Desajuste

Belluzzo na CUT: um governo ‘completamente encalacrado nessa visão tosca’ do ajuste

Para o professor, a economia só voltará a funcionar se o país se livrar "do mantra" do corte de gastos. Empresários não têm confiança para investir, afirma

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Belluzzo (à dir.) com Rafael Marques, do TID: a indústria não é um conjunto de fábricas, é um modo de produzir

São Paulo – Um país sem investimento, sem confiança, preso a uma visão simplista de que é preciso cortar gastos, diagnostica o economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, que nesta segunda-feira (3) participou de debate na sede da CUT, em São Paulo, promovido pelo macrossetor da indústria da central e pelo Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID-Brasil). “Estamos insistindo numa forma de gestão da economia que não vai dar certo”, afirmou o também ex-ministro, para quem só haverá retomada da atividade quando “nos livrarmos desse mantra”, referindo-se ao ajuste. Algo que parece distante no Brasil atual, na visão do economista: “Eu vejo esse governo completamente encalacrado nessa visão tosca”. Para ele, a insistência no ajuste “terminou no desajuste”.

O principal tema – que também contou com a participação do professor João Furtado, da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) – era o futuro da indústria, setor que segundo Belluzzo já respondeu por aproximadamente 27% do Produto Interno Bruto (PIB) e perdeu mais da metade do peso. Mas ele chamou a atenção para a presença sistêmica da atividade industrial. “A indústria não é um conjunto de fábricas, é um modo de produzir.”

Para o presidente do TID, Rafael Marques, a observação obriga a pensar de forma diferente, não cartesiano, para o tema, com o objetivo de recolocar o Brasil no “campo de jogo” da economia, em uma conjuntura de “disputa” entre os países, sem que o país se envolva de maneira organizada. “Entrar em campo para fazer gol, para jogar no ataque”, emenda o corintiano, ao lado do palmeirense e ex-cartola Belluzzo e do ponte-pretano Furtado. Torcedor fanático e ex-presidente do clube, o economista fez a ressalva de que deixou de ir ao estádio do Palmeiras depois que Jair Bolsonaro, então presidente eleito, foi convidado para erguer a taça de campeão brasileiro.

Rafael lembrou que este é um momento de total falta de interlocução com o governo, enfatizando a necessidade de articulação envolvendo trabalhadores, empresários e a academia. Foi essa também a preocupação do secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre, ao lembrar da discussão sobre políticas industriais, como a que levou, ainda nos anos 1990, às câmaras setoriais. Ele perguntou a Belluzzo se há hoje algum setor empresarial disposto ao diálogo, sob o risco de agravamento da crise social. Para o economista, as empresas têm atualmente “muito rentista e muito CEO”, mas há nichos mais abertos a conversas, citando as associações de infraestrutura (Abdib) e máquinas e equipamentos (Abimaq). Em conversas reservadas, conta, os empresários manifestam falta de confiança, o que se traduz em redução dos investimentos.

China e reformas

Mas o debate também incluiu assuntos como a presença cada vez maior da China na economia global e a própria “reforma” da Previdência proposta pelo governo. Belluzzo chamou de “abstração” o argumento recorrente do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre suposta economia de R$ 1 trilhão, em 10 anos, com a aprovação do projeto. “Em que condições você vai obter 1 trilhão? Quais são as condições da economia, qual é a estruturação do mercado de trabalho?”, questionou. “Você ouve as exposições e fica assustado. É um primarismo.”

De acordo com o professor, o modelo previdenciário, de natureza solidária, surgiu na Alemanha do chanceler Otto von Bismarck, ainda no século 19, e foi incorporado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt nos Estados Unidos do anos 1930. “E foi um dos instrumentos importantes de recuperação da economia.”

Na questão da indústria, Belluzzo comentou que o cenário atual, que tem no centro da economia global os Estados Unidos e a China, de certa reproduz o que já aconteceu no século 19, tendo a Inglaterra como protagonista no lugar do país asiático. Falou também sobre a Revolução Industrial e um consequente rompimento de estruturas. “O que caracteriza a indústria, como diria um pensador, não é a máquina, é o sistema de maquinaria.  Você tira a dependência dos fatores naturais e entrega à criatividade humana. A ciência e a técnica passam a dominar não só o movimento da economia, mas os trabalhadores.”

Sobre a China, o economista lembrou que a participação do país nas exportações globais saltou de 1,2%, na década de 1980, para 12%. “Eles exportam mais manufaturados que os americanos. Mais que os alemães”, afirmou, destacando a existência de um projeto nacional para avanço do setor industrial.  Belluzzo cita o centro tecnológico e de inovação concentrado na cidade de Shenzen: “Não tem para ninguém”. E, bastante diferente do Brasil atual, em que o crédito parece ser malvisto, na China aproximadamente 80% do crédito é público. A taxa de investimento é de aproximadamente 35% – já chegou a 50% –, enquanto a brasileira é de 15%.

Investimento público

“Não temos saída a não ser começar a recuperação pelo investimento público”, disse o economista – com conteúdo local, emenda. “Estamos vivendo um momento em que é preciso cortar, cortar, cortar”, lamentou, criticando a política. “Quanto mais você corta, mais cai, inclusive o investimento. Precisar procurar uma forma de voltar o gasto público e o investimento.” A crítica vai também para o ministro da Economia da segunda gestão Dilma. “O pugilista vai grogue para o córner e o treinador, em vez de ajudar, dar água, dá uma pancada na cabeça. Esse é o Joaquim Levy.”

Belluzzo lamenta também a permanência de uma “visão desumana do mundo”, representada, entre outros, pelo atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. E observa que um projeto para a indústria não pode ser o dos anos 1950, “tem de ser muito mais abrangente e sistêmico”. Furtado acrescenta: “Para ter indústria, precisamos ter uma política industrial durável, além dos mandatos de quatro anos. Se nós quisermos ter uma indústria com um modelo baseado na difusão de produtividade e tecnologia, precisamos ter elementos duráveis. Eu sei que  há divergências, mas tem de haver espaço para diálogo. Se não houver, não teremos indústria e não teremos Brasil”.

Em uma conversa que inclui o cineasta italiano Federico Fellini, conversas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Banco dos Brics, houve espaço também para comentários sobre o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, que para Belluzzo “está claramente se afastado” do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo e sua visão “quase religiosa” do que chama de globalismo. E sobre a necessidade de regular o sistema financeiro. “Ele (o ex-ministro Delfim Netto, com quem Belluzzo se encontrou recentemente) sabe que a liberalização financeira deu início a toda essa confusão. Você não pode tirar o bicho da jaula.”

O Brasil não tem elite, tem ricos, constata o professor. “Porque elite tem de ter um projeto para o país.”