Justiça social

Com o papa, economistas e jovens discutem novo modelo mundial

Milhares de pessoas, de mais de 100 países, vão se reunir em novembro na Itália para discutir sistema mais justo. Nesta semana, encontro em Minas Gerais terá a mesma fonte de inspiração

EPA
Papa Francisco defende modelo que considere a inclusão e a justiça social

São Paulo – Em um período de questionamento sobre os chamados mercados, eventos se preparam para discutir outro modelo de desenvolvimento, solidário e sustentável. As premissas foram anunciadas pelo papa Francisco, que propõe uma nova agenda de desenvolvimento, com uma visão “que inclua ao invés de excluir”.

Um encontro mundial estava marcado para os próximos dias 26 a 28, em Assis, na Itália, até agora com mais de 2 mil inscritos, mas foi transferido para novembro, devido ao coronavírus. Mas as reflexões acontecem em diversos locais, inclusive no Brasil.

Este é, por exemplo, o tema de seminário marcado para segunda e terça-feira (16 e 17) na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. Com o slogan Para repensar a economia e a sociedade sob a perspectiva de uma ecologia integral, acadêmicos e religiosos, entre outros, com os jovens no foco, vão se reunir para discutir temas relacionados a uma visão econômica mais humanitária.

Prêmio Nobel da Economia e ex-economista-chefe do Banco Mundial, o norte-americano Joseh Stiglitz lançou recentemente o livro Capitalismo progressista – A resposta à era do mal-estar com visão crítica sobre o neoliberalismo. “Há uma desilusão real com os mercados”, afirmou, em entrevista recente ao jornal espanhol La Vanguardia. “A ideia de que o mercado é o ‘rei’ não é verdadeira, sobretudo entre os jovens.”

Ele questiona os modelos predominantes a partir, principalmente, dos anos 1980, personificado por Ronald Reagan nos Estados Unidos e Margareth Tatcher na Inglaterra. “A evidência é muito sólida de que o crescimento foi muito mais lento depois do início do ‘reaganismo’ e do ‘tatcherismo’. (…) Além disso, a crise de 2008 mostrou a instabilidade do sistema. Em todas as dimensões, o neoliberalismo foi um fracasso.”

Desigualdade e degradação

Para o professor Alair Ferreira de Freitas, do Departamento de Economia Rural da UFV, é importante questionar um modelo que vem produzindo aumento da desigualdade e degradação da natureza.

“Esse chamado do papa Francisco, assessorado por vários economistas de renome, vem num momento muito oportuno”, diz Freitas, que mediará o painel da terça-feira, com a presença do bispo emérito de Duque de Caxias (RJ), dom Mauro Morelli – que no início do anos 1990 foi um dos coordenadores da campanha de combate à fome idealizada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

“O modelo econômico atual já demonstrou, por vários aspectos, que é inviável”, prossegue o professor. “O sistema financeiro e a cultura do consumismo condicionaram a sociedade.”

Por isso, acrescenta, mais do que falar que mudanças ocorrerão nas próximas décadas, é preciso “plantar a semente”, unindo diferentes visões de mundo. “Essa é uma transformação intergeracional. Acima de tudo, é uma mudança política.”

Ele cita o exemplo do modelo agrícola. “Na história agrária brasileira e na história política nacional, o modelo priorizava as grandes propriedades. É muito recente o apoio do Estado a esse modelo (de agricultura familiar)”, diz. E critica a “liberação generalizada de agrotóxicos, que vai contra o modelo produtivo sustentável”, além de causar insegurança alimentar.

“Precisamos privilegiar a agricultura familiar, a alimentação saudável. Aprendemos a comer determinados grupos de alimentos, fomos induzidos…” É a política que deve determinar as decisões econômicas, sustenta o professor. “A sociedade orienta a política, que orienta a economia.”

É exatamente o que afirma outro crítico do sistema, é o economista e professor Ladislau Dowbor. “Em vez de o político regular o sistema financeiro, nós temos um sistema financeiro que se apropria da política, e isso simplesmente não funciona.” Em 2017, Dowbor lançou o livro A Era do Capital Improdutivo, em que trata da chamada “financeirização” da economia.

No encontro liderado pelo papa Francisco, agora transferido para novembro, em Assis, os pedidos de inscrição já somam 3.300, com 2 mil credenciados, de 115 países, segundo o site Vatican News. Entre os países com maior número de inscritos, estão Itália, Brasil, Estados Unidos, Argentina e Espanha.