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Investidores correm para o dólar, e BC anuncia uso de reservas para intervir

BC fará primeira venda de dólares desde a crise mundial de 2009. Apesar das "reformas" liberais, economia brasileira segue frágil e exposta a nova recessão
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
13:48
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Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas

Mesmo com "reformas" exigidas pelo mercado, investidores buscam a moeda americana como "porto seguro"

São Paulo – Com alta de 1,78%, cotado a R$ 4,04, nesta quarta-feira (14) o dólar comercial sofreu a maior alta desde março. A Bovespa fechou o dia em queda de 2,94%, acompanhando tendência de baixa do mercado norte-americano, com os principais índices registrando queda na casa dos 3%. Os mercados europeus também oscilaram negativamente, com perdas de 1,5% a 2%. Soma-se, o anúncio de retração de 0,1% no PIB alemão, e a economia chinesa registrando as menores taxas de crescimento dos últimos 17 anos.

Para conter a alta da moeda americana, o Banco Central anunciou a venda de dólares no mercado à vista, a partir da próxima semana. Trata-se de uma ação não executada desde 2009, ainda no auge da crise internacional que eclodiu no ano anterior, o que demonstra que o país pode estar às vésperas de um novo episódio de dimensões equivalentes.

A previsão é que sejam vendidos até US$ 550 milhões à vista, entre os dias 21 e 29, com vendas totais limitadas a US$ 3,8445 bilhões. As reservas internacionais totais do Brasil somam hoje US$ 388 bilhões, acumuladas predominantemente durante os governos de Lula e de Dilma Rousseff.

Economistas afirmam que esse tipo de atuação do BC aponta para uma insuficiência das políticas de austeridade, baseadas em medidas de corte de gastos, como a chamada “reforma” da Previdência, em tramitação no Senado, e a “reforma” trabalhista e o congelamento dos gastos públicos, instituídos durante o governo Temer.

Para o consultor Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor e diretor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a ação do BC no mercado à vista “desnuda” o falso discurso liberal do governo sobre a livre flutuação do câmbio.

“Desnuda também a visão de que bastaria fazer as reformas que o mercado exige, que na verdade são contrarreformas, que seriam suficientes para o resgate da confiança e a retomada da economia. O quadro de instabilidade global denota a importância da regulação e da intervenção do Estado”. defende o consultor.

A professora Daniela Prates, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda. “Dada a nossa posição de dependência no sistema financeiro internacional e a vulnerabilidade em relação aos fluxos de capitais, é ilusão pensar que fazendo o que o mercado acha que é certo estaríamos blindados dessa crise.” Ela explica que a venda de dólares demonstra a demanda dos investidores por um “porto seguro”, em momentos de turbulência.

Ela destaca que a atuação inédita do BC denota preocupações com a eclosão de uma possível crise. “A turbulência é forte. O fato de o BC, depois de tanto tempo, decidir vender dólar à vista é uma indicação de que a conjuntura internacional é muito grave. Ainda não como em 2009, durante a crise financeira global. Mas houve outros momentos de turbulência, na última década, e não foram feitas intervenções desse tipo. No fundo, é o medo de uma recessão.”

Segundo Lacerda, ainda é difícil dimensionar o tamanho da tormenta, “porque não depende apenas de fatores objetivos, mas também das expectativas sobre como os agentes econômicos vão reagir, e também das decisões de política econômica dos países desenvolvidos”.

Ele citou, como exemplo, discurso do presidente norte-americano, Donald Trump, que chegou a anunciar medidas de contenção das importações chinesas, depois decidindo pelo seu adiamento, já que traria impacto para empresas e consumidores teriam que pagar mais pelos produtos importados.

“Tem muita coisa entre o que é bravata e o que é medida efetiva. Tudo isso impacta no tamanho do buraco. Ainda assim, não é exagero conjecturar que possamos estar à beira de uma nova grande crise internacional. Sempre estivemos. Agora, mais ainda”, alerta o economista.