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Diagnóstico errado

Falta de ações preventivas causou o surto de febre amarela, diz Padilha

“Quando se tem um risco do aumento de casos, você antecipa as ações”, afirma ex-ministro da Saúde. Para ele, governos Temer, Alckmin e Doria já deveriam ter ampliado a área de vacinação
por Redação RBA publicado 02/02/2018 19h08, última modificação 02/02/2018 19h25
“Quando se tem um risco do aumento de casos, você antecipa as ações”, afirma ex-ministro da Saúde. Para ele, governos Temer, Alckmin e Doria já deveriam ter ampliado a área de vacinação
Divulgação
Alexandre_Padilha

"No começo de 2017 estava claro que era necessário ampliar a vacinação na região metropolitana de São Paulo", afirma Padilha

São Paulo – Médico infectologista e ex-ministro da Saúde do governo de Dilma Rousseff, Alexandre Padilha avalia como “muito preocupante” o surto de febre amarela em alguns estados, como Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. Para ele, os cortes no orçamento da vigilância em saúde efetuados pelos governos federal e estadual e pela prefeitura de São Paulo foram decisivos para se chegar à situação.

“Um dos motivos disso foi o diagnóstico absolutamente equivocado feito pelo Ministério da Saúde de que o surto no país havia acabado, um diagnóstico que não compreende a realidade da febre amarela”, disse o ex-ministro, nesta sexta-feira (2), em entrevista ao jornalista Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual. Padilha lembrou que entre 2008 e 2009, quando José Gomes Temporão era o ministro da Saúde, houve um número bem menor de casos, mas já havia sinais de que, se houvesse um surto, provavelmente se estenderia por um período maior que um ano, com risco de expansão para outras regiões.

Segundo Padilha, naquela ocasião o planejamento e a ação foram mais corretos, com a ampliação da vacinação nas regiões onde havia o surgimento de novos casos, ao contrário da avaliação feita pelo Ministério da Saúde em 2017, de que o surto teria acabado. Nesse sentido, Alexandre Padilha critica a falta de antecipação das ações por parte do governo do estado e da prefeitura de São Paulo.

“Quando se tem um risco do aumento de casos, você antecipa as ações”, afirma o também ex-secretário municipal de Saúde da gestão Fernando Haddad. Como exemplo, ele explicou que no final de 2015 havia o risco de aumento de casos de dengue em São Paulo, e o governo municipal se antecipou ao surto.

“Outro fator preocupante foi a ausência de campanha de combate a dengue, gripe e chikungunya, que geralmente começa em dezembro. Não se vê por parte do município e do governo estadual ações mais efetivas no combate à dengue. Sempre pode oscilar o número de casos ao longo do ano, mas é fundamental que as ações aconteçam.”

De acordo com ele, o desmonte dos serviços de vigilância, por se achar que não há mais casos, resulta no atual cenário. Padilha recorda que até a década de 1980 havia muitos casos de febre amarela silvestre na região amazônica e no cerrado, mas que a partir da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988, e o fortalecimento do programa de imunização, foi possível atingir coberturas vacinais cada vez mais elevadas nestas duas regiões. Como resultado, a partir dos anos 1990 os principais surtos de febre amarela não aconteciam mais ali, e sim em outras áreas com maior presença do ser humano no mesmo ambiente em que vivem macacos – animais que não transmitem diretamente o vírus para o ser humano, mas são contaminados pelo mesmo mosquito que também atinge homens e mulheres.

“O que está acontecendo hoje é como se fosse a resposta da natureza à ocupação do ser humano, seja com o turismo ecológico, com atividades de extrativismo, atividades ocupacionais ou econômicas pontuais, ou mesmo com a invasão de condomínios fechados em áreas de antigas matas e florestas”, aponta.

O ex-ministro explica que desde os anos 1990 os surtos que ocorreram foram bem controlados em função da rápida cobertura vacinal, ampliando-se as regiões que antes não tinham necessidade de receber a vacina. Padilha afirma que desde 2015 havia sinais – “E o Ministério da Saúde foi alertado disso”, diz – da ocorrência de casos em florestas próximas a grandes cidades, locais com maior presença humana, como Minas Gerais, Espírito Santo e o interior de São Paulo, nas regiões de Campinas e Araraquara.

"No começo de 2017 já estava claro que era necessário ampliar a vacinação na região metropolitana de São Paulo. Infelizmente, isso não foi feito porque o Ministério [da Saúde] não forneceu vacinas adequadas e também porque o governador Alckmin e o prefeito Doria, pela aliança que têm com o governo Temer, foram muitos tímidos na cobrança com relação a isso", afirma.

Cobertura da mídia

Padilha avalia que nos anos de 2008 e 2009 parte da imprensa brasileira fez uma “cobertura alarmista” dos casos que surgiam, tendo como consequência na época um “surto de epidemia vacinal”, ou seja, um grande número de pessoas se vacinando sem indicação.

“Lembro de colunas em jornais importantes cobrando do ministro (José Gomes Temporão) que as pessoas precisavam de mais vacina, e agora houve uma demora no mesmo perfil de cobertura, com falta de cobrança mais clara sobre o governo Temer e da parte do governo do estado, com a falta de cobrança do governador, pois os técnicos do governo estadual já vinham alertando, desde o começo de 2016, da importância de se ampliar a cobertura vacinal na região metropolitana de São Paulo“, avalia.

De acordo com Padilha, isso não significa que a população devesse sair “desesperada” para se vacinar, mas era necessário ampliar a cobertura em bairros e cidades da região metropolitana de São Paulo com presença forte de florestas, como Mairiporã e São Bernardo do Campo.

Para ele, a lentidão das ações de vigilância pode ter relação com a falta de recursos e capacidade dos laboratórios de saúde pública em fazer a sorologia e os exames na velocidade necessária.

30 anos do SUS

No ano em que o SUS completa 30 anos de criação, Padilha afirma que o Brasil não teria reduzido a mortalidade infantil e materna, a região amazônica não teria controlado os casos de febre amarela e reduzido os casos de malária, e o país não teria se tornado um dos maiores realizadores de transplantes do mundo, além de ter expandido a oferta de medicamentos, se não existisse o SUS.

“Isso não significa que o SUS seja só uma história de sucesso, pelo contrário”, pondera. “Desde sua criação, ele vem sofrendo ataques, e o mais brutal, quase uma sentença de morte, é a alteração da Constituição feita pelo governo Temer que congela por 20 anos os recursos da saúde do país. Na prática isso, significa um descompromisso do país em manter um projeto de saúde pública universal para todos.”

Padilha acredita que recuperar a capacidade de financiamento do SUS é o grande desafio da atualidade. Como possibilidades, o ex-ministro cita os recursos do pré-sal, a criação de um imposto sobre grandes heranças que possa financiar a saúde, assim como a venda de tabaco e bebidas alcoólicas, além do desafio de formar profissionais que possam se dedicar ao sistema público de saúde.

Ouça a íntegra da entrevista: