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Hospitais de campanha para a covid-19 no Brasil: uma história de atrasos e falta de planejamento

O Brasil pouco fez em relação à prevenção e controle de disseminação da covid-19. Sem esse trabalho essencial, os hospitais de campanha surgiram como esperança. Mas, após cinco meses de pandemia, a realidade é outra

Sergio Andrade-Governo de SP
Com uma capacidade de 200 leitos, o Hospital de Campanha do Pacaembu, em São Paulo, já está desativado, como muitos pelo Brasil

São Paulo – O Brasil é um dos países mais impactados pela covid-19 no mundo. A doença, provocada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), já deixa mais de 114 mil mortos e 3,5 milhões de infectados, sem contar a elevada subnotificação. Sem medidas preventivas e isolamento social de fato, os hospitais de campanha passaram a ser idealizados como essenciais. Então, cinco meses depois do início do surto, como estão essas estruturas?

A situação desses aparelhos de saúde varia muito de estado para estado, mesmo entre cidades. O panorama atual é de desmonte dos serviços. Muitos foram entregues com atraso em relação aos momentos de maior necessidade, como é o caso do hospital de Manaus; outros, sequer foram entregues, como no Rio de Janeiro.

O segundo estado mais afetado pelo vírus, depois de São Paulo, vive uma situação de descaso em relação aos hospitais de campanha. Pouco foi entregue, e estes poucos não ficaram totalmente prontos. Também não faltam escândalos de corrupção envolvendo suas construções, o que levou até à prisão de um secretário estadual de Saúde.

A importância dos hospitais de campanha, além de ampliar a capacidade hospitalar, reside em segurança sanitária. A covid-19 trata-se da pior crise sanitária em 100 anos, desde a gripe espanhola, que abalou o mundo em 1918. Pela grande capacidade de disseminação, facilidade no contágio, seria interessante isolar os pacientes infectados pelo vírus.

“Eles vão ser cada vez mais comuns no Brasil. Ao deixarmos as pessoas que estão em uma zona cinzenta de gravidade nesses lugares, evitamos a contaminação de todos os hospitais, inclusive dos que não têm UTI”, disse, em abril, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

O político, que tem formação médica, foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, após defender que o Brasil deveria se preparar mais para a pandemia, em especial com medidas de distanciamento social. A visão da não agradou o presidente, que veio a demitir outro ministro, Nelson Teich, por motivos similares.

Pelo Brasil

Um dos maiores problemas na breve história dos hospitais de campanha foram os atrasos nas entregas. “Muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Mais leitos hospitalares ofereceriam tratamento com maior chance de sobrevivência. Por isso, muitos morreram em casa ou só foram admitidos nos hospitais em estado grave”, avalia o epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Jesem Orellana.

Jesem atua pela fundação em Manaus, uma das cidades mais afetadas pela pandemia, que chegou a ver seus sistema de saúde entrar em colapso. “Caso a sua inauguração tivesse ocorrido 10 ou 12 dias antes e com maior número de leitos e profissionais especializados/certificados para atuarem nesse tipo de cuidado, sua utilidade poderia ter sido maior”, disse.

O Hospital de Campanha de Manaus foi inaugurado no dia 13 de abril, às pressas, funcionou por 71 dias e foi desmontado em 15 de junho. “Em relação ao fechamento do hospital de campanha, é difícil afirmar que seu fechamento foi precoce, visto que a demanda por internações hospitalares havia caído consideravelmente nas três semanas anteriores, em comparação com abril e maio, por exemplo”, explica Jesem.

Entretanto, a desmobilização das medidas de isolamento social fizeram crescer novamente os casos e mortes na cidade, bem como em todo o país; 70% das mortes por covid-19 no Brasil aconteceram após as medidas de flexibilização tomadas por governadores e prefeitos. “O vírus continua circulando e circulando forte não só em Manaus. Provavelmente vivemos uma segunda onda”, disse.

“Nas três semanas seguintes do fechamento do hospital, o número diário de leitos de UTI ocupados por pacientes confirmados de covid-19 ou com suspeita, em média, foi próximo a 130, valor ainda muito alto”, completa o epidemiologista, que atua há 14 anos na Fiocruz do Amazonas. “A história vai cobrar muita gente pela história desastrosa da pandemia”, finaliza.

Nordeste

O Nordeste, de forma geral, passou pela pandemia de uma forma diferente das outras regiões. O conjunto dos governadores apostou mais em testes e os estados nordestinos estão entre os que mais testam, destaque para a Bahia e o Ceará.

No Piauí, o Hospital de Campanha do Verdão, em Teresina, funcionou por três meses e atendeu 402 pacientes, com 2% de letalidade, índice distinto, por exemplo, de Manaus, onde a letalidade chegou a quase 20%. O hospital no estado do governador Wellington Dias (PT) foi fechado na quinta-feira (20). Além dos atendimentos, o local foi ambiente de diversas pesquisas sobre a covid-19.

“Daqui, fizemos atendimento direto a centenas de pacientes, seja em leitos clínicos ou em salas de estabilização, vidas foram salvas. No hospital, por meio de sua equipe, por telemedicina, pelo uso da ciência, foi possível também salvar outras vidas que fizeram tratamento em casa, pois essa unidade ajudou que o Piauí não tivesse colapso na rede de saúde”, disse o governador.

Pernambuco foi o estado que mais recebeu hospitais de campanha depois de São Paulo. Na capital, Recife, foram sete estruturas, que são utilizadas, inclusive, por pessoas de outros estados vizinhos. O estado montou as estruturas; três provisórias e quatro centros de isolamento, logo no início do surto, embora tenha havido dificuldades para conseguir equipamentos, algo que se repete por todo o país.

As dificuldades para a obtenção de insumos vêm, majoritariamente, da falta de coordenação do governo federal, que está sem ministro da Saúde desde o dia 15 de maio. O governo Bolsonaro não executou 60% do orçamento aprovado pelo Congresso Nacional para lidar com a pandemia.

No maior estado

São Paulo é o estado mais afetado pela covid-19 no Brasil. Até o fechamento desta reportagem, pelo menos 730 mil infectados e mais de 27 mil mortos. O estado é o mais populoso da federação, com mais de 40 milhões de habitantes; 12 milhões na capital, o foco regional, com mais de 10 mil mortos.

No estado foram preparados cerca de 30 hospitais de campanha, muitos ligados à rede privada e, a maioria, executados por prefeituras. Na capital, dois grandes estruturas municipais foram montadas, no Pacaembu (200 leitos) e no Anhembi (887 leitos). Ambos foram desativados, o primeiro em meados de junho e o segundo no início de julho.

Agora, a cidade tem em funcionamento o hospital de campanha estadual do Ibirapuera, que conta com 268 leitos e a AME Barradas, em Heliópolis, com 166 leitos. As quatro unidades estaduais públicas seguem ativas. As outras unidades são em Campinas (35 leitos) e Bauru (40 leitos).

O Hospital de Campanha do Ibirapuera tem 120 pacientes internados, de acordo com informações da Secretaria Estadual de Saúde (SES). No total, o serviço já atendeu 2.711 pacientes, deu 1.976 altas e houve quinze óbitos.
A unidade conta com 268 leitos e foi inaugurada em 1º de maio. Em Heliópolis há 44 pacientes internados, sendo 18 em UTI. Já foram recebidos 961 pacientes na unidade; 807 tiveram alta e 110 faleceram devido à gravidade clínica 

Rio de Janeiro: o maior problema

O Rio de Janeiro é o estado em que a história dos hospitais de campanha ganha tons mais dramáticos. O governador do estado, Wilson Witzel (PSC), prometeu entregar sete unidades. Destas, apenas duas abriram para funcionamento de forma parcial; a do Maracanã e a de São Gonçalo. Segue ativo no estado apenas o Hospital de Campanha da Prefeitura, no Riocentro, que conta com 300 leitos.

As unidades construídas pelo governo do estado estão sendo desmontadas, mesmo inacabadas. Isso, depois de os hospitais passarem semanas como centros fantasmas. Faltavam profissionais e pacientes, que sequer foram direcionados corretamente. Os hospitais de campanha, de forma geral, não são abertos para o público, mas o sistema de saúde deveria ser encarregado de levar pacientes de outros aparelhos para eles.

O desmonte das unidades estaduais começou na quinta-feira (20) e não há cronograma estabelecido nem clareza sobre o destino dos aparelhos e instalações. De acordo com a secretaria estadual de Saúde (SES), a estrutura deve ser redirecionada para outros hospitais da rede pública. Já o hospital municipal no Riocentro segue ativo e, de acordo com autoridades locais, deve assim permanecer até o fim da pandemia.

O governo estadual tenta fechar as unidades antes de entregá-las desde o mês passado. Entretanto, uma liminar da Justiça impediu a suspensão das atividades. Tal instrumento legal foi suspenso na terça-feira (19). Outros hospitais começaram a ser construídos mas não foram concluídos. As unidades de Campos dos Goytacazes e Casimiro de Abreu tiveram montagem suspensa no início de julho.

Denúncias

Os hospitais de campanha do estado do Rio de Janeiro são pivôs de denúncias de corrupção envolvendo a alta cúpula do governo Witzel. O ex-secretário da pasta da Saúde, Edmar Santos, foi alvo de investigação e firmou contrato de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República no início de agosto. Ele ficou por mais de um mês preso por investigações de desvios em contratos emergenciais no estado, muitos direcionados para a construção de hospitais de campanha.

A SES alega a falta de necessidade de leitos para o fechamento das duas unidades prontas, o que não explica os problemas com atrasos e obras incompletas. Entretanto, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro argumenta que a questão não é a falta de demanda, e sim o não direcionamento dos pacientes. “Esses hospitais de campanha não funcionam de portas abertas, não tem como um cidadão chegar lá e ser atendido. Eles só receberão pacientes se o estado encaminhá-los para lá. O que não tem sido feito. E é justamente o que estamos cobrando”, afirma o órgão.