Efeito colateral

Bolsonaro contribui para agravar transtornos mentais decorrentes da pandemia

Segundo o professor de Psicologia Clínica Nelson Silva Filho, presidente sofre de “negação maníaca”, ao se recusar a acreditar nas duras restrições impostas pela pandemia

Marcos Corrêa/PR
Governo Bolsonaro é fonte constante de más notícias que causam estresse crônico

São Paulo – Além da alta letalidade, a pandemia do novo coronavírus contribui para o agravamento de transtornos mentais na população. Sem poderem se despedir dos que foram levados pela doença, as famílias não podem realizar o luto adequadamente. Por outro lado, o isolamento social tem acarretado o aprofundamento de casos graves de depressão, que podem levar até mesmo ao suicídio. Enquanto isso, há uma espécie de “apagão” dos dados relativos à saúde mental.

Também se multiplicaram os casos de abuso de bebidas e outras drogas. Soma-se, ainda, o aumento dos casos de violência doméstica. Segundo professor do departamento de Psicologia Clínica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Nelson Silva Filho, que é mestre em psicologia da Saúde e doutor em doenças tropicais, todo esse quadro é exacerbado pela incompetência do governo do presidente Jair Bolsonaro no combate à doença.

Em entrevista ao Jornal Brasil Atual, nesta terça-feira (19), Bolsonaro é a personificação da “negação maníaca”, que contribui para colocar ainda mais a vida das pessoas em risco.

“Temos outro problema muito grande, que chamamos de negação maníaca. As pessoas se recusam a acreditar que estão vivendo esse momento, com os limites que essa época nos coloca. Se expõem ao risco e expõem os outros também. Me parece uma coisa bastante patológica, embora tenha respaldo social na figura do presidente da República, que minimiza, que ridiculariza a severidade da situação que estamos vivendo”, afirmou o especialista.

Estresse

Além disso, o psicólogo aponta que a série de más notícias envolvendo o governo, como a falta de vacinas e o desincentivo a medidas de isolamento social, são uma fonte de estresse crônico. Irritadas e sob pressão, as pessoas podem cometer erros nos cuidados e na prevenção à doença. Ademais, a falta de uma estratégia coordenada deve prolongar ainda mais o martírio da pandemia, estendendo o sofrimento que poderia ser evitado.

“Se as pessoas não ficarem irritadas com esse governo, tem algo errado. Talvez estejam doentes. Ou não estão levando em consideração o que estamos vivendo. É um fator estressante, porque aumenta o risco em atividades fora de casa. Poderíamos não ter que lidar com isso”, lamentou.

Falta atendimento

De acordo com Silva Filho, o novo coronavírus pode causar lesões neurológicas com sequelas duradouras. Enquanto isso, o governo federal vem promovendo um desmonte nas políticas de saúde mental. Faltam dados, por exemplo, sobre os casos de suicídio durante a pandemia. Ele também destaca que faltam equipamentos públicos voltados para o atendimento psicológico da população. Assim como vem ocorrendo na educação, o psicólogo diz que as terapias “mediadas” pelas telas de celulares e computadores são insuficientes para os casos mais graves.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira – Edição: Helder Lima


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