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Crescem os salários?

Nos últimos anos o trabalhador passou a conviver com reajustes que, apesar de abaixo de um dígito, já superaram a inflação. Mas a sensação de que os assalariados ganham menos do que deviam ainda persiste

gerardo Lazzari

Giselle teve reajuste de 6% em junho e achou pouco: “Gasto muito com alimentação e despesas da casa. Lazer no máximo duas vezes por mês e nada de viajar”

A boa notícia. Os salários começaram a virar o jogo contra um velho adversário, a inflação, e continuam se recuperando. Ano passado, 85,7% dos acordos pesquisados pelo Dieese apresentaram reajuste acima do INPC-IBGE. Incluídos os que conseguiram ao menos empatar, chega-se a 96,4%. Foi o melhor resultado desde o início do estudo, em 1996 – década em que o Dieese analisou 5.187 acordos coletivos.

Ao divulgar o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre deste ano, o IBGE também trouxe uma informação pouco percebida, mas reveladora. Dos 596,168 bilhões de reais de PIB a valores de mercado, 368,210 bilhões vieram do consumo familiar. “Um dos fatores que contribuíram para esse resultado foi a elevação de 6,4% da massa salarial no trimestre”, diz o IBGE. Na Pesquisa Mensal de Emprego, do mesmo instituto, a massa de rendimentos nas regiões metropolitanas de seis capitais analisadas (de SP, RJ, BH, BA, DF, PE) somou 22,9 bilhões de reais em maio deste ano, crescimento de 5,9% na comparação com o mesmo mês de 2006.

A má notícia: os salários continuam, sim, ainda baixos, resultado de anos de pacotes, inflação descontrolada e políticas desfavoráveis ao emprego. A recuperação recente da economia ainda não refletiu plenamente no bolso dos assalariados. Por isso, muita gente desconfia dos índices inflacionários, com a sensação de que os baixos percentuais não correspondem à realidade. Afinal, a inflação do ano passado inteiro – 2,81% – perde de longe para a de um único mês há exatos 15 anos: em junho de 1992 o mesmo INPC passou de 20%.

“É uma situação paradoxal”, concorda o professor Hélio Zylberstajn, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. “É como se a poeira tivesse baixado, e agora todo mundo estivesse vendo como o salário no Brasil é baixo. A distribuição funcional da renda ainda é muito desfavorável ao trabalhador”, observa.

Então acontece o que o economista José Silvestre Prado de Oliveira, do Dieese, chama de “desilusão monetária”. A ilusão era o reajuste em tempo de inflação elevada, que podia chegar a 100%. “Hoje você vive o processo inverso. Tem inflação de 4% e acordos de 6%. Houve ganho real”, observa. Mas existe a percepção de que os índices de inflação não refletiriam a realidade. Como os índices são médias de variações de preços, a sensação de cada família varia conforme o peso de cada item em seu orçamento.

Falta alguma coisa

No Índice de Custo de Vida (ICV) calculado pelo Dieese para São Paulo, por exemplo, a alimentação pesa 25%. Dependendo do mês, um item pode subir e outro cair, refletindo na média geral. “A medida de variação dos preços tem alcançado taxas tão baixas, no período recente, que chega a provocar, em diversas pessoas, uma reação de incredulidade”, diz estudo do Dieese divulgado no ano passado. “Parte dessa reação se deve ao fato de que, em anos anteriores, houve queda no rendimento real dos assalariados e também crescimento do desemprego, que diminui a renda familiar disponível, ocasionando queda no nível de consumo das pessoas.”

Um exemplo? Em junho, o ICV ficou em 0,15%. A alimentação, sozinha, subiu 0,99% – e um de seus itens, o feijão, 14,85%. Acontece que o transporte caiu 1,17%, por causa da redução do preço dos combustíveis (-2,86%, chegando a -9,78% no caso do álcool).

Pelo menos em junho, a alimentação subiu, o transporte caiu, e os componentes do índice, de certa forma, compensaram um ao outro. Outro exemplo? O IPCA-15, calculado pelo IBGE, terminou julho com variação de 0,24%. Mas a alimentação, de novo ela, registrou aumento de 1%. Só o grupo formado pelo leite e seus derivados subiu 9,25%.

Para o analista de suprimentos Mário José Rodrigues, de 56 anos, existe mesmo uma sensação de estar recebendo pouco. “Mesmo porque os salários estão defasados. Mas sabendo que o poder de compra do salário no final do mês é praticamente o mesmo dá para controlar mais”, diz o funcionário da Elektro, de Campinas (SP), que está no mercado de trabalho há 40 anos. Para ele, a composição de despesas também mudou. “Hoje todo mundo tem gastos que não tinha, como celular, TV a cabo”, constata. “O celular dos quatro (ele, a mulher e duas filhas) pesa”, lembra o analista, que tem ainda o desembolso das faculdades das filhas. O corte de gastos é feito, principalmente, em lazer e cultura. “Não é toda hora que dá para ir ao teatro, ao cinema.”

Rodrigo QueirozPaulo
Segurança – Paulo: “O trabalhador já sabe que o índice vai ser baixo, mas tem mais tranqüilidade na hora de fazer as contas domésticas”

Maquininha

Há um ano numa empresa multinacional, a coordenadora de exportação Giovana Stefanelli, de 33 anos, recebeu em junho um reajuste de 6%. Achou pouco e que vai continuar com dificuldades para controlar o orçamento. “Gasto muito com alimentação e as despesas da casa. Lazer no máximo duas vezes por mês e nada de viajar”, lamenta Giovana, que recebe benefícios como assistência médica e odontológica, vale-refeição, transporte e participação nos lucros e resultados. Mas enfrenta um ritmo intenso de trabalho e jornadas bem acima de oito horas diárias. “Lido com deadline e emissão de documentos, uma responsabilidade enorme, qualquer tipo de erro gera altos custos para a empresa.”

Dos tempos de inflação alta Giovana pouco recorda. “Lembro que os mercados viviam com aquelas maquininhas de remarcar preço.” Ela vê a situação melhor com inflação baixa, mas considera que os salários podiam ser maiores. “Apesar de tudo, vejo que o poder aquisitivo melhorou nos últimos tempos. Acho que isso é reflexo da maior qualificação das pessoas e de uma preocupação dos governos com o equilíbrio econômico.”

Para o bancário carioca Paulo Roberto Dias Pires, 54 anos, há 30 na mesma empresa – antes Banerj, hoje Itaú –, a PLR se somou à lista de prioridades nas campanhas salariais. “O trabalhador já sabe que o índice vai ser baixo, mas mesmo assim tem mais tranqüilidade na hora de fazer as contas domésticas”, avalia. “Eu fazia orçamento todo mês, era uma loucura”, lembra Paulo, que passa vários meses sem alterar a sua estrutura de gastos. Entre os novos itens de despesa, ele cita a previdência privada, que consome por volta de 15% de seu salário bruto.

José Silvestre, do Dieese, observa que alguns serviços públicos passaram a ser privados, como telefone e energia elétrica. “Eram preços administrados, que tiveram aumento acima da inflação.” Além disso, o desemprego também influencia na renda familiar. “De certa forma, a rotatividade burla o reajuste. Inflação baixa é um aspecto, mas a questão é que, mesmo com reajuste o salário continua baixo pois os rendimentos foram achatados ao longo dos anos”, reforça o economista, lembrando outros novos itens que passaram a ter peso na despesa doméstica, como internet (antes discada, agora banda larga), cheque especial e cartão de crédito (ou seja, juros). “As últimas Pesquisas de Orçamento Familiar não captam essas coisas mais recentes.”

tabela

Reajuste de 45%: vaias

Adi lembra até hoje daquele 2 de maio de 1989. Em cima de um carro de som em São Bernardo, o Barão de Tefé, diante de 50 mil pessoas, ele foi um dos oradores a defender o acordo que previa reajuste de 45% – a reivindicação inicial era de 84%. Todos os que falaram naquele dia foram implacavelmente vaiados. “Escuto aquela vaia até hoje”, brinca o hoje secretário-geral da CUT de São Paulo, o metalúrgico Adi dos Santos Lima. Ano passado, o acordo incluiu reajuste de 4,15%. Sem vaias.

Para o petroleiro aposentado Ricardo Gerbelli, que trabalhou durante 22 anos na Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá, a situação mudou bastante em relação ao período que ele chama de planos mirabolantes. “O reajuste era ilusório. Tudo subia de novo. Hoje você se planeja. Se entra num consórcio, a prestação é fixa”, compara.
O presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Luiz Cláudio Marcolino, vê mudança de dinâmica na negociação coletiva. “Saímos de um processo em que se brigava contra a redução de direitos”, lembra, citando a perda do adicional por tempo de serviço e o ganho de cláusulas de maior indenização, assistência médica, igualdade de oportunidades e verba de qualificação. “Hoje, fortalecer a renda do trabalhador inclui, além da valorização salarial, discutir a remuneração que é variável.” O dirigente considera que as relações de trabalho incorporam ainda preocupações como controle do assédio moral e de metas abusivas. “A inflação controlada permite trabalhar outros temas.” No início dos anos 90, lembra, o slogan era “sobra mês no fim do meu salário”.

O vice-presidente do Sinergia (que inclui eletricitários e trabalhadores no setor de gás), Wilson Marques de Almeida, reconhece que é difícil “fazer greve de um dia por 0,5%” e que os itens sociais e a PLR ganharam peso. Outro sinal de mudança em negociações ocorreu no setor de construção. O presidente do sindicato da categoria em São Bernardo e Diadema, Cladeonor Neves da Silva, conta que havia insatisfação com a cesta básica e que na campanha deste ano a cesta perdeu alguns quilos mas ganhou mais produtos, como o popular jabá. Cladeonor participou pela primeira vez de uma campanha salarial em 1978, quando era metalúrgico. “Tomei uma borrachada da polícia e fiquei 49 dias afastado”, lembra.

“Negociar em uma conjuntura de crescimento econômico e aumento do emprego é diferente do que acontecia até 2001, com férias coletivas, demissões, queda na produção. No máximo, você conseguia repor a inflação”, diz Adi, da CUT de São Paulo. De lá para cá, foi possível negociar questões como controle das horas extras e terceirização. “Sobra tempo para mobilizar para outras coisas ligadas à qualidade no emprego.”

Para Hélio Zylberstajn, da USP, essa é uma tendência. “As pautas vão ficando mais ricas”, acredita. Segundo ele, existe uma pauta comum a empregados e empresas. “Como se poderia, por meio da negociação coletiva, aumentar a produtividade? Eu arriscaria a dizer que vamos ter progressos nessa área.” É um momento de ajuste de agenda, concorda Silvestre, do Dieese. “Que novos balizadores podem ser levados à mesa de negociação? A produtividade? O PIB?”, provoca. “O trabalhador já percebeu que a inflação está dada. Ele agora quer discutir acima disso.” O jogo não acabou, mas começou a virar.

País dos pacotes
A partir dos anos 80, os salários foram embrulhados de diferentes formas. A lógica: tirar dinheiro da economia para deter a inflação. Tese errada. A inflação atingiu 2.500% ao ano em 1993.

1983/1985
Foram vários decretos-lei, comuns na época. Um primeiro estabelecia reajustes escalonados. O seguinte determinava reposição integral da inflação até a faixa de sete salários. Outro limitou os aumentos a 80% do INPC para todos. Mas os efeitos do arrocho salarial não se concretizaram. A inflação atingiu 170% em 1983 e passou de 200% nos dois anos posteriores.

1986/1987
O Plano Cruzado (fevereiro de 1986) congelou preços. Os salários tiveram reajuste pela média do semestre anterior e “abono” de 8%. Um “gatilho” seria acionado cada vez que a inflação atingisse 20%. Na data-base, o reajuste seria de apenas 60% da inflação oficial; os outros 40% dependeriam de negociação. No final do ano, o Cruzado 2 autorizou aumentos de preços e trocou o índice salarial, retardando o disparo do tal gatilho. A inflação saiu do controle, e os gatilhos acabaram em balas perdidas na economia.

1987/1989
Fase do Plano Bresser, de reajuste baseado na Unidade de Referência de Preços (URP), calculada pela média geométrica do IPC acumulado do trimestre anterior. A inflação de junho de 1987 (26,06%) foi “esquecida”.

1989/1990
Em fevereiro de 1989, os salários foram convertidos pela média real do ano anterior – a essa média seria aplicada a URP de janeiro (26%), posteriormente trocada pelo IPC (35,48%). Depois de uma greve geral em março, o fator de atualização foi alterado para 53,27%. De junho de 1989 a março de 1990, a legislação estabeleceu reajustes mensais para a faixa equivalente a três salários mínimos. De três a 20 mínimos haveria antecipações mensais, com ajuste no final de cada trimestre.

Colaborou Xandra Stefanel

 

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