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De 2003 a 2009, entraram na classe média 49 milhões na América Latina e Caribe

Segundo Banco Mundial, população com melhor condição de renda cresceu de 103 milhões para 152 milhões no período, mas há conservadorismo e sensação de insegurança com avanços
por Hylda Cavalcanti, especial para Rede Brasil Atual publicado 13/11/2012 18h27, última modificação 13/11/2012 19h43
Segundo Banco Mundial, população com melhor condição de renda cresceu de 103 milhões para 152 milhões no período, mas há conservadorismo e sensação de insegurança com avanços

Brasília – Tem sido cada vez maior o número de pessoas na América Latina e Caribe que se encontram mais próximas da classe média. A constatação é de pesquisa realizada pelo Banco Mundial na região. Segundo o estudo, essas pessoas aumentaram seus rendimentos não por conta de programas sociais do governo meramente, mas em razão de um conjunto de políticas públicas de redução da desigualdade, do aumento do número de empregos formais e da oferta de mão de obra qualificada.

O aspecto negativo é que parte dessas pessoas vive em ambiente de instabilidade em relação aos empregos. De acordo com o estudo, essa situação se deve ao fato de os empregos criados no período serem de curta duração, sujeitos à rotatividade ou encontrarem-se em grande número em empresas suscetíveis ao ambiente de crise global.

Conforme os dados apontados, pelo menos 43% do total da população da América Latina mudou de classe social entre meados dos anos 1990 e o final da década de 2000. Mas, embora a maior parte dessa mobilidade tenha sido ascendente, também foi grande o registro de empregos formais, na mesma época, de curto período e uma tendência a desempregos e redução do número de vagas por parte de indústrias e outros setores produtivos.

Por outro lado, a ascensão dessas pessoas para a classe média ainda está cercada, segundo a pesquisa, por aspectos que podem não levar a uma continuidade desse padrão, porque as preocupações apresentadas por essas pessoas não levam em conta fatores que conduzam à manutenção da condição social e do chamado contrato social.

Alguns destes fatores, mostrados no trabalho, são a mobilidade geracional da renda das famílias, por exemplo, e a escolha que foi feita por essas pessoas nas últimas décadas de buscar serviços privados, sem a reivindicação da melhoria dos serviços públicos com a mesma ênfase da classe mais baixa.

O relatório, intitulado Mobilidade Econômica e a Ascensão da Classe Média Latino-Americana, foi divulgado simultaneamente em Brasília, Bogotá e Washington nesta terça-feira (13). E deixa claro: o número de pessoas que integram a classe média na América Latina e Caribe aumentou de 103 milhões (em 2003) para 152 milhões de habitantes (em 2009). Já o percentual de pobres na região caiu de 44% para 30% da população, no mesmo período.

Melhorias e destaques

A pesquisa mostra também que, durante décadas, a redução da pobreza e o crescimento da classe média na América Latina e no Caribe avançaram em ritmo lento nos últimos dez anos em razão da desigualdade e do baixo crescimento econômico. Com a melhoria e as mudanças nas políticas governamentais, a situação mudou – tanto que a classe média passou a representar 30% da população dessa região em 2009.

Nesse cenário, um dos principais destaques é o Brasil, já que o aumento da classe média brasileira foi de 40% na última década. Outros países que se destacaram na pesquisa foram Colômbia, com aumento de 54% da sua classe média, seguido do México (17%).

O estudo apontou, ainda, como fatores que favoreceram a mobilidade ascendente na América Latina maiores níveis de escolaridade entre os trabalhadores, aumento do emprego no setor formal, maior número de pessoas vivendo em áreas urbanas, elevação da presença feminina no mercado de trabalho e diminuição no tamanho das famílias.

A classe média, em questão, foi definida em termos da renda como um segmento de indivíduos que ganham entre US$ 10 e US$ 50 por dia, critério adotado pela Banco Mundial. Mas é justamente esse nível de rendimento que proporciona um aumento da capacidade de resistência a eventos inesperados e reflete probabilidade de retorno à pobreza, caso haja piora no ambiente econômico. 

Conservadorismo e impostos

“O estudo é muito bom, mas precisamos avaliar mais sobre essa nova classe média. Percebemos, pela conclusão da pesquisa, que essa classe média continua muito conservadora. Precisamos saber, por exemplo, se essas pessoas se incomodam de pagar impostos para que isso se transforme em novos serviços que levem à redução de desigualdades”, afirmou o secretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Ricardo Paes de Barros.

“Esperávamos encontrar uma classe média de vanguarda, mas essas pessoas apresentaram valores e comportamentos intermediários entre a classe baixa e a classe alta”, avaliou, em complemento ao debate, o economista-líder do Departamento de Pesquisas para o Desenvolvimento do Banco Mundial, Francisco Ferreira, um dos responsáveis pelo relatório.

“São pessoas que ostentam como grande símbolo de vitória o emprego com carteira de trabalho, a geração e programação de menos filhos e a certeza de colocar esses filhos na escola. Ser classe média não é ser protegido de um pesadelo, mas é buscar sonhar de alguma forma com melhoria”, afirmou o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri.

Outro estudo, divulgado nesta segunda-feira (12) pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) mostrou que do total dos que integram atualmente essa camada econômica no Brasil, 35% (ou 36 milhões de pessoas) ingressaram nos últimos dez anos. Destes, 75% são negros e 25% brancos. Os dois trabalhos serão utilizados nos próximos estudos para a formulação de políticas públicas no país por parte do governo.

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