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ONU critica medidas de austeridade como forma de conter efeitos da crise

Segundo relatório de agência da ONU, países em desenvolvimento ficaram vulneráveis na medida em que os cortes fiscais e as reformas de mercado de trabalho nos países desenvolvidos prejudicam a recuperação da economia
por virginiatoledo publicado 11/09/2012 16h22, última modificação 12/09/2012 15h39
Segundo relatório de agência da ONU, países em desenvolvimento ficaram vulneráveis na medida em que os cortes fiscais e as reformas de mercado de trabalho nos países desenvolvidos prejudicam a recuperação da economia

São Paulo – Sob um cenário de forte crise econômica, a adoção de medidas de austeridade fiscal e a compressão salarial estão enfraquecendo ainda mais o crescimento nos países desenvolvidos. A condição de austeridade não alcançou sequer a redução de déficits fiscais, a criação de empregos e renovação da confiança dos mercados financeiros. A constatação é da Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês) em relatório divulgado hoje (12).

A publicação, intitulada “Políticas para o crescimento inclusivo e equilibrado”, se concentra especialmente na desigualdade de renda e diz que a redução do agravamento das disparidades na riqueza e renda não só trará benefícios sociais, mas também levará a um maior crescimento econômico.

Advertências já foram feitas pela Unctad, ao longo dos últimos dois anos, de que uma série governos de países desenvolvidos estão trocando muito cedo as medidas de estímulo econômico por cortes no orçamento. O resultado, de acordo com o relatório, é que, sem gastos suficientes do Estado para injetar vida no mercado doméstico, a demanda já fraca por bens e serviços estagnou. Em vez de aumentar os negócios e a confiança do mercado financeiro, a abordagem tem deixado muitas empresas pessimistas sobre o futuro e sem vontade de investir em nova produção ou contratar novos trabalhadores.

"Os problemas estavam sendo mal diagnosticados – que o desafio para a recuperação não foi o aumento da dívida do governo, mas a falta de demanda interna. Essas políticas não só diagnosticaram erroneamente as causas da crise – déficits fiscais elevados foram o resultado e não a causa da crise – mas também subestimaram os impactos negativos das políticas macroeconômicas que restringem a demanda no meio de uma recessão", diz o relatório.

Países em desenvolvimento

Na avaliação da Unctad, o crescimento está desacelerando em todas as regiões do mundo, e tem como causa as medidas de austeridade que prejudicaram a demanda nos mercados dos países desenvolvidos, reduzindo assim as perspectivas de exportação dos países em desenvolvimento. "Um número de países em desenvolvimento está realizando políticas contínuas anticíclicas que apoiam a demanda doméstica, mas estas não serão suficientes se o crescimento não atingir as grandes economias avançadas", aponta o relatório.

O crescimento global caiu de 4,1% em 2010 para 2,7% em 2011. Em 2012, uma queda ainda maior é esperada pela Unctad, de menos de 2,5%. O relatório prevê ainda uma queda nos países desenvolvidos para um crescimento de apenas 1% este ano – uma combinação de uma recessão renovada na União Europeia com o crescimento de cerca de 2% nos Estados Unidos e Japão. A expansão nas economias em desenvolvimento e em transição deverá ser mais forte ao longo de 2012 (5% e 4%, respectivamente), mas também abaixo de anos anteriores.

Os países em desenvolvimento, no entanto, ainda estão vulneráveis ao enfraquecimento da demanda por suas exportações das economias desenvolvidas. A probabilidade é que continue assim, uma vez que os programas de austeridade continuam. "A tendência já se reflete na estagnação de volumes de exportação para mercados de países desenvolvidos e em uma tendência de queda nos preços das commodities desde o segundo trimestre de 2011. Além disso, a instabilidade financeira nos países desenvolvidos está afetando os fluxos financeiros para as economias de mercado emergentes e aumentando a volatilidade inerente dos preços das commodities", diz o relatório.

Para a Unctad, as reformas estruturais não podem substituir as políticas macroeconômicas de apoio. Elas podem, por sua vez, contribuir para uma recuperação quando as reformas criarem redes de segurança social a ampliarem o papel econômico de apoio do Estado, como nos países em desenvolvimento.