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Outro mundo é possível?

'Não temos plano A, B, C, D, só L. É Lula', diz Jaques Wagner

Manuela D'Ávila diz que eleições livres não podem prescindir do petista. Para Requião, Lula é esperança de interromper "maldito processo de liberalização da economia brasileira"
por Redação RBA publicado 23/01/2018 18h39, última modificação 23/01/2018 19h28
Manuela D'Ávila diz que eleições livres não podem prescindir do petista. Para Requião, Lula é esperança de interromper "maldito processo de liberalização da economia brasileira"

São Paulo – Evento de preparação para o Fórum Social Mundial (FSM), que ocorrerá em março, em Salvador, foi cenário de defesa da "radicalização" da democracia, de rediscussão do chamado "outro mundo possível" e do direito de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser candidato neste ano. "Não tem plano A, B, C ou D. Nós só temos plano L, é Lula", disse o ex-ministro e ex-governador baiano Jaques Wagner. "Estamos precisando de rua, cada vez mais rua, porque democracia não se constrói no gabinete", acrescentou, durante ato (Ação Global Anti Davos) realizado na tarde desta terça-feira (23) na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Na véspera do julgamento de recurso do ex-presidente pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), na capital gaúcha, Jaques Wagner afirmou que o Judiciário "passou a ser líder da torcida organizada, que tenta fazer o time deles ganhar fazendo com que o nosso time não entra em campo". Segundo ele, as mais de 600 páginas da sentença do juiz Sérgio Moro já foram "desmontadas" e vão se tornando "uma vergonha para nós todos". 

Pré-candidata pelo PCdoB à Presidência da República, a deputada estadual Manuela D'Ávila afirmou que as eleições, para serem consideradas livres, não podem prescindir da presença de Lula. "O juízo político está nas urnas, e é a esse juízo que deve ser submetido o presidente Lula. Ele deve ser continuar sendo protagonista da construção desse outro mundo possível", afirmou, lembrando do slogan do FSM e de sua primeira edição, 17 anos atrás, exatamente em Porto Alegre: "Um debate intenso sobre como construiríamos uma democracia mais radical e alternativa". As saídas devem ser "radicalmente democráticas", disse Manuela, e passam por um "projeto de desenvolvimento nacional", que une os setores progressistas.

Caravanas

"Qualquer condenação é continuidade do golpe", disse a deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA). "É necessário garantir Lula no processo eleitoral para reordenarmos a marcha democrática brasileira", acrescentou, afirmando que é momento de resistência pela democracia e de defesa de direitos "que estão sendo vilipendiadas" em um "contaminado foro legislativo". Unidade é a única forma de "virar o jogo", segundo a deputada baiana, que citou trecho da recente música As Caravanas, de Chico Buarque, para definir os atuais donos do poder: "Filha do medo, a raiva é mãe da covardia".

O senador gaúcho Paulo Paim (PT) disse que Lula "vai concorrer, senhores juízes, independente do resultado de amanhã, e vai ser eleito mais uma vez". Ele também manifestou apoio, inclusive eleitoral, à presidenta Dilma Rousseff, caso ela decida se candidatar neste ano, ao Senado ou à Câmara. "A Dilma escolhe o cargo que ela quiser aqui no Rio Grande, e eu terei muito orgulho de caminhar ao lado dela", afirmou Paim, acrescentando que uma "presidenta inocente" foi cassada por um "Congresso indecente".

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Emocionado, lembrou que conhece Dilma há mais de 40 anos, e que ela e Carlos Araújo, ex-companheiro da presidenta, morto recentemente, foram os responsáveis por tirá-lo da fábrica para concorrer ao Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre.

Para o senador, a "reforma trabalhista" aprovada no ano passado foi "o maior crime que eu vi ao longo da vida" e abre espaço "de forma definitiva para o trabalho escravo". Ele reafirmou que a CPI comandada por ele mostrou que a Previdência brasileira não é deficitária. "É só parar de sonegar, de roubar, e cobrar dos grandes devedores."

Estado social

O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos disse que a mobilização pela democracia se confunde com a luta por direitos, os "pilares" que vêm sendo atingidos no período pós-impeachment. "Amanhã é a continuidade desse golpe, que começou retirando uma presidenta eleita legitimamente pelo povo para colocar uma quadrilha no lugar, que seguiu e segue com uma agenda anti-nacional e anti-popular, e agora com a tentativa de tirar o presidente Lula do processo eleitora, a partir do tapetão."

Cotado como candidato do Psol, Boulos afirmou que a questão não é gostar ou não de Lula, mas de defender a democracia. " Não basta a gente fazer a disputa dentro das instituições. Cada vez mais a gente derrotar esse projeto vai depender da nossa força e da nossa presença de rua nos quatro cantos deste país." Isso deverá acontecer inclusive nesta quarta-feira (24) à tarde, em São Paulo, acrescentou, referindo-se à proibição de realizar um ato na Avenida Paulista. O líder sem-teto garantiu que isso não vai acontecer e que os manifestantes sairão da Praça da República para lá. "Se eles fecham a porta, a gente vai ter que ter força pra arrombar essa mesma porta para garantir a democracia no nosso país."

Para o senador Roberto Requião (MDB-PR), enquanto em Davos (Suíça), sede do Fórum Econômico Mundial se reafirma a intenção de "estabelecer a hegemonia do capital financeiro", em Porto Alegre se defende a democracia, em contraponto contra a agenda que prega "a precarização do Executivo e a magnificação dos bancos centrais". No Brasil, afirmou, "o capital financeiro, a banca, o Bradesco, o Itaú, o Santander passaram a comandar a maioria absoluta do Congresso Nacional". O resultado, segundo ele, está na precarização do trabalho e com o congelamento de gastos públicos.   

A questão, emendou Requião, nunca foi o combate à corrupção. "Se fosse, o José Serra não estava solto, muito menos o Aécio Neves, o governo Temer já teria caído." Ele lamentou que o Brasil volte a adotar uma receita econômica que já fracassou na Europa e apontou a candidatura de Lula como alternativa para mudar essa rota. "É o único ponto de apoio da esperança contra esse maldito processo de liberalização da economia brasileira. Defender o Lula hoje é defender a democracia, o Estado social, a soberania do país". 

O professor António Nunes, da Universidade de Coimbra, disse que o neoliberalismo não dispensa o Estado – e "está praticamente a exigir" um Estado do tipo fascista, como já aconteceu em alguns países europeus.  "Aquilo que aconteceu com o reitor de Santa Catarina é uma dessas manifestações", afirmou, referindo-se a Luiz Carlos Cancellier, da Universidade Federal daquele estado (UFSC), que se suicidou em outubro, após ser acusado de dificultar investigações na instituição. "É lamentável se não forem chamados à Justiça os responsáveis por esse morte", acrescentou Nunes, acrescentando que Lula está sendo julgado "sem crime, sem provas".

Anfitrião do encontro, o presidente da Assembleia gaúcha, Edegar Pretto (PT), fez referência a uma "coincidência estranha" ocorrida pela manhã, quando faltou luz no prédio durante a abertura do Encontro Internacional de Mulheres pela Democracia, fazendo a atividade ser transferida para a rua. Ele disse ter formalizado um pedido de explicação à CEEE, companhia estadual de energia.

Depois do ato na Assembleia, os manifestantes foram para a Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, realizar uma manifestação contra o Fórum Econômico. "O momento é de rebeldia", disse Gilberto Leal, do comitê facilitador do Fórum Social Mundial.