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Blogue do Velho Mundo

Relações exteriores

O que fará o governo alemão diante do Brasil de hoje?

Cenários político, social e judiciário brasileiro despertam preocupação e críticas em países que, como a Alemanha, se alinham ao respeito aos direitos humanos e à democracia
por Flávio Aguiar publicado 06/06/2017 12h38, última modificação 06/06/2017 15h09
Pedro França/ Ag. Senado
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Aloysio Nunes, chanceler do governo Temer, pode vir a causar algum embaraço, caso confirme visita à Alemanha

Em visita ao Brasil, recebi informações (a confirmar) de que o ministro de Relações Exteriores do atual governo, Aloysio Nunes, se prepara para visitar a Alemanha. Em Berlim se reuniria com o vice-chanceler Sigmar Gabriel, da coalizão governamental, em nome do Partido Social Democrata (SPD).

O governo alemão tem demonstrado, em várias ocasiões, e diante de vários interlocutores, preocupações recorrentes quanto ao respeito aos direitos humanos, ao meio ambiente e garantias democráticas para os cidadãos. Este tem sido o caso, para citar dois dentre muitos exemplos, do diálogo com o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, e o da Rússia, Vladimir Putin. Recentemente, de modo diplomático e respeitoso, o governo alemão, acompanhando muitos líderes europeus, manifestou sua contrariedade diante da retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris sobre clima, anunciada pelo presidente Donald Trump.

Cabe, portanto, a pergunta, no caso da visita se concretizar: o que fará o governo alemão diante da atual situação brasileira? 

Manifestará algum tipo de preocupação diante do que hoje ocorre no Brasil, ou olhará para o lado, acreditando passivamente que a situação brasileira é de normalidade democrática e de respeito às garantias constitucionais e de direitos humanos?

Os sinais de que o Brasil vive hoje dentro de um crescente Estado de Exceção (Ausnahmezustand, em alemão, palavra de triste memória, pois associada ao regime nazista) estão se acumulando e se tornando mais e mais visíveis para o mundo inteiro.

O exemplo mais recente foi o da repressão brutal desencadeada pela Polícia Militar em Brasília contra a manifestação de protesto convocada pelas centrais sindicais e movimentos populares devido aos projetos de reformas propostas pelo governo cortando direitos trabalhistas e alterando negativamente as regras da Previdência Social. A manifestação teve a adesão de muitas caravanas de ônibus que vieram para a Capital Federal. Na repressão que se seguiu registraram-se cenas de policiais militares atirando com armas de fogo contra manifestantes, além de outras formas de repressão e violência, com o uso de balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e o emprego da cavalaria.

Na sequência da manifestação o governo do presidente Michel Temer convocou o Exército para patrulhar as ruas e avenidas de Brasília. O movimento surpreendente provocou reações de repúdio por parte de juristas, políticos de diferentes facções, de comentaristas da mídia, por lembrar os dias da Ditadura Militar inaugurada com o golpe de 1964. Até mesmo autoridades do Exército consideraram a medida excessiva e desnecessária.

A Comissão dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos e o Alto Comissariado para Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas manifestaram sua preocupação diante da repressão policial em Brasília, que vinha já acontecendo em outras cidades brasileiras. Estas manifestações internacionais mereceram uma resposta do ministro Aloysio Nunes redigida em termos considerados grosseiros e pouco diplomáticos por muitos analistas da mídia brasileira. Num fato inédito na história do ministério de Relações Exteriores, mais de uma centena de diplomatas e funcionários de carreira assinaram uma carta aberta de protesto diante destas atitudes do governo brasileiro, que teve grande repercussão internacional.

Por outro lado, no Congresso Nacional (Senado e Câmara Federal) há um grupo considerável de representantes ligados aos grandes proprietários de terra do país, que defendem medidas pondo em risco a demarcação de terras indígenas, de quilombolas (descendentes dos antigo escravos fugidos) e também a legislação de proteção ambiental.

No campo judiciário a situação brasileira também é complicada. O fator mais evidente - dentre outros - tem sido a verdadeira perseguição judicial ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva no âmbito da chamada Operação Lava Jato e outras dela decorrentes. Esta perseguição caracterizou-se e ainda se caracteriza por uma série de atos desrespeitando as leis e a Constituição Federal, sob a forma de gravações telefônicas ilegais do ex-presidente e seus familiares, de seus advogados, além da divulgação ilegal do seu conteúdo para a mídia “mainstream” brasileira, declaradamente hostil ao ex-presidente. Decisões de instâncias superiores à Lava Jato afirmaram que esta não precisa respeitar a lei comum, por tratar-se de uma investigação “excepcional”. Isto caracteriza o que se denomina pelo nome de “Lawfare” - uso das leis para perseguição política, e fortalece a convicção de que o Brasil caminha rapidamente para a consolidação de um Estado de Exceção.

Portanto, como já se disse, fica de fato, no ar, a pergunta sobre o que fará o governo alemão, caso a visita do ministro brasileiro seja confirmada.       

morto-vivo

Temer, o narcisista: os vampiros também amam

Não resta mais nada para o presidente, apenas sua imagem, que ele tanto venera. Mas apesar de ilegítimo e indesejado, ele ainda vai nos incomodar e muito
por Flávio Aguiar publicado 26/05/2017 11h47, última modificação 26/05/2017 12h40
Lula Marques/Agência PT
michel temer

Michel Temer apagou-se e tentou uma sobrevida apoiando-se nas baionetas e nos tanques. Não deu certo

Uma das lendas que cercam os vampiros é a de que sua imagem não aparece nos espelhos. Uma das cenas mais hilárias do imortal A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, é aquela em que os humanos aparecem no espelho do castelo, durante o baile, isolados, sem o concurso dos vampiros que, no entanto, estão a seu lado.

Por que os vampiros não teriam sua imagem espelhada? A explicação tradicional diz que é porque eles não têm alma, são corpos mortos-vivos, e os espelhos refletem a alma dos espelhados. Pode ser.

Mas deve-se considerar que estamos às voltas com um presidente usurpador, no Brasil, que se transformou num morto-vivo. No entanto, sua imagem continua a nos assombrar, em intervenções fantasmagóricas de olhar fixo no teleprompter além-câmera. Como vampiro, vai sugando os direitos do povo brasileiro para se manter atuante em frente aos senhores que exigem o sangue de trabalhadores, aposentados, estudantes, desempregados, para manter suas quotas rentistas.

Como isto é possível?

Só existe uma explicação. O boneco Michel Temer foi inchado, durante meses, pelos fabricantes de imagens no espelho, como Globo, Estado, Folha, Veja et caterva. E o que vemos agora é esta imagem – um mulambo mambembe – se agitando na frente das câmeras, como se fosse real.

Michel Temer apagou-se. Ele já fez a passagem, já está no além. Mas sua imagem teima em não segui-lo. É o contrário, no fundo, da história do vampiro tradicional. A imagem que ficou não consegue projetar o corpo real. Adquiriu vida própria, como um robô, um faz-de-conta insuflado. E já se vê que está furado, e que o ar vai se esvaindo. Daqui a pouco o boneco cai. Tentou uma sobrevida apoiando-se nas baionetas e nos tanques. Não deu certo.

Mas esta alma penada ainda vai nos incomodar, e muito. Afinal, os vampiros também amam. Sobretudo sua imagem. Narciso explica. Nada mais lhes resta, a não ser ela.

 

derrocada

Temer não tem mais condições de representar o país

Nada como um dia depois do outro, como diz o calendário que penduramos na parede ou vemos na internet
por Flavio Aguiar publicado 18/05/2017 11h08
Marcos Corrêa/PR
Fantasma

Como um fantasma, Temer assombra, mas não governa mais

Quem com Temer fere, com Temer será ferido, ou com Aécio, diz a sabedoria popular.

Não sabemos o que vai acontecer. Isto depende de vaticínios que são decididos nos subterrâneos das pirâmides faraônicas do poder brasileiro, desde que várias forças congressuais, judiciárias, policiais e midiáticas – com apoio provável das "forças ocultas", mas não muito ocultas, internacionais, decidiram implodir e suspender a Constituição Brasileira nessa farândula de ilegalidades da Lava-Jato e arredores.

Mas sabemos o que está acontecendo. O presidente (?) Temer acabou. Idem o (ex-?) senador Aécio, indigno do sobrenome do avô. Corre na internet a versão de que o ataque contra Aécio, pela PF, vem de uma facção ligada a Serra. Se for verdade, isto mostra que retornamos ao tempo das vendetas entre maragatos e pica-paus no Rio Grande do Sul, nos albores e continuares da República Velha, onde a degola e as rixas entre capos líderes de clãs eram a regra. A versão não pode ser descartada.

O caso Lula – na Lava Jato – passou a ser uma nonada, ainda que liderado por um juiz, procuradores e policiais que têm, na sua prisão, uma causa obsessiva, digna de tragédia grega, ou de comédia romana.

Uma coisa é certa. Temer não tem mais condições de representar o país. Já não tinha, mas agora tem menos ainda. Dividiu com Donald Trump, ameaçado de impeachment, como Nixon, as manchetes desta quinta-feira. Na Al Jazeera chegou a ganhar a inglória glória da manchete principal. Temer faz lembrar o fantasma do pai de Hamlet, despido da grandeza deste: assombra, mas não governa mais.

É verdade que esta incapacidade de representar o país não decorre só dele. Desde que assumiu, e nomeou Serra e depois Aloysio (o ex-companheiro Mateus) como ministros de Relações Exteriores, o Itamaraty se tornou prisioneiro de uma visão anacrônica, retardatária, das lideranças do PSDB, em matéria de cenário internacional.

Seja lá por que motivo for, esta visão vê o Brasil como prisioneiro de uma masmorra norte-americana, cuja procedência é duvidosa: será a Casa Branca? O Departamento de Estado? A CIA? A National Security Agency? ONGs e empresas terceirizadas, além dos thinktanks reacionários de que o Instituto Millennium é tributário? Ou será simplesmente o interesse destes pessedebistas de parecerem como os porta-vozes de Miami perante os interesses da Praça Pan-americana, mais os Jardins, a Berrini, a Paulista, em São Paulo, e assemelhados em outras cidades no Brasil?

Aquela incapacidade ficou evidente na recente reunião em Pequim, onde a China, perante mais de 100 países, alguns representados por mandatários ou enviados especiais de primeira grandeza, o Brasil foi figura nula. Ah, fossem os tempos de Celso Amorim… Mas não só. Os tempos de Azeredo da Silveira, de San Tiago Dantas, João Neves da Fontoura, Osvaldo Aranha, Rio Branco… A música seria outra. 

A China propõe uma reedição atual da "rota da Seda", o caminho da integração Euro-Asiática-Aricana, co-atraindo a Oceania e a América Latina. Só uma visão de energúmenos vê o Brasil fora disto, permanecendo atrelado a esta pedra submersa que é a subserviência pessedebista à hegemonia norte-americana, que, aliás, não existe mais. Pelo menos no plano comercial.

Bom, existe agora a oportunidade histórica de nos livrarmos deste carrapato institucional que é o governo Temer.

Há, porém, uma pedra no sapato desta caminhada histórica. O PSDB se esfarinhou. O PMDB é um resíduo de jõoes-ninguém. O DEM não existe mais. A Rede está envolta nas contradições de Marina, que dá uma na ferradura da direita e outra no cravo da direita também. Bolsonaroo é uma promessa fascista. Doria é um botox embonecado, politicamente. 

Quem resta?

O PT e Lula. Que vão sobreviver, mesmo que a Lava-Jato persiga a obsessão de condena-lo. Nelson Mandela sobreviveu a isto.

E a direita não sabe o que fazer com esta herança "maldita" que vê pela frente.

denúncia

Advogados de Lula em Berlim explodem e implodem a Lava Jato

Em seminário na Universidade Livre de Berlim, Valeska Martins e Geoffrey Robertson mostraram, inclusive, que judiciário brasileiro ainda adota métodos herdados do período da Inquisição
por Flávio Aguiar publicado 16/05/2017 10h51, última modificação 16/05/2017 18h23
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Geoffrey e Valeska falaram sobre a situação atual do Brasil pós-impeachment da ex-presidenta Dilma

Abrindo uma ação em que alegam que o ex-presidente Lula é alvo de perseguição judicial no Brasil, ou lawfare, na expressão internacionalmente consagrada, advogados do ex-presidente estiveram em Berlim, nesta segunda-feira (15) – Valeska Teixeira Zanin Martins, que representa Lula no Brasil, Geoffrey Robertson, cujo escritório em Londres representa o ex-presidente perante o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos em Genebra.

A visita começou com uma ida ao famoso Reichstag, onde gravaram um registro para os arquivos do Instituto Lula, feito pelo cinegrafista e fotógrafo Felipe Araújo.

Na sequência, foram ao Instituto Latino-Americano, da Universidade Livre de Berlim, onde abriram, em inglês, um seminário de pós-graduação que aborda, entre outros temas, a situação atual no Brasil pós-impeachment. Falaram para uma sala lotada, onde predominavam estudantes, professores e interessados em geral na situação brasileira. A atividade, coordenada pelos professores Sergio Costa e Renata Motta, contou com a participação conjunta do movimento SOS Lula-Berlim e do Fórum Latino-Americano da mesma cidade.

Geoffrey Robertson foi o primeiro a falar. O advogado, nascido na Austrália e que atua no Reino Unido e nas cortes internacionais da Europa – sendo reconhecido como defensor das causas dos direitos humanos e garantias individuais no sistema judiciário internacional –, ressaltou o que considera uma aberração anacrônica do sistema judiciário brasileiro.

Hoje, essa situação anômala não existe mais nas cortes europeias, completamente extinta a partir da década de 1980. Herdada do sistema judicial da Inquisição Ibérica, ela consiste em manter a prática de ser o juiz que instrui e conduz a investigação sobre as atividades de um acusado, para depois ser o mesmo que julga o caso. Segundo ele, isso leva a uma situação em que potencialmente o réu passa a ser condenado de antemão, impedindo que ele seja julgado por um juiz independente.

Agravam o presente caso das ações e investigações movidas contra o ex-presidente o comportamento corporativo das associações da classe jurídica brasileira, apoiando abertamente o juiz Sérgio Moro e as ações da Operação Lava Jato, mesmo quando irregulares; a participação ativa da mídia hostil ao ex-presidente na criação de um clima de pré-condenação; e o comportamento do juiz e de procuradores, dando declarações nesta mídia e publicando e autografando livros em seu favor.

Destacou ainda a completa ilegalidade da divulgação de gravações obtidas também ilegalmente de conversas privadas de Lula, de sua família e até de seus advogados, dizendo que tudo isto seria impensável nas cortes europeias, e que estes juízes e procuradores já teriam sido afastados do caso, e eventualmente até processados e punidos. Também condenou a passividade judicial diante da utilização dos bonecos gigantescos ou pequenos que representam o ex-presidente como presidiário.

Falou a seguir a advogada Valeska Martins, ressaltando as dificuldades e impasses da Operação Lava-Jato. Declarou que, depois de anos de investigações exaustivas e do arrolamento de quase oito dezenas de testemunhas, sendo 27 de acusação, sequer uma única prova foi obtida contra o ex-presidente.

Ao contrário, todas as testemunhas ouvidas o inocentaram. Provas foram obtidas sim, mas que atestam a sua inocência, como no caso da pseudo-posse de um apartamento no Guarujá, que sempre esteve e está ainda na condição de propriedade da construtora OAS, segundo documentos legais e legalmente obtidos.

Sublinhou que a prática das delações premiadas vem sendo implementada de modo irregular, sem que se exija a apresentação prevista em lei de provas por parte dos delatores. Estes, diante da possibilidade de serem mantidos em longas detenções mesmo antes de serem julgados, terminam por dizer aquilo que procuradores e o juiz querem ouvir a respeito do ex-presidente.

Ressaltou ainda que a decisão do Tribunal Federal de Recursos da Quarta Região (TRF4), com sede em Porto Alegre, a que o juiz Moro está subordinado, garantindo por ampla maioria que a Operação Lava Jato e o juiz podem atuar por cima das leis e da Constituição, abre caminho para a instalação de um estado de exceção no país, coisa que na Alemanha tem um nome de triste memória, Ausnahmezustand, coisa característica do antigo regime nazista.

Valeska se referiu ao risco que a democracia brasileira vem correndo graças a esta mobilização política dos tribunais, apoiada pela mídia mainstream no Brasil. Alertou para o fato de que houve uma decisão dos tribunais superiores, de caráter pessoal, no sentido de que o juiz Moro foi confirmado como apto para julgar a pessoa do ex-presidente, em vez de apenas casos contra ele.

Esta unção do juiz também escancarou as portas para a consideração, por parte daqueles contra quem ele se volta, de que, no Brasil, não há instância de recurso sobre suas decisões, o que aumenta seu poder sobre a prática das delações premiadas, mesmo que dentro da verdadeira licenciosidade com que são obtidas.

Enfim – agora falo eu – o país vive uma suruba (termo empregado por prestigiado senador no atual regime, arqui-investigado por ilegalidades de que é suspeito) jurídica sem precedentes. Nem no Estado Novo, nem na República Velha, nem na ditadura civil-militar pós-1964 houve tanta "liberdade poética" e sinistra na interpretação de leis e prerrogativas constitucionais.

Na República Velha, a questão social era uma questão de polícia; o Estado Novo adotou uma nova Constituição; o mesmo fez a ditadura de 64, além de simplesmente suspender tudo com o Ato Institucional nº 5. Já nos dias de hoje criaram-se completas anomia e anomalia, porque se tem uma Constituição que simplesmente não vale mais, ou vale apenas para alguns, e os esbirros da "nova ordem" se dão direito a tudo, sem prestar contas a ninguém.

Aonde vamos parar com tudo isto, só Deus e o Diabo sabem. Se é que sabem.

 

eua

Presidente norte-americano demite diretor do FBI pela televisão

Durante a campanha eleitoral, Trump criticou Comey porque este dissera que não havia indícios suficientes para abrir um processo contra Hillary Clinton
por Flavio Aguiar publicado 10/05/2017 11h39
YOUTUBE/REPRODUÇÃO
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Ainda não se sabe quem será o substituto de Comey, que teve relações tensas com o presidente Trump

Em mais um rompante característico do seu estilo, o presidente norte-americano Donald Trump demitiu o diretor do FBI, James Comey. Este dava uma palestra na Califórnia e, ao que parece, tomou conhecimento de sua dispensa pela televisão, antes de receber o comunicado oficial.

A relação entre os dois foi marcada por seguidas tensões e controvérsias, de parte a parte.

Num primeiro momento, ainda durante a campanha eleitoral, Trump criticou Comey porque este dissera que não havia indícios suficientes para abrir um processo contra Hillary Clinton, rival de Trump, pela utilização de um canal privado na internet para mensagens oficiais enquanto era secretária de Estado. Trump acusou-o de fazer corpo mole e assim favorecer a candidatura da rival.

Na sequência, Comey voltou atrás e enviou uma carta ao Congresso dizendo que "novos indícios" apontavam para a possibilidade de se abrirem mais investigações e assim, talvez, se chegar a algum processo. Foi a vez dos democratas acusarem o diretor do FBI de estar favorecendo a campanha de Trump.

Passada a eleição, vários democratas levantaram a suspeita de que assessores de Trump, senão ele próprio, mantiveram contatos com a Rússia, a propósito de romperem o sigilo de emails da campanha de Clinton para favorecer Trump. Na ocasião, este contra-atacou dizendo que o então presidente Barack Obama teria ordenado a espionagem de seus emails. Desta vez Comey se manifestou dizendo que nada autorizava esta suspeita, coisa que enfureceu Trump.

Posteriormente, o FBI começou, de fato, a investigar se houve tais ligações entre Trump ou se assessoria e o Kremlin - coisa que pode levar, se comprovada, a um pedido de impeachment do presidente. E agora, no meio destas investigações, de modo bombástico e surpreendente, Trump tirou Comey do embrulhado baralho de Washington, demitindo-o sumariamente do cargo que ocupava.

O escândalo e a perplexidade em Washington e arredores são enormes. A situação lembra a decisão de Richard Nixon, em outubro de 1973, demitindo Archibald Cox enquanto este investigava a sua possível participação no escândalo de Watergate - coisa que terminou forçando o então presidente a renunciar para evitar o voto do impeachment.

Trump nega peremptoriamente as acusações contra ele e seus assessores. Mas sua decisão, vista como suspeita e intempestiva, complica sua situação. Seu início de governo é dos mais conturbados da história da presidência dos EUA. Alguns de seus colaboradores foram forçados à renúncia depois de nomeados. Ele é acusado ainda de suspeita de nepotismo pela nomeação da filha Ivanka como assessora da Casa Branca, embora isto nano envolva salário - mas envolve poder, é claro. E ele ainda es acusado de estar tentando enquadrar o Judiciário norte-americano através de nomeações.

Ainda não se sabe quem será o substituto de Comey, nem se a troca irá deter as investigações sobre esta possível conexão russa, que pode levar Trump, eventualmente, a um beco sem saída.

retrocessos

Temer, Doria e o compromisso com a barbárie

Em outros países, últimas atitudes do prefeito de São Paulo e do presidente da República os desqualificariam para qualquer cargo público
por Flávio Aguiar publicado 03/05/2017 11h51, última modificação 03/05/2017 12h21
GGN
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Doria não passa de uma imitação de Jânio Quadros e Temer já deveria ter sido embalsamado em algum museu do vampirismo

"Não é porque muitos pensem errado, que eles têm razão". Coluche, comediante francês. (1944-1986).

Não sou daqueles que consideram a Europa uma Arca de Noé, ou Miami uma bênção de consumo, em detrimento do Brasil ou da América Latina como um todo, sem falar em outras latitudes e longitudes.

Em alguns momentos e em relação a certos grupos – de direita – a comparação é inevitável. Em termos de compromisso médio com a civilização, a direita brasileira perde de longe para a europeia.

As cenas que vimos na internet, de pessoas embrulhadas na bandeira brasileira agredindo outras que frequentam um restaurante palestino são impensáveis aqui? Não. Mas são reservadas a militantes exaltados da extrema-direita, e estes agressores seriam punidos exemplarmente.

Mas o compromisso com a barbárie no Brasil vem de cima. Temer inaugurou o primado da desfaçatez como método político. Bom, a ditadura de 64 tinha feito o mesmo. Mas o rei (rei?) nunca esteve tão nu quanto agora. Seu autoelogio do 1º de maio foi patético - pateta, na verdade. Como se ninguém mais, além de seus assessores, apaniguados, capangas e asseclas, estivesse vendo o que faz. Daí vem o deputado Nilson Leitão, do PSDB de Mato Grosso, e propõe uma nova lei para o trabalhador rural que regulamenta, no fundo, a escravidão do século 21: vamos comprar força de trabalho em troca de casa, comida e olhe lá. Com horário de trabalho e descanso a critério do patrão. Até o padre Vieira, um autêntico humanista do século 17, se revoltaria diante da proposta.

Mas tem mais. O correlato de Temer e sua caterva no Congresso é Doria em São Paulo. É chocante ver o prefeito de S. Paulo – prefeito! – jogar flores na via pública como se fossem lixo. Com uma cara de ódio que nem botox disfarça.

Mais chocante ainda é ver a chusma de coiós, a seguir, reunida no Ibirapuera para homenagear a estátua de Ayrton Senna, elogiando a velocidade e gritando: "acelera, Doria!", numa menção ao aumento criminoso dos limites nas marginais. Até mesmo a irmã do automobilista tragicamente falecido demonstra que não aprendeu nada com nada.

É um espetáculo lamentável que esta ralé, esta escória bem vestida, está dando ao Brasil e ao mundo, dizendo a que veio, para emporcalhar nossa atmosfera com o impeachment da vida.

Depois da cena das flores na rua e do espetáculo no Ibirapuera, se fosse por aqui, Doria não se elegeria nem para guarda de trânsito. Depois de suas contínuas gafes, Temer já teria sido embalsamado em algum museu do vampirismo.

Para completar há o papelão do nosso ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes (ex-companheiro Mateus), chamando de golpe (logo quem falando) a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte na Venezuela pelo presidente Maduro. Até o Papa Francisco ofereceu aquilo que é da tradição da diplomacia brasileira, consagrada por Rio Branco: a mediação. Que, segundo fontes do Vaticano, foi negada pela oposição venezuelana por dissensões internas (que esta nega haver, o que é uma inverdade, para não dizer uma mentira). Não. O Brasil, agora, é beligerante. Embora isto lhe tenha rendido a conquista de uma posição de absoluta irrelevância na cena diplomática internacional.

Tudo isto só revela uma coisa: a elite golpista que tomou conta do governo depois do impeachment golpista da presidenta Dilma, que é aclamada por onde anda, contrariando o espírito da maioria do nosso povo, "é símia e grotesca", conforme o dizer de renomado escritor do século 19. Com perdão da nobre família dos símios.

Quanto a Doria, ele não passa de um fake do Jânio Quadros, sem o charme popular deste. Um Cacareco de vassoura na mão, também sem o charme do rinoceronte que, aliás, era uma rinoceronta.

 

#Brasilemgreve

Deu no mundo inteiro: uma greve gigantesca varreu o Brasil

A repercussão mundial foi enorme, do tamanho da greve que, sim, provavelmente foi a maior e geograficamente a mais extensa do país
por Flávio Aguiar publicado 29/04/2017 11h57, última modificação 29/04/2017 18h35
Jornalistas Livres
midia

A mídia internacional denunciou o que a Globo,Temer, Serraglio, Doria e seus asseclas fingiram não ver

A mídia mundial reconheceu: uma greve enorme sacudiu o Brasil de norte a sul, de leste a oeste. Claro que com variações: o conservador Frankfurter Allgemeiner, aqui da Alemanha, noticiou que houve enormes manifestações que degeneraram em violência, como se a polícia nada tivesse a ver com isto.

O Le Monde – aquele jornal de Paris que começou abençoando a campanha do impeachment contra Dilma e depois pediu desculpas a seus leitores – disse que a greve foi enorme, mas ficou aquém do esperado. Mas uma coisa é certa: fosse qual fosse o ponto de vista, a repercussão mundial foi enorme, do tamanho da greve que, sim, provavelmente foi a maior e geograficamente a mais extensa do país.

As estimativas são eloquentes: de 35 milhões a 40 milhões de grevistas, numa população de 205 milhões, dos quais pelo menos 65% têm menos de 40 anos. Ou seja, nasceram de 1977 para cá. Em 1988, quando a nossa Constituição foi votada, esta que a direita nunca engoliu e chamou pejorativamente de “cidadã”, como se isto fosse insulto, tinham no máximo 11 anos de idade. É uma geração que nunca tinha perdido direitos, só ganhado. Agora estão perdendo, pela primeira vez, e em grande escala. E com uma rapidez só igual àquela do gambá que entra no galinheiro.

A reação da Globo, de Temer, Serraglio, Doria e seus asseclas foi a previsível: fingir que não viram. Como dois daqueles macaquinhos de efígie, taparam os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Só não taparam a boca, como faz o terceiro, e não pararam de dizer besteiras. A mídia que se acha plenipotenciária no país não percebe que o mundo inteiro a vê.O New York Times e outros veículos estrangeiros deram o que a Globo, Temer, Serraglio, Doria e seus asseclas fingiram não ver

Assim como os olímpicos juízes do Supremo Tribunal Federal que, contra apenas um voto, aprovaram (o New York Times publicou com escândalo) o supersalário para funcionários públicos que detenham mais de um cargo, o que por si só já cheira a irregularidade, na semana em que a Câmara mais acusada de corrupção de nossa história aprovava a destruição da legislação trabalhista erigida desde 1931 (1943 foi apenas o ano de sua Consolidação, como diz o nome do seu conjunto).

Este é um capítulo à parte, que merece menção. Durante décadas a esquerda entoou a cantilena liberal de que a CLT descende da Carta del Lavoro de Mussolini. É mentira. Quem começou a tecer a legislação trabalhista no Brasil foi Lindolfo Collor (que não tem culpa por sua descendência), um político liberal que reuniu uma equipe da melhor estirpe, pesquisando a legislação do gênero no mundo inteiro.

Além disto, inspirou-se largamente na doutrina positivista descendente de Auguste Comte. Até mesmo a legislação de proteção ao trabalhador introduzida na Alemanha pelo arquiconservador Otto von Bismarck foi objeto desse estudo. Quem quiser se inteirar sobre isso que consulte a entrevista que fiz com o professor Alfredo Bosi para a Revista do Brasil, edição 12, Arqueologia da CLT, edição número 12. E agora a caterva de espírito fascista, de nariz comprido e perna curta, da Câmara Federal, desfia o argumento de que a CLT foi inspirada por Mussolini!

Temer, Serraglio, Doria, Globo et caterva (o que inclui o restante da mídia acaudilhada por ela) podem fechar olhos e ouvidos o quanto quiserem para a realidade da greve, a maior da nossa história. O que não dá mais é para fechar o nariz diante do cheiro de mofo e podridão que emana deste baú de ossos.

 

história

A primeira greve no Brasil

Na próxima sexta-feira (28) trabalhadores farão uma greve geral, que deve parar transporte, escolas, bancos e indústria em todo o país
por Flávio Aguiar publicado 26/04/2017 10h42, última modificação 26/04/2017 13h17
UERJ/REPRODUÇÃO
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Tipógrafos da época paralisaram a publicação dos jornais, ou 'folhas diárias'

A primeira greve brasileira ocorreu no início de 1858, no Rio de Janeiro. Foi a greve dos tipógrafos da então Corte, depois capital federal e hoje capital do estado com o mesmo nome.

O Rio de Janeiro passava por problemas de carestia ou falta de gêneros alimentícios, e aumento de seus preços, bem como dos aluguéis. Havia, portanto, um processo inflacionário.

Os tipógrafos eram trabalhadores letrados, que tinham acesso a informações sobre o que se passava no resto do mundo, isto é, naqueles tempos e para eles, a Europa e os Estados Unidos. A classe ergueu-se no movimento paredista (como também se dizia então), reivindicando o aumento da féria (também como se dizia) em 1 mil-réis por dia. Resultado: praticamente paralisaram ou pelo menos prejudicaram seriamente a publicação dos jornais, ou "folhas diárias". De 7 a 11 de janeiro estas folhas, que normalmente tinham quatro páginas de tamanho standard, saíram só com duas ou nem saíram. Algumas vezes aglomeraram duas edições numa só, como no caso do "Diário do Rio de Janeiro", que juntou dois dias numa única publicação: 9 e 10 de janeiro.

Perplexos, os donos, acionistas e redatores-chefe dos jornais, reagiram com grande violência retórica, pedindo a repressão do movimento e a intervenção policial, "para destruir em nascença um mal que pode tomar grandes proporções", conforme editorial conjunto publicado naquele jornal e também na "Gazeta Mercantil" e no "Jornal do Comércio". Desconfio seriamente, pelo estilo do texto, que seu autor ou pelo menos revisor foi nada mais nada menos que José de Alencar, que era então o redator-chefe do "Diário".

O então ministro da Fazenda, o paraense e visconde Bernardo de Sousa Franco, mandou que os "compositores" da Tipografia Nacional, a ele subordinada, fossem furar a greve, substituindo os tipógrafos dos jornais. Entretanto, os trabalhadores da Tipografia Nacional reuniram-se em assembleia e se solidarizaram com seus colegas, o que levantou mais a ira dos patrões e seus aliados.

Dizia o mesmo editorial: "Eles (os tipógrafos da T. N.) quiseram fazer causa comum com os seus companheiros; o que bem mostra a aliciação que tem havido, e a espécie de sugestão que exercem alguns mais exaltados sobre outros de ânimo tímido e irresoluto". E concluíam pedindo a referida intervenção da polícia, embora não dissessem o que ela deveria fazer. Embora possamos imaginar o que eles pensavam que ela deveria fazer.

Nesta época, Machado de Assis, então com 18 anos, trabalhava na Imprensa Nacional, e sabe-se que alimentava ideias então tidas como "exaltadas". Não resisti à tentação, e no meu romance "Anita", coloquei-o na posição de discursar para aquela assembleia dos tipógrafos oficiais: "Houve debates acalorados. O Machadinho (como o grande escritor era conhecido na juventude), que nessa época era aprendiz de tipógrafo e tinha ideias esquentadas, foi. Fez um discurso inflamado. Terminou gritando: ‘'tipógrafos da Corte, uni-vos, nada tendes a perder…' Não conseguiu terminar a frase, tal a massa de aplausos".

Os donos de jornais estavam muito assustados. Dias antes houvera uma tentativa de movimento semelhante por parte dos acendedores de lampião nas ruas da cidade. Já os tipógrafos, comportando-se como membros de uma "aristocracia operária", recusaram a comparação do seu movimento com o deles. Sabe-se disto através de detalhe curioso e importante.

Em consequência do movimento, os donos dos jornais demitiram os tipógrafos grevistas. Alguns deles reuniram-se numa espécie de cooperativa e passaram a publicar a sua própria folha diária, o Jornal dos Tipógrafos, que durou cerca de três meses.

Em editorial anunciavam: "O artista (como se chamavam) hoje encontrou na arte (no ofício e na corporação) a sua verdadeira pátria (…), sua família é a classe, sua vida a força poderosa de seus indisputáveis recursos".

Este jornal se encontra hoje na seção de livros raros da Biblioteca Nacional, e também já deve estar digitalizado. Tive a ventura de consulta-lo diretamente nas suas folhas, enquanto fazia minha pesquisa de doutorado sobre o teatro e, paralelamente, o jornalismo de Alencar.

Devido ao silêncio subsequente das demais "folhas diárias" sobre os desdobramentos da "parede", não sabemos se os tipógrafos conseguiram seus mil-réis a mais na féria do dia. O certo é que eles fundaram o primeiro jornal alternativo do Brasil, com este espírito explicitamente marcado.

E é por estas e por outras que estamos aqui, na Rede Brasil Atual e em tantas outras publicações e mídias alternativas que, como uma coorte de Davis (nome que se dava a frações das legiões romanas), enfrentam os Golias da mídia golpista.

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E agora, esquerda francesa?

Pela primeira vez na história da França desde a consolidação da república, nenhum dos partidos tradicionais foi para o segundo turno. E o quadro pode piorar, com as eleições legislativas de junho
por Flávio Aguiar publicado 25/04/2017 09h56, última modificação 25/04/2017 09h58
SERGI TENANI/Mat Beaudet/FLICKR CC
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Macron e Le Pen disputarão segundo turno das eleições presidenciais francesas, que terá somente opções à direita

Há mais nesta eleição francesa do que simplesmente Emmanuel Macron vs. Marine Le Pen.

Em primeiro lugar, a gente sabe que pior do que o "já ganhou", só há o "já perdeu". E o que se vê é que um desagradável clima de "já ganhei" subiu a cabeça de Macron, enquanto Le Pen não se deixou abater pelo "já perdi".

Ela tem cheiro de fascista, não resta dúvida. Mas é aguerrida, valente, ousada, e vai à luta de cabeça erguida. Até porque, seja qual for o resultado de 7 de maio, ela se consolidou como a principal liderança da extrema-direita francesa e, portanto, europeia.

A extrema-direita holandesa perdeu algo de seu ímpeto depois da derrota de Geert Wilders. A alemã, do AfD, patina em torno de uma briga de suas lideranças. No passado recente, suas intenções de voto, ainda que expressivas, caíram de 15 para 10%. Provavelmente Merkel vem recuperando sua força. A extrema-direita britânica não soube nem sabe o que fazer com sua vitória no plebiscito sobre o Brexit.

Já sob a batuta de Le Pen, a Frente Nacional (FN) só fez crescer.  Na eleição de domingo obteve o melhor resultado de sua história, quase 7,7 milhões de votos. É muito voto.

Le Pen pode perder no segundo turno, mas no dia 11 de junho acontecem as eleições parlamentares. A FN deve crescer, certamente. Hoje ela tem apenas dois deputados. Mas olhando-se o mapa eleitoral da França, vêem-se coisas curiosas.

Macron foi o mais votado nos grandes centros urbanos e no oeste do país, região mais rica. Le Pen foi a mais votada em departamentos (o equivalente aos estados no Brasil) onde o desemprego é maior, ou em pequenas comunidades rurais, sobretudo no leste da França. Isto provavelmente renderá votos em 11 de junho.

Pela primeira vez na história francesa desde a consolidação da república, depois da Segunda Guerra, nenhum dos partidos tradicionais foi para o segundo turno. Isto significa uma desilusão com a política? Pode ser. Mas o resultado significa, com certeza, uma opção mais conservadora, como soe acontecer nestes casos: Le Pen pela extrema-direita, Macron por uma "direita esclarecida", liberal nos costumes e na tolerância com imigrantes, neo-liberal em termos de economia. Para as esquerdas não há muito mesmo o que comemorar.

Mas como sempre estas poderiam tirar lições que provavelmente não vão tirar. Uma delas: somando-se os votos do candidato socialista, Benoît Hamon, da esquerda do seu partido, e os do candidato da France Insoumise, Jean-Luc Mélénchon, obtém-se 25,94% dos votos. Um candidato que conseguisse esta missão impossível – unificar as esquerdas – estaria no segundo turno. 

Quem mais sofreu com os resultados, aparentemente, foi o Partido Socialista (PS). Rachado como estava, é possível que já no primeiro turno alguns de seus votos potenciais tenham migrado para Macron: os da direita do partido, liderada por Manuel Valls, que não engoliu a indicação de Hamon. Outra parte pode ter migrado para Mélénchon, que poderia se candidatar a deputado, tornando-se um forte líder da esquerda parlamentar, com o enfraquecimento dos socialistas.

Mas isto só será possível se ele, vencendo seu ressentimento, se colocar, primeiro, declaradamente contra Le Pen. Desta forma estará, sim, se qualificando para depois ser a grande liderança contra qualquer dos vencedores de 7 de maio, aumentando sua penetração entre o eleitorado limítrofe. Um movimento desta natureza poderia abrir as portas para que, no futuro, a France Insoumise e um PS renovado se unissem para enfrentar a direita.

Mas biblicamente a gente sabe que é mais fácil um rico entrar no céu do que as esquerdas se unirem.

 

O mundo paira em estado de grande confusão

Ameaças de guerra nuclear na Ásia, rachas e incertezas sobre o futuro da União Europeia. O noticiário da semana carrega uma inevitável sensação de que vivemos tempos imprevisíveis
por Flávio Aguiar publicado 19/04/2017 10h30, última modificação 19/04/2017 14h07
Shealah Craighead/Casa Branca/Fotos Públicas
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De seu gabinete no avião presidencial, Donald Trump conversa com comandantes de operações militares na Ásia. Ameaça de guerra paira no ar e nos noticiários do mundo

O governo norte-americano, por intermédio de seu vice-presidente, vocifera ameaças contra a Coreia do Norte, enquanto o presidente anunciava, com pompa e alarde, que uma forca-tarefa naval, capitaneada por um porta-aviões, se aproximava perigosamente da região. Muita adrenalina foi jogada nas artérias e veias mundiais pelo temor de que já estivéssemos à beira de um conflito armado e catastrófico, de proporções imprevisíveis e até rebarbas nucleares.

Ao mesmo tempo, o governo norte-coreano organizava desfiles portentosos, ameaçava detonar mais uma bomba experimental e anunciava o teste de um novo míssil. A bomba não veio e o lançamento do míssil foi um fiasco, não se sabendo ao certo o que aconteceu, se foi um acidente ou sabotagem, tendo ele explodido logo depois de lançado.

De repente, vaza-se uma foto na imprensa mostrando que o porta-aviões estava navegando, na verdade, em outra direção, passando por ilhas da Indonésia em direção à Austrália, onde está estacionado… Ninguém está entendendo muito bem o que aconteceu, ou deixou de acontecer.

Ao mesmo tempo, aqui na Europa, no fim de semana o presidente turco, Tayyip Erdogan, cantava estrondosamente vitória no plebiscito para mudar o regime político em seu país – de parlamentarismo para presidencialismo – e para dar ao presidente poderes excepcionais, podendo ele, inclusive, dissolver o Parlamento e legislar por decreto.

Mas olhando-se bem o resultado o que se vê é um país rachado. O "sim" que Erdogan pedia perdeu nos grandes centros urbanos, como Istambul, Ancara e Izmir, em várias províncias do litoral e, naturalmente, entre a população curda. Há indícios de fraude, diz a oposição, embora dificilmente isso venha a provocar a anulação ou reversão do resultado (51,4% a 48,6%).

A vitória de Erdogan amplia o fosso entre a Turquia e a União Europeia. Ao mesmo tempo ampliou-se o fosso entre esta e os Estados Unidos, pois entre as primeiras vozes a saudar efusivamente a vitória de Erdogan estava a de Donald Trump. O que terá feito o errático presidente norte-americano dar esta barretada diante do cada vez mais imperial Erdogan? Necessidades da Otan, da qual a Turquia é membro? Necessidades na Síria? Necessidade de se aproximar de Ancara em detrimento da Rússia? Ninguém está ainda entendendo muito bem.

Enquanto isto, na outra ponta do continente europeu a primeira ministra britânica Theresa May anunciava uma eleição surpresa para o dia 8 de junho. Todo mundo está se interrogando o porquê disto. O gesto de May evidencia mais uma vez que ninguém está sabendo muito bem o que fazer com o Brexit. Já antes ninguém entendeu muito bem o empenho do primeiro-ministro anterior, David Cameron, em fazer o tal do plebiscito, que veio a lhe custar o cargo com a vitória da saída da União Europeia.

A hipótese mais provável é a de que Cameron reagia à divisão de seu próprio partido, o Conservador, e o plebiscito seria uma maneira de alinhá-lo atrás de si, mas o tiro saiu-lhe pela culatra e a bomba explodiu na sua mão.

Agora se aventa a hipótese de que May esteja tentando assegurar uma maioria confortável para deflagrar o processo do Brexit, também diante da divisão de seu próprio partido, além de se aproveitar de um momento em que o Labour se mostra dividido em torno da manutenção da liderança esquerdista de Jeremy Corbyn. Este, surpreendentemente, acolheu a ideia da eleição, talvez também pelo mesmo motivo, desejando que uma nova votação alinhe o partido atrás de si.

Pela lei, o Parlamento tem de aceitar a própria dissolução antecipada por uma maioria de dois terços, caso contrário fica tudo como dantes. Mas os tiros podem sair-lhes pela culatra. Enquanto isso,  a rainha reina, mas não governa.

Atravessando o Canal da Mancha, a eleição francesa, cujo primeiro turno se realiza no próximo domingo, embolou de vez. Quatro candidatos têm chances de ir para o segundo turno (em 7 de maio): Marine Le Pen, Emmanuel Macron, Jean-Luc Mélénchon e François Fillon.

O socialista Benoît Hamon está fora do páreo, mas pode ajudar a definir o resultado no segundo turno. François Fillon é o que tem menos chance, tendo sido rebaixado de favorito a azarão, embora, como diz o ditado pampiano, "não está morto quem peleia".

O novo favorito é Macron, que acalmaria os mercados europeus, mas a ascensão meteórica de Mélénchon nas pesquisas durante as últimas semanas tem jogado mais adrenalina nas artérias e veias hegemônicas na União Europeia diante da possibilidade, para ela fantasmagórica, de uma finale no dia 7 de maio entre Le Pen e o que ela qualifica como "comunista" ou "populista de esquerda".

De tudo, uma certeza: a União Europeia passa mal, padecendo de uma "austera indigestão". O único lugar em seu interior que não vai mal, no momento, é Portugal, com seu governo de centro-esquerda. Além do vizinho Vaticano que, embora cercado de UE por todos os lados, tem o único governante declaradamente de esquerda na macrorregião.