Covid-19

Falta de testes de covid-19 para profissionais de saúde põe em risco toda a sociedade

Sindicatos e federações da Rede Sindical UNISaúde denunciam que baixa testagem provoca mortes e afastamentos, e afeta atendimento a vítimas da covid-19

Divulgação
“É responsabilidade das empresas médicas e dos governos, que os testes sejam disponibilizados, inclusive aos assintomáticos”, afirma o secretário regional da UNI Américas, Márcio Monzane

São Paulo – Há testes para os profissionais de saúde detectarem se foram contaminados pela covid-19, eles só não estão sendo usados. Dados da Secretaria de Vigilância, do Ministério da Saúde, informam que em 30 de junho havia 7,67 milhões de testes RT-PCR em estoque. Mas pouco mais de 3,8 milhões foram distribuídos. A desatenção levou a Rede Sindical Brasileira UNISaúde a fazer um alerta. A falta de testes para covid-19, principalmente nas redes públicas de saúde, tanto estaduais quanto municipais, colocam em risco a vida dos profissionais da linha de frente da pandemia do novo coronavírus no Brasil. E, consequentemente, expõe toda a sociedade ao adoecimento.

Por isso, juntamente com sindicatos e federações afiliados, a rede sindical cobra que dos governos estaduais agilidade na liberação dos testes em estoque no Ministério da Saúde.

Testar quem cuida

“É importante garantir um ambiente de trabalho seguro aos profissionais de saúde. Testando a todos, vamos cuidar de quem cuida, além de garantir que também não sejam vítimas”, afirma o secretário regional da UNI Américas, Márcio Monzane (foto). “É responsabilidade das empresas médicas e dos governos, nas esferas federal, estadual e municipal, que os testes da covid-19 sejam disponibilizados, inclusive aos assintomáticos.”

De acordo com levantamento do Observatório da Enfermagem, elaborado pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), até o dia 30 de junho foram registradas 220 mortes de enfermeiros e técnicos.

O número total de casos registrados da doença entre esses profissionais é de 22.209, sendo 8.371 confirmados, 1.560 não confirmados e 11.690 suspeitos. O número de médicos mortos, segundo balanço do próprio Ministério da Saúde, ultrapassava os 200 no fim de junho.

Risco real

Para os profissionais que estão na linha de frente do combate à pandemia, a realidade é dura e está longe do ideal. Representantes de sindicatos e federações dos profissionais de saúde de todo Brasil denunciam que a baixa testagem provoca mortes e afastamentos pela covid-19. Além disso, afeta a eficiência do atendimento das vítimas da doença.  

A técnica em enfermagem Nicoli Iara Santos Mota sentiu na pele o problema da falta de testagem. Ela trabalha na UTI do Hospital Ouro Verde, em Campinas (SP). Teve os primeiros sintomas da doença em março, mas só realizou o teste da covid-19 quando já estava na UTI, cerca de um mês depois.

“No dia 17 de março, fui trabalhar e comecei a ter sintomas de gripe, como tosse, coriza. Passei no pronto-atendimento do hospital e a médica que me atendeu me deu 14 dias de atestado. No entanto, o médico do trabalho mandou que eu voltasse para o trabalho nove dias depois”, conta.

Trabalhando com sintomas

Os sintomas permaneceram e mesmo assim Nicoli trabalhou alguns dias. Mas, como estava com muita dor nas costas, passou em outro médico, que a medicou e mandou de volta para casa.

Ela voltou a passar mal e o pai a levou ao hospital onde trabalha. Só aí realizou exames como tomografia, gasometria, e foi levada para a UTI. Ficou 21 dias entubada – inclusive realizou traqueostomia – e mais dois respirando com a ajuda de aparelhos. A via-sacra durou de 7 de abril a 6 de maio. Ela voltou para o trabalho na penúltima semana de junho.

“Quando estava internada, mais técnicos chegaram a se afastar por causa da doença. Hoje, a testagem para quem apresenta sintomas está melhor, mas não há controle sobre os assintomáticos”, denuncia. “Creio que os testes deveriam ser feitos a cada 15 dias, porque hoje pode dar negativo, mas daqui a alguns dias a gente não sabe como vai ser”, sugere.

Só 10% testados

O Rio de Janeiro é o segundo estado com o maior número de mortes pela doença no país. No entanto, só há testes disponíveis para cobrir 10% do número profissionais de saúde do estado e município. São 291 mil enfermeiros e técnicos de enfermagem.

“Não temos oferta de teste suficientes para atender a esses trabalhadores, o que coloca a saúde deles em risco, de seus colegas de trabalho, familiares e pacientes”, diz Líbia Bellusci, vice-presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro (Sindenf-RJ). A entidade encaminhou ofícios para as secretarias municipal e estadual de saúde solicitando que mais testes fossem disponibilizados. Embora tenha havido melhora, o número ainda é insuficiente. O mesmo ocorre na rede privada.

“Eu tive corona e consegui fazer o teste no projeto da UFRJ (Centro de Triagem Diagnóstica da Universidade Federal do Rio de Janeiro)”, conta Líbia, que é enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento da Penha e do Samu do Rio. “Entrei na fila com febre de 40 graus, e achei maravilhoso por ter conseguido antes de ter os sintomas graves da doença”, lembra a enfermeira, que ficou preocupada em não transmitir o vírus para a mãe e a filha.


Redação: Cláudia Motta – Edição: Paulo Donizetti de Souza