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Leitores cansados, jornais decadentes

Repetição insistente de assuntos, partidarização editorial, erros recorrentes. A queda de qualidade e de credibilidade derruba o interesse dos leitores e a audiência dos jornais

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Decadentes e parciais, jornais beiram o esgotamento, acumulam prejuízos e empacam em vendas

Só pode ser desespero. As manchetes diárias dos jornalões brasileiros revelam o estado de ânimo das elites temerosas de que tenhamos, a partir de 2018, mais oito anos de governos populares no Brasil. Levaram um ano tentando organizar a oposição partidária e influenciar as esferas judiciais na tentativa de depor a presidente Dilma Rousseff. Diante da dificuldade legal de levar à frente o intento, voltaram as baterias para o ex-presidente Lula, na tentativa de tirá-lo da próxima disputa presidencial.

Nessa tarefa deixaram de terceirizar o ridículo, como vinham fazendo anteriormente ao dar voz a personagens esdrúxulos que chegavam até a pedir uma “intervenção militar”. Era uma forma de tentar manter um resquício de seriedade não assumindo diretamente essas estripulias.

Mas bateu o desespero e mandaram às favas seus pruridos senhoriais. Diante do pesadelo de uma quinta derrota eleitoral partiram para o tudo ou nada. Assumem o ridículo para si e colocam palavras como “nota fiscal” em manchete de primeira página, algo inédito na imprensa brasileira, talvez em todo o mundo.

E vão rolando por água abaixo. O ex-presidente Lula é apontado como criminoso por ter iniciado a compra de um apartamento e depois desistido. Essa acusação ocupou muitas páginas dos jornais durante alguns meses no lugar do impeachment frustrado. Mas teve de ser também esquecida. Primeiro pela fragilidade da acusação, e depois por levar a caminhos que não interessam aos donos da mídia.

Descobriu-se, na Operação Lava Jato, que vários apartamentos do edifício Solaris, no Guarujá, onde se localizava a unidade que Lula não comprou, pertencem a holding panamenha Mossack Fonseca. Ela seria controladora da empresa que tem registrada em seu nome uma mansão numa ilha do litoral fluminense, cuja propriedade real é da família Marinho, dona das Organizações Globo.

Por isso, o famoso “tríplex do Lula” no Guarujá sumiu. Como a pré-campanha eleitoral de 2018 não podia parar, o espaço do suntuoso apartamento foi substituído pelo “sítio de Atibaia”. Aí os últimos resquícios de seriedade que porventura ainda perduravam nos jornalões sucumbiram. Barco de R$ 4 mil, plantação de hortaliças, uma antena de telefonia celular e até uns pedalinhos passaram a ocupar o noticiário, como se nada de mais importante estivesse ocorrendo no mundo.

Mas como diz o velho refrão, cantado nas ruas contra a Rede Globo, e que vale para todo esse tipo de mídia, “o povo não é bobo”. Estão aí os dados de venda dos jornais confirmando essa afirmação e não vale dizer que a causa é a migração para a internet. O acesso às edições digitais também caiu.

Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC, entidade mantida pelo meio publicitário para medir audiências da mídia) entre janeiro e dezembro do ano passado a Folha de S.Paulo caiu 14,1% no impresso e 16,3% no digital. O Estado de S. Paulo caiu 6% no impresso e 14,4% no digital. Apenas O Globo subiu um pouquinho no digital (0,5%) mas caiu 9,1% no impresso.

A repetição incansável dos mesmos assuntos e a partidarização editorial cada vez mais escancarada cansam o leitor, o que pode explicar os números apresentados pelo IVC. A essas razões junte-se a queda de qualidade, tanto nas pautas quanto na edição dos jornais. Reportagens rarefeitas, muitas sem sustentação lógica, são editadas com erros grotescos que irritam o leitor.

Supostas denúncias transformam-se em textos jornalísticos muitas vezes na base do “ouvi dizer” e várias delas são redigidas com informações do tipo “a praia da Boa Viagem, em Fortaleza” ou para dizer que alguém mudou de posição, escreve-se que “fulano deu um giro de 360 graus”. A paciência do leitor se esgota.

Seguindo nessa linha de estreiteza política e enxugamento das redações, implicando na queda de qualidade dos seus produtos, as empresas jornalísticas caminham para o abismo. E parecem não perceber que estão cavando a própria ruína.