Não tem polêmica

Design inteligente não é ‘alternativa’ à teoria da evolução. E nem é ciência

O físico Paulo Nussenzveig alerta: “Ensinar ideias criacionistas em aulas de ciências confunde os alunos sobre aquilo que é ciência e aquilo que não é”

Wikimedia Commons
Teoria do design inteligente não se baseia em método científico e não pode ser comparada à teoria da evolução

São Paulo – “Pra fazer ciência não basta reproduzir certos rituais e imitar trejeitos de cientistas. É preciso seguir cuidadosamente os princípios do método científico. Em especial, é preciso começar formulando hipóteses que possam ser testadas de forma criteriosa, a fim de poder descartá-las ou aumentar a confiança na sua verificação.”

A explicação é do físico Paulo Nussenzveig e serve para atestar que a chamada teoria do design inteligente não pode ser considerada como científica. O tema veio à tona recentemente por conta da nomeação de Benedito Gui­ma­rães Agui­ar Ne­to à presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência de fomento à pesquisa ligada ao Ministério da Educação (MEC).

“Ao longo do século 20, comunidades com forte sentimento religioso nos EUA procuraram substituir o ensino de biologia evolutiva nas escolas por aulas que seguissem literalmente textos religiosos, em que a Terra teria surgido apenas alguns milhares de anos atrás”, aponta Nussenzveig, em entrevista ao jornalista Júlio Bernardes, no Jornal da USP. “Sentindo que o espaço para tamanha discordância com abundantes evidências geológicas e paleontológicas vinha se reduzindo, criacionistas voltaram-se para a chamada teoria do design inteligente, em que essas evidências não são negadas e cria-se uma tentativa de dar roupagem científica a ideia de que a vida humana, em especial, necessita de um criador.”

Os defensores da ideia afirmam que a vida e o universo derivam do trabalho de um ser inteligente, que teria pensado e “projetado” sua obra. “O principal argumento é que a complexidade dos seres vivos e dos seus órgãos não poderiam surgir do acaso, hipóteses apresentadas como complexidade irredutível, sem um projetista inteligente, essas estruturas não poderiam existir. A hipótese de que um criador inteligente é responsável pelo surgimento da vida e do próprio universo não se presta a testes experimentais, portanto não pode ser considerada científica”, afirma Nussenzveig.

A ideia de complexidade irredutível não tem boa acolhida na comunidade científica, destaca o físico. “Processos totalmente aleatórios conduzem a baixas probabilidades de geração de estruturas muito complexas. No entanto, o processo-chave da evolução é a seleção natural, que faz com que estruturas melhor adaptadas ao ambiente sobrevivam. A evolução não é completamente aleatória, é guiada pela seleção natural, conforme evidenciado em inúmeros trabalhos científicos.”

Ensinar ideias criacionistas pode confundir estudantes

Por conta disso e também pelo fato de a relação entre ciência e pesquisa, de uma forma geral, estarem cada vez mais relacionadas como motores do desenvolvimento econômico e social, não faz sentido pensar em ensinar a teoria do design inteligente em escolas.

“Nossas sociedades contemporâneas dependem cada vez mais de ciência e tecnologia para se desenvolverem econômica e socialmente. Uma boa compreensão por parte da população do conhecimento adquirido com o uso dos métodos da ciência é cada vez mais importante, exigindo esforços para fornecer boa educação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática”, explica Nussenzveig.

O físico destaca dados da National Science Foundation dos Estados Unidos, mostrando que os investimentos globais em pesquisa e desenvolvimento mais do que dobraram entre os anos 2000 e 2015. E, segundo um outro estudo, apresentado pela Comissão de Educação dos Estados, nos Estados Unidos, a expectativa de criação de empregos ligados a ciência e tecnologia, engenharia e matemática nos EUA entre 2017 e 2027 é de 13%, enquanto outros empregos devem crescer 9%. “É preciso fornecer boa educação científica para lidar com esta realidade”, diz.

“Conforme afirmado em livro publicado pela Academia de Ciências dos EUA em 2008, a educação científica não pode ser prejudicada pela inclusão de um material não científico. Ensinar ideias criacionistas em aulas de ciências confunde os alunos sobre aquilo que é ciência e aquilo que não é.”