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Número 31, Janeiro 2009

especial

Benditos feriados

O trabalho dignifica as pessoas, mas a liberdade de viver também é sagrada. Jornadas menores podem significar mais empregos. E saber usar o tempo livre, uma vida menos doente, mais produtiva e mais feliz
por Evelyn Pedrozo, da RBA publicado 04/04/2013 12h25, última modificação 18/01/2018 12h29
O trabalho dignifica as pessoas, mas a liberdade de viver também é sagrada. Jornadas menores podem significar mais empregos. E saber usar o tempo livre, uma vida menos doente, mais produtiva e mais feliz
Regina de Grammont
Catharina

Catharina trouxe novas perspectivas à vida da ex-workaholic Vania

Prepare-se, pois 2009 bate à porta com um convite tentador: tempo disponível para a preguiça, o lazer, o dolce far niente, o ócio. O calendário prevê a ocupação de um terço dos dias do ano por finais de semana, feriados e pontes. E que mal pode haver nisso, se na aceleração cotidiana pouco se consegue tempo para a leitura de um livro ou um cochilo após a refeição? Em 2008, não tivemos a mesma sorte. Apenas um dos 12 feriados nacionais caiu em dia útil. Desta vez são 11. Só que para gozar plenamente desse benefício o desafio do trabalhador é se libertar de suas funções, condição rara por causa da parafernália tecnológica que o mantém conectado em tempo integral. É preciso liberar corações e mentes.

A boa nova vem acompanhada de um balde de água fria jogado pelo setor patronal. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) já alardeia que o país vai perder até 5% do Produto Interno Bruto (PIB) com as paralisações nos feriados nacionais e estaduais, isso sem contar os municipais. As contas dos empresários revelam que haveria um prejuízo de ?R$ 155,6 bilhões no ano. Mas não há consenso sobre essa informação.

Os dias não-produtivos contribuem para que o trabalhador faça um resgate psíquico, físico e espiritual. Com isso, ele volta à empresa em condições de oferecer melhores resultados, garante o professor de Psicologia Social da Universidade de Fortaleza José Clerton de Oliveira Martins. “Não se deve falar em prejuízos econômicos porque, com o descanso, também ficam reduzidos os graus de desgaste e adoecimento do trabalhador. E isso acaba sendo lucrativo para as empresas”, explica Martins, pós-doutorado em Estudos do Ócio pela Universidad de Deusto, em Barcelona, na Espanha.

Martins diz, no entanto, que se a pessoa não for preparada, o tempo livre é vazio, sem sentido. “Quem é consciente utiliza o tempo de forma positiva. No ócio, o sujeito é dono de seu tempo, age com total liberdade, fica olhando para o nada. Ele não precisa de um fim. A dimensão do ócio leva à meditação, à criatividade e à contemplação. Jamais ao consumo”, explica.

Já o lazer é diferente. É a atividade praticada no tempo livre das obrigações de toda origem e está sujeito à condição social. Deve ser entendido como um tempo de reposição de energia para o trabalho. “Existe no lazer algo que se liga ao ócio consumista, de mercado”, diz Martins. Para o professor cearense, pouca gente desfruta do ócio na vida. “É algo que desaprendemos quando começamos a jogar no trabalho toda a expectativa de vida.”

É o caso do engenheiro eletricista Janderson Costa Manécolo, de 43 anos. Ele chega a trabalhar 16 horas por dia na multinacional onde é gerente de projetos. Está na empresa há 15 anos e sempre manteve essa relação com o trabalho. A vida pessoal resume-se aos domingos. Porém, à noite, já prepara algumas coisas para a segunda-feira. E se consegue paz de espírito para dar uma fugidinha até a praia, coloca o notebook na bagagem.

Para a mulher, que trabalha aos fins de semana, Janderson reserva a noite de sexta-feira. É sedentário e não controla a saúde. Trabalha com intensidade “para garantir o futuro dos filhos”, mas confessa que hoje não tem muito tempo para eles. Para complementar a renda, Janderson também faz consultorias em projetos particulares. “Não consigo ver melhora nesse cenário. Eu tento, mas não consigo me planejar”, conta, conformado e satisfeito. “Sou feliz assim.”

Em um quadro de escassez de trabalho, esse tipo de dedicação excessiva pode ser traduzida como uma postura de defesa, observa a socióloga Carla Diegues, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Os profissionais, especialmente os ligados à área de tecnologia, aceitam com grave naturalidade o controle de seu tempo, por meio dos aparelhos, como notebook e celular, diz. “É um grave sinal dos tempos.”

E não há como fugir disso. Carla analisa que o trabalho é primordial porque os indivíduos precisam de renda para se inserir na sociedade de consumo, já que o desejo de ter está presente em todos. Ademais, a necessidade de trabalhar é nata. “Só não trabalha quem tem outras fontes de renda. É preciso colher para comer. Faz parte da manutenção da existência. A pessoa tem necessidade de produzir algo, ainda que seja só por prazer.”

O bem-estar associado a algum tipo de produção é a nova busca da produtora Vania Federovicz, de 29 anos. Depois de puxar o freio por um tempo, ela quer retomar sua vida profissional com novos parâmetros. “Estou feliz. Fico em casa de chinelo, mas já começo a me sentir improdutiva. Quero trabalhar menos ganhando menos, com mais qualidade de vida. Estou concentrando minhas atividades perto de casa”, relata.

Até dois anos atrás, Vania vivia uma rotina enlouquecedora como empresária e funcionária de uma rádio. Trabalhava tanto que só conseguia dormir quatro horas por dia. Já estava nessa roda-viva havia quatro anos. “Tinha bastante dinheiro, mas me tornei uma pessoa insuportável. Brigava com todos.” Mas veio a gravidez para colocar a vida da moça em equilíbrio. Quando nasceu Catharina, há um ano e quatro meses, ela abriu mão de tudo. Fechou o bar que administrava e deixou a rádio. Agora, revigorada com seu novo estilo de vida, cursa Gastronomia perto de casa, em Cotia, na Grande São Paulo, e planeja sua nova vida bem longe do estresse da cidade grande.

Regina de Grammont Juliana
Juliana admite que aprendeu muito, mas lamenta o tempo que passou trabalhando no Japão

Jornada

Na sociedade pós-industrial, iniciada na segunda metade do século 20, não existe apenas a produtividade material, que gera produtos, mas também a imaterial, cujos resultados são intangíveis. As pessoas não se desligam nunca e morrem de tanto trabalhar, afirma o economista e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann. “Não existe mais tempo de trabalhar e tempo de descansar. É impossível calcular quanto tempo de vida se dedica ao trabalho. Por isso mesmo não se pode aceitar essa pregação de que as empresas e o país virão a perder com folgas ou feriados”, avalia.

Para Pochmann, esse volume de riqueza material e imaterial que está sendo gerado precisa ser mais bem distribuído. “A crise do sistema financeiro é resultado da concentração de riqueza não-distribuída. E isso pode ser feito desde que se permita que as pessoas cheguem ao mercado de trabalho mais tarde, aos 25 anos de idade. O economista defende uma nova jornada, de 12 horas de trabalho, a ser adotada neste século. Seriam quatro horas durante três dias na empresa, e o resto do tempo seria combinado com educação para a vida, não para o trabalho.

“No final do século 19, os trabalhadores cumpriam uma jornada que chegava a 4 mil horas por ano. Cem anos depois, a jornada anual caiu para 2 mil horas. E, agora, diante dos avanços da base material do capitalismo, percebemos um espaço enorme para a jornada de 12 horas”, diz Pochmann. Essa luta é muito difícil, admite o economista. “Só será possível com o surgimento de alguma liderança. Alguém tem de abraçar essa causa”, diz.

A necessidade precoce de entrar no mercado de trabalho criou um desvio na vida de Juliana Sayuri Kobashigawa Amaral, filha de mãe japonesa e pai brasileiro. Aos 19 anos, ela acaba de voltar ao Brasil depois de morar dois anos e oito meses na cidade japonesa de Toyoake-Shi. Todo esse tempo trabalhou como operadora de uma indústria de autopeças na cidade vizinha Obu-Shi.

Em 2006, a família se fortaleceu em torno do objetivo de levantar recursos para pagar dívidas contraídas no Brasil e decidiu partir para o trabalho pesado no Japão. Ninguém saiu daqui enganado. Os pais, o irmão mais novo e ela sabiam que iriam encontrar muita dificuldade. Juliana parou de estudar aos 16 anos e dedicou outros três em uma linha de produção privada do sol, do convívio escolar, de diversão. “Durante a semana era de casa para o trabalho e vice-versa. Aprendi muito, mas foi muito sacrifício. Perdi muita coisa, lamento muito não ter estudado e ter estragado parte da minha juventude.”

A garota conta que a jornada, além de chegar a 11 horas diárias, era alternada, o que dificultava a prática de qualquer outra atividade. Era uma semana no período diurno e outra no noturno. Para a refeição, apenas 45 minutos. “Os japoneses colocam o trabalho em primeiro lugar. Não importa o que aconteça, ninguém larga o trabalho”, conta.

De volta ao Brasil para continuar os estudos e recuperar o tempo perdido, Sayuri já arrumou trabalho em um escritório de contabilidade. Afinal, acabou se acostumando a ter seu próprio dinheiro. Está rindo à toa por conta das boas condições que encontrou nesse emprego. Em fevereiro volta a estudar e espera nunca mais precisar ser escrava do trabalho. E jura que não volta mais para a Terra do Sol Nascente.

A jornada excessiva também foi avassaladora na vida do operador de áudio Rodrigo Fuzati Franchini Petri, de 28 anos. Apenas um ano de trabalho em três empresas bastou para o surgimento da cefaleia crônica que o abate constantemente. Em meados de 2004, para ganhar R$ 1.600 ele cumpria jornadas das 6h às 11h30; das 12h às 18h, e das 20h às 3h. Eram 18 horas e meia de trabalho corrido. “Eu tinha inveja das pessoas livres. Hoje, estou apenas em um emprego, com renda de R$ 730 e sou muito mais feliz. Mas não sou mais o mesmo. Sei que preciso estudar para trabalhar menos ganhando mais. Mas não tenho ânimo mais por conta das fortes dores de cabeça e estou escolhendo o trabalho mais fácil”, lamenta.

Preguiça

Há 129 anos, na França, o revolucionário jornalista e escritor socialista Paul Lafargue já alertava os trabalhadores para o fato de que a jornada de trabalho poderia ser muito reduzida caso os avanços tecnológicos beneficiassem os trabalhadores e não os que com eles lucram. Em O Direito à Preguiça, panfleto publicado em 1880, em Paris, denunciou a santificação do trabalho. O trabalho foi considerado uma sátira política magistral, uma obra-prima de crítica ao regime capitalista e um clássico da literatura francesa. Lafargue nasceu em Cuba, era filho de um francês e de uma judia, neto de uma mulata.

Em 1880, os trabalhadores de Paris cumpriam jornadas de 12 a 17 horas, e se sentiam fazendo algo dignificante e benéfico. Lafargue dizia que o trabalho, dentro dos limites impostos pela necessidade humana do ócio e do lazer, é uma atividade imprescindível à autoconstrução da humanidade. Mas que se torna uma desgraça desde que passa a nos ser imposto.

A jornada alongada, já dizia Lafargue, agrava o desemprego. Quanto mais horas as pessoas se determinam a trabalhar, mais gente fica sem trabalho. Assim como Pochmann, Lafargue conclamava os socialistas a lutar pela redução da jornada em prol da duplicação do número de empregos.

Optar por um modo alternativo de vida em que o trabalho não seja a mola mestra é uma decisão para poucos. Rui Takeguma, de 39 anos, é terapeuta corporal de uma técnica que chama de “Somaiê, Uma Coisa Vagabunda”. É uma terapia corporal, vertente da somaterapia, em grupo que produz desequilíbrios e questionamentos no soma (totalidade de cada indivíduo). Trabalha dois finais de semana por mês, faz capoeira e outras atividades ligadas à técnica.

“O vagabundo é algo malvisto na sociedade, enquanto o trabalho é algo nobre, honrado. Existe lógica nisso, mas não como vemos hoje. A maneira como as pessoas trabalham e vivem hoje é uma forma de tortura”, diz Takeguma. Para ele, é muito importante as pessoas terem tempo para produzir em seu próprio ritmo. “Na Somaiê, a gente propõe que as pessoas mudem a forma de viver, que elas encarem o trabalho como prazer. Eu faço isso. Tenho tanto prazer no que faço que não preciso de férias.”

Os participantes dos grupos de Somaiê criam sua estratégia. Às vezes é preciso cair no mercado informal, autônomo, reduzir o consumo. “Eu me mudei de São Paulo para Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro, para diminuir o custo de vida. Não tenho grana, mas é a terapia que me mantém e sinto prazer nisso. É assim que educo minha filha, numa perspectiva de que ela faça o que gosta.”

Gerardo Lazzari Jair Rodrigues
Jair Rodrigues reduziu bastante o número de shows e foi morar no campo, mesmo assim garante: “Odeio coçar o saco”

Ócio criativo

O sociólogo italiano Domenico De Masi, criador do conceito de ócio criativo, afirma que não se pode separar estudo, trabalho e lazer, mas que as três coisas devem se integrar. Ele não defende o não fazer nada. E julga ser impossível parar de criar em nossa sociedade pós-industrial. Em recente palestra no Brasil, disse: “Você pode ir ao cinema, fazer amor, passear, dormir, e ainda assim estar pensando em algo que precisa produzir”. O ócio serve para melhorar a qualidade de vida de quem trabalha. Trabalhar não basta para ser feliz. “É condição indispensável, mas não suficiente para conquistar o bem-estar.”

É nessa integração proposta por De Masi que vive, em sua casa de campo, o cantor Jair Rodrigues, de 70 anos. Aos 46 anos de carreira, busca diariamente o aperfeiçoamento. Já chegou a fazer 30 shows por semana. Hoje, se estiver bem, faz cinco. “É porque eu quero dar o melhor para o público. Agora, sim, posso dizer que estou no auge da carreira. E quando estou na horta ou podando as plantas, fico pensando, criando. Minha capacidade de criação é infinita, não paro nunca. Odeio coçar o saco. Me irrita ficar de papo pro ar”, diz.

Jair está aprendendo a navegar na internet, quer se manter conectado e não pensa em parar de trabalhar. “Mas tenho consciência de que a minha profissão é muito mais prazerosa do que a da maioria dos trabalhadores. Por isso me sinto assim. Me divirto muito cantando.” Jair começou na lida aos 5 anos de idade ajudando a mãe no corte de cana-de-açúcar e na colheita de algodão. “Desde aquela época já achava tudo divertido.”

Segundo De Masi, com a aceitação do conceito do ócio, todos os parâmetros da vida mudam. “A escolha de um bom colchão é mais importante do que a escolha da mesa de trabalho; a escolha do amigo com quem sair de férias vale mais que a escolha do colega de trabalho; a escolha de uma faculdade universitária que prepara para a vida é mais sábia que a escolha de uma faculdade que prepara para a profissão. O que conta não é o estresse de carreira, mas a serenidade da sabedoria”, escreveu em seu livro Ócio Criativo, publicado pela Editora Sextante.Sobre como aplicar o ócio, revelou: “É preciso ensinar aos jovens não só como se virar nos meandros do trabalho, mas também pelos meandros dos vários possíveis lazeres. Significa educar para a solidão e para a companhia, para a solidariedade e para o voluntariado. Significa ensinar como se evita a alienação que pode ser provocada pelo tempo vago, tão perigosa quanto a alienação derivada do trabalho”.

A vida de artista é, de fato, uma reafirmação de que o ócio criativo gera um estilo de vida. O cantor e compositor Dori Caymmi, de 65 anos, tem a música como fonte de prazer antes mesmo de ser seu meio de vida. Herdou do pai, Dorival Caymmi, o prazer pela composição e ainda faz orquestração. “Para o artista não existe feriado. A criação não para nunca. Minha oficina é meu coração”, revela Dori, que vive em Los Angeles, Estados Unidos, desde 1990.

Em sua casa, o cenário que inspira sua criação são as árvores de frutas, como figueira, macieira, limeira da Pérsia, folhas, formigas. “Meu pai transmitiu aos filhos esse amor à natureza e a capacidade de criar diante de seus apelos”, conta o músico. Mas ele admite que a idade reduz a produção. “Foi assim com os grandes clássicos. Suas maiores obras foram feitas na juventude”, lembra.