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‘Sabemos o valor da vida’, diz presidente Argentino, Alberto Fernández, sobre pandemia

A Argentina tem 1.150 mortos pela covid-19. O Brasil mais de 55 mil. Presidente argentino adotou medidas de isolamento social. “Economia é feita por pessoas”

Reprodução/UBA
Capitalismo financeiro construiu "um castelo de cartas", que foi derrubado pelo vírus

São Paulo – “A pandemia destruiu o sistema capitalista como o conhecemos. Um vírus colocou em xeque o funcionamento da economia mundial”, disse o presidente da Argentina, Alberto Fernández. O chefe de Estado do país vizinho foi anfitrião de um diálogo organizado pela Universidade de Buenos Aires, da qual é professor. O encontro virtual teve a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Alberto Fernández alerta para a importância do Estado e a necessidade de que o sistema capitalista seja repensado no pós-pandemia. Esse foi o tema do encontro: América Latina depois da pandemia da covid-19. “O capitalismo financeiro construiu um castelo de cartas. Um vírus o fez cair com facilidade. A especulação financeira desmoronou. Nada vale hoje o que valia antes. Nenhuma ação, empresa, vale o que valia antes”, argumentou.

A Argentina trata da pandemia com uma visão oposta à do governo brasileiro. No maior país do continente, o presidente Jair Bolsonaro ignora ações de proteção às pessoas, rejeita a ciência, ridicularia a pandemia e os mortos. Na Argentina, medidas de isolamento social são levadas à risca.

O resultado: a Argentina de Fernández tem 1.150 mortos e 36.519 infectados; o Brasil de Bolsonaro tem 56 mil mortos e mais de 1,2 milhão de doentes. Na relação contágio por 100 mil habitantes, a incidência é sete vezes maior no Brasil.

Flexibilização e recuo

O país, que adotou rígidas medidas de quarentena desde o início, chegou a flexibilizar o isolamento nas últimas semanas. Mas, em função do crescimento da disseminação, em especial na região metropolitana de Buenos Aires, o governo federal voltou a decretar um novo lockdown, nesta sexta-feira (26). O novo fechamento, inicialmente, deve durar até 17 de julho.

“Não vamos abaixar a guarda. Uma vez mais, digo que os argentinos unidos são melhores. Somos um grande país, uma grande sociedade. Não vamos baixar a guarda. Fizemos grande esforço. Mais um esforço vale a pena”, justificou Alberto Fernández.

“Sem dúvidas tem almas que pensam que o mais importante é o dinheiro”, disse o presidente. Entretanto, Fernández chama atenção para o fato de que sem homens e mulheres saudáveis não existe economia saudável. “Vamos nos atentar que é um falso dilema perguntar se temos que escolher entre vida e economia. É um falso dilema, porque a política, em sua essência, não existe sem colocar à frente a vida do ser humano”, disse.

O futuro

Para Fernández, os modelos de desenvolvimento econômico e de distribuição de riquezas do capitalismo precisam ser revistos com urgência. “O capitalismo como conhecíamos não tem viabilidade. Capitalismo sem consumidores, trabalhadores, não existe. Não vale nada.
Enfrentamos a pandemia no mesmo continente que tem a maior desigualdade do mundo. A pandemia deixou evidenciado que o capitalismo como conhecemos não tem sentido. É muita desigualdade, deixa à margem da sociedade milhões de compatriotas.”

Por fim, o presidente diz que não se arrepende de medidas duras para proteger a vida em detrimento de um sistema desigual e fadado ao fracasso. “Não estou arrependido de nada. Custa muito dinheiro. Mas tenho a tranquilidade de que o dinheiro foi revertido em salvar a saúde dos argentinos. E vamos recuperar amanhã. As vidas não poderíamos recuperar.”

“Sabemos o valor da vida. Me parece que a crise é tão profunda que temos a oportunidade de revisar muita coisa. Se queremos um capitalismo que integre mais a sociedade, os trabalhadores, que dê acesso à todos e não poucos. Um capitalismo que distribua e não concentre. Podemos fazer isso”, concluiu.


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