Milícias

Partidarização das polícias é risco para a democracia, diz cientista político

Claudio Couto, da FGV, afirma que as polícias militares estaduais são atualmente a principal base de apoio do bolsonarismo

Reprodução
Policiais encapuzados impuseram toque de recolher em Sobral (CE)

São Paulo – O motim de policiais que culminou com o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) baleado nesta quarta-feira (19) em Sobral, interior cearense, é resultado da politização das forças de segurança estimulada pelo discurso do presidente Jair Bolsonaro. Segundo o cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), “o fascismo brasileiro tem as suas SS”, alusão às tropas de assalto do partido nazista alemão.

“Ele assumiu o governo com esse discurso de incentivo ao uso da força, independentemente das consequências, de estímulo à letalidade policial. Esse tipo de discurso vai não só empoderando, mas atiçando as forças policiais para que se engajem partidariamente ao lado do governo. O fascismo brasileiro, personificado por Bolsonaro, tem também as suas SS. Infelizmente, são as forças policiais dos estados. Se isso não é uma ameaça à democracia, o que poderia ser?”, questionou Couto, aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta quinta-feira (20).

Partidarizadas e alinhadas às forças políticas da extrema-direita, as forças policiais se insubordinam e se amotinam contra governadores tidos de oposição ao governo federal, como no caso do Ceará, governado por Camilo Santana (PT). A principal liderança política dos policiais amotinados é o deputado federal Capitão Wagner (Pros-CE), opositor do PT e dos irmãos Gomes, que são aliados no estado.

Mais especificamente sobre o episódio, Couto classificou a situação como “surreal”, onde todos os lados estavam errados, tanto os policiais amotinados como Cid Gomes, que tentou resolver a questão de maneira intempestiva, “no braço do trator”. “Começou errado e terminou errado. Parece uma disputa por macheza”, criticou.

Aposta no caos

Para o cientista político, o episódio dos policiais amotinados é preocupante pois ocorre em momento de “escalada das tensões políticas”, devido à morte do miliciano Adriano da Nóbrega, ligado à família Bolsonaro, e também do ritmo frenético das agressões verbais produzidas pelo presidente e membros do seu governo, contra a imprensa, mulheres, estudantes, indígenas e demais grupos não alinhados.

“Ou seja, o governo está apostando de forma muito clara numa escalada da tensão política. Nesse cenário, a mobilização das forças policiais, o incitamento ao amotinamento é mais um capítulo muito preocupante desse processo”, disse Couto.

Militares olavistas

Ele também afirmou que a impressão de que militares e seguidores do escritor Olavo de Carvalho rivalizem dentro do governo não condiz totalmente com a realidade. Além do próprio presidente, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, seria um dos principais exemplos dos pontos de contato entre as duas alas.

O ministro foi flagrado pela transmissão oficial do próprio governo atacando os parlamentares, devido à disputa em torno da liberação de emendas do orçamento impositivo. “Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo”, disse Heleno. “Foda-se”, acrescentou.

Segundo Couto, a maneira como o general se refere aos parlamentares é preocupante, ainda mais num contexto em que o gabinete presidencial está completamente militarizado. “Muitos imaginavam que não só ele, mas muitos militares comporiam um espaço de racionalidade, como atores responsáveis por levar o governo para uma posição mais pragmática, ponderada e racional. O que a gente vê é exatamente o contrário. Heleno tem se mostrado um dos principais elementos desse governo a insuflar o ódio ideológico e a radicalização política. A gente começa a ver o olavismo militarista. Falam mal dos olavistas, mas se comportam de maneira muito parecida”, disse o cientista político.