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Gestão da pandemia no Brasil é desastrosa, acusa epidemiologista da Fiocruz

Para Jesem Orellana, governo Bolsonaro não fez nada para preservar vidas no início da crise do novo coronavírus E agora, com o país prestes a ser o segundo do mundo em mortes, segue na mesma linha

alan santos/pr
Bolsonaro, além de não agir, ridiculariza o vírus, promove aglomerações e sequer usa máscara

São Paulo – “A gestão do problema da pandemia do novo coronavírus no nível federal foi desastrosa. O governo deveria ter discutido planos de regionalização há meses. Mas temos um ministro inoperante – depois de dois demitidos – que não fala, não propõe, perdido no meio do tiroteio.” A avaliação é do epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Jesem Orellana, responsável por estudos da disseminação do novo coronavírus nas cidades brasileiras, com destaque para Manaus.

Orellana lamenta a condução do governo Bolsonaro. Para o especialista, a atual crise sanitária está longe de passar. Por essa razão, a flexibilização de medidas de isolamento, proposta em diferentes estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, “não faz o menor sentido”.

O especialista afirma que são muitos os fatores que influenciam na disseminação de um vírus e que cada região, cada cidade, sofre o impacto da pandemia de uma forma única. Dessa forma, questiona até mesmo as estatísticas do vírus como são divulgadas pelo Ministério da Saúde. “Essa história de curva epidemiológica brasileira é algo tão impreciso. Existe uma curva no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Não tem como colocar tudo em um número só”, diz.

Essas especificidades apontam para o fato de que a pandemia do novo coronavírus ainda deve durar por um bom tempo e possivelmente a doença deverá retornar, em surtos regionais. Tome-se, por exemplo: a cidade de São Paulo consegue um controle relativo da doença; por sua vez, uma cidade do interior do estado registra um aumento de casos, mas que, por falta de testes, passa “em branco”. Uma ou mais pessoas contaminadas viajam para a capital e circulam em locais de grande aglomeração, contaminando paulistanos e até mesmo pessoas de outras cidades do interior.

Tempo desperdiçado

O Brasil, hoje (5), é o segundo país com maior número de infectados no mundo (614.941) e o terceiro em total de mortes (34.021) provocadas pela covid-19. A recomendação das autoridades científicas sempre foi a de realização massiva de testes, acompanhada de medidas de distanciamento social, como forma de conter a propagação do novo coronavírus. Mas nada disso é feito no país, levando à subnotificação, fato admitido até mesmo pelo próprio governo. Os números, portanto, de mortes e de casos, são maiores do que os relatados.

“Relaxar medidas de isolamento agora é algo completamente desconexo com todo o conhecimento científico acumulado sobre epidemiologia. Logo, não consigo dar uma explicação plausível”

Orellana afirma que o ideal seria o Brasil ter estruturado um plano de ação e vigilância sanitária mesmo antes de começar a ser impactado pelo vírus, já que o alerta sobre o potencial da pandemia foi dado no fim do ano passado.

Depois de ter se iniciado na Ásia e na Europa, a América Latina foi uma das últimas regiões no mundo a registrar casos da infecção – no Brasil, o primeiro caso relatado foi em 25 de fevereiro. Havia tempo hábil para a formação de estratégias, diz o cientista, mas nada foi feito e nem sequer está nos planos do governo Bolsonaro, que só quer flexibilizar o isolamento social, alegando “salvar a economia”, o que certamente vai piorar o cenário.

“Medidas preventivas deveriam ter sido tomadas. Deveriam organizar a infraestrutura dos municípios previamente, com investigação de casos de forma detalhada. Precisávamos de busca ativa para identificar redes de contágio para conter a disseminação. O governo perdeu a possibilidade preventiva. Agora, o máximo que podemos fazer é ‘enxugar gelo’. Você não impede a disseminação, então aumenta leitos, estruturas, UTIs. Mas é como se você tentasse esvaziar uma caixa d’água sem desligar a torneira”, explicou.

Desigualdades regionais

As diferenças das taxas de mortalidade entre as regiões do país evidenciam como é impreciso tratar a pandemia de forma única em todo o território brasileiro, mostra o pesquisador. “Essas taxas variam muito. Se você pega estatísticas de São Paulo e compara a qualidade do preenchimento das declarações de óbito com Boa Vista, será uma diferença brutal. São Paulo tem uma quantidade de serviços e profissionais mais bem treinados em grandes centros. Tem que ter muito cuidado para fazer essas interpretações. Comparações são muito perigosas e devem ser feitas por profissionais adequados”, observa o especialista.

Uma constante em todo o país foi o aumento expressivo de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que é uma das consequências mais graves da covid-19. Em alguns estados, há aumento expressivo de mortes registrada como tendo sido causadas por SRAG mas, ao mesmo tempo, um baixo registro de infecções pelo novo coronavírus. Isso mostra que, os baixos índices de covid-19, possuem mais relação com o baixo número de testes da população realizados e não se deve acreditar que a região esteja com uma presença pequena do vírus.

É o caso de Minas Gerais, por exemplo. Enquanto São Paulo registra 129.200 doentes com covid-19 e o Rio de Janeiro, 60.932, o estado governado por Romeu Zema (Novo) tem oficialmente 13.034 casos. A mortalidade registrada pelas autoridades mineiras também é muito inferior em relação aos seus vizinhos do Sudeste. Em São Paulo e Rio de Janeiro, são 18,6 óbitos por grupo de 100 mil habitantes e 36,6 por 100 mil habitantes, respectivamente. Em Minas Gerais, 1,5 por 100 mil.

Isolamento social

Vista a sequência de erros e a falta de ações efetivas do governo, medidas de isolamento social são essenciais para evitar uma disseminação ainda mais descontrolada do novo coronavírus. Orellana lembra que é muito difícil saber quando será de fato o pior momento da pandemia no Brasil, que segue em crescimento quase vertical.

“Não diria que hoje é o pior momento. Por enquanto, a curta história tem nos mostrado que a maioria das previsões sobre o pico falhou”, lembra o pesquisador. “As pessoas tentam adivinhar algo imprevisível. Temos que ter atenção. Mas relaxar as medidas de distanciamento em um momento em que as curvas de mortalidade e de contágio estão aumentando sem parar é algo que não faz o menor sentido.”

Então, o relaxamento das medidas neste momento é “completamente desconexo com todo o conhecimento científico acumulado sobre epidemiologia”, conclui Orellana. “Não consigo dar uma explicação plausível.”