Entrevista

Haddad: Bolsonaro cometeu pelo menos três crimes passíveis de impeachment

Haddad explica em entrevista o pedido coletivo de impeachment, aponta que o Brasil tem a pior gestão do mundo em meio à pandemia

Reprodução/Pode me Foco

São Paulo – “Independentemente da viabilidade ou não do impeachment, eu sou plenamente a favor do afastamento do Bolsonaro em virtude dos crimes que ele já cometeu. O presidente instaura o caos. Joga a população contra prefeitos e governadores, contra o Judiciário, contra a autonomia da Polícia Federal.” A declaração é do ex-prefeito Fernando Haddad, em entrevista ontem (24) à noite no SBT.

“Esse governante não tem condições, numa crise deste tamanho, de permanecer no poder. Ele cometeu pelo menos três tipos de crime previstos na Constituição, considerados crimes de responsabilidade”, disse Haddad na entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, no programa Poder em Foco. Ele se referiu ao apoio do PT a um pedido coletivo de impeachment, assinado por sete partidos da oposição e 400 representantes de entidades da sociedade civil.

Questionado sobre um eventual impeachment ter como consequência o vice Hamilton Mourão assumir, Haddad lembrou que há ainda processos não julgados pelo TSE a respeito de crimes eleitorais, entre eles o uso de caixa 2 por empresas para custear disparo irregular de mensagens com fake news. Isso poderia implicar uma cassação de chapa. E se o afastamento se der por meio crime de responsabilidade, “lamenta”, mas é Mourão que tem de assumir.

“Eu não confio na disposição democrática do Mourão, porque ele já deixou claro que, tanto quanto Bolsonaro, despreza a democracia. O vício é o mesmo. Agora, ele não cometeu nenhum crime de responsabilidade, ainda.”

Ex-ministro da Educação e candidato derrotado na eleição presidencial de 2018, Fernando Haddad, disse na entrevista que o presidente Bolsonaro, em meio a uma situação de gravidade extraordinária, está adotando a pior estratégia possível.

Preferiu brigar

“Diante de uma catástrofe, um governante tem de primeiro salvar as pessoas. Se você tem o território invadido por uma potência hostil, não vai fazer conta de quanto você tem de orçamento para botar para fora quem invadiu seu território. É uma situação extraordinária”, analisa.

Haddad enfatiza que uma situação extraordinária é assim em qualquer lugar do mundo. “Pode ser uma guerra, um meteoro, um terremoto, e uma pandemia. Você tem um custo do enfrentamento, não tem o dinheiro para pagar à vista, então dilui isso no tempo de maneira que as pessoas não sintam os efeitos econômicos advindos da catástrofe”, defende o petista.

“E cada dia que se perde é prejuízo para a saúde e para a economia.” Segundo Fernando Haddad, o presidente poderia e deveria ter reunido governadores e entidades representativas dos municípios e pactuar um protocolo nacional. “Ele não fez isso. Ele preferiu brigar.”

A diferença de uma pandemia – que afeta o mundo – para um assunto local é poder comparar governos, verificando, por exemplo, o que o Brasil está fazendo em relação a outros como Nova Zelândia, Alemanha, e Argentina, diz Haddad. “O Brasil tem a pior ou segunda pior política de combate à pandemia do mundo”, observa, citando editorial da revista científica The Lancet, que menciona Bolsonaro e a gestão brasileira da pandemia como um perigo para o mundo.

“Eu não faço a oposição que o presidente faz entre saúde e economia. A Coreia do Sul soube acelerar o cuidado com a saúde a assim pôde mais rapidamente a retomada da economia”, compara. Haddad cita ainda na entrevista o papel do governo alemão de bancar com subsídios do Estado as pequenas empresas para que pudessem se manter.

Reação local

Haddad diz na entrevista que é preciso dosar o nível de adoecimento em meio a pandemia com a capacidade do sistema saúde local de atender. Se o ritmo de adoecimento não compromete o número de leitos disponíveis, é possível flexibilizar. E se as exigências de internações ameaçam implodir o sistema de saúde, é preciso partir para um “bloqueio total”, o lockdown. “Não adianta querer imaginar uma solução única para cada cidade.”

O ex-prefeito admite que na capital e do estado de São Paulo os gestores tentam seguir o que a ciência está determinando, E que não estão indo bem, mas não por má fé. “Não vejo má fé do prefeito Bruno Covas em São Paulo, mas ele age mal. Ele está em busca de solução, mas de maneira atabalhoada”, avalia, referindo-se ao rodízio mal encaminhado e à decisão de antecipar feriados sem fazê-lo de maneira articulada com o estado.

De acordo com Fernando Haddad, os gastos extraordinários necessários neste momento de enfrentamento tendem a se acumular mais quando se erra na gestão da crise. “Nós somos o único país do mundo que não tem ministro da Saúde titular, empoderado. Isso é uma coisa muito séria em plena pandemia. E vai trazer um custo extraordinário muito maior depois para a economia.”

Mais adiante, o país não terá como não gastar mais. “Não haverá hipótese de o Estado brasileiro não voltar a discutir investimento público no Brasil”, afirma, referindo-se ao comportamento do ministro Paulo Guedes, avesso a investimentos públicos. Primeiro, defende Haddad, é preciso garantir recursos para famílias de baixa renda.

Proteger quem precisa

“Conseguimos chegar a R$ 600 e o Paulo Guedes já está falando em recuar para R$ 200, intensão inicial do governo.” Segundo, garantir complementação de arrecadação para estados e municípios durante a pandemia, que são quem oferecessem os serviços públicos à população local – escola, posto de saúde, hospital, transporte. “E, terceiro, crédito barato tem de chegar ao empresário. A grande massa de trabalhadores é empregada de empregadores privados.”

Haddad considera que, por conta de os bancos privados atuarem em cartel e o Banco do Brasil ter restrições em função do mercado de capitais – “um banco público que tem ação em Bolsa” –, o país precisa recorrer aos instrumentos que tem .”Você tem Caixa e BNDES que são empresas públicas. E que teriam de criar linhas de créditos com o Tesouro, assumindo o risco, com dinheiro ‘carimbado’ para assegurar salários num momento em que os empregos não podem trabalhar.”

De acordo com o conteúdo gravado da reunião ministerial do dia 22 de abril, Paulo Guedes expressa com todas as letras desprezo pelos pequenos empresários.

O petista observa que a situação de um microempresário ou microempreendedor tem a mesma fragilidade de um trabalhador. “Para esses casos precisam ser pensados empréstimos a juros básicos (3,75% ao ano) e mesmo subsídios. A Alemanha deu um ‘enxoval’ para essas empresas manterem por 60 dias as suas atividades, observa o ex-candidato presidencial. “Não é mágica, esses assuntos estão sendo discutidos no mundo inteiro. Quanto mais determinado e capaz foi o governante, mais cedo sai da crise”, disse Haddad na entrevista.

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