Mais médicos

Em carta, Lula agradece médicos cubanos por cuidados aos brasileiros

Ex-presidente criticou Bolsonaro por submeter saúde da população mais pobre do país ao seu preconceito. 'Países ricos exportam soldados e soltam bombas. Cuba exporta vida, amor e saúde'

EBC
Médicos cubanos

Criado em 2013, pela presidenta Dilma, encerramento da participação do cubanos, fará programa perder 8.300 profissionais

São Paulo – Para marcar o encerramento da atuação dos médicos cubanos que, por meio do programa federal Mais Médicos, atuaram em diversas regiões do Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu em carta aberta ao jornal cubano Juventud Rebelde seu agradecimento aos profissionais por ensinarem uma “medicina mais humana e eficiente na melhora dos indicadores de saúde”, e criticou que o programa tenha chegado ao fim pela postura do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

“Lamento que o preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros que vivem nas comunidades mais distantes e carentes”, escreveu Lula.

Os ataques de Bolsonaro contra o programa e a sua intenção de condicionar a permanência dos médicos alterando a forma de contratação e as regras para a permanência dos profissionais no país motivaram a decisão do governo cubano, anunciada em novembro, pela retirada dos seus profissionais do Brasil.

Criado em 2013 pela então presidenta Dilma Rousseff (PT), o programa era reconhecido principalmente por conseguir dar conta da demanda por atendimento básico nas regiões mais remotas do país, que até então careciam de profissionais da saúde. “É muito bom ver como uma ilha latino-americana exporta médicos em todo o mundo. Muito melhor do que os países ricos, que exportam soldados, lançam bombas em comunidades pobres. Cuba, por sua vez, exporta vida, amor e saúde”, escreveu o ex-presidente.

Confira na íntegra a carta 

Queridos amigos de Cuba,

A saúde não é um bem, não é propriedade privada. Saúde é vida, a primeira condição para poder fazer qualquer coisa neste mundo. Os serviços de saúde não podem ser tratados como um negócio qualquer. O ofício de quem cuida da saúde dos outros sempre será um dos mais belos, será sempre uma missão, um ato de generosidade e afeto pelo próximo. 

No Brasil, médicos cubanos chegaram a lugares onde não havia médicos brasileiros. Em muitas comunidades pobres e distantes, algumas delas indígenas, que nunca foram atendidas por um profissional de saúde.

Muitos criticaram o governo da presidenta Dilma Rousseff por trazê-los. Como seria bom poder passar sem eles! Que o Brasil tivesse médicos suficientes com os quais todas as praças do interior e as periferias pobres do Brasil poderiam ser cobertas. Quão bom seria se tivéssemos, como Cuba, médicos suficientes para exportar para outros países! É muito bom ver como uma ilha latino-americana exporta médicos em todo o mundo. Muito melhor do que os países ricos, que exportam soldados, lançam bombas em comunidades pobres. Cuba, por sua vez, exporta vida, amor e saúde.

Acontece que não temos tantos médicos. O Brasil foi o último país da América do Sul a ter uma universidade, inaugurada em 1922. E foi porque tiveram que criá-la para conceder o título de Doutor ao Rei da Bélgica! Brasil e Cuba viveram séculos de escravidão e exploração colonial. Mas dos dois, apenas Cuba tem médicos suficientes para exportar para o mundo.

Antes do Partido dos Trabalhadores tomar o poder, no Brasil a medicina era uma carreira exclusiva para o filho de ricos. Antes de o PT chegar ao poder, o filho do pobre não tinha sequer o direito de sonhar em se tornar médico. Criamos cotas para negros e estudantes de escolas públicas em universidades federais, ampliamos os mecanismos para que os jovens pudessem estudar gratuitamente em escolas particulares ou, ao invés disso, pagar juros baixos assim que terminassem seus estudos. Abrimos novas universidades, incluindo cursos de medicina, no interior do país. Aumentamos a matrícula de jovens pobres e negros no ensino superior. Quando o golpe de Estado na democracia ocorreu em 2016, com o objetivo de retirar o PT do governo, uma das primeiras medidas adotadas foi impedir a criação de novos cursos de medicina no país. Proibir a formação de mais profissionais de saúde. Um absurdo. 

Mas o governo de Michel Temer, a pedido dos prefeitos das cidades, ciente de como era difícil encontrar médicos para as unidades de saúde, manteve o programa Mais Médicos de 2016 até 2018.

Quando os médicos cubanos chegaram ao Brasil, tentaram desacreditá-los de qualquer forma. Mas eles venceram pela qualidade do serviço prestado ao povo brasileiro. Por sua dedicação, por cuidados médicos, por seu conhecimento e profissionalismo, pela medicina humana e preventiva que colocam em prática. Eles ganharam o carinho e a gratidão de milhões de brasileiros que agora temem perder novamente os cuidados médicos que salvaram tantas vidas no Brasil.

Lamento que o preconceito do novo governo contra os cubanos tenha sido mais importante que a saúde dos brasileiros que vivem nas comunidades mais distantes e carentes.

Agradeço aos médicos cubanos que foram capazes de superar as críticas e preconceitos, e nos ensinou a medicina mais humana não só é possível, também é mais eficiente para melhorar os indicadores de saúde em nossas comunidades. Finalmente os médicos partilharam as suas experiências e conhecimentos com muitos médicos brasileiros e alertou a todos sobre a importância da medicina preventiva e assistência médica para as famílias.

É por isso que quero expressar ao povo cubano: que eles podem se sentir muito orgulhosos de seus médicos e de suas faculdades de medicina. No Brasil, você conquistou milhões de admiradores, a gratidão de milhões de pessoas.

O distrito de Batinga, na cidade de Itanhém, na Bahia, organizou uma marcha com a participação de toda a comunidade para se despedir  do Dr. Ramón Reyes, que durante anos  prestou atendimento médico e conseguiu conquistar a simpatia de todos. Eles saíram com cartazes em que agradeceram todas as coisas boas que o médico fez e estavam esperançosos de que ele voltaria um dia. Uma homenagem simples e sincera de um povo que recebeu o cuidado atento de um filho de uma distante ilha caribenha, durante décadas cercada por um violento bloqueio imposto pelo país mais poderoso do planeta, e que, ainda assim, consegue exportar médicos e conhecimento.

Os laços de fraternidade existentes entre os povos são mais fortes do que o ódio irracional de alguns representantes da elite.

É a lição dada pelos médicos cubanos em tantos países do mundo e também aqui no Brasil.

Muito obrigado

Luiz Inácio Lula da Silva