Contra o coronavírus

Vacina russa ou americana não importa. Guerra é contra a covid-19, diz Padilha

Falta de coordenação do governo brasileiro em relação à pandemia de covid-19 coloca país em situação frágil diante dos avanços da ciência

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Padilha: "Pode haver uma guerra da vacina no Brasil por uma falta de coordenação do Ministério da Saúde. Incapaz de coordenar esse processo, a ocupação militar no ministério está perdida neste assunto"

São Paulo – Ex-ministro da saúde, o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) alerta que vacina contra covid-19 não pode ser alvo de guerra ideológica ou comercial. “É preciso aprovar a lei que assegura o acesso a todos.” O parlamentar, que é médico infectologista, analisa a corrida mundial em torno da produção de uma vacina contra o novo coronavírus. “Deter uma vacina, além de salvar vidas, significará soberania para a recuperação econômica nesta pandemia”, afirmou.

Para Padilha, “não importa” se a vacina é russa, chinesa, britânica, estadunidense, alemã: “O que deve importar ao povo brasileiro é termos acesso à essa vacina. Para isso, ela não pode ser monopólio da empresa que vai produzi-la”. Como forma de garantir o direito, o parlamentar defende a quebra do monopólio da patente de vacinas no país, que tramita na Câmara dos Deputados, a partir de projeto de lei assinado por diferentes políticos.

No Brasil, avalia o deputado, o cenário fica mais nebuloso, em razão do descaso do governo federal em lidar com a pandemia. “Pode haver uma guerra da vacina no Brasil por falta de coordenação do Ministério da Saúde. Incapaz de coordenar esse processo, a ocupação militar no ministério está perdida neste assunto”, disse. A pasta desde 15 de maio é controlada interinamente por um militar, Eduardo Pazuello, que não possui experiência médica. “Cada estado, cada instituição pública, tem de correr por si só para tentar trazer essas inovações”, completa.

O Paraná já anunciou que trabalha em um acordo com a embaixada russa para produzir a vacina no estado. Em São Paulo, o Instituto Butantã possui convênio e testa (em terceira fase) a Coronavac, vacina desenvolvida pela China, e com ampla testagem no Brasil. O acordo prevê ainda transferência de tecnologia.

Cautela

O anúncio do presidente da Rússia, Vladimir Putin, sobre a aprovação da primeira vacina do mundo contra a covid-19 (Sputnik V) foi recebido com cautela no mundo. Todo avanço no sentido de um imunizante é celebrado pela comunidade científica. Entretanto, a velocidade com que a Rússia anunciou ter chegado a uma vacina eficiente deve ser levada em conta. A covid-19 ainda passa por estudos sobre seu desenvolvimento em humanos. São muitas as incertezas, como a qualidade da imunização em já infectados, a probabilidade de reinfecção, a validade temporal de uma vacina e outros.

Seriam quatro as etapas para o desenvolvimento seguro de uma vacina. Três delas, em âmbito científico. Em um regime de progressão, os compostos são administrados em cada vez mais pessoas, chegando aos milhares na terceira fase. Já a quarta fase corresponde a fabricação, comercialização e aplicação em larga escala, que deve contar com acompanhamento e estudo de eficácia e adequações de segurança.

Corrida pela vacina

Para o epidemiologista e divulgador científico Atila Iamarino, a velocidade e a falta de compartilhamento dos resultados da Sputnik V chamam a atenção. “Adorei o nome (da vacina), mas não tem resultado, o tempo não bate e ela não segue boas práticas. Não é registrada, não publicaram artigos ou testes, nem mostraram que é segura”, escreveu, em seu perfil no Twitter.

“Teoricamente, ela (a Rússia) terminou os testes de fase 1 em junho ou julho. Precisariam fazer fases 2 e 3, de segurança e imunização. Pelo tempo que nossa resposta imune leva pra aparecer, não daria pra fazerem todos os outros testes até agora. Também não publicaram resultados de testes”, explicou o cientista.

Logo, a conclusão de Atila é pela cautela. “Essa ou qualquer outra vacina que for anunciada, ainda vai ter que passar por mais etapas de testes antes de aparecer pra todo mundo. Não se vacina 1 bilhão de pessoas sem saber qual a chance de efeitos adversos e quais seus efeitos com muita confiança.”