Home Saúde e Ciência Proibição do glifosato será debatida pelo parlamento português
Pacote antiveneno

Proibição do glifosato será debatida pelo parlamento português

Parlamentar ambientalista apresentou projetos de lei após pesquisa encontrar resíduos do agrotóxico em 100% de amostras de urina. No Brasil, Anvisa contraria OMS e diz que glifosato não é cancerígeno
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
07:48
Compartilhar:   
Charles O’Rear/Wikimedia Commons
Proibição glifosato em debate em Portugal

O glifosato é o agrotóxico mais usado em todo o mundo. A OMS o classifica como provável causador de câncer

São Paulo – O cerco ao glifosato se fecha na Europa. Nesta terça-feira (26), o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), de Portugal, apresentou projetos de lei que pretendem reduzir drasticamente a exposição da população ao agrotóxico e até mesmo proibir a venda. As proposições resultam de pressões da Plataforma Transgénicos Fora, que conduziu pesquisas preliminares que chegaram a detectar a presença do agrotóxicos em 100% das amostras de urina coletadas em 2018 em diversas regiões do país.

A coalizão Plataforma Transgénicos quer que o governo português promova um estudo abrangente sobre a exposição da população ao agrotóxico, que proíba a venda de herbicidas à base de glifosato para outros usos senão agrícolas, obrigue a análise da presença de glifosato na água de abastecimento e que acabe com o uso de herbicidas sintéticos na limpeza urbana, além de apoiar os agricultores na transição para uma agricultura sem agrotóxicos nos próximos anos.

Para efeitos de exposição, o estudo considerou também a presença do ácido aminometilfosfônico (AMPA– uma substância derivada do processo de degradação do glifosato no organismo.

De acordo com a Plataforma Transgénicos Fora, foram recolhidas amostras de urina a 62 voluntários, sendo 56 adultos e seis crianças, em julho de 2018. Havia glifosato em 65% das amostras. Em outubro foram coletadas amostras de 44 pessoas, todas elas contaminadas pelo agrotóxico segundo a análise em laboratório. Em 2016 foram coletadas amostras de 26 pessoas, todas elas contaminadas. Os dados são alarmantes. O percentual corresponde ao dobro da média de contaminação em 18 países europeus.

A maior parte do glifosato ingerido ou inalado pelo organismo é excretado pela urina em menos de um dia. Isso significa que a contaminação detectada na segunda etapa de análises provém de novas exposições com o herbicida. Quando se deteta contaminação ao longo do tempo isso significa que houve exposição sucessiva do organismo – ou seja, há glifosato a recontaminar constantemente a população portuguesa.

Agrotóxico mais usado em todo o mundo, inclusive no Brasil e em Portugal, o glifosato causa tumores em animais de laboratório e foi classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como provável carcinogênico para humanos. Para a Comissão Europeia, no entanto, a substância não é considerada causadora de câncer.

Conflito de interesses

Entidades científicas e ambientalistas, por sua vez, entendem que o posicionamento contrário é resultado de conflitos de interesse, que manipulam resultados de testes e reproduzem resultados de testes de modo a defender os objetivos da indústria de agroquímicos. Principalmente a Monsanto e sua proprietária Bayer.

De acordo com a Plataforma Transgénicos Fora, o valor médio da contaminação das amostras corresponde a 0,35 ng/ml em julho, com valor máximo de 1,39 ng/ml. E de 0,31 ng/ml em outubro, com valor máximo de 1,20 ng/ml), o que é cerca de três vezes (300%) acima do limite legal na água de consumo.

No caso específico das amostras de crianças, houve discrepâncias conforme a época da coleta. Nas de julho, os valores estavam próximos à média. Em outubro, porém, estavam acima, com 0,44 ng/ml, o que é considerado alto para a faixa etária. O resultado, semelhante ao que havia sido detectado em 2016, aponta para a necessidade de mais pesquisas para entender como a exposição a este agrotóxico afeta a saúde dos portugueses conforme a faixa etária e o tempo de contato.

glifosato contaminação portugal.jpg

Água contaminada

Dos voluntários que participaram dos testes no ano passado, 80% se declararam consumidores de alimentos sem agrotóxicos e transgênicos com alguma regularidade. O dado explica em parte o resultado satisfatório quando comparado ao de 2016. Entretanto, os alimentos não são os únicos veículos de contaminação. A água e o ar são fontes igualmente relevantes, bem como a época do ano. O glifosato é aplicado nas lavouras no início da primavera. Além disso, análises indicam que a água da bacia do rio Douro tem contaminação 70 vezes maior que o limite máximo permitido pela legislação.

“A ciência mais recente mostra que o glifosato altera profundamente a composição da nossa microbiota gastrointestinal. Quando esse equilíbrio fica comprometido podem surgir doenças graves, desde diabetes tipo 2 a aterosclerose, a obesidade e até câncer. Que mais evidências são necessárias para que o governo cumpra a sua função de proteger a nossa saúde?”, questionou a bióloga Margarida Silva, da Plataforma Transgénicos Fora.

Segundo ela, os estudos conduzidos pela coalização em 2016 mostraram, pela primeira vez, a inesperada e grave contaminação dos portugueses pelo glifosato. E que desde então, o governo ainda não tomou providências para enfrentar o problema – o que foi contestado. 

O Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural afirmou à imprensa portuguesa que o governo “proibiu de imediato a comercialização de herbicidas contendo esta matéria” assim que tomou conhecimento dos resultados da pesquisa. E que o “Executivo já tem em execução várias medidas de apoio aos agricultores, direcionadas para a redução e eliminação da utilização de pesticidas”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou nesta terça-feira (26) a conclusão da reavaliação toxicológica do glifosato. O parecer da área técnica é de que seu uso pode continuar sendo permitido no Brasil, já que não causa prejuízos à saúde. Para finalizar a regulamentação, no entanto, a agência vai colocar o tema em consulta pública por 90 dias, para que a sociedade possa se manifestar. 
Clique aqui para acessar a nota técnica da reavaliação toxicológica.

Saiba mais: