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Número 24, Maio 2008

mídia

Tirem as crianças da sala

Como a tragédia familiar da menina Isabella, transformada em seriado de suspense e terror, pode mexer com a cabeça das pessoas, especialmente das crianças como ela
por Cida de Oliveira publicado , última modificação 01/11/2017 12h35
Como a tragédia familiar da menina Isabella, transformada em seriado de suspense e terror, pode mexer com a cabeça das pessoas, especialmente das crianças como ela
Jailton Garcia
Mayara Leal Lasko

Enquanto o texto desta reportagem era finalizado, policiais encerravam a reconstituição do crime que levou à morte de Isabella Nardoni, de 5 anos. Ruas próximas ao local foram interditadas e o espaço aéreo fechado pela Aeronáutica. Tudo para não atrapalhar a encenação dos últimos momentos de vida da menina. Emissoras transmitiam ao vivo e quem dependia da TV aberta não tinha opções. E assim tem sido desde o final de março, quando o episódio ganhou manchetes, capas de revistas e horas de rádio e TV. Entre solidários e curiosos, ambulantes e oportunistas de plantão em busca de um lugarzinho no enquadramento das câmeras, mídia e público em geral proporcionaram um show de horrores. Mas, além de condenar previamente os acusados e expô-los ao apetite de tantos heróis ávidos por fazer “justiça” com as mãos, paus e pedras, a overdose de violência pode levar a outros estragos.

No começo de abril, em Cariacica (ES), uma menina de 10 anos, filha de um motoboy, teria pulado do quarto andar. Tinha medo do pai, que chegara nervoso em casa, como sempre acontecia, segundo um jornal local. O pai foi preso e não se falou mais no assunto. 

De 29 de março para cá, nas rodas de conversa, no ônibus, no elevador, na fila do caixa eletrônico, nas padarias e festinhas há sempre uma história sendo contada. Há sempre alguém que conhece uma criança que teria dito estar “aliviada por não ter sido jogada janela abaixo”. Ou que tenha medo de que “a moda pegue”. Dias desses, a pequena Sarah, de pouco mais de 2 anos, perguntou à mãe: “Se eu cair lá embaixo, você não me segura, né? Vou morrer igual a Isabella”. Quem conta é Nelma Alcântara da Silva, mãe da menina, que mora num prédio da Cohab, em Carapicuíba (SP). Hellen, 10 anos, irmã de Sarah, impressionou-se: “Fiquei triste como se ela (Sarah) tivesse caído”.

O psicólogo Ronald Guttermann, autor do livro O Jardim da Infância Perdida, trabalhou durante cinco anos na extinta Febem acompanhando crianças pequenas vítimas de agressão física, entre outras. Segundo ele, as menores de 10 anos são as mais prejudicadas. “Independentemente de quem seja o autor do crime, a idéia que martela nas cabeças ainda em desenvolvimento é ‘como pode um pai matar um filho’?”, diz. “Isso gera uma angústia enorme.” E não há, como nos contos de fadas em que a personagem da madrasta é sempre associada ao mal, como voltar o tempo. O final já está fechado e o estrago está feito.

A angústia a que Guttermann se refere afeta o processo de formação da confiança e dos vínculos afetivos. E, para ele, a base da construção da sociedade é a confiança. Para que limites possam ser apresentados pelos pais, é preciso haver confiança. “Quando isso se quebra, as relações se tornam mais frias, frágeis e inconseqüentes”, resume o psicólogo, fazendo referência a tantas infrações cometidas por crianças e adolescentes justamente pela falta de limites. “Num momento como esse os pais têm de reforçar e mostrar seu amor pelos filhos. Deixar claro que um episódio como o vivido na família Nardoni é raro e, quando ocorre, é motivado por uma doença emocional, muito séria, que precisa ser tratada”, explica.

Marisa Fefferman, professora de Psicologia da Universidade de São Paulo, autora do livro Vidas Arriscadas, reforça o alerta: “A história, da maneira como foi explorada, pode quebrar o que resta da já fragilizada instituição familiar”.

Bruno Leal Lasko

Pega e lincha

Não bastasse a exibição diária e ostensiva da tragédia de Isabella em si, as crianças espectadoras ainda tinham de conviver com a odiosa relação mídia–platéia, esta que o psicanalista Contardo Calligaris chamou de “turba do pega e lincha”, em artigo publicado na Folha de S.Paulo. O colunista dispara sua crítica contra a atitude dos que davam plantão nas cenas do caso na esperança de gritar “assassinos” quando eles aparecessem, pedindo justiça: “Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo... Parecem se sentir investidos da função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente... O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella”.

E a responsabilidade da mídia pela repercussão de sua cobertura, não identificável no plano imediato – sobretudo no aspecto emocional das crianças –, não é pequena. Se fosse um filme, os ingredientes insistentemente repassados do episódio – situação familiar obscura, espancamentos, asfixia, sangue no carro e pela casa, perda de sentidos, queda pela janela – seriam caso de receber o selo “desaconselhável para menores”. Sobretudo diante da audiência alcançada.

Uma tradicional pesquisa da CNT/Sensus apurou que o caso foi o que atingiu o maior índice de conhecimento da população desde 1998. Mais de 98% dos entrevistados afirmaram ter acompanhado, bem à frente de fatos como surto da dengue, o suposto dossiê sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a crise diplomática entre Brasil e Espanha. O levantamento verificou ainda que, entre os consumidores do noticiário, quase 72% acreditam que a imprensa acompanhou o caso de maneira adequada e com competência, enquanto apenas 24,3% reprovaram a cobertura.

Talvez seja essa “fé” na mídia que move a turba a que se referiu Contardo Calligaris: “Gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto”. Diante de tanta credibilidade, melhor tirar as crianças da sala.

Vinicius Mendes

Crianças sem filtro

"Fiquei triste porque o ladrão jogou a menina da janela e ela sentiu dor. Pensei nisso algumas vezes. Na escola ninguém fala. E nem no prédio. A menina caiu do 6º andar”
Leonardo Rilko de Oliveira, 9 anos, 3ª série

"Quando ouvi o caso pela primeira vez pensei: e se a moda pega? E se todos os pais resolverem fazer igual? Fiquei pensando como a menina sofreu, como deve ter doído. Me coloquei no lugar dela, mas logo esqueci. Não fiquei muito tempo pensando nisso, não. A televisão e o jornal é que falam demais. Mas acho que isso é assim porque tem gente querendo saber de tudo. Na minha casa, todo mundo quer saber quem matou. As crianças devem ficar preocupadas, sim, porque madrasta não é como mãe. Não é a mesma coisa. A madrasta ficou nervosa e descontou tudo na menina”
Mayara Leal Lasko, 11 anos, 6ª série

"Escutei falar que o pai empurrou da janela. Achei que o pai não ia jogar, mas a televisão disse. Não fala mentira. Na escola falavam que tinham medo do pai ficar bravo e também jogar elas. A menina era boazinha, mas o pai ficou nervoso”
Bruno Leal Lasko, 4 anos

"Caiu da janela, 6º andar, 20 metros de altura, há pista de que foram o pai e a madrasta. Acho que foram eles, mas pode aparecer outra pista. Acho que o pai estava muito nervoso, doente da cabeça. E a madrasta tinha ciúme da menina. Tinha muito ciúme. Na hora que fiquei sabendo da menina caindo, pensei na minha irmã. Fiquei triste como se ela é que tivesse caído. Acho que a menina tinha desobedecido. Na escola não teve comentários, nem no prédio, na conversa dos amigos. A gente não fala muito disso. Eu sempre tive medo de altura. A televisão fala toda hora a mesma coisa, toda hora passa como foi, como caiu, fiquei impressionada. Tanta violência. Todas as crianças ficam revoltadas quando apanham. E ela deve ter apanhado muitas vezes antes daquele dia. Criança não pode ter medo do pai. Tem que gostar. O pai não pode ser ruim. É obrigação dos pais ser bonzinhos e os filhos têm que obedecer até quando mandam dormir, escovar os dentes”
Brenda Hellen Alcântara da Silva, 10 anos, 6ª série

"A professora sempre manda rezar antes de dar lição. Teve dias que ela mandou rezar pra Isabella. Esses dias rezamos de novo. Uma menina da escola, que mora em prédio, ficou com medo. Meu pai contou que o pai jogou a menina da janela. Meu pai não mente, mas brinca de vez em quando. A televisão também não fala mentira”
Danilo Leal Lasko, 7 anos, 2ª série

"Quando eu escutei pela primeira vez pensei: o pai jogou a criança pela janela? Mas não precisa ficar falando tanto. Meus pais ficaram preocupados, mas me contam tudo. Na escola, na classe, só se fala de vez em quando. As crianças podem estar preocupadas, mas não ficam comentando toda hora. Na tevê é direto. Mostra até o pai chegando na delegacia. Não precisa. Não lembro de outra coisa tão falada na televisão.Tão falando que a madrasta matou e o pai jogou. Tão investigando. Acho que é isso mesmo que estão falando. Tem a marca do chinelo. A gente tem que prestar atenção para não ter briga em casa, que às vezes acontece com minha irmã pequena”
Vinicius Mendes, 10 anos, 5ª série, SP