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Despedida

‘Meu querido irmão, companheiro e amigo, a saudade me aperta o peito’

Ex-presidente Lula foi impedido de chegar a tempo para o sepultamento de seu irmão Vavá, um direito que não foi negado durante a ditadura, em 1980, quando sua mãe morreu
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
16:15
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Ricardo Stuckert
enterro vavá

Impedido de ir a tempo, o ex-presidente mandou mensagens a Vavá, de quem era bastante próximo

São Bernardo do Campo (SP) – Eram quase 13h quando rumores circularam no Cemitério Municipal da Pauliceia, em São Bernardo, no ABC paulista: “Liberou, liberou”. Referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteava o direito de se despedir do irmão Vavá, Genival Inácio da Silva, enterrado em uma quadra a pouco metros de Eurídice Ferreira de Melo, Dona Lindu, mãe deles. Ainda era a ditadura, maio de 1980, e Lula, líder metalúrgico preso no Dops paulista, foi autorizado a comparecer ao enterro, direito negado em tempos de democracia.

O filho mais velho de Vavá, Edison Inácio, recebeu a informação quando o sepultamento estava praticamente concluído. Já passava das 13h, horário marcado para o enterro. Devolveu com um olhar que demonstrava que não havia mais o que fazer. “Não tem sentido. Não tenho o que falar”, disse Edison, ainda à beira do túmulo, com os irmãos por perto (no total, são dois homens e duas mulheres) e o casal de filhos.

Impedido de ir, o ex-presidente mandou mensagens a Vavá, de quem era bastante próximo. Uma faixa se destacava entre as várias coroas de flores sobre o jazigo. “Meu querido irmão, companheiro e amigo, que o brilho de sua estrela traga paz aos nossos corações. A saudade que já sentia me aperta o peito agora. Siga com Deus, Lula.”

Ainda na manhã desta quarta-feira (30), havia a expectativa de uma manifestação no próprio cemitério, em solidariedade a Lula. O ato não aconteceu, mas as exclamações de “Lula livre” se repetiam a todo momento. Muitos portavam faixas e máscaras, em apoio ao ex-presidente.

Estavam por lá ex-presidentes do Sindicato dos Metalúrgicos, sucessores de Lula: Jair Meneguelli, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, Heiguiberto Guiba Navarro, José Lopez Feijóo, Luiz Marinho. Ex-diretores como Djalma Bom, Devanir Ribeiro, Osvaldo Bargas, Tarcisio Secoli, o atual presidente da CUT, Vagner Freitas, e o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna. A pouco mais de dois quilômetros do Cemitério da Pauliceia, um bairro residencial de São Bernardo, fica a fábrica da Mercedes-Benz.

Os ex-parlamentares José Genoino e Aloizio Mercadante circulavam no local, assim como os ex-ministros Gilberto Carvalho e Paulo Vannuchi. Filhos de Lula, Lurian e Marcos também foram à cerimônia.

RBAcoroa de flores
Coroa de flores com mensagem de Lula ao irmão

Humanidade

Por volta de 11h, líderes do PT falaram sobre a decisão das autoridades e questionavam a democracia brasileira, que impedia o ex-presidente de comparecer ao enterro do próprio irmão. O vereador paulistano Eduardo Suplicy informava que havia mandado mensagem a Jair Bolsonaro, para que o presidente atuasse no sentido de permitir a presença de Lula no velório. “É uma questão de bom senso e de percepção humanitária.”

José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e Vavá, disse que a repressão continua. “Se esses caras tivessem coragem, entendessem o caráter do Lula, eles deixariam ele vir, porque saberiam que ele voltaria tranquilamente. Em 1980, Lula estava preso no Dops quando nossa mãe morreu. Veja vocês o quadro que estamos vivendo no Brasil. A repressão mudou, mas mudou de tal forma que ninguém vê hoje, mas ela existe e até mais violenta”, disse Frei Chico, que se emocionou várias vezes.

Na hora que o caixão foi levado para fora da capela, após a missa celebrada pelo ministro católico Sebastião Pinto da Silva, às 12h50, o trompetista brasiliense Fabiano Leitão, conhecido por sua presença em atos pelo país, começou a tocar os acordes de Como é grande o meu amor por você, sucesso de Roberto Carlos. Mais à frente, tocaria o jingle Lula lá, em ritmo mais lento.

“Pra você, Vavá, nosso irmão”, disse Moniquinha, do coletivo Flor da Resistência, na hora do enterro. “A palavra irmão tem duas sílabas. As duas nasceram para lutar. Ir, nós iremos. Mão, essas mãos nós não vamos soltar. Vai, Vavá, dança longe das injustiças, descansa distante das dores, mas fica de olho aqui.” Sebastião abençoa e reza a Ave Maria, acompanhado por todos. Um helicóptero sobrevoa a área do cemitério. Outros dois sepultamentos estavam marcados para a tarde de hoje, às 14h e às 16h.

 

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