Mobilização

Contra venda fatiada e demissões, funcionários da Caixa não descartam paralisação

Funcionários denunciam pressão para venda de ações de setor do banco que foi privatizado, prejudicando o atendimento ao público que recebe o auxílio emergencial

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Demissões ocorridas nos últimos anos também levam à piora do atendimento ao público

São Paulo – Em meio à pandemia, os empregados da Caixa Econômica Federal (CEF) estão se desdobrando para atender os milhões de brasileiros que necessitam do auxílio emergencial, ao mesmo tempo em que são coagidos a cumprirem metas relativas à venda de ações da Caixa Seguridade. Com “requintes de crueldade”, os próprios trabalhadores têm sido pressionados a adquirirem essas ações, forçados, assim, a se tornarem “cúmplices” do processo de privatização em curso, com a venda fatiada dos ativos mais lucrativos.

Além disso, eles denunciam a precarização do atendimento à população em função da perda de funcionários. Nos últimos anos, cerca de 20 mil trabalhadores foram demitidos sem que houvesse a devida reposição.

Diante desse quadro de ameaça de privatização e ataques a direitos, os trabalhadores da Caixa preparam mobilizações. Na semana que vem, eles se reúnem em plenárias e assembleias por todo o país. E não descartam eventual paralisação.

O coordenador da Comissão Executiva dos Empregados (CEE) e da Federação das Associações de Pessoal dos Empregados (Fenae) da Caixa, Dionísio Reis, destaca que a covid-19 já vitimou ao menos 45 colegas em todo o país. Por outro lado, em vez de valorizar os trabalhadores que estão na linha de frente, a direção do banco cortou parte da participação nos lucros ou resultados (PLR).

“A nossa orientação é para que não comprem e também não vendam essas ações. Querem colocar como se os empregados tivessem concordado com a privatização”, afirmou Dionísio, em entrevista a Marilu Cabañas, no Jornal Brasil Atual desta quinta-feira (15).

Descapitalização

De acordo com Dionísio, desde o golpe do impeachment de 2016, a Caixa, o Banco do Brasil e o BNDES vêm passando por um processo de “descapitalização”. A consequência é a redução da oferta de crédito barato para a população. Os juros praticados pelos bancos públicos também subiram, de forma a atender aos interesses do setor financeiro privado.

Ele destaca que os bancos públicos chegaram a ser responsáveis por 56% da oferta de crédito no país. A “descapitalização”, segundo ele, tem afetado programas de acesso a crédito para o setor imobiliário e a agricultura familiar, por exemplo. Como resultado, os preços dos alimentos ficam mais elevados, os empregos diminuem e a população vê mais distante o sonho da casa própria. “É bom lembrar que desde 2018 a Caixa não realiza mais o Feirão da Casa Própria, que movimentava o setor imobiliário.”

Entrega fatiada

Depois da abertura de capitais da Caixa Seguridade, a direção do banco planeja fazer o mesmo com outra áreas mais rentáveis e estratégicas. No plano de privatização do ministro da Economia, Paulo Guedes, a Caixa também corre o risco de deixar de ser 100% pública, tornando-se uma empresa de economia mista, com ações negociadas na bolsa.

Nesse modelo, uma das consequências seria o enxugamento do número de agências. Pequenos municípios e periferias das grandes cidades seriam os alvos principais desses fechamentos.

“O projeto é vender as partes mais lucrativas, formar uma S/A e passar todas as operações para esse novo banco. A população e os pequenos empresários estão sentindo o impacto dos altos preços dos alimentos, que também decorrem do crédito mais caro. Esse impacto se dá por conta da cartelização e isso está se agudizando. Temos um sistema financeiro muito concentrado. E os bancos públicos não têm mais a oportunidade de ofertarem crédito mais barato”, alertou Dionísio.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira