Nunca mais

Presidente da CUT descarta ‘aventura autoritária’. Centrais reafirmam Estado de direito

Para dirigente, golpe seria saída “ao gosto” de Bolsonaro, mas ele não vê possibilidade de as Forças Armadas aderirem

Antonio Cruz/Agência Brasil
Manifestação no Congresso, anos atrás, homenageia mortos e desaparecidos durante a ditadura: memória

São Paulo – Golpe não é “hipótese disponíveis aos devaneios do presidente Jair Bolsonaro”, diz o presidente da CUT, Sérgio Nobre, que aponta um “momento de desespero” do chefe do Executivo. Em artigo, ele comenta a saída dos chefes militares, sem ver risco de golpe. “Tenho certeza de que seria uma saída muito ao gosto do presidente, mas não vejo nenhuma possibilidade de as Forças Armadas embarcarem em uma aventura autoritária”, afirma.

“Bolsonaro caminha para um fracasso retumbante e, por isso, se vale de soluções radicais para salvar, minimamente, a sua já medíocre biografia”, diz ainda Sérgio Nobre no texto. “Qualquer governante um pouco mais lúcido perceberia que não há saída para o Brasil sem, primeiro, dar solução para a pandemia, como condição para, na sequência, enfrentar o desemprego e retomar o crescimento econômico.”

Fantasmas e fracasso

Para o dirigente, Bolsonaro “prefere criar seus fantasmas e governar tentando enfrentá-los”. Com isso, acrescenta, tenta esconder o fracasso da política econômica. “Que é pilotada por um ministro ultraliberal, querido dos mercados, que prometeu crescimento e modernidade aos empresários, reformou, privatizou, mas cujo ‘projeto econômico’ não resistiu ao primeiro confronto com a realidade”, comenta Sérgio.

O resultado é desastroso, lamenta. “O brasileiro hoje é mais pobre do que na década passada, o Brasil enfrenta recessão, recorde de desemprego, desindustrialização, fuga de investimentos e o retrocesso do aumento da pobreza extrema e da miséria, que haviam sido superados.”

Ele afirma ainda que não há comparação entre as instituições que comandavam o país em 1964 e as atuais. Dessa forma, para o sindicalista, “elas amadureceram e hoje compõem nossa democracia, incluindo aí as Forças Armadas”.

Repúdio à desestabilização

Presidentes de outras quatro centrais divulgaram nota em defesa da democracia. “Repudiamos toda e qualquer tentativa de instrumentalizar as Forças Armadas, como aquelas que se dedicam a chantagear e desestabilizar as instituições republicanas, como o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e os governadores”, afirmam. A nota é assinada por Miguel Torres (Força Sindical), Ricardo Patah (UGT), José Reginaldo Inácio (Nova Central) e Antonio Neto (CSB).

Os dirigentes lembram que as Forças Armadas servem ao Estado, à Constituição e ao povo. “O Estado Democrático de Direito deve ser protegido, fortalecido, aprimorado e assegurado dia após dia. Ditadura nunca mais!”, acrescentam. Eles também citam o nível recorde de desemprego e a crise sanitária. E reivindicam universalização da vacina e auxílio emergencial de R$ 600.

Período histórico sombrio


Neste “aniversário” do golpe de 1964, a Oxfam Brasil também se manifestou afirmando que naquele momento o país entrou em um dos “mais sombrios” períodos históricos. “É importante não esquecer as muitas atrocidades e atos contra a democracia que o país viveu durante longos 21 anos”, diz a organização.

“É inadmissível que setores da sociedade, do governo federal e instituições públicas celebrem o golpe militar, desprezando os princípios e valores consagrados na Constituição de 1988, incluindo compromissos inequívocos com a democracia, os direitos humanos, a proteção da vida, a justiça e a equidade social”, afirma ainda a Oxfam. “Esta data deve ser um momento de homenagem aos mortos e desaparecidos políticos, de lembrança dos crimes e injustiças do passado, do autoritarismo e das muitas barbáries cometidas.”

“Milagre” para poucos

A ONG lembra ainda que o chamado “milagre econômico”, período de crescimento do país, não foi para todos. O salário mínimo, por exemplo, perdeu valor, e salários foram achatados.

“Além disso, o Brasil vive o desafio de ter se acomodado com uma democracia que permite a exclusão da maioria de sua população. Uma democracia que não respeita os preceitos da nossa Constituição Cidadã; uma democracia baseada em estruturas racistas e patriarcais que alimentam e aprofundam as desigualdades gritantes no país.”