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Número 17, Outubro 2007

entrevista

Minha cria é um homem-bomba

Jovens dos morros cariocas planejam operação camicase para resgatar suas mães, seqüestradas pelo asfalto. E Caco Barcellos leva ao palco a sociedade dramática e desigual que contaminou sua vida de repórter
por Tom Cardoso publicado , última modificação 19/09/2017 11h16
Jovens dos morros cariocas planejam operação camicase para resgatar suas mães, seqüestradas pelo asfalto. E Caco Barcellos leva ao palco a sociedade dramática e desigual que contaminou sua vida de repórter
Jailton Garcia
caco

Há semelhanças entre o jovem traficante do Rio e o que vive na Faixa de Gaza: a revolta, a indignação, a inquietude, o abandono social, a relação entre ricos e pobres. São fatores em comum

Por esta a polícia do Rio de Janeiro não esperava: os traficantes preparam um grande ataque camicase contra a burguesia da zona sul. Calma, Cabral. É apenas fantasia da cabeça do escritor e repórter Caco Barcellos, transformada em peça de teatro. Osama, o Homem-Bomba do Rio, assinada pelo jornalista, estréia em novembro e será encenada por jovens de escolas particulares e públicas. É parte do Projeto Conexões, parceria entre Cultura Inglesa São Paulo, British Council Brasil, Colégio São Luís, National Theatre (da Inglaterra) e Teatro-Escola Célia Helena.

Barcellos vê semelhanças entre o jovem traficante do Rio e os meninos do Oriente Médio. Viveu pessoalmente a realidade dos morros cariocas, num grande esforço de reportagem que resultou no livro Abusado, o Dono do Morro Dona Marta, a trajetória do traficante Marcinho VP. E também conhece a rotina dos jovens palestinos, resultado de reportagens na Faixa de Gaza, feitas nos tempos de correspondente da TV Globo em Paris. Nada escapa ao olho clínico de Caco Barcellos. Em 1992, ele lançou Rota 66 – A História da Polícia Que Mata, livro-denúncia que ajudou a decifrar o grupo de extermínio comandado pela tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo. Até hoje Barcellos continua sendo processado por soldados e recebendo homenagens da comunidade carente da cidade. A última foi um rap batizado Rota 66, composto por Afro X.

Editor do programa “Profissão Repórter”, sopro de resistência jornalística em meio à programação do Fantástico, Barcellos continua acompanhando de perto as políticas de repressão à violência e não poupa críticas às invasões aos morros cariocas terminadas em execuções. “Se o uso da violência policial fosse bom, eficiente, São Paulo seria hoje um paraíso”, compara.

Barcellos recebeu reportagem da Revista do Brasil no seu laboratório de jornalismo, a redação do “Profissão Repórter”. Havia acabado de sair de uma exaustiva cobertura de 12 horas da tragédia com o Airbus da TAM, em Congonhas. E, como bom repórter, não baixou as antenas.

É possível escrever uma peça de teatro, trabalhar como repórter e ainda pensar em escrever um novo livro?
Já estou acostumado a esse ritmo. Ontem (17 de julho) cheguei às 19 horas em Congonhas, após o acidente com o Airbus da TAM, com a equipe do “Profissão Repórter”. Fiquei lá por quase 12 horas. Chegamos aqui na redação e corremos para a ilha de edição.

Em 1975 você também escreveu uma peça baseada em temas sociais, como pobreza e violência...
Eu ainda trabalhava como repórter em Porto Alegre, para o jornal Folha da Manhã, cobrindo assuntos relacionados à violência. Escrevia crônicas sobre a minha vida cotidiana de repórter. Um diretor de teatro achou que eu levava jeito e me chamou para ajudá-lo a desenvolver uma peça. Já havia pré-roteiro. Era sobre uma mulher com problemas mentais perseguida pela polícia. Agora, não. É também uma encomenda, mas com liberdade total na escolha do tema. Tentei escrever como ficcionista, mas toda hora me sentia preso a uma espécie de camisa-de-força representada pelas histórias verdadeiras do universo em que me envolvo no trabalho de repórter. Sempre que eu tentava criar uma história ficava preso a uma necessidade de coerência, de verossimilhança.

Você vai usar personagens do seu livro Abusado?
Sim, indiretamente. Eu tenho um farto material de pesquisa desse livro. Fiz centenas de entrevistas, todas gravadas, e isso me ajudou a entender a rotina dos adolescentes e jovens que habitam os morros do Rio. É claro que o processo de gírias é muito dinâmico. Se hoje eu subir o morro do Rio já não vou entender muita coisa. Mas o universo continua o mesmo. E o personagem principal da peça, o Osama, é muito parecido com os meninos retratados no Abusado. Ele é uma mistura de traficantes do Rio com delinqüentes de São Paulo.

Por que Osama?
Você lembra de um jovem (Carlos Eduardo de Melo Menezes) que invadiu (em novembro do ano passado) o prédio da Bolsa de Valores, em São Paulo, com um cinto de explosivos? Não havia dinamite, era apenas uma cena para chamar a atenção. Ficou lá horas, de braços cruzados. Mas essa história me ajudou a pensar num personagem, meio fantasioso, meio real. E o nome Osama surgiu da minha necessidade de traçar um paralelo entre o jovem traficante dos morros do Rio e os jovens do Oriente Médio.

Há semelhança entre esses dois universos?
Sim. Eu estive – nos quatro anos em que fui correspondente da TV Globo na Europa – algumas vezes na região de conflito entre israelenses e palestinos. Há, sim, semelhanças entre o jovem traficante do Rio e o menino que vive na Faixa de Gaza: a revolta, a indignação, a inquietude, o abandono social, a relação entre ricos e pobres. São fatores em comum. É claro que há grandes diferenças, provavelmente mais diferenças. A questão da religiosidade, por exemplo. Um jovem palestino é capaz de dar a vida por sua causa, pela sua religião; já o jovem brasileiro, dificilmente. Essa é uma pequena vantagem brasileira. Pequena vantagem, pois o jovem brasileiro acompanha a sociedade brasileira e mata por qualquer bobagem.

O Osama é um camicase...
Sim! Ele quer fazer uma revolução camicase no Rio de Janeiro. Está disposto a morrer pela libertação de sua mãe e de outras mães que estão presas trabalhando em casas da burguesia carioca. A peça é centrada em dois personagens principais: o Osama e o Diboa. O Diboa é de uma família de classe média carioca. É filho de um executivo de uma indústria de metais conhecido como “Lacerdinha” e neto de Carlos Lacerda (1914-1977, governador do antigo Estado da Guanabara). Seu pai é uma espécie de Carlos Lacerda contemporâneo.

Por que a referência a Carlos Lacerda?
O Carlos Lacerda ainda está muito presente na sociedade carioca, nas redações de jornais e televisão, inclusive. O lado conservador, a intolerância, principalmente com as classes mais pobres. O Lacerda era um conservador radical – expulsou os pobres da cidade do Rio de Janeiro. Vários condomínios da periferia do Rio, semelhantes à Cidade de Deus, foram obras de seu governo. Ele só não conseguiu expulsar todos os pobres da zona sul por causa da ação forte de Leonel Brizola, que foi o primeiro a dar legalidade ao povo da favela. E o Lacerdinha também é uma figura intolerante, um pai severo, reacionário, que acaba sendo decisivo no comportamento do filho, o Diboa, um delinqüente que conhece o Osama, líder do tráfico, que aos 20 anos resolve se aposentar. Osama tem uma idéia diferente do tráfico, quer fazer algo mais radical, um ataque camicase contra a elite carioca.

Nesse sentido ele se parece com o Marcinho VP (traficante, principal personagem do livro Abusado, morto em 2003)?
Tem um pouco, sim. Aquele lado marginal, meio romântico, idealista. O Osama, que já conseguiu ter um pé-de-meia com o dinheiro do tráfico, quer formar um grupo camicase para recuperar as mães que eles perderam. Que é algo real, rotineiro na vida dos jovens e crianças do morro. A mãe do menino da favela sai de casa na segunda-feira de manhã e só volta no sábado, no fim da tarde. Os filhos só convivem com as mães no domingo. É um seqüestro que ocorre todos os dias num país de graves diferenças sociais como o Brasil.

O Osama resolve, então, libertar sua mãe.
Sim. E o Diboa também. Seu pai, o Lacerdinha, é alcoólatra e bate na mulher todos os dias. E o Diboa, com pena da mãe, quer uma arma para expulsar o pai de casa. Ele é consumidor de drogas e acaba conhecendo o Osama numa academia de ginástica. Os dois se unem para ajudar as mães e decretam guerra ao Lacerdinha e à burguesia carioca. Tudo isso acontece no atual cenário de violência do Rio. Só não posso te contar o final (risos). Mas a peça se desenrola a partir desse conflito, que é muito comum na vida dos meninos de morro. É difícil o pai, que trabalha como porteiro ou operário, e a mãe, que passa a semana limpando a casa da patroa, convencerem o filho, que ganha dinheiro com o tráfico, que compra aparelho doméstico, o aparelho novo de televisão, o som importado, o DVD, a sair dessa vida.

Mas você não acha que esse glamour em torno do traficante de drogas se perdeu um pouco nos últimos anos?

É, de fato o “trabalho” para o tráfico é um tédio só. Aliás, no mundo da malandragem o traficante é visto pelos assaltantes como uma figura menor. O assaltante planeja o assalto, convoca um grupo de assaltantes no morro e parte para o ataque. Terceiriza o crime, só vai na boa. E depois gasta o dinheiro do assalto com mulheres e festas. Ou distribui a renda entre os parentes. Não precisa se esconder. Vai para o morro vizinho, e acabou. Já o traficante tem de ficar no morro, ficar no seu território, manter o estoque de cocaína, de armas. Tem de comprar a polícia para não morrer, tem de ter relações com políticos; tem de agradar à comunidade. Tem um monte de “responsabilidades” que torna a vida muito chata. O bandido mais experiente, que quer grana fácil, vida boa, não quer saber do tráfico.

Do livro Rota 66 ao Abusado você construiu toda uma antropologia da polícia. Como foi esse processo? E como você vê a polícia nos dias de hoje?
No Rota eu fiz algo bem específico, que era provar que aquela facção da polícia era um grupo de extermínio organizado. Nunca fiz nenhuma pesquisa para avaliar o desenvolvimento da polícia, a evolução, mas, como estou o tempo todo na rua, acabo conhecendo bem o modo de agir de cada grupo policial. Vejo, por exemplo, que o Rio adotou, com as milícias, a mesma técnica dos antigos pés-de-pato (grupos de extermínio de São Paulo, formados em sua maioria por policiais), de pegar dinheiro da comunidade, de cobrar pedágio, para garantir a segurança.

Os pés-de-pato ainda existem em São Paulo?

O ex-PM em folga que pegava o dinheiro do comerciante para garantir a segurança? Sim, ainda existe, mas não com a mesma força. No Rio está mais organizado.

Como você vê a nova conduta adotada pelo governador Sérgio Cabral? Laudos do Instituto Médico Legal mostram que oito das 19 mortes ocorridas durante a invasão policial ao Complexo do Alemão, em junho, foram causadas por tiros à queima-roupa.
A atitude da polícia carioca é indefensável. Acho que se a intenção fosse desarmar as pessoas, sem mortes, seria muito bom. Há situações, claro, ainda mais numa invasão ao Complexo do Alemão, em que a morte é inevitável, sobretudo em legítima defesa. Agora, o que me parece, como apontaram todas as entidades de direitos humanos, é que houve execuções. Acho que a violência gera mais violência. Como cidadão brasileiro, eu não quero ainda mais violência do que a gente já tem. E se uso da violência policial fosse bom, fosse eficaz, São Paulo seria hoje um paraíso.

Mas a violência também parte dos traficantes. A terceira geração do Comando Vermelho é considerada a mais violenta de todas as gerações.
O brasileiro é muito matador. É o terceiro povo mais violento do mundo. E a violência não está só na polícia, mas em todos segmentos. E no crime organizado também. A terceira geração do Comando Vermelho é violentíssima, controlada hoje por matadores. O chefe do morro do Rio é igualzinho ao coronel da PM. A mentalidade é a mesma: ninguém tem direito à vida, direito a nada.

E a sociedade brasileira também ajuda a legitimar a violência, quando aplaude as execuções da PM, quando pede a Rota nas ruas, quando tenta linchamentos...
Sem dúvida. Quando era correspondente em Paris, fui à periferia da cidade para entender como se dava a relação da comunidade mais pobre com a polícia. Não havia um só caso de execução nos últimos anos. E, quando houve, o policial foi punido com rigor. Aqui, não. Tudo é motivo para matar. A sociedade brasileira, por exemplo, não tolera o crime quando envolve patrimônio, mas tolera um assassinato que envolve a honra de alguém. Há uma legitimidade silenciosa.

O que você acha do programa de segurança adotado pelo prefeito de Nova York (de 1994 a 2002), Rudolph Giuliani, o Tolerância Zero? Ele poderia ser implantado aqui, ou no Brasil repressão não combina com eficiência?
É preciso dizer que, ao contrário do que as pessoas pensam, o Tolerância Zero não deu certo porque reprimiu severamente o crime, e sim porque implantou um plano de valorização dos policiais, sobretudo um aumento salarial. Eu tenho certeza de que se pagassem melhor o soldado da PM do Rio, por exemplo, haveria menos corrupção e menos violência.

Mas o orçamento do governo do Rio não se compara ao orçamento de Nova York...

Não, não se compara. Mas é preciso que a sociedade toda se mobilize. Não é possível que os empresários que estão ganhando fortuna com especulação não coloquem a mão no bolso para ajudar a diminuir o problema da violência. Eu não entendo de economia, mas sei que os banqueiros, por exemplo, acumularam uma fortuna nos últimos 15 anos. E continuam, mesmo com lucros exorbitantes, pagando salários baixos aos empregados. O mesmo vale para os outros empresários. Enquanto não mudar essa mentalidade gananciosa, enquanto não houver distribuição de renda, não há como diminuir a violência.

Você chegou a receber várias ameaças de morte na época do lançamento do livro Rota 66, principalmente por parte dos policiais. As ameaças continuam?
As ameaças acabaram, já a perseguição na Justiça, não. Mas fui inocentado em todos os processos. O curioso é que raramente sou processado por coronéis, apenas por soldados. Pedem sempre a mesma quantia: 1 milhão de reais (risos). O pior é que eles alegam pobreza e, mesmo eu ganhando a ação, acabo tendo de arcar com as custas do processo. A receita com o Rota 66, um dos campeões de vendas da editora, não supera as despesas geradas pelos processos.

É verdade que tem soldado descontente que lhe manda cartas anônimas denunciando o superior? Você virou uma espécie de corregedor não oficial da PM?

É, recebi durante muito tempo cartas de policiais, denunciando abusos de seus oficiais. Mas isso parou um pouco. Eu recebo muitas cartas anônimas com fotos de jovens executados, sem causa aparente. A matança na periferia, por parte dos policiais, continua forte.

O Rota 66 acabou virando livro de referência para jovens da periferia. Chegou até a virar título de um rap.
É, fiquei muito feliz com a homenagem. As histórias que esses meninos contam nas letras são fascinantes. Valem mais do que qualquer livro. Eles são os verdadeiros repórteres da periferia.