Voo curto

Mais paulista, PSDB foi o partido que mais perdeu prefeituras

Poder concentrado em São Paulo dificulta as ambições nacionais de João Doria. Tucanos também respondem por terem introduzido questões morais no debate político

Gilberto Marques
Cerca de um terço dos municípios governados pelos tucanos ficam em São Paulo, onde o partido governa há 26 anos

São Paulo – O PSDB conquistou 520 prefeituras nas eleições municipais de 2020. Foi o partido que mais perdeu, em números absolutos, já que em 2016 os tucanos haviam vencido em 793 cidades. Além disso, cerca de um terço dos municípios (178) conquistados fica no estado de São Paulo. Ainda assim, o partido aparece em quarto lugar no total de cidades governadas pelo país.

A legenda lidera no número total de habitantes governados, mas também nesse quesito, – apesar da vitória em São Paulo, maior capital do país – as perdas foram substanciais. Nas eleições anteriores, as cidades comandadas pelo partido somavam 48.379.169 habitantes. Em 2021, serão 34.066.661.

Para o cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), a concentração do PSDB em São Paulo deve ser um empecilho nas ambições nacionais do governador João Doria.

“Com o PSDB tão paulista, com Doria tão paulista, talvez ele não esteja pronto para uma disputa presidencial. Ele tem ainda esse estilo ‘almofadinha’, que não sei se pega muito bem fora de São Paulo”, afirmou Couto, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, nesta terça-feira (1º).

Sobre esse predomínio nas cidades paulistas, o analista atribui o sucesso em parte ao longo comando dos tucanos no governo do estado. O PSDB ocupa o Palácio dos Bandeirantes desde 1995, quando ganhou no ano anterior com Mario Covas. À exceção de Aécio Neves, todos os candidatos presidenciais da legenda – Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin – fizeram carreira política em São Paulo.

Cruzada moral

Outro legado negativo dos tucanos, segundo Couto, foi terem dado impulso à utilização de questões morais como arma política. A “inovação” pode ser atribuída à campanha de Serra, em 2010. Atrás na disputa, ele trouxe para a discussão o tema do aborto, como forma de criar saia-justa para Dilma Rousseff, que acabaria eleita. Foi o início do abandono pelos tucanos de valores sociais mais progressistas. Quatro anos depois, na campanha de Aécio, o moralismo de costumes foi combinado com o discurso do suposto combate à corrupção, como forma de acuar o PT.

Balanço geral

No cômputo geral das eleições municipais, Couto destaca a vitória dos partidos da direita tradicional, como PSD, PP, PL e Republicanos. O DEM é outro partido que teve desempenho destacado, devendo ter maior protagonismo até 2022.

O principal derrotado, segundo ele, foi o presidente Jair Bolsonaro. Nas capitais, Vitória (ES) elegeu um candidato bolsonarista típico, o Delegado Pazolini (Republicanos). Ainda assim, o discurso moralista, iniciado pelos tucanos e que foi hipertrofiado pelos bolsonaristas, esteve presente também em outras candidaturas da direita tradicional.

Na esquerda, por outro lado, o analista também destacou que todos os partidos perderam prefeituras, à exceção do Psol, que passou de dois para cinco municípios governados. Ele também apontou uma maior fragmentação do campo progressista. “É difícil dizer que qualquer um dos partidos possa se impor aos demais como um protagonista incontestável. Vai ser preciso conversar muito para qualquer tipo de articulação nesse campo.”

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira. Edição: Glauco Faria