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Blogue do Velho Mundo

O mundo paira em estado de grande confusão

Ameaças de guerra nuclear na Ásia, rachas e incertezas sobre o futuro da União Europeia. O noticiário da semana carrega uma inevitável sensação de que vivemos tempos imprevisíveis
por Flavio Aguiar publicado 19/04/2017 10h30
Shealah Craighead/Casa Branca/Fotos Públicas
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De seu gabinete no avião presidencial, Donald Trump conversa com comandantes de operações militares na Ásia. Ameaça de guerra paira no ar e nos noticiários do mundo

O governo norte-americano, por intermédio de seu vice-presidente, vocifera ameaças contra a Coreia do Norte, enquanto o presidente anunciava, com pompa e alarde, que uma forca-tarefa naval, capitaneada por um porta-aviões, se aproximava perigosamente da região. Muita adrenalina foi jogada nas artérias e veias mundiais pelo temor de que já estivéssemos à beira de um conflito armado e catastrófico, de proporções imprevisíveis e até rebarbas nucleares.

Ao mesmo tempo, o governo norte-coreano organizava desfiles portentosos, ameaçava detonar mais uma bomba experimental e anunciava o teste de um novo míssil. A bomba não veio e o lançamento do míssil foi um fiasco, não se sabendo ao certo o que aconteceu, se foi um acidente ou sabotagem, tendo ele explodido logo depois de lançado.

De repente, vaza-se uma foto na imprensa mostrando que o porta-aviões estava navegando, na verdade, em outra direção, passando por ilhas da Indonésia em direção à Austrália, onde está estacionado… Ninguém está entendendo muito bem o que aconteceu, ou deixou de acontecer.

Ao mesmo tempo, aqui na Europa, no fim de semana o presidente turco, Tayyip Erdogan, cantava estrondosamente vitória no plebiscito para mudar o regime político em seu país – de parlamentarismo para presidencialismo – e para dar ao presidente poderes excepcionais, podendo ele, inclusive, dissolver o Parlamento e legislar por decreto.

Mas olhando-se bem o resultado o que se vê é um país rachado. O "sim" que Erdogan pedia perdeu nos grandes centros urbanos, como Istambul, Ancara e Izmir, em várias províncias do litoral e, naturalmente, entre a população curda. Há indícios de fraude, diz a oposição, embora dificilmente isso venha a provocar a anulação ou reversão do resultado (51,4% a 48,6%).

A vitória de Erdogan amplia o fosso entre a Turquia e a União Europeia. Ao mesmo tempo ampliou-se o fosso entre esta e os Estados Unidos, pois entre as primeiras vozes a saudar efusivamente a vitória de Erdogan estava a de Donald Trump. O que terá feito o errático presidente norte-americano dar esta barretada diante do cada vez mais imperial Erdogan? Necessidades da Otan, da qual a Turquia é membro? Necessidades na Síria? Necessidade de se aproximar de Ancara em detrimento da Rússia? Ninguém está ainda entendendo muito bem.

Enquanto isto, na outra ponta do continente europeu a primeira ministra britânica Theresa May anunciava uma eleição surpresa para o dia 8 de junho. Todo mundo está se interrogando o porquê disto. O gesto de May evidencia mais uma vez que ninguém está sabendo muito bem o que fazer com o Brexit. Já antes ninguém entendeu muito bem o empenho do primeiro-ministro anterior, David Cameron, em fazer o tal do plebiscito, que veio a lhe custar o cargo com a vitória da saída da UE.

A hipótese mais provável é a de que Cameron reagia à divisão de seu próprio partido, o Conservador, e o plebiscito seria uma maneira de alinhá-lo atrás de si, mas o tiro saiu-lhe pela culatra e a bomba explodiu na sua mão.

Agora se aventa a hipótese de que May esteja tentando assegurar uma maioria confortável para deflagrar o processo do Brexit, também diante da divisão de seu próprio partido, além de se aproveitar de um momento em que o Labour se mostra dividido em torno da manutenção da liderança esquerdista de Jeremy Corbyn. Este, surpreendentemente, acolheu a ideia da eleição, talvez também pelo mesmo motivo, desejando que uma nova votação alinhe o partido atrás de si.

Pela lei, o Parlamento tem de aceitar a própria dissolução antecipada por uma maioria de dois terços, caso contrário fica tudo como dantes. Mas os tiros podem sair-lhes pela culatra. Enquanto isso,  a rainha reina, mas não governa.

Atravessando o Canal da Mancha, a eleição francesa, cujo primeiro turno se realiza no próximo domingo, embolou de vez. Quatro candidatos têm chances de ir para o segundo turno (em 7 de maio): Marine Le Pen, Emmanuel Macron, Jean-Luc Mélénchon e François Fillon.

O socialista Benoît Hamon está fora do páreo, mas pode ajudar a definir o resultado no segundo turno. François Fillon é o que tem menos chance, tendo sido rebaixado de favorito a azarão, embora, como diz o ditado pampiano, "não está morto quem peleia".

O novo favorito é Macron, que acalmaria os mercados europeus, mas a ascensão meteórica de Mélénchon nas pesquisas durante as últimas semanas tem jogado mais adrenalina nas artérias e veias hegemônicas na União Europeia diante da possibilidade, para ela fantasmagórica, de uma finale no dia 7 de maio entre Le Pen e o que ela qualifica como "comunista" ou "populista de esquerda".

De tudo, uma certeza: a UE passa mal, padecendo de uma "austera indigestão". O único lugar em seu interior que não vai mal, no momento, é Portugal, com seu governo de centro-esquerda. Além do vizinho Vaticano que, embora cercado de UE por todos os lados, tem o único governante declaradamente de esquerda na macrorregião.

semelhanças

Trump, Temer e a promoção da ignorância

Temer é fruto de "populismo para ricos ou abonados", da agitação de uma cenoura para burros de classe média, que se ocupam em alcançá-la enquanto vão deixando destruir o futuro dos próprios filhos
por Flávio Aguiar publicado 05/04/2017 10h57, última modificação 05/04/2017 12h54
FLICKR CC/EBC
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Governos de Trump e Temer têm origem na e compromisso com a ignorância

"Cair na ignorância é entrar na masmorra de Deus; mergulhar na ciência é entrar no Palácio de Deus"

Mevlana Celaleddin Rumi (1207-1273), poeta e um dos fundadores da Ordem e Movimento dos Derviches

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Há mais em comum entre Trump e Temer do que imagina a nossa vã filosofia e um T no nome.

Ambos são tenazes promotores da ignorância como forma de viver.

Trump está imerso numa batalha para destruir o que ele considera ser o legado e a imagem de Barack Obama. Só tal sanha justifica, por exemplo, o que ele fez nestes últimos dias, responsabilizando o ex-presidente pelo ataque com gás de cloro contra uma população civil na província de Idlib, na Síria, junto à fronteira com a Turquia.

Os contornos deste ataque não estão bem descritos. É possível que tenha sido perpetrado num ataque aéreo por forças de Bashar Al Assad, que têm reservas deste gás e do gás sarin. É possível, porém que o gás tenha sido liberado das reservas que os próprios rebeldes detêm, eventualmente atingidas pelo bombardeio.

Os russos negam qualquer participação no evento, dizendo que sua forca aérea não tem atuado na região. O gás, que age diretamente sobre o pulmão, deixou 60 mortos e uma centena de feridos. Acuado diante de alegações de inoperância diante da guerra civil na Síria, Trump descarregou a culpa sobre Obama.

Neste empenho, e no de cumprir com algumas de suas agendas de campanha, Trump tem se comprometido intensamente com um estilo de promoção da ignorância. Faz afirmações bombásticas que não têm qualquer fundamento. Ele está se tornando um dos reis da chamada "era da pós-verdade", em que afirmações são feitas sem qualquer compromisso com os fatos; elas são os "fatos".

E a sua "verdade" depende, umbilicalmente, deste descompromisso com a realidade. São feitas para promover a ignorância auto-satisfeita de quem acredita nelas, e sua condição de "verossimilhança" depende da empáfia com que são anunciadas; quanto mais empáfia, mais "verdadeiras" elas se tornam.

Com esta era da "pós-verdade" chega-se a um paroxismo do pensamento e do estilo neo-liberais, que promovem uma espécie de fundamentalismo messiânico em torno das crenças e superstições que os movem.

No pensamento do tipo messiânico promete-se a vinda ou volta de um Messias. Se ele não vem nem volta, culpa-se a insuficiência da fé dos crentes. Mas seu fracasso, assim descrito, é alimento para a crença de que numa próxima vez o alfa-acontecimento se dará; o fracasso presente torna-se índice de um sucesso no futuro.

Com o pensamento neoliberal dá-se exatamente o mesmo processo. Ele só semeia fracassos, da Ásia às Américas, da Europa à América Latina, da África à Oceania e por aí afora. Mas para seus próceres tais fracassos são devidos ao "fato" de que sua aplicação não foi bem feita, nem completa. Também aqui o fracasso no presente é sinal de um sucesso no futuro, e culpa-se sempre algum outro fator pelo insucesso.

Assim é Trump.

Mutatis mutandis, isto é, falando do presidente brasileiro que aí está, assim é e será Temer.

Temer foi posto  ou pendurou-se no poder  para promover a destruição do Brasil, pelo menos de um certo Brasil, e a promoção de outro, avesso à industrialização, à soberania, seja a popular ou a externa, à integração social, e adepto da desigualdade, da erradicação dos direitos trabalhistas e do fim da luta contra as discriminações.

Mas isto precisa ser apresentado como o elixir do futuro ao alcance de todos. Daí promove-se uma espécie de "alucinação negativa", em que não se reconhece o que está acontecendo em nome de uma miragem promovida pela mídia ao mesmo tempo pusilânime e autoritária.

O Brasil de hoje é um espasmo desta "alucinação negativa", que açulou as hordas de ignorantes que saíram às ruas para pedir o impeachment de uma presidenta sabidamente honesta, e desconstruir o Brasil que se promovia de fato sob os governos populares.

O governo Temer é, assim, fruto deste "populismo para os ricos ou abonados", desta agitação de uma cenoura para burros de classe média, que se ocupam em supostamente alcançar esta miríade enquanto vão pisoteando e deixando destruir o futuro de seus próprios filhos. Fazem-se todos pais e filhos incestuosos da própria ignorância, que é, como se sabe, na sua auto-satisfacão, a mãe de todos os preconceitos.

O paroxismo deste elogio e desta perseguição da ignorância é a projetada condenação à morte do programa Ciência sem Fronteiras, atacado como inoperante pelo atual ministro da (Des)Educação, Mendonça Filho, que insiste na tecla, descompromissada com a realidade, de que suas verbas seriam melhor aplicadas no ensino básico, como se houvesse uma contradição entre as duas coisas.

A proposta de encerrar o programa é muito burra, pois contém nela a promoção do embrutecimento nacional. Contraria tendência mundial, que é a da internacionalizar cada vez mais a formação acadêmica, e de promover o acesso a ela por parte dos filhos das famílias menos favorecidas.

Assim se passa com o projeto Erasmus Mundus, financiado pela Comissão Europeia, que garante a mobilidade internacional de estudantes, professores e funcionários do ensino superior no continente. Assim se passa com programas de formação  inclusive na área de humanidades  que preveem que os estudantes façam obrigatoriamente um estágio no exterior antes de se formarem, inclusive considerando a possibilidade de fazê-lo em países da América Latina, da África, da Ásia ou Oceania.

Talvez uma crítica que se pudesse fazer ao Ciência sem Fronteiras é a da sua lentidão em incorporar  como costuma acontecer nestes casos  as áreas das humanidades, tendo havido (corrijam-me se eu estiver errado) um tímido começo na formação linguística e de  línguas.

Encerrar o Ciência sem Fronteiras, ao invés de ampliá-lo e aperfeiçoá-lo, além de favorecer a burrice e a ignorância, é promover o paroquialismo, o provincianismo, o anacronismo, a desespiritualização e a calhordice auto-satisfeita.

Mas o que se pode esperar de um governo que, como o de Trump, tem origem na e compromisso com a ignorância?

 

alinhamentos

As esquerdas, as críticas ao PT e o pensamento em bloco

Ao contrário de mantermos a ideia de que os iluminados vão mostrar o caminho com suas autopropagandeadas tochas luminares, hora é de ligarmos antenas na juventude, que já está nas ruas
por Flávio Aguiar publicado 23/03/2017 14h19, última modificação 23/03/2017 14h45
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Educação política, formação política, são coisas que cabem ao partido, não ao governo. Mas o partido não fez sua parte

Tenho ouvido pacientemente muitas críticas das extremas-esquerdas aos governos de Lula e Dilma, e ao PT.

A mais comum, hoje, é a de que "o PT deu pão, mas não ideologia". Não são estes os termos empregados, mas definem o sentido das críticas.

Traduzindo nos termos que ouço seguidamente, o PT elevou o nível de consumo da população pobre, mas não deu educação política. Resultado: os egressos da pobreza consomem mais, mas pensam que isto se deve a seu próprio mérito, não às políticas públicas do governo.

Numa primeira observação, lembro que esta crítica lembra o esquema tradicional de que a massa é ignara, e a vanguarda pequeno-burguesa, iluminada. Esta deve iluminar aquela com seu saber e sua liderança.

A massa não é obrigatoriamente ignara, nem a vanguarda pequeno-burguesa necessariamente iluminada. Mas vamos adiante.

Esta crítica se vale de um bloco: "PT". Aí entra tudo: governo, partido, Lula, lulismo, etc. Um bloco. Como se fosse uma peça de lego a encaixar num quebra-cabeça.

Vê-se o papel do bloco, mas não se analisa a sua constituição.

"O governo deveria dar educação política", é o que ouço, com maior ou menor ênfase.

Certo? Errado. O governo deve providenciar acesso à educação formal - coisa que os governos do PT se esforçaram por proporcionar, e agora o governo golpista de Temer vai tentar retirar dos direitos do povo brasileiro.

Educação política, formação política, são coisas que cabem ao partido. Portanto, aqui cabe uma divisão no bloco que a extrema-esquerda maneja: o seu "PT" tem duas partes, pelo menos, partido e governo.

O governo cumpriu seu papel.

O partido não. Faz muito tempo, por exemplo, que o partido PT não tem uma política para a juventude, muito menos de formação para a juventude. O partido não rompeu com todas as suas virtudes, mas perdeu o rumo neste quesito, o de formação de quadros, de novos quadros, tendo virado uma máquina eleitoral como outras, embora não tão pervertida como as do PMDB, do DEM, do PSDB etc.

Ou seja, a falha, neste sentido, foi menos de governo, do que de partido.

Outra coisa: ouvindo estas críticas, muitas vezes ditas com um ressentimento, que é mau conselheiro, tenho a impressão de que seus formuladores dizem que apenas o seu "PT" – este bloco que querem enquadrar na sua arquitetura – cometeu erros.

Mas a extrema-esquerda também cometeu erros, e muitos. Também deixou de procurar a formação de quadros. Ao contrário, seguidamente concentrou-se numa crítica rasante de tudo o que os governos petistas fizeram, como se fosse tudo parte de uma fancaria teatral. Tirar dezenas de milhões de pobres da miséria não valia nada. Abrir agências do Estado à participação de setores nelas nunca dantes contemplados também não valia nada. Ou seja: as esquerdas mais à esquerda hoje não têm condição, com raras exceções, de se colocarem como símbolo do avanço além-petista.

Até porque em muitas ocasiões se colocaram no papel de "aquém-PT". Não dá pra esquecer as cenas da senadora Heloísa Helena marchando ombro a ombro com ACM Neto e quejandos nas denúncias udenistas contra o PT, amplamente filmadas e propagandeadas pela Rede Globo e afins. Tudo pelos holofotes: a máxima vale para os procuradores e juízes da Lava Jato e proximidades, mas também valeu para muitas das extremas esquerdas, cada qual com seu estilo.

O resultado disto tudo é que hoje temos poucas figuras mais à esquerda das petistas que seguem fiéis a princípios de inspiração democrática e social-democrata com projeção para valer. Jean Wyllys, no Rio de Janeiro, é bem-vinda exceção. Deve haver outras. O PCdoB, tanto quanto eu saiba, é um partido que ainda se preocupa como uma política para a formação da juventude.

E a juventude está nas ruas. Liguem-se as antenas. Vamos aprender com ela. [email protected] Ao contrário de mantermos a ideia de que os iluminados vão mostrar o caminho com suas autopropagandeadas tochas luminares.

país do golpe

Em matéria de gafe, Zelotes supera Temer e o Itamaraty

Operação quer acusar o ex-presidente Lula de favorecimento ilícito no exterior para conseguir que o Brasil optasse pelos aviões Gripen. Leia reportagem sobre a Saab-Scania, que produz o caça
por Flávio Aguiar publicado 12/03/2017 12h03, última modificação 13/03/2017 12h03
Stefan KAlm/saab ab
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Gripen: no Lawfare contra Lula envolveram o atual primeiro-ministro sueco, que na época era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos

Na reportagem abaixo reproduzida, que fiz quando fui à Suécia visitar a fábrica da Saab-Scania, que produz o caça Gripen, cuja compra (36 exemplares) o Brasil acertou para renovar a frota da FAB, fica claro que a empresa sueca oferecia vantagens com que as outras duas na concorrência, a Boeing norte-americana e a Dassault francesa não podiam competir. Isso tanto em termos de transferência de tecnologia como em participação no processo produtivo da aeronave. Por momentos a Dassault teve a preferência do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, com seus Rafale.

Mas agora os policiais da Operação Zelotes, cuja ação inicial apontava para fraudes de sonegação, resolveram acusar o ex-presidente Lula de favorecimentos ilícitos no exterior para conseguir que o Brasil optasse pelos Gripen. No seu afã de lawfare contra Lula, envolveram o atual primeiro-ministro sueco, que na época era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do país, e que entrevistei. Se deixarem esta tigrada new style à solta, são capazes de envolver a família real sueca também, não duvidem. Nada os detêm nesta monomania de protagonizarem-se internacional e nacionalmente.

Como se não bastasse o presidente (?) Temer ser o bobo da corte mundial com suas declarações sobre mulher, lar e supermercado, e o Itamaraty estar reduzido a um empório ou aparelho do PSDB, agora a PF adentra cena produzindo gafes que vão envolver até, possivelmente, o ex-presidente Sarkozy, da França, que favorecia os Rafale.

Para variar, o Itamaraty nada tem a dizer sobre o assunto, obrigado que está a olhar apenas para o umbigo do PSDB, que, além de direita, em matéria de diplomacia é anacrônico, tacanho, provinciano e paroquial, confundindo o mundo com Higienópolis onde rege o seu Barão, antigo Príncipe da Sociologia.

Lamentável

Esperemos que esta manobra dos próceres da Zelotes em busca de holofotes, e futuras prebendas e sinecuras nas manchetes da mídia que eles acham grandes, não venham a favorecer o recuo da compra dos Gripen, em favor de uma revisão que opte pelos Boeing norte-americanos. Nesta linha de afirmação da subserviência aos Estados Unidos que Temer e os interventores no Itamaraty preconizam, tudo é possível, e piorar é o que há de melhor…

A chegada do caça sueco e seu impacto tecnológico e no emprego

 

Gripen supera rivais norte-americanos e franceses para desembarcar no Brasil. Acordo prevê parte da produção na região do ABC

Quando fui para a Suécia, em abril de 2010, a pedido da revista Inova ABCD, jamais me passou pela cabeça que estaria documentando a abertura de uma nova página na aviação brasileira. Para mim, tratava-se de documentar a existência de um avião militar, o Gripen da Saab-Scania – existência que fora posta em dúvida por uma afirmação do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que ele nunca sairia do papel. É verdade que uma parte do projeto ainda estava no papel, mas sua realização dependia também da decisão do governo brasileiro sobre a compra de 36 caças para a FAB. Os concorrentes eram o F18-Super Hornet, da Boeing norte-americana, e o Rafale, da Dassault francesa, a preferida de Jobim.

O projeto Gripen não era apenas o de importação de um tipo de avião. A parte mais importante seria a da transferência imediata­ de tecnologia, inclusive mediante a fabricação de parte das peças da fuselagem do avião no Brasil, para o fornecimento em escala mundial – o Gripen já era o preferido em países como a África do Sul, República Tcheca, Hungria, além, é claro, da própria Suécia.

Sei que pensar em aviões militares e transferência de tecnologia nessa área pode não parecer muito bonito. Ainda mais para quem participou de marchas pacifistas desde os tempos da Guerra do Vietnã. Mas sei também que não vivemos num mundo paradisíaco onde o lobo vai beber água tranquilamente ao lado do cordeiro. E o Brasil – esperemos que jamais se torne um país imperialista ou agressivo do ponto de vista militar – tem de se defender e tem o que defender. Além das nossas gigantescas fronteiras, há o “território” do pré-sal, o que significa nosso “território” virtual no futuro, por meio do controle soberano dos investimentos e rendimentos. E – esperemos também que isso se concretize – da reversão destes para educação e saúde.

Desde aquela visita de 2010, muito chão passou debaixo do Gripen. Dizem os especialistas na área que quando a presidenta Dilma Rousseff assumiu, sua preferência iria para o avião da Boeing, na linha de maior aproximação com os Estados Unidos. Dizem os mesmos especialistas que o que congelou e reorientou essa preferência foi o episódio Snowden­/NSA (envolvendo Edward Snowden, ex-técnico da Agência Nacional de Segurança norte-americana, e denúncias de espionagens contra cidadãos brasileiros, inclusive a presidenta). Se tal aconteceu, a reconversão foi rápida como um avião a jato.

Contra o Rafale da Dassault havia um argumento de peso, até para um leigo na matéria. O Brasil já negociava submarinos nucleares com a França (e negociou). E recomendam os sacerdotes, bispos e cardeais da área que no caso de um país como o Brasil, que não é autônomo em matéria de tecnologia militar, deve-se diversificar o universo dos fornecedores. De modo que também dessa perspectiva o voo do Gripen se encaixava.

Definida a escolha pelo Gripen, levantaram-se alguns argumentos contrários, sem muita base lógica nem real. Como o de que a escolha brasileira se dera por “razões ideológicas”, contra os Estados Unidos, preferindo a opção vinda de um país “socialista”, a Suécia. É argumento coirmão daquele que acusa a diplomacia dos governos Lula e Dilma de ser “ideológica”, em contraposição à tradição “técnica e pragmática” de nossas diplomacias anteriores. A tese fura em dois aspectos: em primeiro lugar, a Suécia está longe de ser “socialista”. Em segundo, não há razão para criar um laço de dependência tão estreito com a águia norte-americana.

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Técnicos da Saab, na Suécia, trabalham no Gripen: tecnologia será repassada e nacionalizada

Um argumento colateral a esse é o de que haveria uma diferença aviltante nos preços, que o Brasil, “por razões ideológicas”, estaria pagando mais caro pelo Gripen do que pagaria pelo F-18 Hornet. O Brasil vai gastar US$ 4,5 bilhões, quando o preço unitário do Hornet é de US$ 55 milhões. Ou seja, o gasto total seria de US$ 1,98 bilhão, menos da metade.

Esse argumento também não se sustenta. O custo unitário de um Hornet, hoje, é de US$ 66,9 milhões. Em 2009, já era US$ 57 milhões. Em segundo lugar este é o custo chamado de fly away. Ou seja, é o preço para tirar o avião do hangar e pô-lo na pista pronto para decolar. Se a este custo acrescermos a munição, mísseis, metralhadoras etc., o custo já sobe para US$ 80,4 milhões. E ainda não falamos de combustível, manutenção, contratos colaterais etc. Ou seja, é um argumento baseado ou na ignorância, ou na má-fé.

Já pela esquerda, apareceu a crítica de que o Brasil­ deveria ter escolhido um modelo russo ou chinês. Citava-se inclusive a Venezuela como exemplo, uma vez que este país tem vultosos contratos de cooperação militar com a Rússia. Só que as perspectivas brasileiras são bem outras. Dita o bom senso que não nos tornemos dependentes dos Estados Unidos. Mas também dita o bom senso que o Brasil não crie um clima de guerra com o vizinho. Já basta a China ser nosso principal parceiro comercial.

Uma queixa colateral a essa é o de que o Gripen nos tornaria tão dependentes dos Estados Unidos quanto do Super Hornet, pois aquele usa peças de fabricação norte-americana. Bom, os especialistas consultados na fábrica sueca garantiram que os três modelos, o Hornet, o Rafale e o Gripen, são verdadeiros híbridos, usando peças de várias procedências tecnológicas, ainda que de fabricação própria, o mesmo ocorrendo com os protótipos da Rússia e da China.

Mas há ainda as ponderações de “centro”, daqueles que se querem “imparciais”. Por que não aplicar as verbas gastas nos Gripen em saúde e educação? É um argumento parecido com os que se manipula para dizer que o dinheiro “gasto” nos estádios para a Copa do Mundo deveria ser revertido para saúde e educação. Quem assim raciocina demonstra ­ignorar conceitos de elaboração e de natureza de um orçamento público.

E dribla a verdadeira questão, para gáudio dos capitais rentistas: o que vai garantir mais verbas para educação e saúde é cortar os juros da dívida pública, cortar no superávit primário, domar a especulação financeira, combater a sonegação, introduzir melhores medidas para tornar o nosso sistema de impostos mais progressivo do que regressivo.

Além disso, existem repercussões imediatas da fabricação de peças do Gripen no Brasil na criação de empregos diretos e indiretos, pela cadeia produtiva que isso implica. Esse legado – palavra que está na crista da onda – vem do compromisso da Saab-Scania de investir em instalações em São Bernardo do Campo. O projeto é implementar no ABC um polo de incubação tecnológica, nos moldes do que existe em Linköping, cidade sueca onde está o Centro de Pesquisa Tecnológica da companhia. Autônomo, mas anexo à empresa.

A Saab-Scania, em cooperação com as áreas governamentais da educação e da pesquisa, também financia outros projetos independentes, inclusive para estudantes em formação. Conversei com um jovem brasileiro que, na época, desenvolvia algo na área de pesquisa de mercado na internet, visando a otimizar a possibilidade de maior informação e poder de decisão de quem usa esse tipo de ferramenta. Seu projeto envolvia a abertura para que internautas pudessem “passear” e “ir às compras” coletivamente.

Embarquemos no Gripen, portanto. E não é demais repetir: torcendo para que jamais tenha de ser usado pra valer.

Acordo prevê investimento e fábrica

A costura política para a escolha dos caças que seriam comprados pelo Brasil demorou mais de uma década, com muitas reviravoltas. A definição saiu em 18 de dezembro passado, quando o governo brasileiro anunciou a compra de 36 Gripen NG suecos, da Saab, vencedora da concorrência do Ministério da Defesa que era disputada ainda pela norte-americana Boeing e pela francesa Dassault. O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, afirmou durante o anúncio que a escolha foi feita com base apenas em detalhes técnicos, sem considerar, por exemplo, denúncias de espionagem da inteligência dos Estados Unidos no Brasil. E destacou o fato de o acordo garantir propriedade intelectual ao país, além de domínio da tecnologia.

Em janeiro, durante visita de executivos da Saab à prefeitura de São Bernardo do Campo, foi feito o anúncio de investimentos iniciais de US$ 150 milhões em uma fábrica naquele município do ABC paulista. A unidade deve começar a sair do papel ainda este ano, e a expectativa é de que nela trabalhem aproximadamente mil pessoas. Em torno de 80% da estrutura do Gripen será produzida no Brasil.

O secretário de Desenvolvimento Tecnológico, Trabalho e Turismo de São Bernardo, Jefferson José da Conceição, estimou em aproximadamente 5 mil o número total de empregos diretos, entre montagem e desenvolvimento. “Empregos qualificados, com muita tecnologia envolvida”, observou, em entrevista à TVT, em dezembro.

Ele destacou a possibilidade de envolver instituições de ensino da região, como a Universidade Federal do ABC, a Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e o Instituto Mauá de Tecnologia, entre outras. O modelo sueco tinha preferência do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, que viajou para conhecer todos os concorrentes. Em 2011, ele articulou a criação de um Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro, para desenvolvimento de projetos.

A escolha final do governo também contava com apoio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Ainda em 2010, o sindicato assinou uma declaração conjunta de apoio ao projeto da Saab, juntamente com a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM-CUT) e o sindicato nacional da categoria na Suécia, o IF Metall. Em fevereiro, essas entidades voltaram a se reunir, para trocar informações sobre a indústria e as relações de trabalho no Brasil e no país europeu. Segundo os sindicalistas, o modelo de relações de trabalho praticado pela empresa também pesou na decisão de apoiar o projeto por fim escolhido.

O presidente do IF Metall, Anders Ferbe, afirmou que o papel da fábrica é garantir, tanto do Brasil como da Suécia, condições e relações de trabalho dignas. Segundo o presidente da CNM-CUT, Paulo Cayres, a expectativa é de que a transferência de tecnologia possibilite também a qualificação dos trabalhadores brasileiros. (Vitor Nuzzi)

 

estragos

Política externa: o PSDB e o rinoceronte

FHC insistiu em elogiar a indefensável passagem do ex-ministro José Serra no Itamaraty, durante a qual promoveu o enterro da política tradicional brasileira
por Flávio Aguiar publicado 09/03/2017 09h51, última modificação 09/03/2017 11h32
Gerdan Wesley / Itamaraty.gov
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Serra (esq) introduziu um estilo cheio de gafes, além de reduzir o Brasil a um zero à esquerda na diplomacia mundial. Aloyzio, também truculento, é o sucessor

Seria patético, não fosse coisa de pateta. FHC (o que sobrou do professor Fernando Henrique Cardoso, o Príncipe da Sociologia que se tornou o Barão de Higienópolis) tentou defender pela imprensa a gestão de José Serra no Itamaraty. É o mesmo que elogiar o rinoceronte depois da sua passagem pela loja de porcelana.

O aparelhamento do Itamaraty pelo PSDB, dentro da política de distribuição de prebendas e sinecuras de Michel Temer, é a pior coisa que aconteceu para a política externa brasileira desde a Independência, e até desde antes, os tempos de Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madri, de 1750 (embora este tivesse consequências funestas para as Missões Jesuíticas do Rio Grande do Sul).

José Serra promoveu o enterro da política tradicional brasileira, de sublinhar a negociação em detrimento da agressão, coisa definida profissionalmente pelo estilo consagrado de Rio Branco. O Brasil teve políticas diplomáticas mais agressivas, mas em tempos caracterizados por campanhas de ocupação, consequências de guerras declaradas ou não, como foi o caso dos conflitos em torno do Rio da Prata e depois da chamada Guerra do Paraguai. Teve ainda outros pontos de conflito, como no caso do Acre, mas que terminaram na mesa de negociação. Ainda durante a ascensão do nazi-fascismo na Europa, diplomatas brasileiros se comportaram de maneira vergonhosa, favorecendo a perseguição dos judeus. Mas outros se comportaram de modo mais digno, facilitando sua fuga.

Nem mesmo durante a ditadura o Brasil foi tão belicoso do ponto de vista diplomático – embora apoiasse golpes e ditaduras em seu entorno, e o governo brasileiro fizesse uma campanha sibilina para que dom Helder Câmara não ganhasse o Nobel da Paz, que acabou sendo atribuído a Willy Brandt (não que este não o merecesse) em 1971.

José Serra introduziu um estilo cheio de gafes, como o de fazer piada de mau gosto sobre o alto número de mulheres na política mexicana, prever a vitória de Hillary Clinton, agredir os vizinhos cujos governos fossem de esquerda, além de reduzir o Brasil a um zero à esquerda na diplomacia mundial. O Itamaraty sob intervenção periga tornar-se um apêndice do Departamento de Estado norte-americano.

Agora este estilo é reconsagrado por Aloysio Nunes, o ex-companheiro Mateus dos tempos da ALN, que já partiu para a agressão ao governo venezuelano, com mais ares de pitbull do que de rinoceronte.

Está certo que o campo da diplomacia internacional está longe de ser uma loja de porcelanas. Nem por isso é um quartel de divisões de artilharia.

Porém seria injusto atribuir esta inoperância diplomática apenas às personalidades de ambos os chanceleres. Não. Ela se deve também ao mundo mental que impera no PSDB, anacrônico, herdeiro contumaz dos efeitos da Guerra Fria no nosso continente, crente fanático na dependência dos centros hegemônicos da política ocidental, como se estes centros ainda fossem hoje os governos de Washington, Londres, Paris, e não os moguls financeiros assentados em Wall Street, na City londrina – a bolsa de Paris está fora de moda, e o poder na Europa se divide, em Frankfurt, entre o Banco Central Europeu e o Alemão.

Paradoxalmente, correm ecos de que a intervenção do PSDB no Itamaraty provocou um  certo alívio entre os diplomatas de carreira, mesmo aqueles que seriam simpáticos a esta guinada para o anacronismo. O motivo desta sensação seria a percepção de que para o Itamaraty profissional seria mais danoso ter que assumir diretamente a responsabilidade pela política externa de um governo tão pífio quanto o de Temer, que está reduzindo o prestígio internacional do Brasil a uma cifra mais negativa do que o seu PIB.

Anistia Internacional: a volta do tempo do 'odeie seu vizinho'

por Flavio Aguiar publicado 23/02/2017 10h31
Gage Skidmore/Flickr
trump

Segundo a Anistia, slogans de Trump são discriminatórios e ameaçadores para imigrantes e estrangeiros

A Anistia Internacional lançou um brado de alerta, em novo relatório, dizendo que os tempos do “odeie seu vizinho”, característico dos anos 30 do século passado, estão de volta.

O documento parte da situação inglesa depois da votação do Brexit, em junho do ano passado. Aponta o texto que os ataques motivados por intolerância étnica, política, religiosa ou outra tiveram um aumento vertiginoso no país depois daquele plebiscito, afirmando que as denúncias aumentaram 57% em relação ao ano anterior. Kerry Moscoguiri, diretora da Anistia britânica, apontou que se agravou o clima de hostilidade contra refugiados e imigrantes, sobretudo crianças desacompanhadas.

Tirana Hassan, diretora de pesquisas sobre crises da Anistia, alertou que está se alastrando universalmente o sentimento de “algumas pessoas são menos humanas do que outras”.

A organização deu como referências diretas desta nova situação, além da situação britânica e dos preconceitos contra refugiados e imigrantes, a atuação do chefe de governo húngaro, Victor Orban, do novo presidente norte-americano, Donald Trump e do filipino Rodrigo Duterte, com sua pregação a favor do assassinato de narcotraficantes e também de drogados.

Outra diretora da Anistia britânica, Kate Allen, fez uma referência direta ao discurso de Trump sobre “making America great again” – “tornar os Estados Unidos de novo grandes” –, como discriminatório em relação a outras coletividades, além “hacking back our country” –, “tomar de volta o nosso país” –, frase considerada ameaçadora em relação não só aos muçulmanos, mas também a imigrantes e estrangeiros de um modo geral.

Moscoguiri ainda se referiu aos bombardeios aéreos contra populações civis na Síria e no Iêmen, também contra instituições hospitalares, e ao uso de armas químicas em conflitos armados, denunciando que está em vigência um clima de que algumas pessoas têm direitos humanos e outras não.

Apesar desta deterioração generalizada, o documento ressalta que há reações positivas, como o fim pacífico da ditadura na Gâmbia.

Às denúncias da Anistia poder-se-iam ajuntar outras, como a dos avanços generalizados de grupos políticos de extrema-direita na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina.

Nosso país não escapou nem escapa deste avanço das campanhas de ódio, promovidas por grupos e por mídias que desejam avidamente barrar os avanços das esquerdas e a promoção de mais direitos sociais para pobres e minorias ou grupos que sofrem discriminação.

Campanhas como “vamos tirar o Brasil do vermelho” e outras contra o uso de roupas desta cor só aumentam o clima de insegurança e repressão. Também a campanha aberta de ódio e de perseguição policial e judicial ao ex-presidente Lula entra nesta referência.

Do lado positivo ainda se poderiam mencionar iniciativas como a da reconstrução de uma mesquita incendiada nos Estados Unidos, no estado do Texas, ou a de cidadãos muçulmanos, no mesmo país, que arrecadaram 55 mil dólares para ajudar a reparação de um cemitério judaico que foi profanado por autores ainda desconhecidos.

resistência

Cineastas leem manifesto pelo cinema brasileiro na embaixada em Berlim

Em evento de apresentaçao da participação nacional no Festival Internacional de Cinema da capital alemã, artistas afirmaram que Brasil vive crise democrática e que o audiovisual brasileiro pode acabar
por Flávio Aguiar publicado 15/02/2017 15h39, última modificação 15/02/2017 15h46
Reprodução/TVT
TVT

Produções brasileiras costumam agradar crítica e público da Berlinale

Como já é costume de longa data, a embaixada do Brasil em Berlim ofereceu, nesta terça-feira (14), uma recepção aos cineastas e cinéfilos brasileiros presentes à 67ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, conhecido como Berlinale.

A novidade deste ano ficou por conta da leitura de uma carta/manifesto dos cineastas, cujo teor se pode ler abaixo:

"Estamos aqui reunidos nesta noite para comemorar esta coisa fenomenal que são doze filmes brasileiros presentes na Berlinale, um dos festivais mais importantes do mundo, um momento incrível. Nesta oportunidade, sabendo que as embaixadas do Brasil sempre foram lugares muito incríveis, muito resistentes, embaixada é Estado, não é governo. Então a gente está aqui para dar um recado, a gente escreveu uma carta, e a gente vai ler uma pequena versão dela. Ela foi assinado por muita gente ligada ao cinema, não só no Brasil, também no exterior. A gente queria agradecer vocês por esta oportunidade de falar, e vamos começar a leitura:

"Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Com um ano deste governo, direitos de saúde, educação e trabalhistas foram duramente atingidos. Junto com todos os outros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre risco de acabar. Nos últimos anos, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) tem direcionado suas diretrizes, observando com atenção os muitos Brasis. Ampliou o alcance dos mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos e formatos dos mais diversos, entre eles, o cinema autoral, aqui representado.

"O resultado é visível. O ano de 2017 começou com a expressiva presença de filmes brasileiros nos três dos principais festivais internacionais, totalizando 27 participações em Sanders, Roterdã e Berlim. Não chegamos a este patamar histórico sem política pública. Tudo o que se alcançou até aqui é fruto de um grande esforço conjunto dos agentes envolvidos, entre a Ancine, produtores, realizadores, distribuidores, exibidores, programadores, artistas, lideranças, poder público, entre outros.

"Acima de tudo, queremos garantir que toda e qualquer mudança ou aperfeiçoamento nas políticas públicas do audiovisual brasileiro sejam amplamente debatidas com o conjunto do setor e com toda a sociedade. Assim, pedimos às instituições, produtores e realizadores de todo mundo que apoiem a luta e a manutenção de todos os tipos de audiovisual no Brasil. Defendemos, aqui, a continuidade e o incremento desta política púbica."

A seguir, o embaixador Mário Vilalva tomou a palavra:

"Como  Embaixador do Brasil, aqui em Berlim, eu quero dizer que eu recebo muito bem a reivindicação desta carta. Acho que a reivindicação é justa, acho que é democrático expor os problemas do setor, e quero dizer que podem contar com meu apoio para esta finalidade. Nós também queremos que o cinema brasileiro seja cada vez mais projetado no mundo. Nós estamos vivendo, aqui, um momento único do cinema brasileiro, com doze filmes participando de um dos maiores festivais do mundo.

"É um festival que acolhe cinemas estrangeiros, não é um festival que acolhe apenas filmes do país, como acontece em alguns outros festivais, que acolhem filmes do país e de forma muito lateral acolhem filmes estrangeiros. Aqui não, aqui o festival acolhe filmes do mundo inteiro. Portanto eu quero dizer que a reivindicação de vocês é uma reivindicação absolutamente válida, conta como nosso apoio. Nós queremos cada vez mais recursos para o cultura brasileira e eu tenho certeza de que o governo brasileiro é muito sensível a essa área.

"O governo brasileiro tem interesse também em que o Brasil seja cada vez mais projetado no mundo através das suas artes, das diversas formas de arte, nano só cinema, mas também na pintura, na música, no teatro, enfim, em todas as expressões brasileiras. Portanto, contem com o nosso apoio. Estaremos, na medida do possível, batalhando para que o cinema brasileiro tenha mais recursos e se Deus quiser no ano que vem vamos ter, ao invés de doze, vinte filmes brasileiros aqui. Obrigado pela presença de todos."

O governo Temer ouvirá as ponderadas palavras de seu embaixador? 

Alguém aí acredita?

Na TVT: Brasil terá 12 filmes no festival. Assista

 

paralelos

O caso Guttenberg e o caso Moraes

Guttenberg renunciou após ser acusado de plágio. Alexandre de Moraes também reproduz, em seu livro, trecho de outra obra sem citar a fonte
por Flávio Aguiar publicado 09/02/2017 16h10
WIKICOMMONS/EBC
Karl zu Guttenberg alexandre moraes.jpg

No caso Guttenberg a mídia alemã caiu-lhe em cima. Dificilmente a mídia brasileira fará o mesmo com Moraes

As paralelas, a gente sabe, só se encontram no infinito. E assim deve ser visto o caso das paralelas entre o ex-ministro Karl zu Guttenberg, da Alemanha, e o atual ministro da Justiça, futuro do STF, Alexandre de Moraes.

Ambos foram acusados de plágio. O de Guttenberg, é verdade, era bem mais grave: páginas e páginas copiadas, sem citar a fonte. Até agora, no caso Moraes, a acusação se prende a linhas e linhas, mas também sem citar a fonte.

No caso Guttenberg, as decisões foram fulminantes. Renunciou ao cargo do ministro, perdeu o título de doutor, ficou mais por baixo que poça sob tapete de banheiro, para não citar outras expressões mais chulas.

O caso Moraes vai dar em algo? Duvido. No caso Guttenberg a mídia alemã caiu-lhe em cima. Vai a mídia conservadora brasileira fazer o mesmo? Ora, ora, só no dia em que nevar em Belém do Pará.

A mídia conservadora no Brasil está disposta a empurrar aquele que considerava um ministro inadequado para o cargo que considera de um ministro do STF conveniente. Para quê? Para estancar os efeitos de quaisquer apurações de corrupção contra os que considera inabaláveis colunas da “sua” república, mantendo as acusações - mesmo as mais infundadas - apenas contra os políticos de esquerda, em particular, Lula.

Há uma visível queda de braço, nos bastidores da República do Cunha, entre os que querem proteger a impunidade dos políticos conservadores citados na Operação Lava Jato e arredores, e a ambição da República de Curitiba, com Moro e Dallagnol à frente. Vai ser uma disputa emocionante.

A República de Curitiba cumpriu seu papel apenas parcialmente. Não conseguiu reunir provas convincentes contra Lula e família. Mas conseguiu acuar o presidente mais popular do Brasil, fazendo dele o novo Tiradentes da nossa história, empurrando-o para a aura do martírio. Para tanto, contou com a aliança firme das empresas de comunicação, capitaneadas pela Globo, que foi e continua sendo copiada pelas demais.

Porém, se a República de Curitiba for deixada à solta, é capaz de sua sede de poder ir longe demais, desestabilizado de vez o fragilíssimo governo Temer. A queda deste pode mergulhar o projeto golpista num caos imprevisível, com a eleição de um presidente por um Congresso completamente desacreditado atém mesmo perante a mídia que hoje defende este status quo.

Por isto a mídia conservadora precisa investir em estancar a até agora decantada em prosa e verso Operação Lava Jato. Motivos não faltam para tanto. A antiga República do Galeão, de 54, dez estrepolias: torturou à vontade. e criou uma antecipação curiosa destes tempos de pós-verdade, quando conseguiu que a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, imprimisse uma edição de jornal com um único exemplar. Esta, que deveria estar no Guinness, era só para que Gregório Fortunato, o infeliz guarda-costas de Getulio, lesse, com a manchete de que seu protetor, Benjamin Vargas, irmão do presidente, fugira para o Uruguai, o que era mentira. Hoje em dia os próceres da Lava-Jato municiaram a mídia com acusações e acusações sem provas, mas com convicção, que foram reproduzidas ad nauseam.

Resta ver quem vai ganhar nesta queda de braço. No meio dela, Alexandre de Moraes é um peão, apenas, mas que pode ter poderes de bispo para blindar seus aliados no governo o Temer. Zu Guttenberg caiu. Mas aqui era a Alemanha, o governo era de Merkel, e a Universidade  era a de Bayreuth. No caso de Moraes, trata-se do Brasil, o governo Temer, e a universidade é a USP.

A ver.

 

luz e memória

À eterna primeira-dama, dona Marisa, e ao sempre presidente Lula

por Flávio Aguiar publicado 02/02/2017 12h18, última modificação 02/02/2017 12h41
Ricardo Stuckert / I. Lula
LULA-E-MARISA-1200.jpg

 

Neste momento doloroso, penso no poema de Geir Campos:

Não faz mal que amanheça devagar,
As flores não têm pressa, nem os frutos.
Sabem que a vagareza dos minutos
Adoça mais o outono por chegar.

Não, não faz mal que devagar
O dia vença a noite em seus redutos
De Leste; o que importa é ter enxutos
Os olhos, e a intenção de madrugar.

Valeu, vale!

repetição

Proibição a imigrantes não é novidade nos Estados Unidos

Restrições à circulação de estrangeiros foram e são recorrentes na história, mas esta é a primeira vez que a medida tem por critério, além de um país de origem, a religião do discriminado
por Flávio Aguiar publicado 31/01/2017 10h43, última modificação 31/01/2017 10h47
Flickr/Andy Worthington
trump racista

Efeito contrário. Proibição de entrada de refugiados e imigrantes pode acirrar os ânimos e reforçar terrorismo

Causou um reboliço enorme a proibição, por parte do governo Trump, da entrada de imigrantes muçulmanos provenientes do Irã, da Síria, da Líbia, da Somália, do Iraque, do Iêmen, e do Sudão. Além de protestos e perturbações generalizadas (por exemplo, companhias aéreas tiveram de mudar tripulações de última hora, equipes de acadêmicos tiveram de cancelar viagens já programadas para encontros universitários), a proibição começou a provocar retaliações: o Irã já proibiu a entrada de cidadãos norte-americanos. Comentaristas vêm sublinhando a hipótese de que a medida vai acirrar os ânimos, favorecendo a intensificação de ataques terroristas, ao invés de arrefece-los. 

A proibição vale por 90 dias, aliada a outra especificamente dirigida a “refugiados”, que vale por 120.

Um dado importante a considerar é que proibições ou restrições deste tipo foram e são recorrentes na história dos Estados Unidos, variando os alvos da discriminação. Abaixo confira os exemplos, a partir de uma lista elaborada pela rede de TV Al Jazeera:

– Em 1882 o presidente Chester A. Arthur proibiu a entrada de trabalhadores chineses no país, qualificados ou não, e impôs uma série de restrições aos que já estavam nos Estados Unidos, durante 10 anos. A proibição foi sendo renovada, com variantes, até 1943.

 Em 1903 o presidente Theodor Roosevelt proibiu a entrada de imigrantes anarquistas.

– Como vários outros países, inclusive o Brasil, durante a ascensão do nazi-fascismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos restringiram as quotas de imigrantes judeus, sob a alegação de problemas de segurança. O caso mais dramático foi do navio Saint Louis, com 937 pessoas a bordo, na maioria de origem judaica, forçado a regressar à Europa. Segundo consta, 25% dos passageiros morreriam depois nos campos de concentração nazistas.

– A partir de 1950, durante o período do macarthismo, foi proibida a entrada de comunistas nos Estados Unidos. Até recentemente quem se candidatava a um visto de entrada no país tinha de responder a pergunta, por escrito, se já pertencera a algum partido comunista.

– Em 1979, depois da ocupação da Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, o presidente Jimmy Carter proibiu a entrada de iranianos no país. A proibição durou enquanto a Embaixada permaneceu ocupada, até janeiro de 1981.

– Em 1987 o presidente Ronald Reagan restringiu a entrada de portadores de HIV no país. A restrição só foi relaxada em 2009, pelo presidente Barack Obama, depois de um processo iniciado por seu antecessor, George Bush, Filho.

Entretanto, esta é a primeira vez que uma medida deste gênero tem por critério, além de um país de origem, a religião do discriminado. No caso dos judeus, por exemplo, a restrição era independente da religião, baseando-se na discriminação por origem étnica.

Um outro aspecto interessante levantado na mídia norte-americana que está se voltando maciçamente para a oposição a Trump, é o da pergunta de por que a restrição não atingiu outros países árabes ou de maioria muçulmana. Um rápido levantamento feito pelo jornal The New York Times apontou para a hipótese de que Donald Trump tivera ou ainda teria interesses econômicos nestes países que seriam também fortes candidatos a serem alvo da discriminação, como o Afeganistão, o Egito, a Argélia, o Líbano, a Jordânia, a Arábia Saudita etc.

O que traz à luz uma variante de conhecido ditado: discriminações, discriminações, negócios à parte...