Negacionismo light

Doria ignora interrupção de melhora da pandemia e anuncia novas flexibilizações na sexta

Nas últimas semanas, após as flexibilizações de Doria, houve estagnação dos números em patamares mais elevados do que em outros momentos da pandemia

Flickr/Governo de SP
Embora diferente de Bolsonaro, negacionismo de Doria se mostra nas flexibilizações da quarentena sem critério e com alto número de mortes

São Paulo – Ignorando que os números de casos, internações e mortes por covid-19 pararam de cair no estado de São Paulo, mantendo-se em patamares muito elevados, o governador João Doria (PSDB) afirmou hoje (5) que novas flexibilizações na quarentena serão anunciadas na próxima sexta-feira (7). “Depois de amanhã, nós apresentaremos a nova fase do Plano São Paulo, que começa a valer a partir da segunda-feira da próxima semana. Estamos otimistas com relação à evolução do processo, migrando, talvez, para uma fase menos restritiva”, disse Doria. Na semana passada, o governador já havia indicado que o plano sofreria alterações, para permitir maior abertura do comércio, mesmo com a pandemia descontrolada.

Doria não deu detalhes de como será essa nova fase de flexibilizações. Atualmente, todo o estado está na fase de transição da quarentena, inventada por Doria para liberar a abertura de todo o comércio e os serviços, além de academias, clubes, teatros e cinemas, entre as fases vermelha e laranja, que são as mais restritivas. Essa fase não faz parte do escopo original do Plano São Paulo e, na prática, é tão branda quanto a fase amarela. Essas mudanças marcam uma rendição do governador à pressão de empresários que dizem não aceitar mais as medidas de combate à covid-19.


Pobres e negros têm mais risco de morrer de covid-19 e devem ser priorizados na vacinação


A pandemia, no entanto, não se rendeu. Após algumas semanas de queda nos números de novos casos, internações e mortes por covid-19, a comparação das últimas duas semanas mostra uma estagnação. No entanto, em patamares que só não maiores do que os ocorridos nos meses de março e abril deste ano. Das 17 regiões do estado, 12 ainda estão com ocupação de UTI acima de 80%, sendo que cinco estão acima de 90%.

É preciso considerar que, hoje, São Paulo tem mais de 13 mil leitos de UTI. No final de fevereiro, eram 9.245. Isso faz com que possa haver muito mais pessoas internadas e a taxa de ocupação de UTI ser menor do que em outros momentos da pandemia, distorcendo a análise da situação.

Com as unidades de terapia intensiva (UTI) lotadas, São Paulo teve milhares de mortes de pessoas com covid-19 esperando por um leito de UTI, entre os meses de março e abril. Depois disso, com as medidas mais restritivas da quarentena, as novas internações registraram quatro semanas de queda. Mas agora, passadas duas semanas do afrouxamento da quarentena por Doria, o número parou de cair e estagnou com média acima de 2.200 internações por covid-19 por dia, nas últimas duas semanas. Hoje, há 10.235 pessoas internadas em UTI e 11.048 internados em enfermarias.

Flexibilizações com a contaminação descontrolada

Após dois meses de aumentos constantes de casos, chegando a superar uma média de 16 mil novos casos de covid-19 por dia, São Paulo registrou duas semanas de quedas no número de novas contaminações, por conta das medidas de restrição das fases vermelha e emergencial da quarentena.

No entanto, com duas semanas das flexibilizações determinadas por Doria, a queda foi interrompida e a última semana teve média de 12.887 novos casos por dia, um aumento de 2,5% em relação à semana anterior. Esse patamar só não é maior do que os ocorridos nos meses de março e abril deste ano, o que mostra que a situação ainda é de descontrole da pandemia.


São Paulo tem mais mortes pela covid-19 em quatro meses de 2021 do que em todo o ano passado


São Paulo chegou a registrar mais de 1.000 mortes por covid-19 ocorridas em um único dia. Depois isso, o número de novas mortes também caiu por duas semanas, mas hoje estagnou em uma média de mais de 600 mortes por dia. Abril foi o mês mais mortal da pandemia, com um total de 21.358 óbitos por covid-19. Também foi o mês com mais casos confirmados, desde o início da pandemia: 433.701.