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Número 70, Abril 2012

O pau de arara

Subiu os degraus um a um, lenta, pensando na volta, quando teria de descer, e então sentiria a dor no joelho. Dez anos tinham se passado desde que a penduraram no pau de arara
por B.Kucinski publicado , última modificação 20/04/2012 18h31
Subiu os degraus um a um, lenta, pensando na volta, quando teria de descer, e então sentiria a dor no joelho. Dez anos tinham se passado desde que a penduraram no pau de arara

Subiu os degraus um a um, lenta, pensando na volta, quando teria de descer, e então sentiria a dor no joelho. Dez anos tinham se passado desde que a penduraram no pau de arara. O tique nervoso na sobrancelha esquerda, reflexo condicionado das cacetadas na testa, sumiu com dois anos de divã, mas a lesão no tendão ficou para sempre. 

Ela não teria vindo, se a tal prima não insistisse. A mulher apresentara-se ao telefone como filha do irmão do seu pai, prima direta. Filha única. Um absurdo não se conhecerem, insistira. Fazia questão de se encontrarem.

Ao saber que ela também ficara viúva e tinham quase a mesma idade, acedeu. Seria bom trocar ideias. E saber mais da família do pai. Ele nunca mencionara essa sua sobrinha, embora falasse vez ou outra do irmão. Marcou para o dia seguinte. Era distante, no Jardim Tremembé.

Dirigiu direto da Pinacoteca, assim que terminou de montar a exposição da qual era curadora. Deixou-se conduzir pelo GPS. Surpreendeu-se ao chegar. O endereço era de um palacete, erguido na parte elevada de uma rua de chácaras. Estava circundado por um muro tão alto que mais parecia uma fortaleza. Ao toque da campainha, o portão abriu-se automaticamente, expondo essa longa escada em diagonal. 

Foi recebida no topo com um abraço efusivo. Então você é a Nair? Por que será que nossos pais nunca se encontravam? Deve ser briga de irmãos, mas nós não temos nada com isso, não é mesmo? Se não fosse a pesquisa genealógica eu nem ia saber de você. Venha, vou mostrar a casa, depois a gente conversa, com calma. Parecia se orgulhar do casarão.

– Quando o Oswaldo morreu ficou tudo tão grande, tão vazio, o Oswaldo é meu falecido marido, que Deus o tenha.

Falava e ao mesmo tempo empurrava nossa personagem casa dentro. A sala tinha móveis em excesso e pesados. Por todas as superfícies disponíveis espalhavam-se bibelôs de vidro e cerâmica, bonequinhas de plástico e jarras decorativas. Também havia muitas fotos de casamento em molduras brilhantes multicoloridas.

Nossa personagem nunca tinha visto tanto kitsch. Nouveaux riches, pensou. O canto era tomado por um pomposo bar de pseudo-jacarandá, com balcão de plastificado marmóreo leitoso e prateleiras repletas de taças de vidro, em diversos tamanhos, imitando cristal. Na passagem para a copa, pratos decorativos de louça pintados de ouro falso e carmesim pendiam de uma parede.

Os fundos abriam para um gramado seguido de um pomar. Viam-se abacateiros, uma mangueira gigante e bananeiras, muitas bananeiras. A cozinha era ampla. No seu centro, um fogão a lenha fora de uso, de alvenaria e cimentado vermelho, servia de suporte a uma montagem inusitada, que nossa personagem achou muito bonita e original. Parecia uma instalação de arte antropofágica. Finalmente uma obra de bom gosto, ela pensou. 

A peça era composta de cachos de banana carnudos e abundantes envolvendo um longo vergalhão de madeira envelhecida, erguido como um totem. Os bagos de banana iam do verde profundo ao dourado voluptuoso, passando pelo amarelo ouro, o laranja, o marrom, um completo arco-íris tropicalista. 

Curiosa, ela perguntou:

– E essa coisa tão bonita o que é?

– São as pencas de banana que eu deixo aí para madurar.

– E aquela haste no meio?

– É lembrança do meu marido, é o pau de arara que o Oswaldo ganhou dos colegas quando se aposentou da polícia.

Ela sentiu um frio subindo pela barriga, e logo o beliscar pesado dos tiques na sobrancelha esquerda. 

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