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Eleições 2018

Unida diante do golpe, esquerda agora precisa dominar as ruas para ter força em 2018

Analistas avaliam que mobilizações de rua têm sido menores do que se esperava por causas que precisam de reflexão. Mas dificuldades atuais decorrem de erros estratégicos e problemas de comunicação
Publicado por Eduardo Maretti, da RBA
19:48
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Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress
Manifestação por Lula

Manifestação na avenida Paulista no dia 20 de julho uniu movimentos, partidos e sindicatos em defesa de Lula

São Paulo – As dificuldades que a esquerda enfrenta para chegar a 2018 não são poucas. Ela precisa trabalhar por uma unidade que alguns questionam, para ter força diante do golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff do governo, tendo pela frente a ofensiva judicial contra sua mais forte alternativa eleitoral, o ex-presidente Lula. Precisa também entender por que as reformas de Michel Temer não estão provocando movimentos de rua da magnitude esperada e refletir sobre seus próprios erros.

Para Roberto Amaral, cientista político e um dos coordenadores da Frente Brasil Popular, a esquerda está unida, assim com esteve diante do impeachment de Dilma. “Eu diria que a esquerda diante do golpe está unida. PT, PCdoB e Psol são contra o golpe, assim como o PDT. O que não conseguimos foi construir uma frente ampla. Mas uma frente de esquerda antigolpe já existe”, afirma.  “A Frente Brasil Popular, que agrega, além do PCdoB e do PT, a CUT e a CTB, e a Frente Povo sem  Medo, mais próxima do PSol, todos têm trabalhado juntos quando diz respeito a uma ação contra o governo e lutaram contra impeachment.” 

Mas ele adverte que a esquerda sozinha pode não conseguir reunir a força necessária para o tamanho da empreitada e continua a defender uma política de frente: “Precisamos ampliar com forças para além da esquerda, pois do contrário não derrubaremos esse regime”.

Outra questão, diz, é por que as mobilizações mais recentes foram menores do que se esperava, ou por que não houve “correspondência entre a nossa vontade e a nossa capacidade de mobilização?”. Para ele, essa “é uma questão mais profunda”. “Existem hipóteses: uma, a de que os partidos e as organizações não estão realmente empenhados nisso; outra, que estão empenhados, mas não têm mais tanta representatividade.”

Em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim, Guilherme Boulos, coordenador da Frente Povo sem Medo, relembra as principais mobilizações promovidas entre março e maio de 2017 e diz que “as ruas não estiverem ausentes no processo”. Ele cita em especial a greve geral de 28 de abril e as manifestações de 24 de maio, quando “o governo chamou o Exército para reprimir 150 mil pessoas em Brasília”.

Mas, como Amaral, reconhece que a população foi tomada por certa apatia e um sentimento de “impotência”, com o sucesso do governo no Congresso, na condução da reforma trabalhista e da Previdência (aprovada em comissão especial da Câmara).

Perguntado por Amorim se considera que Lula pode unir os diversos movimentos em torno da candidatura à presidência da República em 2018, Boulos afirmou que o que virá daqui até o ano que vem é imprevisível. “Não sabemos se o Lula será candidato, se o Temer será o presidente até lá, em que nível vai estar o termômetro das ruas e da insatisfação social, e se esses 97% de reprovação ao Temer vão se traduzir em algum grau maior de mobilização social.”

Ele defendeu “o direito do Lula ser candidato”. “Querer resolver eleição no tapetão, como Sergio Moro está fazendo, como de maneira descarada o Judiciário tem feito, é inadmissível e deve gerar mobilização de movimentos sociais”, acrescentou.

Autocrítica

Para o analista política Antônio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), não existe caminho de curto prazo. A esquerda “precisa investir em formação de quadros, na formação de consciência política, na necessidade das reformas estruturais e na denúncia do golpe”.

Em sua avaliação, durante o período em que foi governo houve erros estratégicos e de comunicação, o que explica em parte a dificuldade de mobilizar grandes massas. “A esquerda deixou em segundo plano a formação política de novos quadros. Também não politizou as políticas públicas, como a do salário mínimo, e os benefícios que trouxe à população a partir dessas políticas. Ela trouxe uma série de conquistas, mas não disse à população que aquilo era produto de uma visão de mundo da esquerda e que a direita não faria aquilo”, avalia. “Como não disse, a direita buscou desqualificá-la com base em acusações de natureza ético-morais, utilizando instrumentos de transparência que a própria esquerda trouxe, como a série de leis que jogam luz sobre a relação do Estado com a sociedade e com o mercado”.

Queiroz lembra que foi durante os governos do PT que foram aprovadas a Lei de Acesso à Informação, a Lei de Responsabilização da Pessoa Jurídica, a Lei De Combate ao Crime Organizado (e delação premiada), entre outras.

A sociedade percebeu que havia desvios de conduta, mas os identificou como “se tivessem nascido agora e os governos do passado não tivessem práticas até piores”. No cerne de todas as dificuldades, está a desigual luta entre capital e trabalho no Brasil. “Sempre que o capital está incomodado com a distribuição de renda, ele arruma uma ameaça comunista, como foi em 1964, ou uma conversa de degradação moral, como está sendo agora”, diz o analista político do Diap.