas a expressão tem uma dimensão temporal, como demonstra o adjetivo. E nesta dimensão o Velho Mundo é a pátria da direita brasileira e de seus arautos embora, é claro, eles vivam assombrados, lembrando livremente comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, pelo “secreto horror” que a pátria brasileira lhes desperta.

Secreto? Cada vez menos. Já nem são assombrados, são aterrados pela dura realidade de abrirem a janela para ver, não o Sena, nem o Tâmisa, (por favor, não lembremos o Tejo, também subdesenvolvido), muito menos o Reno, o Elba e o Mosela, nem mesmo o Hudson e os Grandes Lagos, mas – horreur!, my God, meus sais! – os nossos rios, do Oiapoque ao Chuí, e em vez da retilínea Floresta Negra, as retortas da Amazônia, da Mata Atlântica, do Cerrado, da Caatinga, dos bananais etc.

Até os nossos temperados pinheiros – as araucárias – são cheios de curvas e obrigados a conviver com aquela mata confusa que eles abrigam e protegem, em vez de desfrutarem da exclusividade silenciosa e vertical dos pinheirais europeus e das Rochosas.

A nossa direita vive ainda em tempos de Casa Grande & Senzala. Imagina-se na Casa Grande, mas isto é uma espécie de miragem acalentada para compensar o fato de que na sua dura imaginação empedrada vivem mesmo é num puxadinho da Senzala. A Senzala somos nós, o Brasil. Eles são, mas não conseguem assim se reconhecer, apenas os capatazes da Senzala.

São assim mesmo, escritos com minúsucula, diante da majestade, do tamanho e do alcance da Senzala que eles querem administrar tirando um percentual de benefícios, entre eles o de quando em quando fazer um turismo – que pensam ainda ser exclusivo – pelo alpendre da Casa Grande, que são as suas paisagens. Porque Casa Grande mesmo, é a Europa; são os Estados Unidos, o Japão, a Coréia do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia.

Bom, pelo menos uma certa Europa, aquela entre o Oder (fronteira da Alemanha com a Polônia) e o Tâmisa. Pra lá do Oder também há uma espécie de Senzala, mas que pelo menos, para este tipo de imaginário, é branca em vez de trigueira ou mesmo negra. Bom, há o mundo dos amarelos e indianos que se agiganta, vá lá: mas deixem que eles briguem e se entendam com os Estados Unidos e a Rússia.

Esse “complexo de capataz” reapareceu com fúria em vários comentários que li sobre a eleição do diplomata brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo para a direção geral da OMC. Com indisfarçável má vontade muitos destes comentários tiveram de reconhecer que a diplomacia brasileira marcou um ponto. Aliás, um ponto não, um golaço. Uma cesta daquelas de Oscar na seleção. Fruto de um trabalho paciente de aquisição de respeito e representatividade.

Porém, essa vitória também propicia à indigestão e acidez da capatazia a oportunidade de lembrar que ela se deve ao “equivocado privilégio” que nosso país dá ao “terceiro mundo”, preferindo abrir embaixadas pela África, dinamizar o Mercosul, procurar se instalar na América Central, no Caribe, na Ásia, em vez de abrir mais e mais escritórios-mercadinhos nas salas de espera do “primeiro mundo”.

É uma visão de tal anacronismo e subserviência que dá pena. Ela se baseia num retrato em branco e preto do mundo, ainda o da guerra fria, sem conseguir reconhecer o quão mais complexo este nosso vale de lágrimas e realizações se tornou. Até porque se há um lugar em que a diplomacia brasileira é respeitada – e agora talvez comece também a ser temida – é a Europa.

Prova disso é que, se os países líderes da União Europeia, os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul fizeram campanha pelo diplomata mexicano Hermínio Blanco, nenhum deles teve a coragem de vetar o brasileiro. Ao contrário do que ocorreu anteriormente, quando a eleição de um tailandês provocou tal tempestade que ele se viu forçado a repartir o mandato com o neozelandês que era o preferido do clube da Casa Grande Mundial.vivam assombrados, lembrando livremente comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, pelo "secreto horror" que a pátria brasileira lhes desperta.

O “velho mundo” que a nossa direita acalanta com sua “realidade” vem perdendo espaço a olhos vistos na ordem internacional – o que não quer dizer que esteja entregando o poder e desistindo de procurar manter sua hegemonia. Para tanto, vem semeando a desgraça e o infortúnio dentro de suas próprias fronteiras, tendo aumentado o seu “exército da pobreza de reserva” enormemente nos Estados Unidos durante as administrações republicanas recentes e fazendo o mesmo agora na Europa, onde o pensamento ortodoxo dominante (vem perdendo a hegemonia) está criando sua própria periferia.

Mas este é o mundo em que a nossa direita se espelha. E vai continuar se espelhando durante muito tempo, mesmo que a imagem que ela vê vire uma mera fantasmagoria. Seu ideal é o México – que virou decididamente um puxadinho econômico dos Estados Unidos que importa quase tudo de lá ou por lá – até boa parte das incômodas drogas. Mas pelo menos nos filmes, de vez em quando uma horda de robustos caubóis invade México – o que, para a nossa direita, sem dúvida, é um sinal de proximidade com a civilização.


Islândia: mais uma 'vítima' da União Europeia

por Flávio Aguiar publicado 03/05/2013 10:45
Caso à parte na trajetória da crise financeira, sempre à frente nos efeitos e nas soluções, a ilha de 320 mil habitantes corre risco de nova guinada à lógica conservadora graças a eleições no último fim de semana
Islandia

Tranquilidade social na ilha do norte da Europa pode estar com os dias contados

Primeiro foi a Itália. Embora ela esteja agora com um novo governo que promete priorizar o combate ao desemprego, o vampiresco Silvio Berlusconi (que sempre renasce das próprias cinzas) está de volta, e seu braço direito (esquerdo ele não tem) Alfonso Alfano é o vice-primeiro ministro e ministro do Interior. Berlusconi fortaleceu seu partido declarando-se anti-euro e virtualmente eurocético, espelhando uma desconfiança em relação à União Europeia que, na Itália, atinge 53% dos eleitores.

Agora foi a vez da pequena Islândia. Esta ilha de 320 mil habitantes é sempre uma espécie de termômetro avant-la-lettre do que se passa nos interiores vulcânicos da Europa. Na virada do século XX para o XXI, a Islândia tornou-se a menina dos olhos do neo-liberalismo, desregulamentando tudo, inclusive seu sistema financeiro. Em 2008, foi o primeiro país europeu a afundar na marola da crise do Lehman Brothers e outras agências financeiras dos Estados Unidos. Foi também o primeiro país a se recuperar, depois de uma dramática série de manifestações e de uma troca de governo, com os social-democratas subindo ao poder, em coligação com os Verdes. Houve uma devassa no seu sistema bancário, e o país entrou em vias de recuperação. O desemprego caiu para pouco mais de 5%.

Em outubro do ano passado fiz uma série de reportagens – publicadas inclusive aqui no Blog do Velho Mundo – sobre o sucesso do então novo governo em enfrentar de modo original a crise que se abatera sobre o país. Fugindo do receituário neoliberal, tendo o controle sobre a própria moeda, não tendo de se submeter aos ditames do Banco Central Europeu nem da Comissão Européia, a Islândia tornou-se um caso à parte no cenário da União Europeia devastada pelas políticas de “austeridade” postas em prática a partir da zona do euro. Além disso esta coligação levou a cabo uma importante reforma constitucional, democratizando o sistema de votação, que antes favorecia determinadas regiões do país em detrimento de outras.

Entretanto, no último fim de semana as eleições trouxeram de volta o Partido Independente, vastamente descrito como o responsável pela crise de 2008, com 26,5% da votação. Com o Partido Progressivo, também conservador, deve ter uma maioria folgada no Parlamento, com 38 cadeiras entre 63. O Partido Social-Democrata, até bem pouco tempo tido como o favorito, ficou com apenas 13,5% dos votos e nove cadeiras.

Um retorno da lógica conservadora anterior? Em termos. Em primeiro lugar o Partido Independente mudou sua retórica, falando agora na defesa dos empregos, numa diminuição de impostos e na resolução do problema – que permanece para larga parcela da população – de hipotecas que não têm como ser pagas. Além disso, defendeu a “reestruturação” – ou seja, cortes – das dívidas de seu sistema financeiro para credores internacionais, antes algo impensável para o partido.

Por outro lado, vários analistas na mídia vêm apontando que a principal causa da derrocada dos social-democratas foi sua insistente defesa da entrada da Islândia na União Européia, coisa que, no país, larga maioria parece abominar.

O partido demonstrou coerência com seu programa (embora seus correligionários Verdes fossem mais cautelosos quanto à adesão a U.E.). Podem até ter razão no longo prazo, pois defendem que a adesão a um bloco economicamente forte é a solução mais estável para a estabilização econômica, uma vez que a Islândia tem poucas frentes de atuação econômica, basicamente a pesca industrializada, os estaleiros e o setor serviços, além de biotecnologia e software. País de interior enregelado durante quase todo ano, tem um setor agropecuário relativamente pobre, limitando-se a carneiros, batatas e verduras e legumes produzidos em estufas. O abastecimento depende basicamente de importações. Ainda assim, a Islândia tem um dos Índices de Desenvolvimento Humanos (IDHs) mais altos do mundo e uma renda per capita de causar inveja.

Porém a febre especulativa que tomou conta do país a partir do final do século XX fez com que muitos de seus habitantes trocassem posições estáveis por especulações financeiras, como a compra de ações de bancos ou no mercado internacional, tendo sido levados na enxurrada que fez a economia do país desabar em 2008.

Dentro deste quadro, a última coisa que pode parecer interessante a um cidadão do país é a aproximação com a União Europeia, vendo a sucessão de nações que vão perdendo a sua “soberania cidadã” diante da avassaladora hegemonia da destruição do sistema de bem-estar social (bastante amplo na Islândia) que tomou conta do continente.

Apesar da sua mudança retórica e no tratamento da dívida externa de seu sistema bancário, o Partido Independente promete levantar restrições à circulação do capital financeiro, hoje mais severamente controlado pelo estado do que antes, em um ou dois anos. É bom lembrar que este foi um dos fatores que levou à crise em 2008, com os três maiores bancos islandeses agigantando-se em investimentos de risco e débitos a pagar.

A ver.

Islândia: mais uma 'vítima' da União Europeia

por Flávio Aguiar, da RBA publicado 30/04/2013 12:54, última modificação 30/04/2013 13:20
Caso à parte na trajetória da crise financeira, sempre à frente nos efeitos e nas soluções, a ilha de 320 mil habitantes corre risco de nova guinada à lógica conservadora graças a eleições no último fim de semana

O cenário gelado da Islândia tem sido de alta temperatura política para a crise europeia (Foto: arquivo RBA)

Primeiro foi a Itália. Embora ela esteja agora com um novo governo que promete priorizar o combate ao desemprego, o vampiresco Silvio Berlusconi (que sempre renasce das próprias cinzas) está de volta, e seu braço direito (esquerdo ele não tem) Alfonso Alfano é o vice-primeiro ministro e ministro do Interior. Berlusconi fortaleceu seu partido declarando-se anti-euro e virtualmente eurocético, espelhando uma desconfiança em relação à União Europeia que, na Itália, atinge 53% dos eleitores.

Agora foi a vez da pequena Islândia. Esta ilha de 320 mil habitantes é sempre uma espécie de termômetro avant-la-lettre do que se passa nos interiores vulcânicos da Europa. Na virada do século XX para o XXI, a Islândia tornou-se a menina dos olhos do neo-liberalismo, desregulamentando tudo, inclusive seu sistema financeiro. Em 2008, foi o primeiro país europeu a afundar na marola da crise do Lehman Brothers e outras agências financeiras dos Estados Unidos. Foi também o primeiro país a se recuperar, depois de uma dramática série de manifestações e de uma troca de governo, com os social-democratas subindo ao poder, em coligação com os Verdes. Houve uma devassa no seu sistema bancário, e o país entrou em vias de recuperação. O desemprego caiu para pouco mais de 5%.

Em outubro do ano passado fiz uma série de reportagens – publicadas inclusive aqui no Blog do Velho Mundo – sobre o sucesso do então novo governo em enfrentar de modo original a crise que se abatera sobre o país. Fugindo do receituário neoliberal, tendo o controle sobre a própria moeda, não tendo de se submeter aos ditames do Banco Central Europeu nem da Comissão Européia, a Islândia tornou-se um caso à parte no cenário da União Europeia devastada pelas políticas de “austeridade” postas em prática a partir da zona do euro. Além disso esta coligação levou a cabo uma importante reforma constitucional, democratizando o sistema de votação, que antes favorecia determinadas regiões do país em detrimento de outras.

Entretanto, no último fim de semana as eleições trouxeram de volta o Partido Independente, vastamente descrito como o responsável pela crise de 2008, com 26,5% da votação. Com o Partido Progressivo, também conservador, deve ter uma maioria folgada no Parlamento, com 38 cadeiras entre 63. O Partido Social-Democrata, até bem pouco tempo tido como o favorito, ficou com apenas 13,5% dos votos e nove cadeiras.

Um retorno da lógica conservadora anterior? Em termos. Em primeiro lugar o Partido Independente mudou sua retórica, falando agora na defesa dos empregos, numa diminuição de impostos e na resolução do problema – que permanece para larga parcela da população – de hipotecas que não têm como ser pagas. Além disso, defendeu a “reestruturação” – ou seja, cortes – das dívidas de seu sistema financeiro para credores internacionais, antes algo impensável para o partido.

Por outro lado, vários analistas na mídia vêm apontando que a principal causa da derrocada dos social-democratas foi sua insistente defesa da entrada da Islândia na União Européia, coisa que, no país, larga maioria parece abominar.

O partido demonstrou coerência com seu programa (embora seus correligionários Verdes fossem mais cautelosos quanto à adesão a U.E.). Podem até ter razão no longo prazo, pois defendem que a adesão a um bloco economicamente forte é a solução mais estável para a estabilização econômica, uma vez que a Islândia tem poucas frentes de atuação econômica, basicamente a pesca industrializada, os estaleiros e o setor serviços, além de biotecnologia e software. País de interior enregelado durante quase todo ano, tem um setor agropecuário relativamente pobre, limitando-se a carneiros, batatas e verduras e legumes produzidos em estufas. O abastecimento depende basicamente de importações. Ainda assim, a Islândia tem um dos Índices de Desenvolvimento Humanos (IDHs) mais altos do mundo e uma renda per capita de causar inveja.

Porém a febre especulativa que tomou conta do país a partir do final do século XX fez com que muitos de seus habitantes trocassem posições estáveis por especulações financeiras, como a compra de ações de bancos ou no mercado internacional, tendo sido levados na enxurrada que fez a economia do país desabar em 2008.

Dentro deste quadro, a última coisa que pode parecer interessante a um cidadão do país é a aproximação com a União Europeia, vendo a sucessão de nações que vão perdendo a sua “soberania cidadã” diante da avassaladora hegemonia da destruição do sistema de bem-estar social (bastante amplo na Islândia) que tomou conta do continente.

Apesar da sua mudança retórica e no tratamento da dívida externa de seu sistema bancário, o Partido Independente promete levantar restrições à circulação do capital financeiro, hoje mais severamente controlado pelo estado do que antes, em um ou dois anos. É bom lembrar que este foi um dos fatores que levou à crise em 2008, com os três maiores bancos islandeses agigantando-se em investimentos de risco e débitos a pagar.

A ver.

Austeridade europeia dá novos sinais de afundamento à vista

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 25/04/2013 12:12, última modificação 25/04/2013 14:45

Mar da política e da economia pode levar o navio da União Europeia ao fundo. Sinais de avarias já são visíveis (CC/wikimedia)

Dias atrás foi o “bote salva-vidas” da dupla de economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff que naufragou, deixando os arautos da austeridade nus teoricamente. Embora continuem firmes na ideia de que só eles comem os frutos da árvore da ciência do bem e do mal.

Mais recentemente outra bomba de fragmentação explodiu na arca dos austeros, desta vez avariando a casa das máquinas. O presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso, deu uma cautelosa declaração dizendo que a austeridade está certa no fundamento, mas que teria chegado ao seu limite.

Nossa! Tacapes (e cabelos) se levantaram imediatamente de Wall Street a Berlim, dizendo que “abandonar” a austeridade faria o barco afundar. Que barco? Não se sabe muito bem, pois poderia ser tanto o barco da Zona do Euro e com ele o da União Europeia, quanto o barco dos próprios governos que eles representam ou dos princípios que defendem na mídia e fora dela.

Mas pedras voaram, levando o presidente Barroso a argumentar, através de porta-vozes, que “ele não fora entendido muito bem”, que jamais dissera que se deveria abandonar a austeridade etc. Não adianta: a emenda sempre sai pior do que o soneto. Ficou no ar um cheiro de queimado. E a queimada, no caso, foi tanto a relação de Barroso com Angela Merkel quanto a própria chanceler alemã, cujo futuro político não parece róseo.

O que está queimando – ardendo e caindo em cinzas – é o próprio prestígio da União Europeia e do seu motor econômico, o euro, que tem este papel mesmo para as economias do continente que não o adotaram como moeda. Pesquisa recente, divulgada no The Guardian, mostra que a confiança no bloco econômico continental está afundando rapidamente no continente.

A pesquisa foi feita em seis países (Polônia, Itália, França, Alemanha, Reino Unido e Espanha) que representam 2/3 (350 milhões) da população total da União Europeia (500 milhões). Comparou ela dados sobre os percentuais da população que manifesta a falta de confiança, em 2007 e 2012. Os resultados foram estes:

 

País 2007 2012
Polônia 18% 42% 
Itália 28% 53% 
França 41%  56%
Alemanha 36% 59%
Reino Unido 49% 69%
Espanha 23% 72%
   

 

Dentre estes países o caso mais dramático é o da Espanha. Depois da desilusão com os socialistas, que aplicaram os princípios (que vem sendo agora chamados de “sádicos”) da austeridade, os espanhóis amargaram o pior com o governo conservador de Mariano Rajoy. O desemprego atingiu a marca de 27%. Isto levou a presidenta do FMI, Christine Lagarde, a também jogar sua bombinha na arca da austeridade, dizendo que a Espanha deveria ter “mais tempo” para fazer seus ajustes de redução de déficit.

Entretanto, Rajoy, depois de ter parte de seus cortes (em pensões e salários do funcionalismo público, além de em outros quesitos, como o seguro desemprego) vetados pelo Tribunal Constitucional da Espanha, voltou a anunciar mais cortes no orçamento, sobretudo em saúde e educação.

Na Itália – que agora tem novo primeiro-ministro indicado pelo presidente Giorgio Napolitano –, o “imorrível” Berlusconi volta a agitar o cenário político. O novo primeiro-ministro designado é Enrico Letta, de 46 anos, vice-líder do Partido Democrático (ex-PCI), que entrou no lugar do líder do Partido, Pier Luigi Bersani, que não conseguiu formar um governo de coalizão com o Movimento Cinco Estrelas, do ex-comediante Beppe Grillo.

Bersani entregou em lágrimas o bastão a Letta, que agora terá a espinhosa tarefa, precipuamente dada a ele por Napolitano, de formar um governo com três forças políticas: além do PD e do Partido da Liberdade, de Berlusconi, com os partidários do ex-primeiro-ministro Mario Monti, que poderia ser indicado para o Ministério de Relações Exteriores.

Tão forte é a posição de Berlusconi, agora visto como um anti-euro (pelo menos, senão anti-UE), que se afirma ter ele vetado o nome de Matteo Renzi, atual prefeito de Florença, também do PD, por ser ele “demasiado à esquerda”. Renzi reagiu com humor, dizendo que ser vetado por Berlusconi seria algo positivo para seu futuro político.

Mesmo na poderosa Alemanha - com seu poder agora reforçado e também com o ressentimento reforçado pelos bailes que seus dois times na copa interclubes nos espanhóis Barcelona e Real Madrid – a situação não é rósea. Além dos índices da pesquisa acima referida, outras pesquisas mais recentes mostram que o Partido Alternativa para a Alemanha, declaradamente anti-euro (embora não anti-U. E.), atingiu pela primeira vez desde sua criação semanas atrás, a cláusula de barreira do Bundestag, que é de 5%.

Isto é uma má notícia para a chanceler Angela Merkel, não só porque muitos dos eleitores deste novo partido são egressos da União Democrata-Cristã (de Merkel) mas porque são também egressos de seu correligionário de governo, o FDP, cuja canoa há meses flutua mal e mal em torno desta cláusula de barreira, oscilando entre 3 e 5%.

Se o FDP afundar e ficar fora do Bundestag, a chanceler (cujo partido deve ser o mais votado, mas sem maioria absoluta) seria forçada a buscar uma coalizão com o SPD, que será o segundo mais votado. Se ela não conseguir formar esta coalizão, o líder do SPD seria chamado a formá-la, e neste caso ele certamente procuraria os Verdes para fazê-la, não a CDU.

Em suma, a Nova Europa parece cada vez mais grisalha e encanecida. Mas nada disto vai demover os arautos e adeptos da austeridade de incensá-la. O que nos leva à conclusão de que a arca pode afundar e os pacientes - o euro e a U. E. – correm o risco de se afogar, o que seria uma catástrofe mundial. A menos que se troquem os pilotos da arca e a equipe médica que cuida dos pacientes e, sobretudo, as ideias a que se aferram.   

Afunda mais um pilar da 'austeridade' europeia: o caso Rienhart/Rogoff

por Flávio Aguiar, da Rede Brasil Atual publicado 22/04/2013 09:11, última modificação 22/04/2013 09:14

Decididamente a “austeridade” europeia não vai bem. Na prática, ela não funciona. Inúmeros comentaristas não ortodoxos vêm insistindo na idéia de que a austeridade prejudica, ao invés de ajudar, as economias afetadas por crises de seus sistemas financeiros e/ou do gigantismo de suas dívidas públicas. Quer dizer, para estes comentaristas, como o prêmio Nobel Paul Krugman, ou mesmo o arqui-bilionário George Soros, a austeridade impede que as economias encalacradas voltem a crescer. Ela mesma, austeridade, é indutora da crise permanente em que estas economias – Grécia, Portugal, Irlanda, Chipre, Espanha – além de Itália, Bélgica, Reino Unido e outros países – estão afundando.

Entretanto, os economistas ortodoxos e os governantes que gravitam em seu redor fazem ouvidos moucos e poucos a tais críticas. Uma das razões dessa surdez está – ou estava – na certeza de que a “boa academia”, a razão universitária supostamente objetiva e sólida, lhes daria razão. E o pilar desta certeza era o artigo publicado em 2010 por dois pesquisadores do National Bureau of Economic Research, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, “Growth in A Time of Debt”

Neste incensado artigo, os dois pesquisadores relacionavam dívida pública e crescimento econômico numa pesquisa que se estendeu por 200 anos. A conclusão era que, num país desenvolvido, sempre que a dívida pública atingisse 90% do PIB de uma nação, a atividade econômica estagnaria. O Estado perderia a capacidade de reagir, os investidores se retrairiam etc.

O artigo tinha vários atrativos para a ortodoxia que já vinha sendo aplicada na Europa e o fora também nos Estados Unidos. O mais importante deles era que ele estabelecia, com “científica acuracidade”, uma espécie de mecanismo automático entre crescimento da dívida e crise da economia. Portanto, os arautos da austeridade estariam com toda a razão – nem seque só alguma – e seus críticos não teriam nenhuma.

Agora este pilar desabou. A partir da pesquisa de um estudante de doutorado, um outro artigo – “Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff”, também disponível na internet (é só colocar o nome no google), de Thomas Hendon (o estudante) e seus professores Michael Ash e Robert Pollin – ficou demonstrado que o artigo de 2010 continha erros primários, que iam desde a ocultação de dados até falhas na manipulação do programa de computador que usaram, passando por problemas estatísticos.

Desde sempre o artigo de Reinhart e Rogoff despertara críticas por outros economistas. Mas como ele confirmava “objetivamente” tudo o que a ortodoxia queria que fosse confirmado, a mídia que também gravita em torno da “austeridade” simplesmente as ignorou. Agora não dá mais para igonorar. Os erros estão – agora sim objetivamente – comprovados.

Reinhart e Rogoff reconheceram os erros. Mas sustentam que eles não invalidam sua tese fundamental. Entretanto esta ficou na berlinda, porque o reexame dos dados mostra que, pelo menos em algumas vezes, como no caso do Japão dos anos 90, sucedeu exatamente o contrário: foi a falta de crescimento econômico que provocou o crescente endividamento público por, por exemplo, queda na arrecadação de impostos.

Outra coisa que este confronto acadêmico trouxe à baila (v. “The Excel Depression”, de Paul Krugman, The New York Times, 18/04/2013) foi que os arautos e adeptos da “austeridade” não enveredaram por este caminho porque “se viram obrigados a isso”, mas sim porque queriam impô-la. Avançando no caminho aberto pelo argumento de Krugman, pode-se inferir que a “austeridade” tornou-se uma “oportunidade” política, no sentido de desmantelar o chamado estado do bem estar social na Europa, remodelando as sociedades de acordo com o padrão da ortodoxia econômica, numa regressão histórica aos princípios do capitalismo desenfreado dos anos 20, que desaguou na crise de 29 e na ascensão – entre outras coisas danosas – do nazismo na Alemanha.

Este confronto acadêmico mudará alguma coisa? Dentro do espaço acadêmico provavelmente sim. Haverá mais cuidado em checar resultados que envolvam complexas operações hoje inteiramente digitalizadas, antes de dá-las à publicação. Bom, pelo menos por algum tempo, porque as universidades e outros centros de pesquisa continuam obcecadas pela obrigação do “publish or perish”. Mas fora dos corredores universitários provavelmente não haverá mudanças. A obsessão pela “austeridade” continuará, porque esta é a vontade política hegemônica hoje na Europa, e ela não arredará pé. Outros pilares substituirão o pilar que rachou. A ortodoxia econômica é, ela sim, autossustentável.

Atentado em Boston deixa muitas dúvidas e pelo menos uma certeza

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 16/04/2013 10:40, última modificação 16/04/2013 10:43

Tom dos noticiários antecipa clima de 'caça ao terror' que deverá tomar EUA após explosão de bombas em Boston (CC/dpstylesTM)

Ainda não há pistas nem mesmo informações esparsas que permitam conjeturas abalizadas sobre a autoria do atentado a bomba(s) ao fim da maratona de Boston, que deixou até o momento (14h00 em Berlim, 9h00 em Brasília, de 16 de abril) três mortos e pelo menos 140 feridos, muitos em estado grave, outros em estado crítico. Fala-se na perda de membros por vários deles.

Policiais interrogaram dois jovens sauditas (claro!), mas não houve detenções. Há notícias de que o FBI revistou um apartamento nas proximidades, e levou material. Mas nada vazou sobre o que era este “material”, levado dentro de um saco plástico.

Ainda assim, algumas conjeturas já correm os comentários.

Uma delas aponta a coincidência entre o atentado e a greve de fome dos detentos na prisão de Guantánamo, em geral islâmicos acusados ou meros suspeitos de atividades terroristas, muitos em situação completamente ilegal. Seria um ato de “apoio” ao movimento dos prisioneiros?

Contra esta conjetura levantam-se dois argumentos: em si o atentado não “apoia” nada, e especialistas apontam que a preparação do atentado deve ter levado meses, pela explosão de duas bombas quase simultaneamente, além da preparação do artefato e sua locomoção, embora, aparentemente, eles pudessem caber em mochilas normais. Por outro lado, pelo menos a Al-Qaïda/Paquistão negou qualquer envolvimento.

Outra conjetura, em outra direção, aponta para duas coincidências. A primeira diz respeito à data. Em 19 de abril “comemora-se” o aniversário do pior atentado nos Estados Unidos depois do ataque às torres gêmeas em Nova Iorque, em setembro de 2001. Ele ocorreu em 1995, com a colocação de uma bomba em um prédio federal na cidade de Oklahoma City, capital do estado homônimo, no meio-oeste dos Estados Unidos. Um grupo para-militar de extrema-direita (quase todos presos e condenados, um deles à morte) protestava contra o governo norte-americano, e o atentado deixou 168 mortos, entre estes muitas crianças, e mais de 600 feridos.

A segunda coincidência diz respeito ao tipo de artefato usado: uma bomba de fragmentação de fabricação caseira. Uma bomba de fragmentação é aquela que além de explodir espalha pedaços de metal destinados a provocar o maior número de ferimentos no maior número de pessoas possível. Na fabricação caseira usam-se pregos, parafusos, metais cortantes etc. Em geral, por seu poder destrutivo disseminado, a bomba é usada em locais de grande concentração humana – como na maratona de Boston.

E como em outro atentado, também de extrema direita, ocorrido no Parque Olímpico de Atlanta, no estado sulino da Georgia, em 1996, com dois mortos e 111 feridos. Este fez parte de uma série de atentados cometidos, aparentemente, por um único indivíduo que mais tarde foi preso e condenado à prisão perpétua. No caso de Boston, as bombas usadas, segundo o FBI, seriam de pequena potência, o que não as torna menos letais ou danosas para quem estiver próximo.

Mas igualmente tais projeções à direita são conjeturas apenas. Entretanto, uma coisa é certa. Os atentados, que são condenáveis, sem dúvida, vão reativar a paranoia que está sempre latente na cultura política norte-americana, o que pode atrasar ou pelo menos dificultar discussões importantes. Uma delas é a do aumento do controle sobre vendas de armas e munições. E a outra é a do fechamento da prisão de Guantánamo, uma das promessas não cumpridas do presidente Barack Obama.

Tribunal alemão barra mídia turca a julgamento de terrorista neonazi

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 10/04/2013 09:23, última modificação 10/04/2013 09:25

Beate Zschäpe será julgada por terrorismo que vitimou turcos, mas tribunal nada faz para imprensa da Turquia acompanhar julgamento (©tagesspiel/reprodução)

No próximo dia 17, uma quarta-feira, vai começar um dos julgamentos mais explosivos da recente história alemã. A ré é Beate Zschäpe, única sobrevivente de uma célula neonazi que, de 2000 a 2007 assassinou oito cidadãos turcos, um grego e uma policial alemã, além de neste último atentado ferir gravemente um policial e de cometer outros atentados a bomba em bairros de imigrantes e praticado assaltos a bancos para obter fundos.

Foi num desses assaltos que a célula deixou pistas indeléveis, ao ser filmada pelas câmeras da agência. Localizados pela polícia, os dois assaltantes homens, Uwe Mundlos e Uwe Böhnhardt cometeram suicídio, segundo a versão oficial. Beate Zschäpe, que não estava no local, colocou fogo na residência onde o trio vivia, tentando destruir provas. Assim mesmo, a polícia encontrou farto arsenal de armas – inclusive a que pertencera àquela policial assassinada – além de vídeos e outros materiais comprometedores.

Tudo isto aconteceu ao final de 2011. O caso teve desdobramentos complicados, pois veio à tona também o fato de que há 17 anos já havia indícios da ação do grupo – que não foram levados em conta nem pelas polícias envolvidas nas investigações (embora baseados em Zwickau, eles agiram em várias cidades) nem pelos dois serviços secretos alemães, apesar de uma advertência dada até pelo FBI sobre a verdadeira natureza dos crimes.

Em vez de uma célula neonazi, os investigadores concentraram-se na busca de uma hipotética – e fantasiosa – “máfia turca”. Mais: as investigações subsequentes mostraram que houve destruição – negligente ou criminosa – de documentos a respeito da célula logo depois de sua descoberta. Cabeças rolaram, inclusive na chefia de um dos serviços secretos. O Bundestag, o Parlamento Alemão, conduziu uma extensa investigação sobre o caso.

Agora chegou o momento de o caso ir a tribunal, personificada pela sobrevivente da célula. O julgamento vai acontecer em Munique, capital do estado da Baviera. E já antes de começar provocou uma crise de dimensões internacionais. Ocorre que o tribunal encarregado reservou 50 lugares para jornalistas, adotando uma prática de atender a imprensa em ordem de chegada dos pedidos.

É claro que os jornalistas alemães chegaram primeiro. Ficaram de fora emissoras como a BBC e a CNN, por exemplo. Mais grave, no entanto, foi terem ficado de fora a imprensa e a mídia turcas, diretamente interessadas no caso, além do jornal Hürriyet, editado em turco na Alemanha. Há três milhões de cidadãos turcos vivendo no país, sem contar os inúmeros alemães descendentes dos imigrantes mais antigos.

O governo turco protestou junto ao governo alemão. O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, pediu desculpas pelo que considerou a “insensibilidade” do tribunal para a dimensão do julgamento, mas disse que nada poderia fazer, devido à independência dos poderes. A própria mídia alemã se indignou diante do fato. Diversas mídias – impressas ou de áudio ou ainda audiovisuais – ofereceram suas vagas à mídia turca, mas o tribunal, continuando em sua insensibilidade, não aceitou a troca.

Pelo menos um veículo, a  estatal ARD, anunciou que enviaria para a cobertura um(a) jornalista que soubesse falar turco, para assim poder oferecer uma cobertura cuja transmissão a mídia daquele país pudesse acompanhar. Foram feitas sugestões também para que o tribunal escolhesse uma sala maior, ou instalasse uma transmissão direta em telão numa sala alternativa, ambas rejeitadas. O argumento, repetido ad nauseam, é o de que “este é o nosso sistema, e as pessoas têm de se acomodar dentro dele”.

Um detalhe engrossou o caldo. Tempos atrás houve o julgamento de um jornalista alemão naturalizado suíço, o famoso (aqui) meteorologista Jörg Kachelmann – conhecido por suas tiradas “poéticas”, como chamar nuvens grossas, como os nimbos, de “couves-flor”. O julgamento despertou curiosidades sensacionalistas, pois Kachermann era acusado de estupro contra sua própria namorada, depois de ela ter descoberto que ele lhe era infiel. Kachelmann admitiu as infidelidades, embora dizendo que nunca as ocultara, mas negou o ataque violento. Terminou sendo absolvido, após ter sido praticamente linchado pela mídia sensacionalista como culpado.

Porém, o detalhe que veio à tona foi que na ocasião, como ele era suíço naturalizado, o tribunal em questão – da cidade de Mannheim – imediatamente reservou vagas para a mídia daquele país. Não deu para deixar de levantar as suspeitas de que neste caso o cuidado foi omitido porque a principal mídia em questão seria a turca, embora seja verdade que emissoras de outros países tenham sido igualmente barradas pelo zelo bu(r)rocrático.

Pelo menos um jornal turco, o Sabah, além do alemão Hürriyet, declarou que entrará com recurso na Suprema Corte alemã, em Karlsruhe.

Espera-se que o bom senso prevaleça, mas nunca se sabe o que pode acontecer.

Morre Margareth Thatcher, a Dama de Ferro e do neoliberalismo

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 08/04/2013 12:03, última modificação 08/04/2013 12:05

A Dama de Ferro da política inglesa, Margareth Thatcher, quando comandava o parlamento e ditava regras neoliberais para o Ocidente (CC/Roberth Uffstutter)

Margareth Thatcher, a prestigiada e/ou odiada Dama de Ferro, primeira e única mulher a exercer o cargo de primeira-ministra do Reino Unido, teve sua morte por AVC anunciada nesta segunda-feira (8) à tarde (horário centro-europeu) por seu porta-voz, Lord Bell.

Nascida em 1925, Thatcher fez uma fulgurante carreira na política inglesa. Tornou-se líder do Partido Conservador em 1975, e foi eleita primeira-ministra em 1979. Reinou (com perdão da Rainha Elizabeth) em Londres desde então até 1990.

Neste período tornou-se a campeã mundial do neoliberalismo. Defendeu ardorosamente tudo o que de mais reacionário havia no mundo. Combateu duramente os sindicatos britânicos, sobretudo o dos mineiros, que a enfrentaram numa greve histórica e fracassada, da qual não se recuperaram até hoje. E aboliu na prática o salário mínimo, restaurado apenas por Tony Blair.

Junto com o papa João Paulo II e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, Thatcher foi uma das estrategistas da derrocada da hoje extinta União Soviética. Apoiou a extrema-direita na América Latina, sendo amiga pessoal e sustentadora política do ex-ditador Augusto Pinochet. Já ex-primeira-ministra, levou-lhe sua solidariedade pessoal e política quando, de outubro de 1998 a março de 2000, ele foi detido em Londres devido a um processo movido contra ele pelo juiz espanhol Baltazar Garzón por crimes contra a humanidade durante sua ditadura.

A exceção com este “love affair” com as ditaduras foi o caso da argentina, quando os ditadores, para desviar a atenção de seus conterrâneos dos duros problemas que o país vinha enfrentando, resolveram tomar as ilhas Malvinas do britânicos, em abril de 1982. Na guerra que se seguiu até o mês de junho morreram 255 soldados britânicos, 649 argentinos e 3 civis nas ilhas. A derrota dos argentinos apressou a queda da ditadura, e a vitória britânica praticamente garantiu a reeleição de Thatcher em 1983.

Mas como não há mal que sempre dure, o reinado de Thatcher encontrou seu Waterloo em 1990, ao pretender instituir um imposto territorial único por habitante, do mesmo valor, em lugar do imposto antigo, que variava de acordo com o valor da propriedade, como o nosso IPTU. O imposto preconizado era claramente regressivo, beneficiando os mais ricos, como, aliás, quase tudo que Thatcher fez no governo. A medida provocou reações iradas em todo o Reino Unido, com manifestações que resultaram em confrontos com a polícia, as chamadas “Poll Riots”, sendo “Poll” o nome pelo qual o imposto era conhecido.

Depois de deixar o cargo de primeira-ministra, Thatcher dedicou-se, através da fundação que leva o seu nome, à defesa dos ideais de livre mercado que patrocinou durante seus anos de governo. Progressivamente tomada por uma forma de demência cerebral, acabou retirando-se de qualquer atividade pública mais recentemente.

A personificação de seu personagem no filme ‘The Iron Lady’ (2011), dirigido por Phyllida Lloyd, valeu a Meryl Streep o Oscar de Melhor Atriz em 2012, além de outros prêmios internacionais.